Notas iniciais
Hey! o/ Boa leitura!

Olhando para ela, não conseguia não pensar em como alguém que passara por anos de sofrimento conseguia dormir com tanta tranquilidade. Lucy tinha um sono muito mais leve, porém com certeza mais calmo que o dele. Enfrentou tão menos coisas que ela, mas mesmo esses pequenos eventos conseguiam perturbá-lo na maior parte das noites. Lucy, que vivera quase o triplo de momentos traumatizantes, por outro lado, sempre dormia como um bebê. Tinha uma certa inveja daquela habilidade.

Naquela noite mesmo não pregara os olhos. Ficara apenas pensando no que Lucy havia dito, tentando montar uma imagem do passado em sua mente. Distraia-se apenas observando-a dormir. Ainda assim, estava entediado. Já não era tão cedo, então não viu problemas em acordá-la. Só para garantir que Lucy não ficaria brava, do modo mais suave e carinhoso possível afastou os fios loiros de seu rosto e beijou-a na bochecha. Se fosse ele, provavelmente nem um tapa daria conta do serviço, mas com ela era o suficiente para despertá-la.

Lucy sorriu, espreguiçando-se de olhos fechados. Abriu-os quando virou-se para ele, analisando a expressão cansada de Natsu.

— Bom dia — ele disse.

— Parece que você não dormiu muito.

— Eu não dormi nada, na verdade.

— Por que não?

— Fiquei pensando na sua história.

O sorriso de Lucy desapareceu, dando lugar a uma feição séria.

— Natsu, posso te pedir uma coisa?

— O quê?

— Não me trate diferente pelo que eu te contei ontem. Como se eu fosse quebrar por qualquer mínima coisa, porque eu não vou. Isso tudo faz parte do meu passado, e é lá que continua.

— Eu não vou. Prometo — talvez acabasse fazendo-o inconscientemente, mas de forma nenhuma trataria Lucy de modo diferente de propósito, porque ele sabia como era ter uma tragédia marcando quem você é. Quando tudo o que as pessoas enxergam é aquele doloroso fato, como se não houvesse mais nada. — Posso fazer uma pergunta?

— Pode.

— Depois daquela vez, você pensou novamente em... você sabe?

— Não. Depois que eu acordei, no hospital, eu comecei a pensar e me dei conta de que aquilo não era uma solução. Meu pai tinha prometido que ia tentar mudar, e dava para notar que ele estava mesmo tentando, então eu poderia tentar também. Recomeçar e aprender a viver com aquela dor. Com meu passageiro sombrio.

— Passageiro sombrio?

Lucy sorriu.

— Eu não tinha muito o que fazer enquanto estava me recuperando, então comecei a assistir várias séries. Encontrei o termo em Dexter. Ele chamava o impulso que o levava a matar de Passageiro Sombrio. Achei que era uma definição interessante para essa coisa que as pessoas têm dentro de si, aí comecei a chamar a minha dor da mesma forma. Não me julgue.

— Não julgo. É uma boa série, apesar do final, e uma boa definição. — "Passageiro sombrio". Talvez começasse a chamar o Koscheivich assim. Com certeza era mais fácil que o nome original, e se enquadrava perfeitamente nele. Um passageiro, um hóspede, que tomava carona em seu corpo e tornava sua vida um inferno. Combinava. — E esse passageiro foi embora?

— Às vezes ele ainda faz umas visitas, mas já desembarcou.

— Que bom — Lucy concordou. Era tão estranho falar sobre aquilo com alguém. Mesmo seu pai e Virgo não falaram muito sobre o acontecimento na época, então era a primeira vez que estava falando tão abertamente. — Ei, Lucy.

— Diga.

— Se um dia voltar a pensar em fazer isso outra vez, me avisa, ok? Antes de fazer qualquer coisa. Se apenas esse pensamento rondar sua mente, me avise.

— Não vai acontecer. Eu não vou ter nenhuma recaída ou coisa do tipo. Isso ficou para trás.

— Eu sei, mas vou ficar mais tranquilo se me prometer.

— Tudo bem, eu prometo — mesmo assim, tinha certeza de jamais tentaria tirar a própria vida outra vez. Se havia aprendido algo com o que vivera era que nada dura para sempre, nem mesmo a pior das dores. Nunca se sabe quando tudo pode de repente melhorar. — Ok, agora levanta. Temos uma longa viagem pela frente.

Gostaria de ter o ânimo que Lucy tinha ao acordar. Não fazia nem cinco minutos que despertara já estava animadamente em pé, pronta para começar o dia.

— Ainda não desistiu dessa ideia?

— Não. Você prometeu, agora tem que cumprir.

O garoto bufou, mas, o que poderia fazer? Promessa era promessa.

— Tá, tudo bem. Vou vestir alguma coisa e ir buscar o carro.

— Ok. Vou aproveitar esse tempo e ligar para o Jun, avisar que vou estar indisponível nesses dias.

— E se ele disser que precisa de você e que você não pode ir?

— Então você vai sem mim.

— Ei, nada disso. O acordo era você tirar alguns dias de folga e em troca eu convidava minha avó para a festa.

— Mas não se preocupe. Tenho certeza de que ele não vai dizer isso.

Natsu novamente murmurou. Sua vontade de rever a senhora era nula, considerando que ela mesma nunca o procurava. Mesmo assim, levantou-se, despediu-se de Lucy com beijo breve e partiu para suas tarefas pré-viagem.

No tempo que ele levou para voltar ao restaurante e trazer o carro de volta ao prédio, ela tomou um breve banho, arrumou as malas e ligou para Jun para avisá-lo que estaria ausente naqueles três dias. Seu companheiro de negócios não viu nenhum problema, disse que tomaria conta de tudo enquanto Lucy estivesse ocupada. Jun era como um anjo em sua vida. Tudo seria um milhão de vezes mais complicado sem a ajuda de seu amigo. Ele merecia estar onde estava pelo tanto que ajudava-a, num dos altos cargos da empresa.

Ainda teve tempo de quase terminar de beber o café que havia preparado quando Natsu entrou pela porta. Claramente sem vontade alguma de viajar, pelo ânimo que carregava ao andar. Caminhou lentamente até Lucy, até chegar bem perto, usando seu charme sedutor.

— Dá tempo de desistir ainda. Podemos ficar aqui, com esse tempo frio, assistir um filme. A cidade em que minha avó mora é tão longe. Só vamos chegar depois do almoço. Imagina o tanto de coisa que poderíamos fazer nesse tempo.

— Não vai me convencer a desistir, Natsu.

— Tem certeza? — Perguntou, prendendo-a em um de seus melhores beijos. Dragneel era especialista em conseguir as coisas usando seu charme, seus maravilhosos beijos. Lucy quase perdeu a cabeça, deixou-se levar por aqueles lábios macios e cativantes, mas felizmente recobrou a consciência quando sentiu Natsu tentando abrir o zíper de sua calça. Empurrou-o de leve, voltando a beber seu café, sorrindo ao ver a expressão decepcionada por seu plano não ter funcionado no rosto dele. — Não sei por que quer tanto a presença dos meus parentes. Eles raramente me procuram, nem é como se fossem minha família.

— Mas continuam sendo, mesmo assim — respondeu, entregando-lhe uma xícara com café. — E é importante que mantenha contato. Não é como se fosse o fim do mundo.

— É quase como se fosse — disse, bebendo todo o líquido amargo de uma só vez. — Vamos logo. Quanto antes acabar, melhor.

***

Gostava de viagens. Tinha que gostar, afinal, viajava praticamente toda semana. Sua vida seria muito mais tediosa se não gostasse. A parte de passar horas dentro de um carro ou avião não era tão agradável, também não gostava muito de conversar durante o trajeto. Contudo, ouvir música enquanto observava as paisagens passando era algo maravilhoso. Em um minuto estava vendo prédios, no outro árvores, e tudo passava tão rápido, como se fizesse parte de um quadro só. Aquela sensação deixava-a encantada.

— Que lugar é esse que você quer visitar? — Natsu perguntou, arrancando sua atenção da janela.

— Ah, é um rancho. Fica na beira da estrada, bem no começo da cidade. Não é difícil de encontrar.

— Tudo bem. Presta atenção para me dizer onde é, ok?

— Ok.

Fazia anos que não visitava aquele lugar. Perguntava-se se ainda lembrava onde ficava. Era difícil prestar atenção em apenas uma coisa, mas assim que avistou o lugar avisou a Natsu, como ele pedira. Em sua fachada pelo menos, não mudara nada. Talvez estivesse com uma aparência um pouco mais velha apenas.

Natsu adentrou o local e parou o carro perto de onde deixavam os cavalos. Achava estranho ser aquele o lugar que Lucy queria tanto visitar. Nunca a imaginara como alguém que gostava de coisas rurais.

A loira desceu do carro, analisando tudo à sua volta. Uma sensação nostálgica tomava conta de seu corpo. Nada estava diferente, era como estar ali com quatro anos novamente.

— Posso ajudar? — Perguntou um homem velho que carregava um bebê nos braços. Lucy sorriu ao vê-lo. Sr. Adelmir, era o nome dele. Era amigo de seu pai e sempre brincava com ela quando visitava o rancho.

— Pode. Não sei se o senhor se lembra de mim...

— Lucy? Lucy Heartfilia? — Disse, apertando os olhos para enxergá-la melhor. O tempo prejudicara sua visão, mas sorriu ao reconhecer a garota.

— Sim — ela respondeu.

— Quanto tempo! Como você está diferente, menina! Bem, não é uma surpresa. A última vez que te vi tinha quanto? Sete anos?

— Seis. Seis anos.

— Sim. Faz muito tempo. É ótimo te ver novamente. Então, a que devo o prazer da visita?

— Eu estava de passagem pela cidade e pensei em vir aqui, relembrar os velhos tempos.

Natsu apenas observava a conversa, sem entender muita coisa, parado ao lado de Lucy, embora sua atenção estivesse muito voltada para a criança nos braços no homem. Tão pequena e tão adorável.

— Claro. Bem, saiba que Bolinho ainda está muito forte. Com certeza aguenta um passeio. O que acha?

— Eu adoraria. Faz muito tempo que não vejo ele também.

— E esse rapaz? Quem é?

— Natsu — o garoto respondeu. — Noivo da Lucy.

— Prazer em conhecer — o homem disse, apertando a mão de Natsu. Quando se aproximou, a criança esticou o pequeno braço, tentando pegar a blusa do garoto. — Parece que ele gostou de você. Quer segurá-lo?

— Posso? — Dragneel perguntou, hesitante. Conhecia o senhor há menos de dez minutos. Não sabia se tinha intimidade o suficiente para segurar a criança, seja lá o que ela fosse do velho. Mas, de qualquer forma, aceitou pegá-lo no colo, sorrindo enquanto ele brincava com os cordões de sua blusa.

— Quem é o pequeno? — Lucy perguntou.

— Meu neto. Se lembra do meu filho, não é? Ele era um pouco mais velho que você.

— Lembro, claro.

— Ei, Lucy, olha para ele. Não é a coisa mais fofa que você já viu? — Natsu perguntou, maravilhado com o bebê. — Imagina um desses, só que com a minha cara. Não seria extremamente adorável? Como você pode dizer não a ideia de ter um filho?

— Ele é um bebê tão lindo, Natsu. Por que quer estragar a imagem do coitado imaginando-o com a sua cara? — Brincou. O garoto ignorou a resposta e voltou a brincar com a criança. — Cuidado, Sr. Adelmir. É melhor checar o carro antes de irmos embora. Não duvido que o Natsu acabe sequestrando seu neto.

— Do jeito que esse pestinha tem me mantido acordado, eu até agradeceria — o homem comentou, em tom de brincadeira. Pegou o neto de volta, vendo-o reclamar por querer continuar nos braços de Natsu. Aparentemente o amor de Dragneel por crianças era reciproco. — Bem, imagino que queira ver o Bolinho. Ele está na baia 8. Seu noivo pode pegar o cavalo da baia 7, mas cuidado, ele é um pouco arisco.

— Ok. Obrigada.

De fato, estava ansiosa para rever seu cavalo. Imaginava que ele talvez já tivesse até mesmo falecido, tanto tempo fazia desde que o vira pela última vez. Estava feliz por saber que ele ainda estava vivo.

— Então, cadê o Bolinho? — Natsu questionou.

Tinha interpretado aquilo como uma pergunta séria, mas teve a astúcia de olhar para Natsu antes de respondê-la. Pelo olhar do garoto e pelo sorriso travesso, sabia que ele na verdade estava caçoando do apelido dado.

— Ei, eu tinha só quatro anos quando meu pai comprou esse cavalo, ok? Bolinho é um nome fofo, nome que uma criança daria — respondeu, sorrindo. Natsu também ganhou um fraco soco no braço pela caçoada. — Idiota.

— Ok, tudo bem.

— Nem imaginava que ele ainda estaria aqui. Faz tanto tempo desde que eu o vi. Estava junto quando esse cavalo nasceu. Por isso meu pai o comprou. Tem um significado especial.

— E você agradeceu dando a ele o nome de "Bolinho"? Coitado do cavalo.

— Bolos são bons. É um elogio, ok?

— Se você está dizendo...

Havia um corredor à esquerda, um à direita e outro seguindo reto. A primeira baia do direito tinha o número "1" pintado no portão, logo, a baia de número 8 devia ser a última daquele corredor.

Natsu parou na de número 7, enquanto Lucy dizia oi para seu amigo de infância. O cavalo andou até ele, cheirando o garoto.

Colocou sua mão no focinho do animal, examinando-o.

— Já sei como vou chamar você.

— Como? — Lucy perguntou.

— Targaryen, porque ele parece um Targaryen, de Game of Thrones. Olha a crina dele, é platinada, igual ao cabelo dos membros da família.

— É um bom nome.

— É melhor que Bolinho. Com certeza melhor que Bolinho

— Cala a boca — Lucy ordenou, ao mesmo tempo em que sorria. Entregou a ele algo que parecia somente uma corda grande amarrada a outra toda emaranhada. — Aqui, coloca isso nele antes de tirá-lo da baia. Você coloca a parte maior no focinho, depois passa essa outra por trás das orelhas e amarra nessa outra parte. Entendeu?

— Claro — que não. Mas, não queria parecer estúpido, então fingiu ter entendido.

Tentou de todas as formas, em todos jeitos possíveis, mas parecia que nenhuma encaixava da maneira correta. Aquela coisa era complicada demais. Ao tempo em que ainda estava tentando achar o buraco maior, Lucy já havia terminado com o dela.

— Não conseguiu? — Ela perguntou.

— Não, não consegui achar a posição certa. E olha que entendo bem de posições. E de buracos. Mas mesmo assim não achei o tal “buraco maior”

Lucy suspirou, olhando para o céu. Talvez pedindo por paciência para aguentar seu noivo.

— Por que você sempre leva tudo pro lado malicioso?

— A malícia reside no ouvido de quem ouve. Falei no sentido mais inocente possível.

— Inocente, sei — Lucy respondeu, balançando a cabeça em negação. Entregou a corda que segurava para Natsu. — Segura o Bolinho. Eu coloco o cabresto nele.

— Claro. Eu seguro o Bolinho. Pode deixar — disse, tentando muito conter as risadas.

— Para de caçoar do nome dele. Vai magoar meu cavalo — falou enquanto manuseava a corda emaranhada que Natsu não conseguira entender. — Seu nome também não é dos melhores. "Verão". Quem se chama "Verão"?

— Tradução não conta. E continua sendo um nome melhor que Bolinho.

Lucy o ignorou, terminando seu serviço com Targaryen, entregando-o para Natsu e pegando Bolinho de volta.

— Trás ele pra cá — disse. Natsu a seguiu, imitando-a quando ela amarrou a corda que segurava o cavalo numa barra de madeira. — Vem comigo pra pegar uma sela para o cavalo.

— Ok.

Ele a seguiu até uma pequena sala, cheia de selas colocadas em apoios na parede. Lucy lhe entregou uma. Achou aquele negócio pesado demais. Para ele não era problema, mas se perguntou como os braços finos de Lucy conseguiam segurá-la e ainda levantá-la para colocar no cavalo. De qualquer forma, seguiu todos os movimentos que ela fazia, até terminar de selar o animal.

Sentiu-se indignado quando Lucy tirou a corda complicada que dera tanto trabalho para ser colocada. Ao menos para ele.

— Essa “corda” só serve para trazer o animal da baia até aqui. Agora precisamos colocar a rédea.

— Por que não colocar direto a rédea? Seria tão mais fácil.

— Porque ela é mais frágil, poderia acabar arrebentando se o cavalo se assustasse com alguma coisa.

Natsu bufou, ainda achando aquilo sem sentido, mas continuou a seguir os passos de Lucy. A parte de subir no cavalo foi mais fácil, ainda que desagradável. A garota fazia aquilo com tanta leveza que parecia nunca ter um dia parado.

— Se faz tanto tempo que você não anda, como ainda se lembra? — Ele perguntou.

— É como andar de bicicleta. Você não esquece — o cavalo de Lucy começou a andar, porém o de Natsu permaneceu parado. — Encosta o seu pé nele de leve para fazê-lo se mover, e direciona a rédea para onde quer ir.

Natsu obedeceu, mas preferia ter continuado parado. A sensação era horrível, tanto que agarrou-se a sela. Seu corpo balançava de um lado para o outro conforme as patas do cavalo se moviam, parecia que ia escorregar a qualquer momento.

— Eu vou cair desse negócio, Lucy.

— Não, não vai — ela respondeu, rindo. — Vem, me segue.

Ela os guiou até uma espécie de trilha. A sensação de que iria literalmente cair do cavalo a qualquer momento não abandonara Natsu. Não queria admitir, mas estava com medo. Cada vez que seu corpo pendia para o lado, tinha certeza de que a próxima coisa que sentiria era sua cabeça batendo no chão.

A trilha era inclinada, o que piorava ainda mais aquela sensação. Agora, além de se preocupar com cair para os lados, também tinha a sensação de que iria se soltar do cavalo, mesmo que seus pés estivessem presos nos estribos, e se estatelar no chão de costas.

Lucy olhava o tempo todo para trás, certificando-se de que Natsu estava bem. Para ela, aquilo era tão normal quanto andar. A sensação de leveza não se comparava a nada naquele momento. Exceto, talvez, aos abraços de Natsu. Mas a sensação de leveza dos abraços era diferente daquela. Os abraços eram de proteção, já a cavalgada, de liberdade.

— Natsu, relaxa mais. Senão seu corpo vai estar todo dolorido mais tarde.

— Não dá para relaxar. Se eu relaxar eu caio.

— Você não vai cair.

— Não tenho tanta certeza disso.

Não muito tempo depois, Natsu provara que estava certo, porém, pelos motivos errados. Um coelho passara correndo em frente a Targaryen. O cavalo, assustado, relinchou e inclinou-se, derrubando Dragneel da sela.

Lucy imediatamente parou, desceu do seu cavalo e correu em direção ao garoto.

— Você está bem? — Perguntou, ajudando-o a se levantar.

— Acho que sim.

— Se machucou?

— Eu não me machuco tão fácil, Lucy. Mas não vou subir nessa coisa de novo.

— Ele só se assustou, Natsu.

— Assustou, sei. Ele estava era querendo me matar — Natsu respondeu, verificando se tinha se machucado em algum lugar. Estavam já quase no fim da curta trilha, de qualquer forma, perto de um grande morro. — Estou morrendo de calor — o garoto reclamou. Tirou a camiseta, enrolou-a e a amarrou em sua cabeça, como se fosse um tipo de bandana. Depois, sentou-se à beira daquele barranco. Tinha uma bela vista. Dava para ver quase a cidade inteira dali.

— Não está tão quente assim. Na verdade, não está quente. Você está suando porque estava tremendo de medo em cima do cavalo — respondeu, sentando-se ao lado dele.

— Aquele animal queria me matar. Você viu.

— Ele só se assustou com alguma coisa, para de ser dramático.

— Ele me jogou no chão.

— Sem querer.

— Não foi uma boa experiência.

Lucy riu.

— É, eu percebi.

— Então — disse, olhando de canto para Lucy —, qual é a desse lugar? Por que queria vir aqui?

— Meu pai às vezes vinha tratar de negócios nessa cidade, então minha mãe me trazia a esse rancho e ficávamos andando a cavalo por horas. Me sentia livre, longe das obrigações de ser filha do grande empresário Jude Heartfilia. Somente eu e minha mãe nos divertindo. Era a melhor sensação do mundo.

— Você vinha muito aqui?

— Constantemente. Até minha mãe morrer. Esse lugar pra mim é como aquele parque abandonado pra você. Meu lugar especial.

— Entendi — respondeu, analisando a vista. — Se lembra de quando eu levei você àquele parque pela primeira vez?

— Lembro. Foi um tempo depois da morte do meu pai.

— Você ficava me ignorando naquela época.

— É, mas você foi insistente demais. Me levou até aquele parque e me beijou.

— Sério? Eu não lembrava da parte do beijo.

— Como você não lembrava, Natsu? Foi um dos nossos melhores beijos. Cheio de significado e tudo mais — perguntou, fingindo-se irritada.

— Bom, de qualquer forma, já que eu te beijei no meu lugar especial, deveria te beijar aqui também — disse, encostando os lábios no pescoço da loira, depois em sua bochecha. — E aqui também.

— Para. Idiota. Você feriu meus sentimentos quando não lembrou do beijo — sua risada porém entregava sua farsa.

— Não sabia que você tinha sentimentos — Natsu respondeu, se afastando.

— Aprendendo coisas novas todos os dias, não é?

— Claro — disse. Deitou-se no chão parcialmente coberto pela grama, com as mãos atrás da cabeça, sem importar-se com a terra grudando em suas costas. O céu estava bonito, azul, com poucas nuvens. O vento gelado ajudava a diminuir o calor que sentia. Fechou os olhos, apenas por um instante, sentindo a brisa. Gostava dali. Era válido ter sido escolhido por Lucy como seu lugar especial. — Olha aquela nuvem. Parece com você.

— Não, nem um pouco.

— Claro que parece, Lucy. Você tem que usar a imaginação para conseguir ver.

— Não, continua não parecendo.

Natsu deu de ombros e voltou a fechar os olhos.

— Pra mim parece. Tem o mesmo sorriso.

— Como uma nuvem tem o mesmo sorriso que o meu?

— Pelo buraquinho ali. É um sorriso — disse, apontando para o tal lugar, ainda que com os olhos fechados não estivesse exatamente mirando o lugar certo.

— Natsu, dorme, por favor.

— Eu poderia muito bem dormir aqui — comentou com sinceridade. Não era o lugar mais confortável do mundo, mas estava tão cansado que dormiria até sobre pedras. — Ei, o que você está fazendo?

Abriu os olhos ao sentir Lucy jogando terra em sua barriga. Era gelada e uma pequena parte escorregava para o chão. A outra parte acumulava-se nas dobras do seu abdômen.

— Testando uma coisa.

Natsu não insistiu. Em vez disso, voltou à sua posição anterior. Lucy era estranha, já sabia disso. Já estava acostumado.

— Parece uma criança.

— Sabe, é por isso que eu gosto de você, Natsu. Me deixa brincar com o seu corpo — o garoto sorriu maliciosamente. — Num sentido inocente. Babaca.

— Mas pode brincar com ele em sentidos não inocentes também se quiser.

— Não, no momento prefiro ficar no inocente, obrigada.

Com o abdômen dele inteiramente coberto pela terra, Lucy subiu até o peito do rapaz.

— Isso é estranhamente bom. É gelado. Quase como receber uma massagem. O que você está testando, aliás?

— Nada interessante. Só algo bobo. Relaxa.

— Fala.

— É que sua barriga é tão definida que eu queria saber se conseguia cobrir cada centímetro de pele. Deu certo no abdômen, mas no peito a terra acaba escorrendo.

— Qual o seu problema, Lucy? — Perguntou, abrindo os olhos, sentindo os pequenos grãos escorrendo até seu pescoço. A garota riu.

— Não ter nada para fazer, acho. Foi você quem insistiu para que eu tirasse uns dias de folga. Lide com as consequências.

— Eu não quero nem pensar em como vou tirar toda essa terra úmida de mim.

— Isso é problema seu.

— Problema meu nada. Você quem me sujou, vai ter que me ajudar.

A garota riu outra vez. Satisfeita com seu trabalho, limpou suas mãos na calça de Natsu. Ele já tinha sujeira por cada canto de seu corpo, um pouco a mais não faria diferença.

— Vamos voltar? — Perguntou.

— Tudo bem — Natsu respondeu. Esquecendo-se de sua condição, ainda que não houvesse muito que pudesse fazer, sentou-se, fazendo com que toda a terra caísse sobre sua calça, deixando apenas alguns vestígios na parte superior de seu corpo. Tentou tirá-los, mas a umidade fez com que os grãos ficassem grudados em seu corpo. Somente um banho iria ajuda-lo.

— Você está lindo, Natsu.

— Sei. Isso não vai sair barato, Heartfilia — disse, aproximando-se da loira com um sorriso diabólico no rosto.

— Estou morrendo de medo — respondeu, colocando suas mãos sobre o peito de Natsu para que ele não se aproximasse mais. Com certeza parte do seu plano de vingança envolvia transferir parte daquela terra para Lucy. — Vamos logo. Os cavalos já estão impacientes.

***

A descida fora tão ruim quanto a subida. Talvez até pior. Sentia que o cavalo ia tropeçar, cair, levando-o junto consigo. Ficara ainda mais tenso do que antes. Definitivamente sua primeira experiência andando a cavalo não tivera sido muito agradável. Iria deixar aquela atividade para Lucy.

Tirar a sela e a rédea do cavalo fora mais fácil que colocar. Era só seguir os mesmos passos, mas ao contrário. A parte de recolocar o cabresto, que ele preferia chamar de corda por ser um nome mais agradável, continuou sendo impossível, então Lucy assumira o posto.

Levaram os cavalos para um banho rápido. Natsu estava distraído, tirando o suor do pelo de Targaryen, portanto não viu quando Lucy dirigiu o jato de água para ele.

— Ah, você não fez isso... — disse, aproximando-se lentamente de Lucy, sem se importar que ela continuava molhando-o.

— O que? Estou te ajudando a tirar a terra do seu peito — respondeu, rindo. — Foi você quem pediu?

— Mesmo?

— Natsu, para — pediu, vendo-o se aproximar cada vez mais, com uma expressão vingativa no rosto. — Natsu!

— Tarde demais, Lucy.

Ela tentou fugir, mas não foi ágil o bastante para livrar-se dos braços de Dragneel. Ele a agarrou por trás, molhando e sujando toda sua camiseta.

— Natsu! Me solta! Minha camiseta é branca.

— Devia ter pensado nisso antes, Heatfilia.

— Eu te odeio tanto, Dragneel!

Apesar de tudo, estava rindo, ainda tentando se livrar dos braços dele. Perguntava-se apenas como iriam voltar para o hotel, estando completamente sujos e molhados. Mas, era apenas um detalhe.

***

— Cada centímetro do meu corpo dói — o garoto reclamou. Havia acabado de sair do banho. Estava molhado e não vestia a camisa. Caminhou cambaleando até a cama, jogando-se ao lado de Lucy, que sequer lhe deu atenção, voltada completamente para o celular. — Você bem que poderia me fazer uma massagem.

— Não mesmo. Eu te avisei que se não relaxasse ficaria com o corpo todo dolorido.

— É assim que você trata seu noivo? Deixando-o sofrendo?

— Óbvio.

— Pra você eu sou só um brinquedo sexual? Não importa se eu estou sentindo dor?

— Nem um pouco.

— Eu deveria te denunciar por maus tratos, Lucy.

Desviou o olhar do celular, mirando Natsu.

— Se eu te fizer uma massagem você para de encher meu saco?

— Paro.

A garota bufou, enquanto ele sorria por conseguir o que queria. Era fácil conseguir as coisas de Lucy, quando eram simples. Bastava ser insistente. Ela cansava fácil. Era vencida pela vontade de ser deixada em paz.

Sentou-se na base das costas de Natsu, pressionando os ombros dele, descrevendo círculos com seus dedos na pele do rapaz. Percebia dali sua expressão de dor cada vez que pressionava um pouco mais forte, e sorria, tentando deixá-lo irritado.

— Ai, Lucy — reclamou, fazendo careta. — Que bom que você comanda uma empresa, porque se fosse massagista ia morrer de fome.

— Não reclama. Foi você quem pediu.

— Com quem estava falando no celular? — Perguntou, mudando de assunto.

— Com um cara.

— Que cara? — O tom de ciúmes na voz de Natsu era quase palpável.

— Um que conheci outro dia. Ele é bem interessante.

— Sério? Por que não pediu para ele andar a cavalo com você então? Tinha me poupado desse sofrimento.

— Porque é mais engraçado com você — sentiu Natsu resmungar sob si. Suas costas vibrando enquanto ele falava. Sentiu-se compelida a rir. Era tão divertido deixá-lo irritado. — Estava falando com a Levy, idiota.

— Claro que eu sabia que era ela. Só te enganei fingindo que acreditei.

— Além do mais, não faz o menor sentido você sentir ciúmes — Lucy respondeu, deitando-se novamente ao lado dele.

— Não?

— Não. Essa relação já deu trabalho demais. Só de pensar em construir uma nova com outra pessoa me deixa com preguiça.

— Você me deixa emocionado, sabia? Pessoas geralmente não traem por gostar do seu companheiro, ou por respeito a ele. Você não trai por preguiça.

Lucy riu copiosamente. Apagou a luz do quarto e abraçou o garoto, deitando sua cabeça no pescoço dele.

— É brincadeira. Eu gosto do seu jeito chato.

— Você me ama demais — respondeu, abraçando-a de volta, grudando o corpo de Lucy ao seu.

— Só um pouco. Bem pouco. Vamos dormir, vai ser um longo dia amanhã.

— Vou acordar com o pescoço todo dolorido.

— Eu te faço uma massagem.

— Não, obrigado.

Ela riu novamente. Da última vez em que estivera naquela cidade com seus pais, lembrava-se do dia ter terminado em lágrimas. Seu pai precisava voltar imediatamente, mas ela não queria. Gostaria de ficar ali, estava se divertindo. Então, Jude gritou com a filha, dizendo que não podia perder tempo com a birra de uma criança. Seu travesseiro quando acordara ainda estava molhado pelo choro da noite anterior.

Com Natsu, por outro lado, havia sorrisos, não lágrimas. Amava aquele contraste entre o passado e o presente. Amava perceber o quanto ele mudara coisas na sua vida, sempre para melhor. Estava ainda sorrindo, agarrada a ele, quando disse:

— Boa noite, Natsu. Durma bem.

"I wanna feeling like a kick drum
Beating faster in your chest
I wanna feel you holding onto me
And make me hold my breath
You pull me closer, my head on your shoulder
Baby, we won't need a song
We'll make a falling star wish
One more slow kiss
What are we waiting on?"

Notas finais
Então, apenas explicando algumas coisas, pessoas. Essa viagem é divida em duas partes. Essa é a parte não importante, é só uma coisa que eu tinha vontade de escrever há algum tempo e acabou encaixando aqui. O próximo é o com informações importantes, então desculpem se esse acabou ficando meio chato. Eu nem sei por que peço, a grande maioria não atende esse pedido, e os que atendem eu sei que comentariam mesmo sem eu ter que pedir, mas comentem, ok? Desanima muito ter tanto trabalho e ter um retorno de opiniões tão baixo. Comenteeem, por favor. Até outro dia o/