Onde Tem Ódio Tem Amor
44 Uma rosa para uma rosa
Notas iniciais
Quando ele abriu os olhos, pensou estar no paraíso. Provavelmente havia morrido. Ou aquilo podia ser um sonho cruel, como os que tinha todas as noites e que sempre o deixavam deprimido quando acordava. À sua frente estava parada um anjo. Não como os idealizados em estórias e mitologias. O anjo com o qual sonhava todas as noites. Seu anjo. Sua Lucy.
Apertou os olhos para conseguir enxergar melhor. Sua visão ainda estava um pouco embaçada por ter recém acordado. Mesmo assim ainda não conseguia ter certeza do que via.
― Lucy? ― a chamou em tom baixo, buscando confirmar suas suspeitas.
A garota o olhou nos olhos, surpresa por Natsu estar acordado. Seu plano era sair dali antes que isso acontecesse, iria apenas ajeitar as cobertas e então iria embora, sem dirigir nenhuma palavra a ele. Infelizmente falhara nesse plano. Seus olhos angustiados se prenderam nos dele novamente, fazendo disparar o alarme em seu coração que insistia em dizer que ela o amava. A distância era tão pouca que quase não resistiu ao impulso de quebrá-la. Por sorte ou não, conseguiu retomar a consciência a tempo e se afastar e caminhar até a porta.
Natsu tentou se sentar no colchão, porém ao primeiro sinal de movimento sentiu a cabeça latejar e desistiu. Mas não a deixaria ir embora sem antes falar ao menos uma coisa.
― O que aconteceu? ― perguntou a primeira coisa que lhe veio à mente. Lucy parou. Apoiou uma das mãos no batente da porta e se virou.
― Eu não sei. Me diga você.
O rosado tentou forçar sua memória, porém a única coisa da qual se lembrava era de sua briga com Loke.
― Eu... não me lembro. ― respondeu com o olhar confuso, confirmando que o que dizia não era uma mentira. Lucy suspirou. Tudo o que queria era ir embora daquele lugar o mais rápido possível. Permanecer no mesmo ambiente que Natsu era sufocante.
― Eu te encontrei desacordado próximo ao rio e pedi ajuda a um homem que passava na rua no momento para te trazer até aqui. Não sei como foi parar ali, e também não é do meu interesse saber, mas o que eu podia fazer? Te deixar naquele lugar? Você é um completo idiota, mas mesmo assim eu não te odeio. Não faria isso.
Fazia sentido, já que suas roupas anteriores estavam completamente encharcadas, e no momento as que vestia se encontravam limpas e secas. Também não seria possível que Lucy tivesse conseguido carregá-lo sozinha até o apartamento. Interiormente Natsu sorriu. Pelo menos ela ainda se preocupava com ele.
― É bom saber disso. ― comentou, sem conseguir evitar que os cantos de sua boca se curvassem levemente.
― Não pense que isso muda alguma coisa entre nós.
― Eu não pensei. Mas vou esperar o quanto for preciso até que mude.
Lucy moveu o olhar para o chão. Detestava e amava a insistência do rosado. Ao mesmo tempo em que o fazia fortificar suas palavras, fazia com que ela hesitasse cada vez mais em desistir dos dois.
― Eu preciso ir. ― avisou, parando quando a voz de Natsu a chamou.
― Espere. ― ela voltou a olhá-lo. ― Quando eu falei sobre o nosso passado, você não disse quase nada. Sempre soube sobre o que aconteceu entre nós? Quem eu era?
― Aquilo foi tão inesperado para mim quanto foi para você. Não, eu não sabia que era você. E muito provavelmente nunca desconfiaria disso. Você mudou, Natsu. Mudou completamente. E não foi para melhor.
― Como assim? ― Natsu perguntou. Sabia que havia mudado muito desde aquela época, mas queria ouvir de Lucy que tipos de mudança ela achava que ele havia sofrido.
― O Natsu daquela época era completamente o oposto do Natsu de agora. Você não parecia ser tão idiota como agora. Não era.
― Eu sei que eu mudei, mas o que eu sinto, as minhas palavras, não. Meus sentimentos continuam os mesmos desde aquela época. E eu sei que tomei muitas decisões erradas, mas eu vou dar um jeito de apagá-las e reescrever essas decisões. Não vou te deixar.
― Palavras são apenas palavras.
― Não, não são. As palavras são muito mais do que isso. Você sabe. Palavras carregam sentimentos, bons ou ruins. Podem iniciar uma guerra, ou dar fim a outras. Podem mudar vidas. Palavras tem poder, não são apenas palavras.
― E muitas delas carregam mentiras. ― a loira comentou, referindo-se a Natsu com aquela frase, coisa que não passou despercebida por ele.
― Sabe, eu acredito mesmo nisso que eu te disse. Eu nunca diria algo como “eu te amo” sem que essas palavras estivessem carregando o sentimento ao qual se referem. Nunca faria algo assim. Não é mentira quando eu digo que te amo, Lucy.
― Nada disso muda o que você fez.
― Tem razão. Você disse que o passado não muda o presente, não é? Mas o presente muda o futuro, assim como pode amenizar o passado. E eu vou te mostrar que posso mudar o nosso futuro.
Lucy suspirou, novamente olhando para o chão. Murmurou para si mesma, em tom baixo:
― Talvez. ― mesmo considerando a altura do tom de voz de Lucy, Natsu conseguiu ouvir o seu “talvez”. Aquela palavra apenas já mora o suficiente para animá-lo e fazê-lo se agarrar ainda mais à sua promessa.
― Posso te perguntar mais duas coisas? ― ele considerou o silêncio de Lucy uma resposta positiva. ― Saber que eu sou aquele garoto que você conheceu no passado mudaria alguma coisa, por menor que fosse essa coisa?
Lucy pensou por um momento, e então, com a cabeça baixa, acenou negativamente. Ele se entristeceu por dentro. Teve a confirmação naquele momento de que o que aconteceu naquela noite não significou tanto para ela quanto significou para ele. Não que já não suspeitasse disso, porém confirmar que não estava errado lhe causava certa melancolia. Tinha esperanças de que aquele fato mudasse alguma coisa, mas para Lucy aquela noite fora apenas uma noite qualquer.
― Qual era a outra pergunta? ― Lucy o questionou, querendo apenas ir embora dali. Natsu fez uma pausa e então respondeu.
― Tudo o que aconteceu entre nós, ao menos valeu a pena para você? ― perguntou com uma expressão que fez até mesmo o coração de Lucy se contorcer. Parecia-se com uma criança decepcionada que tentava esconder essa decepção dos pais, fingindo que estava tudo bem, quando na verdade seu rosto dizia o contrário.
― Só ficamos juntos por um dia. Como poderia responder?
― Juntos oficialmente por um dia. Você entendeu o que eu quis dizer.
Lucy novamente suspirou antes de responder, resistindo ao impulso de também mover o olhar para o chão mais uma vez. Por que era tão difícil responder às perguntas do rosado olhando-o nos olhos?
Com muito esforço, conseguiu olhá-lo no fundo dos olhos, dando-lhe a resposta mais sincera que buscou no fundo de sua alma.
― Valeu a pena até o instante em que você se transformou no que ele era.
Natsu ficou em silêncio, sentindo aquelas palavras lhe ferindo interiormente, ao mesmo tempo em que a compreensão o invadia. Lucy tinha um motivo para querê-lo longe, o motivo ficou explícito quando ela o comparou a Ryan, e ele se sentia extremamente culpado por isso, ao mesmo tempo em que se sentiu ofendido. Ele não era como aquele cara, era? Ele realmente amava Lucy, então não podia ser como Ryan, podia? Mas Lucy tinha razão, ele agira como Ryan, isso o transformava em alguém como ele? Estava confuso.
Lucy se moveu, quebrando a tensão estabelecida no ambiente. Sentiu seus olhos ficando úmidos e percebeu que realmente não conseguiria ficar ali nem por um momento a mais sequer.
― Eu preciso mesmo ir. Tente não tentar morrer outra vez.
Natsu não a impediu daquela vez. Não havia mais o que poderia pensar em dizer, por mais que quisesse mantê-la ali. Talvez amarrá-la a si e nunca mais deixá-la partir. Sua vontade era essa, porém sabia que o melhor que poderia fazer era dar-lhe tempo. Quando Lucy deixou o recinto, ele sorriu fracamente, apenas de sua confusão e melancolia. Nem tudo estava perdido, afinal, a loira ainda se importava, e se ela se importava, então aquela parte que ainda o amava realmente existia.
Estava exausto. Seu corpo estava completamente dolorido e mal conseguia se mexer sem sentir dor, portanto decidiu passar o resto do dia em repouso, levantando-se da cama apenas quando realmente necessário. A pior coisa em ficar parado por tanto tempo era os pensamentos que borbulhavam em sua mente, mesmo que o melhor deles continuasse ali o tempo todo: Lucy se preocupando com ele.
Mas aquela dúvida persistia. Seria ele igual a Ryan? Não queria ser. E não seria. Não se permitiria ser. E iria provar isso a Lucy.
Na manhã seguinte, o dia amanheceu frio. Já se sentindo um pouco melhor, o rosado decidiu dar uma voltar pelo quarteirão. Sua cabeça ainda doía, porém isso não era nenhum empecilho. Se ficasse mais tempo preso dentro de casa enlouqueceria. Decidiu se sentar em um dos bancos de madeira colocados na calçada, em frente a um canteiro de rosas muito bem cuidadas.
Olhando para aquelas rosas lembrou-se de Lucy. Não que isso fosse novidade, já que tudo parecia lembrar-lhe dela, mas aquelas das quais se lembrou eram lembranças especiais. Reviu em sua mente o dia em que a beijou pela primeira, tecnicamente segunda, vez, quando a salvou de um sequestro. Lembrava-se tão bem daquele olhar de medo e alívio ao mesmo tempo, o qual o fitava tão intensamente após pensar que seu destino poderia ter sido completamente diferente, extremamente pior; do quanto ela parecia frágil e da vontade que sentiu em protegê-la de tudo e de todos quando ela estava bem ali, em seus braços. Quando ela estava em seus braços... Era triste lembrar-se que não a tinha mais neles.
Dali, naquele banco, observou as crianças correndo pela calçada e os donos passeando com seus cães. Até que uma voz fina o chamou e seu dono se sentou ao lado dele.
― Ei, Natsu!
O rosado moveu o olhar, fitando o pequeno homenzinho sentando ao seu lado.
― Romeu! Há quanto tempo. Como vão as coisas?
― Tá tudo bem. Muito bem. Papai conseguiu um bom emprego. Agora nunca falta comida em casa. E eu estou me esforçando na escola, sou um dos melhores alunos da sala. ― comentou, orgulhoso de si mesmo.
― Isso é ótimo. Então você é um daqueles que gosta de estudar? Conheço alguém assim... ― Natsu respondeu, lembrando-se de Lucy.
― Não é bem isso. ― Romeu respondeu, corando. ― É que eu tenho uma amiga, o nome dela é Wendy, e ela sempre me ajuda a estudar.
Natsu sorriu. Pelo menos alguém estava com sorte para o amor.
― Parece que ela anda te ensinando muito bem biologia, física e química, hein? ― Natsu comentou, dando um tapinha nas costas de Romeu, que o olhou confuso.
― Não, na verdade ela me ajuda mais com matemática... Eu ainda não tenho essas matérias na escola, Natsu.
O rosado suspirou. Devia ter pensado que Romeu, ainda um rapaz ingênuo, não entenderia sua “piada”.
― Esquece. Você gosta dessa, Wendy?
― Muito! ― Romeu exclamou, ficando ainda mais vermelho do que já estava. ― Ela é muito legal. Mas às vezes é confusa.
― Mulheres são confusas, meu amigo. E complicadas. Muito complicadas. ― Natsu novamente suspirou, sentindo falta da sua “complicada”. Foi então que uma ideia lhe ocorreu. ― Ei, Romeu, pode me fazer um favor?
― Claro. Que favor?
Natsu se inclinou e arrancou do canteiro uma das rosas, tomando cuidado com os espinhos. A mais bela que encontrou entre tantas belas flores.
― Pode entregar isso a uma pessoa? Não é muito longe daqui.
― Tudo bem, eu levo. ― Romeu respondeu, pegando a rosa. ― Mas por que você não leva? Papai me disse que quando você tem um presente para alguém o melhor é você mesmo entregar.
― Porque eu não tenho certeza se ela aceitaria se fosse entregue por mim. ― Natsu respondeu com um ar triste.
― Ah. Para quem é?
― Lucy, uma... amiga. Não precisa dizer que é meu, eu sei que ela entenderá. Diga que eu não tive oportunidade de agradecer por ontem e entregue a rosa. Eu vou te esperar bem aqui.
O rosado explicou a ele como chegar até a casa de Levy e o observou enquanto sumia por entre as pessoas da rua, já ansioso pela resposta de Lucy. E lá foi Romeu, levando a rosa de seu amigo.
There's been heartache and pain
***
― Levy-chan, pode deixar, eu atendo a porta. ― Lucy gritou para a amiga de outro cômodo assim que ouviu a campainha tocar. Quando a abriu, olhou para o garotinho de cabelos negros parado com uma rosa em frente ao seu peito e arqueou a sobrancelha.
― Olá. ― ele a cumprimentou, tímido. ― Você é a Lucy?
― Sim, sou eu. E você é... ?
― Romeu. ― o garoto se apresentou. Logo em seguida estendeu a mão que segurava a rosa, a qual fora prontamente aceita por Lucy, mesmo que com certa desconfiança no olhar. ― Um amigo me pediu para te entregar isso. Ele pediu para que eu te agradecesse por ele, porque não teve oportunidade ontem.
― Natsu? ― Lucy perguntou. Romeu assentiu positivamente. ― Como o conhece?
― Natsu é meu amigo. ― o garoto sorriu. Viu Lucy mover o olhar para a flor e quase teve certeza de que ela deu um fraco sorriso.
― Diga a ele que... ― a loira começou a dizer, empolgada, porém desistiu poucos segundos depois. ― Não, pensando bem, não diga nada.
― Tem certeza? ― Romeu perguntou.
― Absoluta. Obrigada a você, Romeu, por ter vindo até aqui trazer isto.
― De nada. ― o moreno sorriu. Entendia o porquê de seu amigo gostar tanto daquela garota. Em poucos minutos de conversa ele já a achava simpática. E muito bonita. ― Bem, eu preciso ir agora.
― Tudo bem.
Lucy sorriu e fechou a porta quando Romeu se virou. Olhou para a rosa e a levou até o seu nariz, sentindo seu doce odor. Definitivamente sorriu. Uma rosa não mudaria em nada sua opinião. Mas junto com aquela rosa estava carregado o sentimento. E esse sim tinha um pouco mais de poder.
Levy apareceu no corredor quando ouviu o som da porta se fechando.
― Quem era, Lu-chan? ― a baixinha não deixou de notar a flor que Lucy carregava, mas não a questionou sobre isso.
― Ninguém, não se preocupe. ― a loira não queria entrar em detalhes, portanto achou aquela resposta a mais prática. ― Levy-chan, muito obrigada pelo tempo que me deixou ficar aqui.
― Por que está dizendo isso? Vai embora? ― Levy a questionou.
― Eu preciso de um tempo. Longe de tudo. Longe dele, principalmente. Preciso pensar melhor a respeito das coisas. Eu amo aquele idiota, Levy-chan. Queria não amar, mas amo, e preciso pensar se esse amor realmente vale a pena, porém não vou conseguir fazer isso tendo ele tão perto de mim, me deixando tão confusa. Eu recebi uma ligação de um dos sócios do meu pai pedindo para que eu retornasse a Nagoya assim que possível há algum tempo, para cuidar dos negócios. Acho que essa é uma boa hora para aceitar esse pedido.
Levy deu um sorriso triste, correndo para abraçar a amiga.
― Por quanto tempo irá ficar longe?
― Eu não sei ainda. Um bom tempo, acho.
― Lu-chan, irei sentir tanto a sua falta.
― Também irei sentir sua falta, Levy-chan. Vou embora amanhã, se tudo correr como espero.
Aquele tempo era necessário. Ao menos na mente de Lucy.
***
Assim que viu Romeu voltando, Natsu se animou. Não deu nem ao menos tempo para o garoto se sentar antes de fazer a pergunta que tanto lhe perturbava:
― O que ela disse?
― Não disse nada. ― a empolgação de Natsu morreu, e Romeu notou isso. ― Mas eu juro que vi um sorriso quando ela pegou a rosa. Acho que você tem chances com essa sua amiga, Natsu.
O rosado sorriu novamente.
― Tomara que você esteja certo, Romeu.
“Gonna take a little time(take a litlle time)
A little time to look around me (ooh)
I've got nowhere left to hide (nowhere left to hide)
It looks like love's finally found me (oooh)”
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