Onde Tem Ódio Tem Amor

79 Contra o relógio


Notas iniciais
Oi, gente! ^^ Em primeiro lugar, queria agradecer a todo mundo que comentou no capítulo passado. Foram semanas meio complicadas então acabei não tendo tempo para responder, mas muito obrigada mesmo a todos!!! Bem... Boa leitura!

As últimas 41 horas estavam sendo insuportáveis. Sem Natsu, sem sequer saber onde ou como ele estava, observar os ponteiros do relógio se movendo, transformando o tempo que a distanciava da última vez em que o vira se tornara uma atividade extremamente dolorosa. Sabia que seria assim desde o segundo em que ele saíra por aquela porta, porém Natsu prometera voltar, preenchendo dentro dela uma cega esperança de que estava tudo bem, e até então não havia noticia alguma dele. Isso tornava tudo muito mais complicado. Talvez fosse melhor se ele não tivesse feito promessa alguma. A incerteza seria mais fácil de lidar do que as duas possibilidades que permeavam a mente de Lucy naquele instante: ou ele havia mentido, ou algo havia acontecido. Sinceramente, não sabia qual das duas lhe doeria mais.

Na noite em que Natsu fora embora, apenas esperou. Esperou até o sol nascer, sem fechar os olhos para dormir nem por um segundo, acreditando que a qualquer minuto a porta iria se abrir e o veria entrar no apartamento, talvez ainda chateado, mas disposto a esquecer. Afinal, ele fizera o mesmo, cometera o mesmo erro. Não tinha realmente o direito de se aborrecer tanto.

Durante a tarde do dia seguinte, Lucy decidira resolver de uma vez por todas os assuntos inacabados com seu ex. Talvez a pior decisão que tomara em um bom tempo. Lembrava-se do endereço que Ryan lhe passara, correspondente à casa que havia alugado na cidade. Fora até lá, pretendendo dizer a ele para que não a procurasse mais, não o queria em sua vida de forma alguma. Ryan cheirava a álcool naquele dia, e quando Lucy lhe disse para que a esquecesse ele riu, dizendo que as coisas não funcionavam daquela forma, que ele não poderia esquecê-la tanto quanto ela não poderia. Em seguida, ele agarrou seus punhos e a segurou contra a parede, enchendo-a de pânico. Ainda tinha em seus braços as marcas das mãos do garoto, tão forte que ele a prensara. Ouviu-o sussurrar em seu ouvido sobre os velhos tempos, sobre quando estavam juntos e ele a fazia enlouquecer com ações como aquela; sentiu os lábios dele em seu pescoço, sugando sua pele. Mas o sentimento não era mais o mesmo. Se antes o gesto fazia seu coração disparar devido à paixão, agora disparava pelo medo do que ele pretendia fazer, pelo pavor, pelo desespero, pela vontade de fugir, pelo pensamento de querer estar segura nos braços de Natsu e não presa pelas mãos de Ryan.

Num momento de distração do garoto, conseguiu fazê-lo de afastar. Imediatamente após pegou um vaso colocado numa mesa próxima de si e o quebrou na cabeça de Ryan, retardando-o por tempo suficiente para fugir daquela casa. Quando chegou ao seu apartamento, tudo o que conseguiu fazer fora deitar em sua cama, sentindo o cheiro de Natsu no lado em que ele costumava dormir, e chorar até pegar no sono. Sabia que Ryan não era uma boa pessoa, mas nem em seus piores pensamentos sobre ele imaginara que seria capaz de fazer o que fizera. Estava com medo e sozinha, e continuou dessa forma quando acordou no dia seguinte, ainda sem Natsu. Assim se passaram as primeiras 41 horas desde que ele se fora. Um grande misto de sentimentos, sendo nenhum deles bom.

Estava já cansada de ficar sozinha. Acreditava que chegaria um momento em que acabaria enlouquecendo se continuasse apenas com seus próprios pensamentos. Assim, pegou seu celular e procurou por Levy nos contatos. Não havia falado com sua amiga desde a última vez que saíram, portanto a pequena não sabia que Natsu havia ido embora ainda. Esperava muito que ela não estivesse trabalhando e pudesse lhe fazer companhia.

— Oi, Lu-chan! — A pequena respondeu pouco depois. Lucy suspirou, aliviada.

— Levy, está muito ocupada? — perguntou.

— Só um pouco, por que? — Lucy encostou sua cabeça na parede atrás de si. Levy era sua pessoa, a única que gostaria de ver sem Natsu por perto. Se ela não pudesse lhe fazer companhia, ninguém mais poderia, e não queria perturbá-la com a amiga estando ocupada.

— Nada, esquece.

— Pelo seu tom de voz não é “nada”. Algo aconteceu, não é? — a pequena insistiu.

— Não se preocupe, Levy.

— O que aconteceu, Lucy?

— Não é nada.

— Se você não quer me dizer, vou ter que ir aí.

— Não precisa, é sério — tentou argumentar, porém Levy era insistente. Sequer a deixou responder, já havia desligado a ligação e provavelmente estava a caminho do apartamento da loira. Como se não bastasse seus problemas, tinha que perturbar Levy também. Incrível a velocidade com que seus dias foram de bons para péssimos.

Não muito tempo depois, ouviu alguém bater na porta. Levantou-se da cama sem disposição, caminhando até a entrada do apartamento. Não precisava sequer espiar para saber que era Levy, embora tenha desejado em algum lugar de seu coração que fosse Natsu. Assim toda sua agonia teria fim.

— Então, agora vai me dizer o que aconteceu? — a pequena perguntou assim que Lucy abriu a porta. — Cadê o Natsu? — a resposta de Lucy foi um longo suspiro, e, pelo rosto inchado da loira, Levy não precisou de mais nada para saber que aquele era exatamente o problema. — O que aconteceu, Lucy?

— Eu contei a verdade a ele — respondeu. — E ele foi embora.

Levy a encarou, fechando a porta atrás de si.

— Embora? Não pode estar falando sério. Natsu não seria tão babaca, não foi sua culpa.

A loira lhe respondeu com um sorriso fraco. Também esperava que aquilo fosse verdade. Caminhou até o quarto, sentando-se novamente na cama, com Levy seguindo-a.

— Ele prometeu que voltaria, mas até agora não deu nenhuma noticia.

— Quanto tempo faz?

— Quase dois dias.

— Bom, se ele disse que voltaria, ele vai voltar. Natsu não é o tipo de cara que mentiria, Lucy. Você o conhece melhor do que eu, sabe disso. — esperava que sim. Contudo, se Natsu não estava mentindo, algo havia acontecido. — Como ele estava quando saiu?

— Chateado, magoado.

— Com raiva? — a pequena sugeriu.

— Não... não parecia estar com raiva.

— Não faz sentido, Lucy — a loira a encarou. — Nenhum cara quando se sente traído iria embora prometendo que voltaria. E você disse que não parecia que ele estava com raiva, ele não diria isso só para te magoar, fazendo você esperá-lo em vão, Natsu não é esse cara. Realmente não acho que ele estava mentindo.

— Se ele não estava mentindo, o que aconteceu? Por que não voltou? — perguntou, quase clamando por uma resposta. A dúvida que permeava sua mente começava a tirá-la do sério. Sabia que Natsu não era assim, mas talvez fosse melhor do que pensar que algo havia acontecido.

— Eu não sei... — Levy respondeu com sinceridade. O silêncio pairou por alguns segundos, até uma ideia lhe ocorrer. Pegou seu celular, procurando por Gray nos contatos. Colocou a chamada no viva-voz e deixou o celular sobre o colchão. — Mas talvez alguém saiba.

Fazia sentido. Quando Lucy se sentia mal, era com Levy que procurava conversar. No caso de Natsu, essa pessoa era Gray. Se havia alguém que pudesse saber o que tinha acontecido, ou que ao menos tinha mais chances de dar uma resposta concreta, era ele.

— Gray falando, em que posso ajudar? — o moreno respondeu pouco depois, em tom descontraído.

— Em um assunto sério — Levy respondeu.

— E o que te faz pensar que eu não estou sério, Levy?

— Tem alguma ideia de onde o Natsu pode estar? — a pequena foi direto ao assunto, ignorando o sarcasmo de Gray.

— Natsu? Deveria estar em casa, por que?

— Ele não está aqui, Gray — Lucy respondeu de imediato. Sentiu-se frustrada, pois provavelmente aquilo significava que o moreno não seria de grande ajuda. Abraçou seus joelhos e apoiou sua cabeça neles, tentando pensar em qualquer outra forma de localizar seu namorado.

— Como assim não está? — houve silêncio do outro lado da ligação, Gray parecia juntar as peças em sua mente. — Aquele desgraçado. Ele prometeu que iria pra casa.

— O que você sabe, Gray? — Levy insistiu.

— Natsu esteve aqui dois dias atrás. Estava querendo ajuda com uma coisa, queria descobrir algo sobre o ex da Lucy. É complicado explicar isso muito bem. Enfim, ele tinha seus métodos — a loira ergueu a cabeça franziu a testa, começando a se preocupar ainda mais. — Ele disse ter uma sensação estranha, queria checar o que era. Parecia meio perigoso, e Natsu não estava muito bem naquele dia, sabe, uma daquelas crises que ele tem às vezes com dores de cabeça e tontura. Fiz ele prometer que iria para casa, esquecer a tal coisa, mas aparentemente o idiota mentiu pra mim.

— Ele esteve aqui — a loira comentou repentinamente, uma lembrança distante surgiu em sua mente. Lembrava-se agora de Natsu ter aparecido no apartamento naquela madrugada. — Pensei que tivesse sido só um sonho. Ele disse algo, mas não lembro o que foi.

A realidade se misturou com o sonho em sua mente, tornando difícil desmembrar as partes reais das fictícias. Lembrava-se de ter tentado segurá-lo, mas ainda assim Natsu havia partido, deixando-a para trás enquanto ela gritava para que ficasse. Sentiu um pouco de raiva de si mesma por não ter acordado naquele momento. Poderia ter evitado tudo dessa forma, fazendo-o ficar.

— Onde acha que o Natsu está, Gray? — Levy perguntou.

— Não sei, provavelmente foi atrás do tal Ryan. Do jeito que estava, não sei se foi muito longe. Aquele imbecil.

Aquilo definitivamente era a pior possibilidade possível para Lucy. Levantou-se, não conseguindo ficar parada. Pressionou suas têmporas. Sua cabeça doía muito naquele momento.

— Ryan tentou me machucar da última vez que o vi. Não sei o que seria capaz de fazer com o Natsu — Lucy mencionou, nervosa, exibindo as marcas em seus punhos para Levy.

— Ryan fez isso com você? — a pequena perguntou, sua boca aberta em exclamação. — Você deveria ir à polícia, Lucy. Esse cara deveria estar preso. Ele te agrediu.

— E se ele machucou Natsu, Levy? E se Ryan fez algo contra ele? — levantou as possibilidades, começando a se desesperar. Não duvidava daquela possibilidade após ver do que Ryan era capaz.

— Relaxa, Lucy. Natsu é um idiota, mas não é tão burro assim. Ele deve estar bem — Gray tentou acalmá-la.

A loira andava em círculos de um lado para o outro do quarto. Discordava de Gray. Natsu era impulsivo, se decidisse agir, não pensaria nas consequências. Isso era o que a deixava muito mais preocupada. Juntando ao fato de que Ryan era capaz de coisas muito ruins, sua mente só conseguia pensar nos piores destinos no momento.

Sentiu em seu bolso seu celular tocar. Rapidamente o pegou, esperando que fosse Natsu a ligando. Quando viu o nome de Jun na tela, fechou os olhos e suspirou. Não apenas por não ser Natsu, mas também por saber através de experiências passadas que quando Jun lhe telefonava geralmente era para trazer más notícias.

— O que houve? — perguntou.

— Leu as manchetes do Jornal de Nagoya? Publicaram sua entrevista — comentou, hesitante.

— Não, não tive tempo pra isso. O que está dizendo?

— Nada bom. Você não vai gostar, especialmente dessa parte: “Quando abordada uma questão sobre o falecido sócio majoritário, Jude Heartfilia, a jovem empresária se calou e a entrevista foi interrompida por uma pessoa próxima à ela, levantando o questionamento: estaria Lucy Heartfilia realmente preparada para assumir o comando de um dos pilares da economia do país?”

Lucy parou de andar. Sentia que estava passando mal. Não bastavam apenas os problemas pessoais que enfrentava naquele momento, precisavam ainda ser adicionados problemas profissionais. Fazia sentido, considerando a sorte que possuía.

— Isso é ridículo — respondeu. — A pergunta levantava questões pessoais, nada relacionado à empresa. Nada que apresentasse qualquer influência.

— Eu sei. Se me perguntar, acho que era exatamente esse o objetivo. Denegrir sua imagem, fazer com que não conseguisse responder para terem um argumento contra você. O problema é que essa matéria já apresentou consequências, Lucy. Perdemos um dos nossos maiores compradores. Alegaram que não confiam mais na nossa empresa, que nós não podemos garantir que não vamos quebrar em algum momento próximo e acabar prejudicando-os também, então precisavam buscar alternativas. Os sócios querem convocar uma reunião imediatamente para falar sobre o assunto. Você precisa vir a Nagoya, já pedi para um dos jatos te esperar no aeroporto.

— Não pode cuidar disso para mim, Jun? Natsu está desaparecido e eu não consigo me concentrar em mais nada nesse momento — a loira argumentou.

— Sinto muito. Se eu pudesse você sabe que eu faria, mas os sócios não ficariam nada contentes com isso. Querem falar com você, não comigo.

A contragosto, Lucy concordou.

— Ok.

— O que houve, Lu-chan? — Levy perguntou.

— Vou precisar ir a Nagoya resolver alguns problemas — respondeu, suspirando. Sentia novamente vontade de deixar as lágrimas escorrerem. Estava completamente sobrecarregada com tudo que andava acontecendo nas últimas 48 horas.

— Você não pode lidar com isso agora — Gray argumentou.

— Eu preciso. Não tenho escolha — argumentou.

Precisou extravasar tudo o que sentia naquele momento de alguma forma, não conseguia guardar tudo dentro de si. Instintivamente, descontou na parede, batendo com o máximo de força na superfície dura com as costas da mão. Sua respiração estava acelerada, assim como seus batimentos cardíacos. Encostou a testa na parede fria, deixando as lágrimas escorrerem pelo seu rosto. Levy se levantou, abraçando-a. Gray estava certo, não podia lidar com aqueles problemas porque tudo o que se passava em sua mente era a incerteza sobre Natsu estar bem ou não, se sequer ele estava vivo, contudo, não tinha outra opção. Teria que suportar.

— Tudo bem, se precisa ir, vá, mas Levy vai com você — Gray ordenou.

— Não, não quero atrapalhar vocês.

— Gray tem razão, Lu-chan. Não vou te deixar ir sozinha.

— Você disse que estava ocupada quando te liguei, Levy. Não vou te atrapalhar.

— Só estava terminando um artigo, posso fazer isso em Nagoya. É só passarmos na minha casa antes para pegar meu notebook.

Sem forças sequer para discordar daquela decisão, não tentou contrariá-los.

— Gray, se tiver alguma notícia, qualquer que seja, sobre o Natsu, me ligue, ou mande uma mensagem. Qualquer coisa. Não importa o que eu estiver fazendo ou o horário.

— Eu te ligo, prometo. Vou procurar por esse idiota. Não se preocupe, nós vamos encontrá-lo.

***

As quatro horas dentro do avião foram silenciosas. Levy fazia anotações em um bloco de papel, enquanto Lucy passou o tempo inteiro praticamente olhando para a cidade abaixo de si. Viajou em seus pensamentos desejando que seus olhos pudessem ser como um sensor, assim conseguiria encontrar Natsu facilmente dali de cima. Infelizmente, isso não era possível.

Quando chegaram, a loira avisou que iria se aprontar para a reunião, então Levy aproveitou a oportunidade para passar suas anotações para o computador. Ainda restou tempo ao terminar, então decidiu conhecer a casa na qual sua amiga crescera, já que nunca estivera ali. Quase se perdeu em meio a tantos aposentos e corredores.

No fim, acabou encontrando-se em um quarto infantil, exceto que parecia nunca ter sido usado, já que se encontrava completamente arrumado, com ursos sobre prateleiras, paredes azuis absolutamente limpas, um berço com os cobertores cobrindo o pequeno colchão.

— Parece que as pessoas são atraídas para esse quarto — ouviu Lucy dizer. A loira vestia roupas sociais agora e observava-a da porta com um fraco sorriso no rosto. — Na primeira vez que Natsu visitou essa casa ele também acabou encontrando esse aposento.

— É do seu filho, não é? — Levy supôs. Lucy assentiu. — Por que o manteve, Lu-chan? Deve ser doloroso, olhar para essas coisas e se lembrar do que aconteceu.

— Não sei. Acho que ninguém nunca teve coragem de tirar essas coisas daí. E foi tudo o que sobrou. Nunca nem tive a chance de ver o rosto do meu filho no pouco tempo em que ele esteve vivo, então acho que é como uma forma de saber que realmente aconteceu. O que houve no passado às vezes parece um borrão, um pesadelo. Exceto essa parte. Mesmo apesar da forma como aconteceu, eu amei essa criança. Foi uma das perdas mais dolorosas da minha vida.

Levy sempre ouvira apenas partes daquela história, mas nunca como Lucy se sentira a respeito. A melancolia que trazia quando falava sobre revelava o quanto aquela fase de sua vida fora dura. Para Lucy, aquela casa estava marcada por perdas. Sua mãe, seu pai, seu filho. Estar nela enquanto Natsu encontrava-se desaparecido a atormentava ainda mais. Era como e as chances de algo ruim acontecer a ele tivessem triplicado.

— Sinto muito, Lu-chan.

— Não, tudo bem. Faz muito tempo. E talvez tenha sido melhor assim, eu era muito nova naquela época. Não sei se teria sido uma boa mãe. E meu filho teria crescido sem um pai, porque definitivamente Ryan não estava nem um pouco interessado.

— Você pensa em ter filhos com o Natsu? — Levy perguntou, curiosa, imaginando se o trauma do passado influenciava nessa decisão. A loira deu um sorriso fraco.

— Ainda é muito cedo pra isso, mas ele vive falando sobre. Natsu é o tipo de cara que gostaria de ter a casa lotada de crianças — logo depois, o sorriso de Lucy morreu. — Mas pra isso primeiro temos que encontrá-lo. Estou morrendo de medo daquele canalha do Ryan ter feito algo com o Natsu, Levy.

— Nós nem sabemos se foi isso que aconteceu.

— Mas se for, terá sido minha culpa.

— Claro que não, Lucy.

— É sim. Parece que todos que se aproximam de mim acabam se machucando — a loira murmurou, a voz falhada.

— Isso é mentira. Eu não me machuquei. Nem Jun, pelo que eu sei. Nem Gray, nem Juvia, nem Jellal, ou Erza, ou Gajeel. Você colocou isso na sua cabeça Lucy, mas não tem culpa nenhuma — Lucy tentou sorrir, porém aquele sentimento, a sensação de que fazia mal às pessoas a sua volta, ainda a perturbava. — Agora vamos, você tem uma reunião para ir, não tem?

***

Lucy pediu para que a pequena a esperasse numa sala ao lado da sala de reuniões, parecida com uma recepção, enquanto resolvia seus assuntos. Torcia para que aquilo não demorasse muito, queria retornar o mais rápido possível a Magnólia. Sentia-se completamente inútil sentada naquela cadeira à beira da mesa enquanto Natsu estava por aí, possivelmente ferido. Seu celular estava sobre a mesa, a sua frente, pronto para ser atendido ao sinal de qualquer ligação de Gray que pudesse informá-la sobre noticias a respeito de Natsu.

Aos poucos os outros sócios preencheram as cadeiras ao redor da mesa. Jun também estava presente, sentado ao lado da loira, observando a fronte preocupada da jovem. Os senhores igualmente a observavam, mas seus olhares pareciam julgá-la. Sentiu-se em um tribunal.

Não prestou muita atenção nos primeiros minutos da reunião. Jun estava dando os detalhes sobre a reportagem, lendo-a novamente para todos. Nada que fosse novidade.

— O que tem a dizer a respeito, senhorita Heartfilia? — Um dos sócios perguntou. Lucy não se atentou a qual.

— A matéria foi manipulativa e não deveria ser levada em consideração. A pergunta em questão tinha cunho pessoal e a jornalista agiu de forma invasiva. Isso é o que tenho a dizer — respondeu, firme.

— Manipulativa ou não, nos levou a prejuízos — outro sócio falou.

A partir daí, os senhores começaram a discutir a respeito da matéria. Um sugerira exigir uma retração por parte do jornal, enquanto outro dizia ser inútil, já que eles não haviam mentido. Lucy não prestara muita atenção. Seu olhar estava focado na tela do celular. Desbloqueou a tela uma ou duas vezes, checando se não havia deixado passar nenhuma mensagem. Definitivamente aquela reunião naquele dia em questão fora uma péssima ideia. Tentava se concentrar, mas sua mente a todo instante se voltava para Natsu.

— Deveria prestar mais atenção no que fala para a imprensa, senhorita. As consequências pelos seus atos caem sobre todos nós — um terceiro se intrometeu. — Ainda não sei onde Jude estava com a cabeça para deixar o comando da empresa nas mãos de uma criança.

Lucy sentiu-se ofendida com aquela colocação, porém fez o máximo para não demonstrar em seu olhar. Em vez disso, usou-se das palavras.

— Meu pai tinha confiança em mim e provou não estar errado. Sugiro que procure em todos os dados da empresa antes de levantar especulações, senhor Yamada. Garanto que desde que o controle passou para as minhas mãos a empresa apenas cresceu. Se quiser procurar por índices negativos, sinta-se à vontade, contudo será em vão, pois não encontrará nada. Admito, no entanto, que a mesma opinião mantida pelo senhor é sustentada por outros também, e provavelmente isso levou o jornal a tentar me prejudicar. Os pré-conceitos são os culpados, não eu.

Pelo canto do olho, viu Jun disfarçar um sorriso em aprovação.

— Não se prova tão capaz quanto diz neste momento. Por acaso a reunião a está entediando, senhorita? Não para de olhar seu celular. Aliás, diria que é uma atitude muito imprópria não dispor de toda sua atenção num momento tão crítico e se distrair com esse objeto, que sequer deveria estar presente — senhor Yamada completou.

— Lucy — o garoto a sua esquerda a chamou. — Uma palavra, por favor?

A loira assentiu, seguindo-o para fora da sala. Levy levantou-se e caminhou até os dois quando os viu sair da sala de reuniões.

— Eu sei. Sei que ele tem razão. Minha cabeça está bem longe daqui nesse momento, Jun.

— Vá para casa — o rapaz falou inesperadamente.

— O que?

— Você tem razão, não vai adiantar nada ficar aqui. Você veio, já é suficiente. Se não tivesse comparecido daria motivos para eles dizerem coisas sobre você, levantarem dúvidas sobre seu comprometimento, mas você veio. Posso assumir daqui em diante. Provavelmente vão apenas tentar encontrar uma forma de controlar o prejuízo causado pela perda do comprador, posso te mandar as propostas depois.

— Eu não sei, Jun... Eles já não gostam o suficiente de mim. Se eu for embora o que vão pensar?

— Você não vai ser útil aqui, Lucy. Não está em condições de pensar com clareza.

— Ele está certo, Lu-chan — Levy se intrometeu.

— Não vão gostar nem um pouco disso — a loira insistiu.

— E quando gostam de algo que não envolva seus próprios bolsos cheios de dinheiro? Não podem fazer nada contra você, Lucy. Você apresenta resultados bons, e possui a maior parte das ações. O máximo que vão fazer é gostar menos de ter que te obedecer. Com certeza vão discutir, e vou dizer que se estivessem na sua situação, com um ente querido desaparecido, também não iriam querer estar aqui.

Lucy suspirou, pensando a respeito. Os sócios já detestavam suas ações, sua forma de gerir, seu pai ter lhe deixado as ações ao invés de dividi-las entre eles, ter se mudado para outra cidade ao invés de permanecer em Nagoya. Contudo, definitivamente não conseguiria ser útil ali.

Tomando sua decisão, abraçou Jun. Não sabia o que faria sem ele.

— Obrigada, Jun. Você é um anjo na minha vida.

***

Mais quatro horas dentro daquele avião, ainda sem noticias de Natsu. Ao menos, até chegarem ao aeroporto. Já era tarde da noite. Lucy havia deixado seu celular desligado durante o voo, quando pousaram e o ligou novamente encontrou várias ligações perdidas de Gray e uma mensagem que fez seu coração quase parar.

“SOS”

A pequena palavra veio acompanhada de vários números, talvez uma localização geográfica. O fato mais importante, porém, era que se tratava de uma mensagem de Natsu. Uma mensagem dele pedindo socorro.

— O que foi, Lu-chan? Você está pálida — a pequena perguntou. Sem pedir permissão, pegou o celular da mão de Lucy. — Isso é...

A loira pegou o celular de volta e imediatamente ligou para o moreno, que logo atendeu, sem sequer deixá-la falar.

— Tentei te ligar, mas você não atendia. Natsu me mandou uma mensagem.

— Eu sei, ele me mandou também — falou. Sua voz tremia. — São coordenadas geográficas, não são? Estamos em Magnólia, Gray. No aeroporto. Onde fica esse lugar das coordenadas?

— Coloquei no GPS e corresponde a uma floresta nos limites de Magnólia. Não é tão longe do aeroporto. Passo aí para pegar vocês.

— Por favor, rápido.

O moreno encerrou a ligação, deixando-a com o coração acelerado enquanto cada segundo parecia uma eternidade na espera. Natsu estava com problemas, mas estava vivo. E isso já era motivo suficiente para fazê-la chorar de alívio.

Notas finais
Gente, se a linha do tempo desse capítulo tiver deixado vocês meio confusos, digam nos comentários que eu tento explicar, ok? Imagino que ficou um pouco bugado, kkkkkk. Mas no próximo vocês entenderão melhor. Tenho um poeminha pra vocês: Ototinha quando nasce Se esparrama pelo chão Depois desse poeminha horrível Deixe sua opinião Gostaram? kkkkkk. Isso, caros leitores, é o desespero dessa autora para que vocês digam o que acharam, então comentem, ok? :3 Até o próximo o/