Onde Tem Ódio Tem Amor
36 Am i in the arms of an angel?
Notas iniciais
You're in the arms of the angel
Maybe you find some comfort here
Após muitas lágrimas derramadas, Lucy acabou por adormecer nos braços de Natsu. Estava tão esgotada interiormente que seu corpo a obrigou a descansar. Tudo o que enxergava após receber a triste noticia do falecimento de seu pai eram lembranças antigas. Um filme se passara em sua mente.
Via-se no passado novamente, na época em que era apenas uma pequena garota e tudo o que tinha no mundo era sua mãe, Layla. Lembrou-se de todos os seus aniversários, aos quais seu pai nunca podia comparecer por estar afogado em trabalho. E este era de suma importância para o velho homem. Claro, afinal como iria sustentar e dar o máximo de luxo à sua filha... como era mesmo o nome dela? Luna? Ah, sim, era Lucy. Às vezes em conversas com amigos o homem se via preso nesta questão, e naquela época nem sequer achava isso algo constrangedor, não lembrar-se do nome da própria filha. Ele trabalhava demais por ela, que culpa tinha se sua memória não funcionava bem para coisas fúteis como aquela? O importante era que estava colocando comida na mesa de sua filha. Isso sim importava!... Bem, talvez não para todos.
Lembrou-se de seus bolos de aniversário. Sua mãe lhe dizia para que ela fizesse um pedido, e o pedido era sempre o mesmo: “Quero que papai possa estar aqui também no meu próximo aniversário.”. E assoprava as velinhas. Sua mãe então lhe pedia para escolher a quem ela queria dar o primeiro pedaço. Ah, tantas opções que nem sequer sabia quem escolher... Dedicaria aquele pedaço ao Sr. Fofinho, seu urso de pelúcia? Ou a Rex, o tiranossauro bondoso e corajoso que lhe protegia quando ela tinha pesadelos? Talvez a um dos empregados da casa, afinal eles sempre trabalhavam tão duro, mereciam aquele agrado. Mas eram tantos... não podia simplesmente escolher um, iria acabar magoando os outros. Sendo assim, a pequena sempre decidia dar aquele pedaço de bolo para a pessoa que mais amava em todo o mundo: Sua mãe. Estava bem daquela forma, com seus ursinhos e dinossauros de pelúcia e sua mãe lhe fazendo companhia. Até que aquilo aconteceu.
Viu-se dessa vez no cemitério, aos oito anos de idade. Estava chovendo, porém não era apenas a chuva que molhava seu rosto, mas também as lágrimas causadas pela dor que sentia, mesma dor essa que lhe açoitava no presente. A pessoa que mais amava no mundo havia morrido. E o pior: A culpa era completa e inteiramente sua. Ela acendeu aquele fósforo que causou a explosão; ela fora quem sua mãe protegeu dos pedaços de madeira e outros materiais que voaram devido à explosão; ela era quem devia estar enterrada naquele buraco, não a doce mulher que lhe criara.
Um novo salto no tempo. Estava então com treze anos, começando a entrar na adolescência. A garota podia ter mudado com o passar dos anos, mas seu pai não. O velho homem continuava igual ao que sempre fora, totalmente dedicado ao trabalho. E ela, sem a velha mentalidade infantil de quando acreditava que seu pai era um herói ― claro, afinal devia ser esse o motivo dele estar sempre ausente, estava ocupado demais salvando o mundo. ―, cresceu com uma grande raiva contida dentro de si. As discussões entre seu velho pai e ela eram constantes. Se não tivesse Virgo para acalmar os ânimos de ambos não sabia o que podia acontecer. Fugia praticamente todas as noites, buscando refugio e talvez paz na rua. Continuou buscando-os por mais longo um ano e meio, quando por fim encontrou Ryan, o canalha que quase destruiu sua vida.
Mas há males que vêm para o bem, correto? Por culpa desse tal Ryan, o velho homem finalmente percebeu que sua pequena garota estava crescendo e ele nem sequer havia se dado conta disso. Quase a perdeu tendo dela apenas a memória de seu nascimento. Como foi que deixou todos aqueles anos, todos os momentos importantes de sua filha simplesmente escaparem de si, quando há um momento atrás eles estavam bem ali, em suas mãos, chorando ao sentirem pela primeira vez o oxigênio da atmosfera terrestre?
E então, após quatro anos tentando e lutando para recuperar o tempo perdido entre pai e filha, quando aquilo estava realmente dando certo e as coisas entre os dois não podiam estar melhores, voltamos ao presente, com o falecimento de Jude Heartfilia e a pobre garotinha, com os olhos inchados de tanto chorar, adormecendo nos braços de um garoto irritantemente pervertido que faria de tudo para que ela não sofresse como estava sofrendo naquele momento.
Natsu a carregou até seu quarto e a deitou na cama. Dormir no sofá do modo como ela dormia antes com certeza lhe renderia uma bela dor no dia seguinte, da qual a loira realmente não precisava naquele momento. Deitou-se também ao lado de Lucy e segurou sua mão. Não queria que ela acordasse no meio da noite e se sentisse sozinha. Queria que soubesse que ele estava bem ali, ao seu lado, para qualquer coisa que precisasse.
― Se eu pudesse dar um jeito nisso que você está sentindo... ― o rosado sussurrou enquanto acariciava a pele macia do rosto de Lucy. Olhou para baixo, para onde sua outra mão se entrelaçava à dela e inconscientemente deu um fraco sorriso. Abriu sua boca, porém de lá nenhum som saiu. Tentou novamente e disse no tom mais baixo que conseguiu: ― Eu... Eu acho que talvez eu te ame. Romanticamente falando. Mas eu não tenho certeza. Não tenho certeza de nada, na verdade. Queria muito ter... ― ele fez uma pausa, apenas repensando no que havia acabado de dizer, mais para si mesmo do que para Lucy, que de qualquer forma não iria ouvi-lo, e riu baixo, voltando a olhar para o rosto da garota. ― Eu sou mesmo um idiota egoísta, não é? Falando sobre coisas assim enquanto você está nesse estado. Me desculpe, Lucy. A questão é só que eu não gosto de te ver sofrendo, porque me importo com você. Mas eu não sei ainda até que ponto esse “importar” chega.
Continuou olhando fixamente para os olhos fechados de Lucy. Pensava que dizer aquilo em voz alta talvez o ajudasse a entender melhor seus sentimentos, mas tudo o que conseguiu foi se sentir ainda pior, ainda mais confuso do que antes.
Ele não conseguiu dormir a noite inteira. Ficou apenas imóvel, com medo de se mexer e acabar acordando a garota, enquanto a olhava e desfrutava do calor que seu corpo exalava. Um calor tão bom, tão acolhedor. Pegou-se novamente em seu estúpido egoísmo, pensando apenas em si mesmo, em como era bom ter Lucy por perto.
Lucy acordou cedo, por volta das 7h. A primeira coisa que seu olhar identificou foram os olhos preocupados do garoto. Vê-lo ali provocou um pavor que tomou conta de seu corpo, uma sensação horrível, como se estivesse congelando por dentro, sufocando-se em seu interior. Afinal, se ele estava ali, tudo fora real?
― Não foi só um pesadelo... ? ― sussurrou sem se mover. Natsu demorou alguns segundos para processar o que ela havia dito e então respondeu, quase não controlando o impulso que lhe dizia para mentir e dizer que sim, havia sido apenas um pesadelo.
― Não, sinto muito. ― Lucy apenas baixou o olhar, ainda sem mudar de posição. Não encontrava forçar para mover seu corpo. O rosado se levantou. ― Ei, Lucy, está com fome? Vou trazer alguma coisa para você comer. Quer que eu peça para a Levy vir até aqui? ― a loira moveu os ombros e Natsu interpretou aquilo como um sim. ― Tudo bem. Volto logo.
O garoto tentava fingir algum entusiasmo, para quem sabe assim animar um pouco Lucy. Mas aquilo era inútil, e sabia disso, mas qualquer tentativa era válida.
Quando ligou para Levy, acordando-a em plena manhã de domingo, e explicou a situação à amiga, ela não hesitou em atender ao pedido do rosado, mesmo com sono. Ficou surpresa e triste com o acontecido. Concordava com Natsu, Lucy não merecia passar por aquilo novamente. Mas infelizmente não cabia a eles decidir aquilo.
Voltou ao quarto com uma bandeja contendo um sanduíche e suco, os quais foram totalmente ignorados por Lucy, mesmo com Natsu insistindo para que ela comesse pelo menos um pouco. Não sentia fome, não sentia vontade de fazer qualquer coisa que não fosse permanecer deitada naquela cama. O garoto, após desistir de tentar fazê-la ingerir algum alimento, deitou-se novamente ao lado da loira e a abraçou, ouvindo-a fungar e voltar a chorar, afundando o rosto na camisa do rosado.
Logo Levy chegou. Deu um longo abraço em Lucy, sussurrando próxima ao ouvido da loira palavras de apoio. Juntos, Natsu e Levy conseguiram convencê-la a comer pelo menos um pouco e a sair do quarto. Passaram a tarde sentados no sofá, tentando distrair-se com a televisão. Tendo os dois ali, apertando-a em um abraço triplo que durou horas, tendo seus dois melhores amigos ao seu lado, as coisas se tornaram um pouco mais fáceis de serem suportadas. A dor ainda era insuportável, mas ao menos não se sentia sozinha.
Como prometido no dia anterior, o Sr. Hikaru, sócio de Jude Heartfilia encarregado pelo funeral, ligou naquela tarde para acertar os detalhes do enterro com a única herdeira do falecido. Lucy teria que viajar na manhã do dia seguinte para sua cidade natal sem data prevista para retorno. E após saber disso as horas ao lado daqueles que tanto lhe faziam bem se passaram tão rápido...
***
― Tem certeza de que não quer que eu vá com você? ― Perguntou o rosado enquanto ajudava a levar as malas de Lucy até o táxi que a levaria até o aeroporto.
― Obrigada, Natsu, mas tenho. Há a escola e todos os outros, não quero que se incomode tendo que ir a Nagoya comigo.
― Não seria incômodo. E eu me sentiria melhor se estivesse lá com você. ― Retrucou, colocando as malas no porta-malas do carro.
Não que a loira não desejasse a companhia de Natsu. Pelo contrário, afinal ele sempre a fazia se sentir melhor. Mas precisava fazer aquilo sozinha. E também era verdade que não queria atrapalhá-lo quanto à escola. Ela conseguiria recuperar a matéria perdida, mas ele? O rosado já estava tendo dificuldades para acompanhar as aulas sem perder nem sequer um dia. Não, era melhor que ele ficasse.
― Eu vou ficar bem, não se preocupe.
― Não tenho tanta certeza disso, preferia ficar junto com você. ― Cruzou os braços e recostou-se no carro, emburrado por Lucy não querer deixá-lo lhe fazer companhia naquela viagem.
― Não é como se eu não quisesse isso também. Mas é melhor assim. Dá para tentar entender, Natsu? ― A loira respondeu em um tom irritado. Não estava irritada com o garoto, apenas com a situação, com o que havia lhe acontecido, com ter que ver seu pai morto, com a vida.
O rosado a puxou para um abraço, apertando-a o máximo que pode ao mesmo tempo em que era cuidadoso, como se estivesse segurando algo tão frágil que se quebraria ao mais fraco contato.
― Prometa que irá ficar bem. ― ele sussurrou.
― Eu não posso prometer nada... ― Lucy respondeu mais calma. Retribuiu o abraço e deitou a cabeça no ombro de Natsu.
― Então prometa que irá tentar.
A garota se afastou sem lhe dar uma resposta.
― É melhor eu ir, ou irei acabar perdendo o voo.
Ela entrou no táxi e deixou Natsu sozinho ali, preocupado. Aqueles dias sem Lucy por perto seriam duros...
E como foram. Uma semana... Duas... E nada da garota dar noticias. Qualquer um que conhecesse Natsu percebia facilmente o quanto a ausência da loira o abalava. Estava quieto, não era o mesmo cara bem humorado que todos estavam acostumados a ter por perto. Duplicara os dias de treino durante aquele período. Treinar o distraia de uma maneira que nada mais conseguia.
Era sexta-feira à noite, quase completando duas semanas desde que Lucy partira. Gray lhe fazia companhia enquanto assistiam a um jogo na televisão.
― Cara, você está parecendo um zumbi, e olha que foi o pai da Lucy que morreu. ― O moreno comentou.
― Não enche.
― Vamos sair. ― Disse Gray, se levantando.
― Eu não estou a fim.
― Não foi uma sugestão. Ande, levante daí, coloque uma camisa melhor e vamos viver la vida! ― Gray exclamou. Natsu bufou. Sabia que não conseguiria convencer o moreno a deixá-lo ficar em casa, então logo se rendeu.
Gray o levara a uma boate famosa de Magnólia. O lugar estava lotado e a música alta podia ser ouvida já do lado de fora. O moreno já era bem conhecido por lá. Por onde passava pessoas o cumprimentavam. Ao conseguirem finalmente atravessar a pista de dança, o moreno pediu ao garçom uma bebida chamada “Caos Bar”, preparada com jagermeister, uma bebida alcoólica da Alemanha, combinada com energético, para os dois rapazes. Segundo Gray, era uma das melhores bebidas do local.
Natsu experimentou um gole. Era realmente forte, mas ótima. Secou o copo pouco depois e pediu outro ao garçom. Era incrível o que o álcool fazia com as pessoas. No seu caso, fazia com que sentisse como se todos os seus problemas desaparecessem.
― Oi, gato. ― uma garota loira se aproximou de Natsu e disse. ― Quer dançar?
Natsu ficou em silêncio, apenas olhando-a, já começando a se sentir um pouco tonto por culpa da bebida. Ela lhe lembrava... Lucy.
― Vai recusar o pedido de uma dama, Natsu? Ela é gostosa, anda logo! ― Gray o empurrou.
O rosado acabou por aceitar o pedido da garota loira. Foi para a pista de dança segurando seu terceiro copo. E aquela garota se parecia cada vez mais com Lucy.
Enquanto a semelhança simulada pela mente do garoto aumentava, mais ele se soltava. Logo não estava mais apenas se movendo por culpa da música. Suas mãos passaram a deslizar pelo corpo da loira, que apenas se aproveitava do contato. Tinha cada vez mais certeza de que era Lucy ali, à sua frente.
― Lucy, o que está fazendo aqui? Pensei que estivesse em Nagoya. ― Disse arrastando as palavras, já completamente bêbado.
― Posso estar onde você quiser, gato. ― Disse a garota, aproveitando-se da embriaguez do rosado e beijando o seu pescoço enquanto os corpos se moviam conforme a música.
― Você gosta mesmo de me provocar, não é? E depois reclama quando perco o controle.
Com a sensação de que era Lucy ali, beijando sua pele, traçando um caminho até seus lábios e tomando-os para si com volúpia, o rosado apenas aproveitava os toques. Apertou a cintura da garota e passou a ser ele a controlar a situação, colando seus lábios em cada centímetro de pele que a roupa que a garota vestia permitia.
Já estivera com muitos caras, mas o modo como Natsu a tocava era incomparável. Fosse quem fosse a tal “Lucy”, tinha muita sorte... Os toques daquele garoto eram tão bons que ela queria ir muito mais longe do que aquele lugar permitia.
― Esse lugar está muito lotado. O que acha de irmos a um lugar mais calmo? ― A garota sussurrou no ouvido de Natsu.
― Ok. ― Ele concordou sorrindo.
Enquanto passavam pela pista de dança, encontraram Gray. O moreno segurou Natsu pelo braço e o parou.
― Ei, onde está indo?
― Lucy quer me levar a um lugar mais “calmo”. ― O rosado respondeu rindo.
― Lucy? Essa não é a Lucy. A Lucy está em Nagoya, cara, você sabe.
Natsu fechou o rosto.
― Como assim ela não é a Lucy?
Gray suspirou.
― Não, ela não é. Vamos para casa, parece que já foi o suficiente para você por hoje.
Com um pouco de dificuldade, o moreno conseguiu forçar Natsu a acompanhá-lo até o apartamento. Quando chegaram, o obrigou a tomar um banho frio e sentiu-se como uma babá. Não podia deixar o rosado sozinho no estado em que estava, portanto decidiu passar a noite ali mesmo.
Na manhã seguinte, Natsu mal conseguia se mover tamanha era sua ressaca. Deitou-se no sofá, com a televisão ligada em volume baixo. Gray estava tomando banho quando ele acordou.
Repentinamente a porta se abriu, assustando-o. Mas logo se acalmou quando viu quem era.
― Lucy! ― tentou se levantar, porém desistiu ao sentir sua cabeça latejar. ― Eu iria até aí te dar um abraço, mas acho que vou acabar caindo no meio do caminho se tentar. Como foi a viagem?
Lucy forçou um sorriso.
― Estou meio cansada agora. Vou desfazer as malas, depois conversamos.
― Ok. ― o rosado concordou.
Era tão bom estar de volta... A viagem havia sido horrível, como já previa que seria. Tudo o que queria naquele momento era descansar, porém as malas não se desfariam sozinhas.
Terminou tudo o mais rápido que conseguiu e abriu a porta do quarto. Gray estava sentado no sofá, conversando com Natsu, e as palavras que ouviu o moreno dizer partiram seu coração em um milhão de pedaços.
― É sério? ― Natsu perguntou incrédulo.
― É. O velho Natsu voltou à ação ontem à noite. Parecia que ia engolir aquela garota do modo como a estava beijando. Você quase transou com ela.
Não precisava ouvir mais nada. Fechou a porta imediatamente. Só conseguia pensar em como havia sido tola pensando que Natsu talvez pudesse ter mudado, que talvez ele pudesse não ser o mulherengo que todos diziam ser. Mas ao que parecia, estava errada. Por que seu coração sempre tinha que fazer aquilo com ela? Escolher os piores caras possíveis para se apaixonar? Por que tinha que ter colocado em sua mente a rele esperança de que Natsu poderia ser o certo? Por que não confiou em seus instintos que a diziam para se afastar?
Uma pena ela não ter ouvido o resto da conversa...
― Não, eu não acredito que eu fiz isso. ― disse o rosado.
― Você estava pensando que ela era a Lucy. Estava tão bêbado. Devia ter visto sua cara de desapontado quando eu disse que aquela garota não era a “sua loirinha”.
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