Onde Tem Ódio Tem Amor
54 Visita inesperada
Notas iniciais
― Tem certeza de que é nesta rua, Levy? ― a loira perguntou enfiando as mãos nos bolsos do casaco. Mesmo com a baixa temperatura, a rua estava consideravelmente cheia. A população não deixava seus afazeres serem atrapalhados pelo clima, aparentemente. No frio congelante de Magnólia, tudo o que Lucy desejava era poder estar em casa, sob inúmeros edredons e, claro, abraçada ao seu Dragneel. Porém, sem a última coisa não via porquê ficar lá, apenas presa ao trabalho.
― Absoluta. Estamos quase chegando, na verdade. Acha que Natsu irá gostar da surpresa?
Lucy suspirou, vendo o vapor condensado saído de sua boca desaparecer no ar. Lembrava-se de amar observar aquilo em dias frios quando criança, intrigada, imaginando de onde surgia a tal “fumaça” branca. Era um fenômeno quase mágico na infância, naqueles tempos temporariamente fáceis.
― Espero que sim. De qualquer forma, não seria exatamente uma surpresa, e ficar em casa estava sendo entediante demais. Por que? Acha que não vai gostar de eu aparecer no lugar em que ele trabalha?
― Não exatamente, mas você sabe como Natsu é orgulhoso. Talvez se sinta um pouco envergonhado.
A loira riu para si mesma com a veracidade daquelas palavras.
― Isso é besteira, Levy. Quer dizer, eu sei que ele pensa assim, mas não elimina o fato de que é besteira. E um dia ainda o farei perceber isso. ― a loira interrompeu os passos em frente a um estabelecimento. Não era grande, e a fachada continha grandes janelas que possibilitavam observar o interior. Natsu estava lá, de costas, mas era impossível não reconhecê-lo. ― É aqui.
Levy assentiu, mesmo sabendo que não consistia em uma pergunta. Não havia necessidade de perguntar quando os fatos que o comprovavam estavam literalmente à sua frente. As duas garotas entraram e se sentaram à primeira mesa ao lado da janela. O olhar de Lucy não se desviava do Dragneel. Um dos outros garçons aparentemente precipitou-se em atendê-las, porém assim que Natsu pôs os olhos nas duas clientes especiais assumiu o posto no lugar do colega de trabalho.
― Hey ― ele as cumprimentou com um sorriso torto, o qual Lucy não soube identificar se era de alegria ou surpresa. Muito provavelmente a segunda opção era a correta. ― O que estão fazendo aqui?
― É uma lanchonete. O que parece que estamos fazendo? ― Levy o provocou, fazendo o garoto arquear a sobrancelha e estender o sorriso. A garota fez o mesmo e também sorriu. ― Lucy disse que precisava falar com você e me chamou para acompanhá-la.
― Falar comigo? Sobre o que? ― em sua nova pergunta, deixou seu olhar direcionado para a loira. Era aquela uma pergunta um tanto quanto apavorante para 90% da população.
― Sobre nosso compromisso de hoje à noite com Gray e Juvia. Mas falamos disso mais tarde, não se preocupe.
― Ok ― Natsu concordou, pegando então um caderno de anotações do bolso do colete que vestia como uniforme. ― Então, o que vão querer?
Lucy foi a primeira a responder, tão logo ele havia feito a pergunta.
― O garçom na minha cama. Pode ser? ― olhando para Natsu com o canto da boca erguido, o provocava impecavelmente. Apesar de não olhá-la diretamente, Natsu sorriu do mesmo modo, decidido a entrar na provocação.
― Para agora ou para mais tarde?
― Mais tarde. E um beijo para agora, se for possível.
Com a última frase, Natsu ergueu o olhar e sorriu com mais intensidade. Olhou por cima do ombro do lado esquerdo, depois repetiu o mesmo movimento para a direita, e com uma pressa demorada, o mais lento e o mais rápido possível, para não correr o risco de ser pego pelo gerente, o rosado inclinou-se e colou seus lábios nos de Lucy. Não era de sua vontade encerrar o contato íntimo tão logo ele havia começado, mas não podia se arriscar a perder o emprego. Ainda deixou que a loira colocasse a mão em seu rosto e aprofundasse levemente o beijo por mais um segundo. Seria tortura demais consigo e com ela se não permitisse.
O ato fora intencional, e servira para se assegurar de que a temperatura do rapaz havia diminuído. Realmente havia, mas ainda estava longe da normalidade, o que continuava preocupando-a.
― Está se sentindo melhor? ― ela rapidamente perguntou, antes que ele se afastasse, a respeito do pesadelo que tivera durante a madrugada.
― Estou ótimo. ― só nesse momento notara como Lucy se encontrava. Extremamente adorável com as bochechas rosadas pelo frio e o cabelo bagunçado pelo vento. Sorriu discretamente com o pensamento. ― Então, o que irão querer de verdade? Levy?
― Só um suco, Natsu. Não vou ficar muito tempo, tenho um compromisso. E traga uma vela também, acho que vou precisar.
― Ok. ― o rosado riu, anotando o pedido no bloco de anotações.
― Um compromisso? E isso envolve alguém que você não mencionou? ― Lucy perguntou em tom sugestivo, apoiando o cotovelo na mesa de repousando a cabeça sobre a palma da mão.
― Não, Lu-chan. Envolve trabalho. Só isso.
― Quem sabe? Não há ninguém interessante na equipe do jornal de Magnólia? ― Levy corou, mas teimou em responder. Talvez até houvesse, porém seu coração já possuía um dono. Infelizmente esse dono não parecia interessado em reivindicar sua posse.
― E você, senhorita? O que vai querer? ― o garoto a chamou.
― Ah, sim. Bem, eu ainda não almocei, e você me conhece bem, então... surpreenda-me. ― ainda com a cabeça apoiada na mão, Lucy lhe deu uma piscadela. Quanto a Natsu, seu olhar sugeria desaprovação, ainda que misturada com certo tom de brincadeira.
― E posso saber por que não? Já são quase seis da tarde.
Lucy suspirou, voltando a se ajeitar no banco.
― Tinha muito trabalho a fazer. Precisava tirar o atraso desses dias em que não fiz nada. Acabei ficando sem tempo.
― Sem tempo? Eu é que vou ficar “sem tempo” para cuidar de você quando ficar doente.
― Pare de ser chato, Natsu. ― reclamou.
― Natsu está certo, Lu-chan. ― Levy entrou na conversa.
― Você também, Levy? ― fuzilada pelo olhar de ambos, não havia outra opção senão desistir de resistir. ― Ok, prometo que irei pegar mais leve daqui em diante.
― Acho bom mesmo ― o rosado completou, dando um rápido beijo no rosto de Lucy. ― Volto logo.
― Natsu ― o garoto, que já havia se virado, olhou-a ao ouvir seu nome sendo chamado. ―, daqui quanto tempo você sai?
Como resposta, ele mostrou-lhe cinco dedos, e virou-se novamente, caminhando em direção a outras mesas. Cinco minutos. Lucy sorriu levemente e o acompanhou com o olhar por mais alguns segundos, tendo sua atenção desviada apenas quando Levy pigarreou, chamando-lhe discretamente. Suas pupilas brilhavam enquanto o acompanhava e quase não percebera a amiga lhe chamando tamanha era sua distração.
Quando olhou para Levy, não recebeu fala alguma que não fosse uma expressão sugestiva que Lucy conhecia muito bem.
― O que foi? ― perguntou defensiva.
― Seus olhos, Lu-chan.
― O que tem eles?
― O modo como você olha para o Natsu. “Se é verdade que os olhos falam, até um idiota teria percebido que eu estava perdidamente apaixonado.” ― a garota exemplificara citando um trecho do famoso livro “O morro dos ventos uivantes”. Sem dúvida alguma que se encaixava perfeitamente em Lucy. Quanto a ela, apenas sorriu com as bochechas ainda mais avermelhadas. ― Não que isso seja uma novidade. E não é diferente com ele. É ótimo ver isso, pelos dois. Comparando Natsu com o que era antes, acho que fez um bem tremendo a ele, Lu-chan.
― Bem, acho que isso é algo recíproco. Natsu também mudou muita coisa para mim. Bom saber que causei o mesmo a ele.
― Vocês se encaixam tão bem. Não é algo que se vê com tanta frequência. Mas, diga ― Levy endireitou-se no banco, mudando o foco da conversa. ―, por que ele está trabalhando à tarde hoje? Pelo que eu sei, ele só trabalha pela manhã.
― Insisti para que ele fosse ao médico verificar se estava tudo bem, então trocou um turno para poder ir na próxima semana.
― Mesmo? O que ele tem? ― a pequena perguntou curiosa.
― Boa pergunta, Levy.
Não saberia responder de forma alguma. Não era algo novo, assim como sua preocupação, e achava seu namorado extremamente cabeça-dura por nunca ter procurado ajuda para descobrir. Tinha medo de que pudesse ser algo sério, muito mais de que esse “algo sério” o tirasse dela no futuro. A possibilidade a assustava mais do que tudo.
Em um ato automático, pegou um dos palitos de madeira do paliteiro e começou a distrair-se com ele. Devia estar passando tempo demais com Natsu, pois aquele era um hábito dele, nunca fora seu. Sorriu com a semelhança adquirida. O procurou pela lanchonete e encontrou-o atendendo uma mesa a poucos metros da sua. Podia até escutar o atrevimento de uma das clientes ao responder que queria o mesmo que Lucy havia pedido, e a satisfação ao ouvir de Natsu que aquele era um “prato exclusivo”. Ao que parecia, Levy também havia ouvido.
― Pelo visto, Natsu é bastante disputado. Que clientela abusada.
― É, mas essa disputa não irá levar a nada, já que o prêmio principal é meu há um bom tempo.
― Sorte dele, azar delas. ― Levy respondeu com um sorriso no rosto.
Os cinco minutos passaram-se mais rápido do que Lucy imaginara. Nem sequer notara quando Natsu colocou seu braço direito sobre seus ombros e sentou-se no banco, ao seu lado, não mais com o colete, trazendo consigo o suco que Levy havia pedido e para a loira um sanduíche e batatas, apesar do último item não ser especificamente para ela.
― Sentiram minha falta? ― perguntou sentado confortavelmente. Apesar do sorriso, a resposta de Lucy fora ácida, porém carregada de provocação, como sempre costumava ser.
― Nem um pouco.
― É? Então vou voltar para lá. ― o garoto fingiu se levantar e instintivamente a loira o segurou pela camisa, sorrindo mais abertamente. ― Eu sei me amam. Principalmente você. Então, sobre o que estavam falando?
― Sobre seus clientes. A propósito, peça para elas pararem de se jogar em cima do meu namorado.
― Eu não tenho culpa por ser irresistível. ― rebateu Natsu, trazendo Lucy para mais perto de si. ― E quanto aquilo que queria me dizer, Lucy?
― Ah, sim. Gray ligou para confirmar o restaurante e o horário. “La platina”, às sete. Não temos muito tempo também.
― Boa sorte para vocês dois ― Levy entrou na conversa. ― Irão precisar.
― Com certeza ― o rosado concordou, colocando uma batata na boca. ― A coisa está complicada para o Gray.
― Ei, Natsu, contou a Lucy sobre os boatos que correram pelo seu prédio?
― Ah, Lucy não precisa saber disso. ― defendeu-se. Sua atitude, porém, apenas servira para alimentar a curiosidade da loira.
― Que boatos? Como minha melhor amiga, tem o dever de me contar, Levy. ― insistiu. O rosado afundou-se no banco quando percebeu que não adiantaria refutar.
― Por um bom tempo pensaram que Natsu mantinha um relacionamento com Gray. Praticamente nenhuma mulher vinha até o apartamento, com exceção da Chris, e Gray vivia lá, então não demorou até começarem a falar sobre.
― Como é? ― a loira perguntou, desatando a rir com Natsu ao seu lado evitando o seu olhar. ― Estava tendo um caso com Gray pelas minhas costas?
― É. Espero que não se importe de ter que me dividir com ele. Sabe como é, não consegui me conter.
― Acho que consigo. O relacionamento de vocês não é algo novo, de qualquer forma. ― a loira fez uma pausa, lembrando-se de um detalhe na fala de Levy que lhe chamara muito a atenção. ― Então conhece a Chris, Levy?
― Claro. Ótima pessoa. Natsu a apresentou a todos uma vez.
Lucy murmurou um “hum” audível que, para Natsu, significava complicações para o seu lado. Não importava o quanto dissessem sobre a tal garota ser adorável, continuava com a cena dela agarrada ao seu Natsu e aquele sentimento rancoroso lhe invadia. Não gostava de Chris e ponto.
― Lucy tem um pequeno problema de ciúmes com Chris. ― Natsu comentou e Levy riu.
― E eu não deveria ter?
― Ciúmes da Chris? Lu-chan, não vejo motivos para ter ciúmes dela.
― Podem mudar de assunto, por favor? ― a loira pediu, cruzando os braços. Ainda não confortável com a posição, e com um sono terrível a invadindo devido a não dormir há mais de vinte e quatro horas, aninhou-se no peito de Natsu, deixando o calor excessivo dele aquecê-la.
― Claro. ― concordou o garoto. ― Você ainda não tocou na comida, Lucy. Faça o favor de comer.
― Estou com mais sono do que fome no momento. Me deixe dormir um pouco.
― Isso é porque ficou trabalhando até tarde ontem. ― era apenas meia verdade, mas não deixava de ser um fato de que o sono também era causado por aquilo. ― E eu tenho cara de travesseiro por acaso?
― Quer mesmo que eu responda? ― a loira rebateu, olhando para Natsu.
― Tem mesmo que pegar mais leve, Lu-chan. Como o Natsu disse, vai acabar ficando doente assim.
― Não vou te deixar dormir até que tenha comido.
― Vocês dois são uns chatos. ― Lucy reclamou, enfim pegando o sanduíche e dando uma mordida, ainda com a cabeça apoiada em Natsu.
― Você parece uma criança, Lucy. Por isso tenho que cuidar de você.
A irritação dividiu lugar com um sentimento quente no peito da loira. Seu pai nunca fora um exemplo de carinho, nunca cuidara dela como um pai deveria cuidar de uma filha. Desde a morte da mãe não sabia o que era ter alguém cuidando de si. Independente de Natsu ser seu namorado ou não, a alegrava o fato de que havia alguém cuidando dela outra vez.
― Bem, meu casal favorito, eu tenho que ir. ― Levy avisou, levantando-se. ― Boa sorte hoje à noite.
― Tchau, Levy-chan. ― a loira se despediu. Após observar a amiga partir, relaxou ainda mais aninhada a Natsu. Ainda não estava nem na metade do sanduíche, e, apesar do tempo que havia ficado sem comer, não sentia fome. ― Nós também estamos atrasados, não é?
― Gray não vai se importar se nos atrasarmos um pouco, tenho certeza. Pode terminar de comer.
― Natsu, eu te odeio, sabia? ― disse. Claro que estava muito longe de ser verdade. Era apenas outra das provocações.
― Mas dizem que amor e ódio andam juntos, não é? ― logo depois de falar, ele lhe deu um beijo no alto da cabeça, enquanto Lucy sorriu discretamente.
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