Notas iniciais
Hey o/ Bem, eu não iria postar esse capítulo hoje, mas eu acabei dividindo-o em dois novamente ^^' Pra falar a verdade, eu gostei demais desse capítulo para deixar que uma falta de inspiração ao escrever a próxima parte o estragasse, então decidi postar assim mesmo. Espero que gostem tanto quanto eu gostei de escrever, e: Boa leitura!

Sonho ou não, aquilo era tão ou mais real quanto a maior parte das coisas as quais tinha conhecimento em vida. Sentia como se, de alguma forma que não fazia a mínima ideia de qual seria, tivesse sido transportado até aquele lugar sombrio. Qualquer coisa que sofresse ali sofreria também na vida real, não tinha dúvidas disso.

Paredes paralelas o prendiam no que se parecia muito com um imenso labirinto. Atrás de si a passagem estava fechada, impossibilitando qualquer caminho exceto seguir adiante. Não conseguia ver do que era feito o chão por mais que forçasse os olhos, já que uma espessa névoa impossibilitava que enxergasse qualquer coisa abaixo dos joelhos. Fator preocupante este. Não confiava em nada naquele lugar, muito menos que estivesse seguro. As paredes o engoliriam, a névoa o sufocaria, o chão se abriria aos seus pés. Qualquer coisa ali poderia levá-lo a uma morte indesejada.

O céu, de um tom escarlate tão denso quanto sangue, não facilitava as coisas, tornando aquele estranho labirinto algo ainda mais aterrorizante, se isso fosse possível. Seu temor, porém, não estava apenas no que seus olhos podiam ver ou no que suas mãos podiam tocar; estava muito mais no que sentia, no sentimento de que seria esmagado como uma simples formiga, completamente indefeso. O ar ali provocava aquela sensação. Era carregado, atemorizante, quase impossível respirá-lo sem sentir vontade de arrancar fora seu coração, o qual parecia receber todo o medo.

Distraído em seus pensamentos e análises a respeito de onde se encontrava, mal percebera a névoa subir, chegando à altura de sua cintura. Se ficasse parado, em pouco tempo tornar-se-ia impossível caminhar enxergando mais que um palmo à frente. Não havia opção senão seguir o caminho aberto, mesmo apesar de suas pernas tremerem implorando para que não enfrentasse o que poderia existir a norte de onde estava. Fosse o que fosse, não era algo bom.

Hesitante, deu o primeiro passo. O ar frio passou raspando pelo seu rosto, dando-lhe calafrios, gelando seu peito de temor. Havia algo macio no chão, como se estivesse coberto por grama ou outro tipo semelhante de vegetação. Em dez passos havia chego até o fim do corredor, onde ele se dividia em dois, um caminho para a esquerda e outro para a direita. Cautelosamente, espiou os dois lados. Primeiro o esquerdo; nada havia exceto outra divisão há uns cinco metros de distância. O da direita era semelhante, com uma diferença consideravelmente significativa. Do corredor criado pela divisão dele podia-se ver uma luz dourada.

Instintivamente, Natsu seguiu por aquele caminho, seguindo a luz misteriosa. Seu medo era tão excruciante quanto sua curiosidade. Não sabia dizer se era ela que o fazia seguir em frente, mas não se movia com suas próprias forças. Algo o puxava até a luz, como se não tivesse controle sobre as próprias pernas. Durante a caminhada, deslizou a mão pela parede, que de tão áspera deixou a ponta de seus dedos dormente. Seu coração disparou em um ritmo frenético quando faltavam apenas alguns passos para o fim do corredor e a entrada do outro. Um mau presságio o invadiu.

Primeiro fez com que os olhos verificassem o que encontraria assim que mudasse de direção, depois, cautelosamente, moveu os pés até lá. Podia ver a fonte da luz dourada, embora não conseguisse identificar o que aquilo poderia ser. Estava ainda muito distante, e, outra vez guiado por uma vontade que não pertencia a ele, aproximou-se. A cada passo o ambiente se tornava mais quente. Parecia-se com labaredas de fogo que chegavam até a metade das paredes o que via, mas existia algo por detrás delas, algo que ainda não conseguia enxergar, por mais que apertasse a vista.

Continuou dando passos, até chegar a poucos metros das chamas. Assim que identificou o quê, ou melhor, quem, estava logo à sua frente, parou estático, com os olhos arregalados. O que via era irreal e impossível, e fez com que seu coração se apertasse de tal modo que poderia ser capaz de matá-lo, como se tivesse interrompido o bombeamento de sangue para seu corpo e as células não mais recebessem o oxigênio necessário.

― Pai... ? Mãe... ?

Seus progenitores pareciam não ouvi-lo. Parados entre as chamas olhavam-no inexpressivos. Natsu sentiu seus olhos lacrimejarem e seu estômago embrulhar-se, pensou que fosse colocar para fora o que quer que houvesse dentro de si, se é que houvesse, sendo aquilo um sonho. Mesmo assim, por mais que tivesse consciência daquele fato, tudo parecia extremamente real.

Repentinamente, seu pai ergueu o olhar, fitando-o com a testa franzida, carregando uma expressão que parecia ser de raiva.

― Foi sua culpa. Foi você quem nos matou...

― Não... ― sussurrou para si mesmo, cerrando os punhos. Sentia-se fraco como nunca estivera antes. Sempre imaginava aquelas palavras. Mas entre imaginar e ouvir havia uma grande diferença de dor. Ouvir era torturante, independente de ser real ou não.

― ... Mas as chamas não te engoliram. As chamas nunca o feririam. Não teve nem sequer a decência de pagar por seu crime. Um assassino impune pelo assassinato dos próprios pais, protegido pela arma que os matou.

Seus joelhos pareceram não suportar o peso colocado em seus ombros naquele instante, cedeu ao chão. A voz de seu pai o persuadia de forma inacreditável. Não duvidava que se houvesse ali uma faca ou qualquer objeto de poder semelhante daria si mesmo a sua sentença. Pagaria pelos seus crimes de forma equivalente.

― Me perdoe... ― Natsu fechou os olhos, sentindo-se terrivelmente mal. Sua cabeça estava prestes a explodir e as lágrimas corriam livremente por seu rosto. Desejou veemente que aquele julgamento acabasse, e quando se arriscou a abrir os olhos outra vez seu pai havia sumido, mas uma voz desconhecida surgira.

― É seu passado, Natsu Dragneel. Não tente fugir dele, estará presente em seu futuro também. É quem você é, e não pode se esconder de si próprio. Não pode temer a si próprio, filho das chamas.

O rapaz se levantou em um salto, procurando em todos os lugares a origem daquela voz. Já a escutara antes, tinha certeza, mas nunca descobrira a quem ela pertencia. Seus sentimentos mudaram para raiva e procurou desesperadamente sem sucesso.

― QUEM É VOCÊ?! ― gritou sem obter nenhuma resposta. Seu peito arfava, sua respiração estava acelerada demais. Parou ainda com os punhos cerrados e a testa franzida, trincando os dentes enquanto olhava fixamente pelo caminho por onde viera. ― APAREÇA!

Novamente sua resposta fora o silêncio. Estava cansado daquele jogo, daqueles sonhos, daquela voz, do seu passado, dos seus mistérios. Estava cansado por completo, e tudo o que queria era uma resposta que explicasse aquele tudo. Era pedir demais? Aparentemente, sim.

Tentou controlar a respiração, por mais difícil que fosse a tarefa. Pensou em procurar outra vez, não era possível que não estivesse ali, afinal. Porém, ao virar-se para a direita, viu algo que, se ainda havia algum pedaço inteiro de seu coração, esse pedaço fora completamente dilacerado naquele momento.

A parede da direita havia se transformado em um vidro, e do outro lado dele estava Lucy. Sua doce e querida Lucy, gritando e chorando desesperadamente enquanto batia os punhos no que os separava um do outro. Atrás dela, novas chamas pareciam espalhar-se rapidamente. Ela tentava fugir, tentava em vão quebrar aquele vidro, clamando pela ajuda de Natsu. E ele ouvia. Ouvia claramente seu desespero. O dela e o dele.

Novas lágrimas brotaram em seus olhos e tentou a todo custo ajudá-la, desferindo socos e chutes na superfície tentando parti-la, até a dor em sua mão se tornar dilacerante. Mas mesmo assim continuou incessantemente, porque muito pior do que a dor física era ver o que de mais precioso tinha no mundo em perigo. Pior ainda: vê-la sendo ferida por aquilo que matou seus pais, porém que nunca o machucou. Odiava o fogo por tirar dele aqueles que mais amava, e o odiava mais ainda por protegê-lo. Odiava-o com todas as suas forças.

Ouviu-a gritando seu nome, sufocando de dor quando as chamas tocaram seu tornozelo, e ele nada podia fazer a não ser assistir. A única parte que restava de si, a única com quem se importava estava recebendo o mesmo destino que seus pais receberam, bem à sua frente, e novamente por sua culpa. Sentiu como se o chão ruísse ao seu redor, levou as mãos à cabeça, desesperado, sentindo-se prestes a desmaiar com o rosto completamente molhado pelas lágrimas, clamando silenciosamente que o matassem naquele momento para que não tivesse que sentir aquela dor excruciante. Desabou novamente, vendo Lucy ser engolida pelas chamas.

― Aceite seu destino, Natsu Dragneel. Conviva com a dor, aceite-a, pois ela faz parte de você. Desprenda-se das amarras humanas que lhe prendem à mediocridade ― novamente disse a voz.

― QUEM É VOCÊ, SEU DESGRAÇADO?! ― gritou com todo o ar que ainda possuía em seus pulmões, desesperado. ― QUEM. É. VOCÊ?! ― e daquela vez, a voz lhe deu uma resposta.

― Eu sou seu pior pesadelo. Sou aquilo que pode salvá-lo e que também pode lhe destruir. Tudo depende somente da sua escolha. Eu ― e então a voz fez uma pausa, deixando o rapaz aflito. ― sou você, Natsu Dragneel.

***

― Natsu! Natsu, acorde! ― a loira sacudia seus ombros, chamava por seu nome, mas nada acontecia. Natsu parecia ter mergulhado em uma espécie de sono profundo e aquilo a preocupava. Não conseguia acordá-lo de jeito nenhum. E para melhorar, seu corpo estava anormalmente quente, queimando em febre.

Ela já cogitava chamar uma ambulância quando Natsu despertou, dando de cara com seu olhar preocupado e percebendo seu coração se encher de alívio, com os batimentos acelerados. Assim que sua consciência se reestabeleceu por completo, dando-lhe a certeza de que estava novamente em seu quarto, abraçou-a o mais forte que pôde, enterrando sua cara no espaço entre seu rosto e seus seios. Lucy vestia apenas uma lingerie preta, e seu corpo estava muito mais frio do que o dele, oferecendo-lhe uma sensação boa.

Sem esperar, a loira retribuiu o abraço, depositando um beijo no alto da cabeça de Natsu.

― Caramba, Natsu. Você quase me matou de susto. ― comentou suspirando aliviada. ― O que aconteceu?

― Eu... tive um pesadelo. ― respondeu, por mais que tivesse certeza de que aquilo não fora um mero pesadelo. Fechou os olhos, deixando-se levar apenas pela maravilhosa sensação de tê-la em seus braços novamente. Para seu azar, Lucy se afastou poucos segundos depois.

― Você está queimando. Vou pegar algo para tentar amenizar isso, espere um pouco.

Ela tentou se levantar, mas Natsu a segurou pelo punho.

― Não, por favor. Eu estou bem. Só... só fique aqui comigo. ― o olhar que ele carregava no rosto se assemelhava ao de uma criança carente, o que a fez pensar no que de tão ruim poderia ter acontecido para que o deixasse tão assustado. Ele não era daquele jeito, e apenas algo muito grave poderia fazer com que Natsu se assustasse tanto.

― Natsu, olhe o seu estado. Não está nada bem e não tente me convencer do contrário. Eu volto logo, ok? Não vou demorar.

Ainda que relutante, ele a soltou, permitindo sem escolha que o pavor o preenchesse outra vez. Vê-la se afastando o lembrou da cena em que a viu sendo engolida pelas chamas. Quase deixou que o desespero tomasse conta de si novamente, mas se ajeitou, sentando-se na cama, e tentou controlá-lo.

Lucy retornou poucos minutos depois com um comprimido na mão e um copo de água. O entregou os dois e ele engoliu o remédio com a ajuda do líquido. Logo em seguida, a loira se sentou a seu lado, fitando-o ainda com preocupação.

― Quer me contar o que foi esse pesadelo? ― Natsu negou com o olhar fixo no edredom. Na verdade, adoraria dividir sua dor, mas não queria relembrar tudo, e não via como explicar algo que nem ele mesmo entendia. Moveu o olhar para ela quando a sentiu segurar sua mão e beijar seu rosto. ― Ok. Quer alguma outra coisa, então?

O garoto esperou alguns segundos até responder. Não conseguia encontrar sua voz, e quando a encontrou ela se parecia com a de alguém que estava prestes a desabar em lágrimas. De certa forma, refletia muito bem como ele estava por dentro: desabando.

― Só você.

Lucy sorriu. Seus sorrisos tinham o inacreditável poder de acalentar sua alma, pois sentiu-se muito melhor ao vê-lo outra vez.

― Bem, isso é algo muito fácil de conseguir. ― Natsu sorriu timidamente em resposta. Deitou-se na cama e a aninhou em seus braços. Seu ritmo cardíaco aos poucos se normalizava com o corpo dela grudado ao seu. Os dedos de Lucy percorreram sua pele, descrevendo pequenos círculos em seu peito nu, deslizando pelos seus músculos. ― Você estava perfeitamente bem há algumas horas. Um pesadelo o afetou tanto assim?

― Acho que sim ― suspirou. Não achava; tinha certeza. E não apenas o pesadelo em si, mas vê-la sofrendo e ouvir seu pai o culpando pela morte dele e de sua mãe. Porém não queria mais tocar naquele assunto, ainda que entendesse a curiosidade de Lucy. Era algo estranho, sem dúvida. ― Estava acordada?

― Estava. Você pegou no sono muito rápido, mas eu não conseguia encontrá-lo, então decidi ir trabalhar um pouco no computador. Foi quando ouvi sua voz. Estava gemendo baixo, parecia que estava com dor. Não parava de se mexer na cama. Fiquei preocupada e tentei te acordar, mas você não acordava de jeito nenhum.

― Desculpe ter te preocupado.

― Não foi sua culpa. ― tentou rebater. Foi quando notou a mão de Natsu, mais precisamente os nós de seus dedos. Estavam extremamente vermelhos. Segurou a mão direita dele com as suas, apertando os olhos para olhar com mais atenção. Quando tentou esticar os dedos dele notou uma expressão de dor no rosto de Natsu. ― O que houve?

― Eu não sei ― respondeu. De fato, não sabia, mas tinha uma ideia. Aqueles ferimentos pareciam-se muito com os que causara no sonho quando tentou quebrar o vidro. Aparentemente, não era apenas uma impressão quando pensou que se machucaria no mundo real também, o que tornava tudo ainda mais estranho. ― Não estava assim antes.

― Que estranho. ― Lucy murmurou, voltando a encostar a cabeça no peito de Natsu.

Não se falaram muito após isso, tentando dormir outra vez, entretanto nenhum dos dois o queria. Principalmente ele, que temia retornar àquele pesadelo se pregasse os olhos. Mas Lucy, ao ver dele, não tinha motivos para ficar acordada apenas por sua causa.

― Durma um pouco. ― murmurou, enrolando alguns fios do cabelo da loira em seus dedos.

― Não, você ainda está quente e eu ainda estou preocupada. Não consigo dormir.

― Eu estou bem, Lucy. Não há porquê ficar preocupada. Pode dormir.

― Não vou dormir até ter certeza, e eu sei que não está bem.

E mais uma vez, ela o conhecia bem demais para que ele pudesse simplesmente desmentir aquela afirmação. Quanta sorte a dele por isso.

Wake me up inside
Wake me up inside
Call my name and save me from the dark
Bid my blood to run before I come undone
Save me from the nothing I've become
Bring me to life

Notas finais
Então, gostaram? Espero que sim. Ele é o começo verdadeiro de um dos grandes mistérios dessa história : ) E, bem, espero poder ler as opiniões de vocês sobre ele :D Até o próximo o/