Onde Tem Ódio Tem Amor
14 Chegada a Nagoya
Notas iniciais
- Você poderia, novamente, me lembrar do porquê de eu ter deixado você vir comigo?
Lucy refez a mesmo pergunta que já havia feito ao garoto por várias vezes durante o caminho para o aeroporto após mais uma das provocações do rosado em suas tentativas de conseguir alguma coisa com a “loirinha”.
Os dois haviam acabado de adentrar no aeroporto municipal de Magnólia, prontos para partir em direção a Nagoya.
- Porque eu iria de qualquer jeito – Respondeu Natsu, indiferente com relação à pergunta da loira.
- E por que eu permiti que você ficasse hospedado na casa do meu pai junto comigo ao invés de fazer você ficar em um hotel?
- Porque eu disse que nosso encontro ao invés de durar duas horas duraria uma hora e meia se você concordasse com isso, e você concordou imediatamente.
O rosado queria de todas as formas possíveis proteger Lucy, e não poderia fazer isso se tivesse que ficar afastado, por esse motivo conseguiu encontrar uma maneira de fazer com que Lucy aceitasse que ele ficasse na mesma casa que ela. O garoto pensara que convencer Lucy a deixa-lo ficar ao seu lado seria muito mais difícil, mas surpreendentemente o acordo foi fechado com tamanha facilidade, Lucy nem ao menos hesitou quando Natsu lhe fez a proposta.
- É, exatamente, e ainda me pergunto qual das duas opções era pior: Meia hora a mais com você em um encontro, ou dois dias na mesma casa que você quando poderia finalmente me livrar da sua presença.
O rosado sorriu com o surgimento de uma nova ideia para irritar Lucy.
- E você preferiu escolher passar dois dias comigo na mesma casa, escolha inteligente Lucy. Tentando disfarçar sua vontade de ficar perto de mim me fazendo lhe propor essas duas escolhas? Acho que precisa melhorar se quer tanto que eu não perceba, está ficando muito óbvio que você não consegue passar muito tempo longe de Natsu Dragneel.
- Natsu, acha mesmo que eu escolhi permitir que você ficasse comigo porque não queria ficar muito tempo longe de você? – O rosado respondeu apenas com um leve aceno – Sinceramente, enquanto existem pessoas por aí sofrendo por não terem confiança em si mesmas você é exatamente o contrário, se acha até demais. Eu somente escolhi deixar que você ficasse comigo porque meu pai também estará naquela casa, e acho que você não vai querer se arriscar tentar qualquer coisa correndo o risco do homem que serviu no exército por quatro anos perceber e te considerar uma ameaça à sua única filha, enquanto que em um encontro não haverá ninguém ali que possa me ajudar, então quanto menos tempo eu puder ficar com você nesse encontro melhor será.
- Seu pai serviu no exército?
Dentre todas as coisas que Lucy disse aquela era a que mais interessara a Natsu. Realmente ele não gostaria de se arriscar a ter que enfrentar a fúria de um ex-soldado.
- Sim, foi um dos melhores soldados na época, mas decidiu abandonar o posto quando minha mãe engravidou, ele não queria ter uma profissão de risco tendo uma filha para cuidar, foi então que iniciou sua carreira de empresário. Então, ainda quer se arriscar? – Perguntou a Heartfilia, com um sorriso em seu rosto.
- Acha mesmo que tenho medo de um ex-soldado? O que ele pode fazer? Me matar? Não, não pense que irá se livrar de mim por causa disso. – Dizia o rosado tentando mostrar confiança em suas palavras, porém nem ele próprio conseguia dar credibilidade ao que falava.
- Tudo bem, você é quem sabe. Tenho certeza de que ele não irá te matar, mas talvez alguma tortura ou coisa parecida. Sabe, de uns tempos para cá ele se tornou um pai muito protetor, não acho que ficará parado se você tentar alguma coisa.
O rosado refletia sobre aquelas palavras, a cada uma proferida Lucy conseguia assusta-lo mais, porém não iria desistir por mero medo, ele sabia muito bem que aquela era a intenção da garota ao seu lado; ela usava astutamente a fraqueza que o medo causava, realmente era uma boa estratégia, mas não funcionaria com Natsu Dragneel.
- Podemos mudar de assunto?
- Por quê? Você não disse que não tem medo do meu pai? Por que não quer falar sobre ele?
- Irei conhecê-lo pessoalmente, só não quero estragar a surpresa sabendo de todos os detalhes de sua vida antes de conhecê-lo. Não estou com medo.
- Claro, eu acredito em você – Lucy disse sarcasticamente.
- Nee Lucy, é a primeira vez que você anda em um avião? – O rosado perguntou, tentando mudar de assunto.
- Não, é a sua?
- Para ser sincero sim. Sabe, se estiver com medo pode me abraçar.
- Eu não tenho medo de aviões Natsu. Mas se você sentir medo, nem tente me abraçar, porque irá ficar com mais medo ainda, quando quero posso ser tão assustadora quanto a Erza.
- Sejamos sinceros Lucy, é totalmente impossível alguém ser mais assustador que a Erza, ela é a rainha do medo, impossível supera-la. E eu com medo de andar em um meio de transporte como esse? Isso é alguma piada Lucy? Natsu Dragneel não tem medo de nada, entendeu? Absolutamente nada!
- Claro, veremos.
Mais alguns minutos de espera foram necessários até que os dois pudessem entrar no avião que os levaria a Nagoya. Em pouco tempo o avião decolou, e a reação de Natsu com relação ao avanço daquele grande transporte veio no instante seguinte em que ele começou a se mover.
- P-Pare essa.....coisa.
O rosado se apoiava na janela do avião, se sentia tonto e enjoado, mantinha seus olhos fechados o máximo possível, pois observar as coisas ao seu redor fazia o enjoo aumentar, além da luminosidade que também não ajudava nem um pouco. Lucy, que havia se sentado na cadeira ao lado de Natsu, observava o rosado, se lembrando das palavras que ele dissera pouco antes do avião decolar.
- Não tem medo de nada não é?
- N-Não é medo........é só um p-pequeno....enjoo.
Para Natsu os minutos pareciam horas, esperava que com o tempo aquela sensação de desconforto passasse, porém ela só piorava; ele não sabia se conseguiria aguentar as quatro horas dentro do avião daquela maneira.
Lucy de inicio pensava que aquilo que Natsu estava sentindo não fosse nada de mais, mas o rosado começava a preocupa-la; ele não parecia estar brincando, estava realmente se sentindo muito mal.
Lucy não fora a única que percebera que a situação do rosado não estava muito boa; depois de meia hora no ar a comissária de bordo do avião, já acostumada a ver casos como aquele, caminhou até os dois, para poder ajudar a Natsu. Era comum que algumas pessoas se sentissem enjoadas, portanto rapidamente reconheceu qual era o problema de Natsu.
- Com licença, o senhor está bem?
Natsu se arriscou a olhar para a moça, que o fitava um tanto preocupada, mesmo que já tivesse visto casos similares ao do rosado a situação em que ele se encontrava era pior do que a da maior parte dos passageiros que possuíam aquele mesmo problema. O garoto estava pálido e com uma expressão muito abatida.
- Pareço? – Ele respondeu a pergunta com outra pergunta.
- Esse enjoo é algo comum para algumas pessoas, apesar do seu caso parecer pior. Tome este medicamento, irá ajuda-lo.
A jovem entregou a Natsu um pequeno comprimido juntamente com um copo de água.
- O-O que é isso?
- Irá ajudar a diminuir o enjoo que está sentindo.
Natsu ainda hesitava em tomar o comprimido, não confiava o bastante em pessoas desconhecidas para aceitar qualquer coisa que elas lhe ofereciam.
- Natsu, tome logo esse remédio, ainda faltam três horas e meia para o avião pousar. – Lucy disse, percebendo a hesitação do rosado.
Ela estava certa, ele não aguentaria passar as outras três horas e meia sentindo aquele terrível desconforto, decidiu ceder de uma vez por todas e tomar o remédio. Mal sentiu quando o pequeno comprimido passou pela sua garganta, porém os resultados foram sentidos rapidamente; meia hora depois de tomar o medicamento não sentia mais o enjoo, em compensação uma sensação de cansaço o invadiu, suas pálpebras pesavam cada vez mais, até que automaticamente seus olhos se fecharam e ele adormeceu.
Era o efeito do remédio, segundo a comissária de bordo. Ele possuía o efeito colateral de provocar sono naquele que o tomou. Para Lucy seria um grande alívio, se Natsu estivesse acordado e sem dor alguma iria com toda certeza continuar a provoca-la.
Enquanto estava desacordado o rosado murmurava algumas palavras, ele falava enquanto dormia. A maior parte das coisas que falava Lucy não conseguia identificar, mas tinha certeza de tê-lo ouvido murmurar seu nome três ou quatro vezes. Em certo momento a cabeça do rosado pendeu para o lado, repousando no ombro de Lucy; a loira não impediu nem tomou nenhuma medida para que ele voltasse a sua posição anterior, tinha medo de acorda-lo e ele voltar a passar mal, ou ainda pior, acorda-lo e ele começar a provoca-la com suas cantadas baratas.
De certa forma o rosado não parecia tão ruim dormindo; possuía uma expressão infantil, como se fosse uma criança.
As outras horas de viagem não foram tão demoradas. Lucy aproveitou seu tempo para continuar lendo um livro que não andava tendo tempo para terminar devido a todos os acontecimentos. Desde que se mudou para Magnólia havia passado por muita coisa, e seu objetivo principal, que era estudar, praticamente não foi alcançado; foi agredida por um homem bêbado, logo após teve uma infecção por culpa de Natsu, e quando finalmente pensou que poderia estudar na escola que sempre sonhara um incêndio a destruiu.
Era estranho pensar que conhecia aquele rosado que dormia com a cabeça encostada em seu ombro há apenas pouco mais de duas semanas, tinha a impressão de que o conhecia há mais tempo. De certa forma era divertido tê-lo por perto; por mais irritante que aquele garoto fosse, por mais que ela o odiasse, ele era o mais próximo de um melhor amigo que ela possuía. Mesmo que o rosado fosse um pervertido, irritante, mulherengo, irresponsável, inconsequente, ele ainda possuía algumas qualidades.
Natsu com certeza era bipolar, possuía o lado que Lucy odiava e o que a fazia gostar, mesmo que apenas um pouco, dele.
Quando o avião pousou Lucy precisou acordar Natsu, que continuava dormindo. Não fora uma tarefa muito fácil, já que o rosado possuía o sono pesado, mas com um pouco de esforço a loira conseguiu.
- Nós já chegamos? – Ele perguntou, ainda sonolento.
- Sim.
- Nossa, que viagem rápida, eu mal percebi o tempo passar.
- É claro, você dormiu o caminho inteiro.
Ainda continuando a discutir os dois saíram do avião; Natsu dizia que apenas havia dormido porque iria morrer se não o fizesse, enquanto Lucy o chamava de exagerado. Do lado de fora do aeroporto de Nagoya um carro preto os esperava, em frente a ele estava parado um homem que segurava uma placa com a palavra “Heartfilia” escrita. O homem devia possuir a mesma idade de Lucy, sorriu ao vê-la, há anos não a via.
- Lucy, é você mesma? Devo dizer que esses anos fizeram muito bem a você, está linda – Ele dizia enquanto andava em direção a Lucy. Havia deixado a placa sob o teto do carro.
- Desculpe, eu te conheço? – Lucy perguntou confusa, não reconhecia o rapaz a sua frente. Ele possuía curtos cabelos castanhos penteados de maneira rebelde, olhos verdes e o mesmo porte físico que Natsu.
- Claro, como eu iria esperar que você se lembrasse de alguém que não vê há treze anos. Talvez isso te ajude a se lembrar, na maior tempestade que Nagoya já enfrentou nós estávamos brincando no parquinho e tivemos que correr na volta para casa, mas mesmo assim ficamos completamente encharcados e seu pai quase nos matou.
- Jun? É você?
- Exatamente.
A lembrança da infância refrescou a mente de Lucy, como poderia se esquecer daquele que era quase um irmão para ela? Jun era seu melhor amigo, filho de um dos empregados da casa, aos seis anos precisou mudar-se de cidade, por causa da separação dos pais. Assim que se lembrou correu para abraça-lo.
Enquanto isso Natsu apenas observava à cena, novamente um cara interessado na sua loirinha apareceu, Lucy parecia mais concorrida do que os bolinhos da cantina do colégio, ela com certeza daria trabalho a ele, teria que dar um jeito em mais cara se ele tentasse qualquer coisa, pelo menos não parecia um caso tão grave quanto Sting.
- Nem consigo acreditar que é você, como é bom te ver novamente! Mas o que está fazendo aqui? Pensei que estivesse em Tóquio.
- Estava, mas voltei e estou trabalhando como motorista do seu pai. Mas teremos mais tempo para conversar, precisamos nos apressar agora, se demorarmos muito o senhor Jude irá pensar que algo aconteceu. E quem é esse Lucy? Seu namorado?
- Não, de forma alguma ele é meu namorado, esse é o Natsu, um idiota que insistiu em vir comigo.
- Do jeito que você se mete em problemas com facilidade eu não podia te deixar sozinha.
- Poderia me explicar melhor Lucy? – Jun disse.
- Claro, mas em outro momento, estou com saudades do papai.
Jun concordou. A mansão dos Heartiflia não ficava muito longe do aeroporto, portanto em pouco tempo já estavam lá. Jun se encarregou das bagagens, Lucy queria rever seu pai o mais rápido possível. Entrou na casa acompanhada de Natsu e assim que viu o velho homem correu para abraça-lo.
- Papai!
- Lucy.
- Estava com saudade.
- Sim, eu também estava, mesmo que tenham sido somente duas semanas. – Jude se separou da filha, só então notando a presença de Natsu – E quem é esse garoto?
- Esse é o Natsu, ele é o garoto que divide o apartamento comigo e que me salvou do incêndio. – Não havia sentido em esconder a parte de que Natsu a havia salvado, ela tinha certeza de que o rosado iria contar de qualquer maneira.
- É uma honra conhece-lo senhor Heartfilia – Natsu cumprimentou o homem com um firme aperto de mão.
- Então foi você quem salvou minha filha? Muito obrigado garoto, salvou meu bem mais precioso. Mas não entendo, por que veio junto com a minha filha?
- Sem problemas. Bem, baseando-se na habilidade nata que a Lucy possui para se meter em problemas não podia deixa-la vir sozinha.
- Ah, entendo, realmente minha filha parece ter esse dom. Lucy, você não me disse que o garoto que morava com você era um idiota e também um pervertido? Não vejo como essa característica se encaixa nesse rapaz.
- Não se preocupe senhor Heartfilia, já estou acostumado com o tratamento que sua filha me dá, apenas porque a encho de elogios sobre sua beleza ela diz essas coisas.
Lucy estava impressionada com o quanto Natsu era cínico, com certeza todo aquele teatro de bom garoto servia apenas para ganhar a confiança de seu pai.
- Com licença, senhor Heartfilia
Um empregado chamava o senhor Heartfilia.
- Me deem licença um minuto, ok? — Jude disse.
- Natsu, eu não sabia que você havia feito aulas de teatro.
- Não fiz, esse é apenas mais um dos meus dons naturais.
- E está fazendo isso por que está com medo?
- Não, não estou com medo, apenas quero continuar vivo.
- Você é patético sabia? – Natsu ignorou a fala de Lucy – Papai, estou cansada da viagem, vou tomar um banho e dormir um pouco.
- Ah sim, tudo bem, irei providenciar um quarto para o seu amigo. – O senhor Jude já havia terminado de conversar com seu emprego, esperou apenas Lucy terminar de subir as escadas para se dirigir a Natsu – Natsu não é mesmo? Gostaria de conversar com você.
Ele disse totalmente sério. Nesse momento milhares de pensamentos passaram pela cabeça do rosado, a maior parte deles era sobre a possibilidade de que ele tivesse descoberto que aquela atitude era uma farsa. O garoto se sentiu nervoso e ansioso, se perguntando sobre o que Jude Heartfilia tanto queria falar com ele.
Notas finais
Até o próximo o/
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