Onde Tem Ódio Tem Amor
70 For the last time
Notas iniciais
Sua cabeça ainda latejava, contudo boa parte do desconforto já havia passado. Não precisou sequer abrir os olhos para saber que não estava de fato acordado, mas sim preso em seu subconsciente, dentro do universo “dele”. Conhecia aquela sensação bem demais para confundi-la, sabendo o suficiente para não se sentir aliviado por ter conhecimento de onde estava. Ao contrário, sentia medo. Medo por não saber que tipo de pesadelo o esperaria assim que abrisse os olhos.
Antes de checar usando a visão como era o lugar fictício em que se encontrava, procurou primeiro examinar seus outros sentidos. Quanto ao tato, o que pôde concluir fora que estava ajoelhado em uma superfície fria, lisa e dura; sentia seus pulsos presos por algo gelado, como ferro, talvez correntes, pois era capaz de movê-los apenas de forma restrita; seus calcanhares também estavam presos, mas pouco podia sentir, estando ajoelhado. Já a respeito do olfato, o cheiro que sentia parecia ser de enxofre, como se houvesse algo queimando não muito longe dali. Dava-lhe náuseas. A audição não pôde lhe dizer nada, pois o lugar era extremamente silencioso.
Sentindo seu coração palpitar mais rápido devido ao medo, e consciente de ao menos parte do que lhe esperava após examinar cautelosamente os sinais, Natsu tomou coragem para abrir, lentamente, os olhos. O local em que estava dessa vez era completamente aberto, não dando-lhe nenhuma noção de qual poderia ser seu tamanho. Também era escuro, como se nenhuma esperança residisse ali, apesar de ainda poder enxergar alguns metros à frente, graças a uma única luz que iluminava o local onde estava. Estava certo a respeito das correntes, elas o prendiam ajoelhado a um chão que aparentava ser de mármore claro, limitando demais seus movimentos. Estava frio, muito frio, apesar do cheiro sugerir fogo bem perto dali.
Nunca estivera ali antes, em nenhum de seus outros pesadelos. Era completamente novo, e talvez por isso ainda mais assustador. Sem ter nenhum conhecimento sobre o que lhe esperava, que tipo de tortura lhe aguardava, seu temor dobrava. Que tipos de truque o Koschevich usaria dessa vez? Já brincara com seus pais, com Lucy, estava começando a ficar esgotado de ideias, pois Natsu não sabia o que mais ele poderia usar para feri-lo, sendo aquelas praticamente as únicas coisas que lhe importavam. Talvez dessa vez utilizasse Gray.
Perdera a noção de quanto tempo ficara acorrentado ali, congelando de frio, quando o cheiro de enxofre e, agora que podia sentir mais nitidamente, carne queimada aumentava de intensidade. Estava chegando mais perto de si, a cada segundo ficando mais forte, deixando-o mais nauseado e fazendo-o ficar cada vez mais atento para o que quer que estivesse prestes a enfrentar. Foi então que ele entrou em seu campo de visão, e a sensação foi de desespero, pensou que morreria apenas por olhar para aquela criatura. Seu corpo congelou, não mais por causa do frio, mas pelo temor. A cada passo que ele dava, parecia um passo mais perto da morte.
Natsu queria correr e sair daquele lugar o mais rápido que pudesse. Talvez fosse aquele o objetivo das correntes, impedir que conseguisse correr. De qualquer forma, mesmo se não estivesse preso, duvidava de que fosse conseguir fugir, seu corpo estava paralisado. Talvez apenas a cena que vira quando criança dos dois corpos carbonizados, pertencentes aos seus pais, quando morreram no incêndio, a cena que demorou anos para sair de sua mente e que às vezes ainda invadia seu subconsciente para aterrorizá-lo conseguia ser mais apavorante que o Koscheivich.
Seu corpo inteiro estava em carne viva, não havia praticamente pele. A aparência era de algo que derretia, despedaçando-se aos poucos. A criatura mancava, já que em sua perna esquerda restava apenas o osso. Suas mãos pareciam garras, com suas unhas afiadas. Mas o mais aterrorizante era seu rosto. Uma de suas órbitas consistia em apenas um buraco vazio, enquanto o outro olho possuía uma coloração inteiramente branca. O lugar onde deveria estar sua boca era apenas um rasgo disforme, deixando a mostra constantemente dentes pontiagudos.
O Koscheivich mostrou o que parecia ser o esboço de um sorriso quando se aproximou mais de Natsu. Ver o quanto o medo havia paralisado Dragneel o divertia muito, em um lugar cujo raramente encontrava diversão. O garoto pensou que as coisas não poderiam ficar piores. Descobriu que estava errado quando ouviu a voz da criatura, mil vezes mais aterrorizante do que a que costumava escutar em sua mente. Sua boca não se movia e o som parecia vir de todos os lugares. Apesar de ver o Koscheivich bem à sua frente, a sensação que tinha era de que ele estava em cada direção. Atrás de si, em ambos seus lados, na sua frente, absolutamente em tudo.
— Com medo, Dragneel? — sua voz assemelhava-se ao sibilo de uma cobra, deixava cada centímetro do corpo de Natsu arrepiado. — Isso é o resultado de anos sofrendo torturas, apenas por ser filho do meu pai.
Não sabia como ou de onde havia tirado forças para responder, mas conseguiu.
— E por isso decidiu passar o resto da sua vida atormentando outras pessoas?
Novamente, o Koscheivich pareceu rir. Era difícil ter certeza, devido à sua face extremamente desfigurada.
— É justo, não acha? Nunca mereci isso. Nunca fiz nada que justificasse as torturas do passado. Estou apenas pegando de volta o que foi tirado de mim: uma vida.
— Uma vida? — o medo o consumia por dentro, contudo, tentava parecer confiante por fora. — Ao que eu sei, foi bem mais do que apenas uma vida.
— Alguns juros foram adicionados à conta. Nada de mais.
O Koscheivich parou de falar. Andava de um lado a outro, apreciando o momento, deleitando-se com o medo quase palpável que rodeava Natsu. Em sua infância, era temido sem razão. Agora dera às pessoas o que faltara antes, um motivo para tremerem por sua vida perante si.
Natsu esperou por alguma explicação, porém nenhuma veio. Então, decidiu ele mesmo acabar com o suspense.
— Por que me trouxe aqui?
O monstro parou de andar, pondo-se a observar diretamente o garoto outra vez.
— Sabia que nunca havia feito algo assim antes, Dragneel? Nunca havia me mostrado. Você sabe com certeza que eu e você podemos sentir minhas outras partes em outras pessoas, é assim que pode distinguir um hospedeiro de um humano comum. As partes estão interligadas, e nenhuma delas jamais o fez também. É algo completamente inédito.
— Então por que você decidiu fazer? E por que começar por mim? — o rapaz perguntou, sua voz oscilando.
— Porque você também não é como os outros, e porque também fez algo inédito — Natsu não compreendia. Não sabia a que ele estava se referindo. — Você invadiu minhas lembranças, Dragneel. E eu quero saber como.
Sua mente clareou por um instante, para logo depois voltar a se tornar um borrão, pois, ao que se lembrava, não era o único.
— Não fui apenas eu. A mesma coisa aconteceu com Alexei.
— Não, com Alexei foi diferente. Ele cedeu à pressão antes que pudesse ver qualquer coisa. Ele era fraco. Você não, você viu e sentiu. Como? É isso o que quero descobrir.
Natsu pensou em lhe dar a verdadeira resposta: não fazia a menor ideia de como fizera aquilo. As memórias simplesmente surgiram em sua mente. Mas então pensou um pouco melhor. O Koscheivich dissera que nenhuma parte sua jamais havia mostrado sua verdadeira forma ao hospedeiro, e isso deveria significar que ele revelar-se apenas para conseguir aquela informação tinha grande importância. Ele não o faria se não tivesse. O que poderia demonstrar que o acesso às memórias da criatura levariam a uma fraqueza, por isso ele iria querer saber como Natsu fizera, para poder se defender. Contudo, se Natsu lhe desse a dúvida, não o deixasse saber a verdade, aquilo poderia ser uma vantagem contra o monstro. Se revelasse a verdade perderia essa vantagem.
De repente, outra coisa lhe ocorreu. Não precisava ter medo, pois o Koscheivich jamais o machucaria, estaria prejudicando a si próprio se o fizesse. O objetivo do monstro o tempo todo era influenciar Natsu a entregar seu corpo para ele. Precisava do recipiente, de preferência intacto. Talvez pudesse até feri-lo, mas não provocaria nenhum dano profundo, já que dessa forma prejudicaria seu próprio possível futuro corpo. E assim, Dragneel ganhou confiança para entrar em um jogo contra a coisa que lhe perturbava já há um bom tempo.
— Por que quer tanto saber? — perguntou, dessa vez com mais firmeza em suas palavras.
— Não importa. Apenas me diga como.
— Por que simplesmente não entra na minha mente e consegue sua resposta? — aquela questão martelava na mente de Natsu. Supostamente o Koscheivich deveria saber tudo o que se passava em sua cabeça, então por que ele não conseguia saber como o garoto invadira suas memórias?
— Não é tão simples quanto pensa — a criatura respondeu, sua voz ecoando e quase quebrando a pouca confiança que Natsu havia conseguido. — Há coisas que não consigo ver em sua mente, tanto quanto há coisas na minha que você não deveria conseguir ver. Mas de alguma forma você quebrou esse muro.
— Bom, se consigo quebrar o seu e você não consegue quebrar o meu, acho que sabemos qual de nós é o mais forte.
Natsu fora longe demais. Provocara o monstro o suficiente para irritá-lo. De certa forma, o Koscheivich gostava daquilo, e gostaria ainda mais da expressão do rapaz após fazer o que tinha em mente. Vagarosamente caminhou até ele, com o esboço de um sorriso na face. Elevou sua mão até a cabeça de Natsu, pressionando seus dedos no crânio de Dragneel, causando-lhe dor sem feri-lo.
— Tem certeza disso, Dragneel? Se gostou tanto de invadir minhas lembranças, por que não me deixa lhe dar mais uma amostra delas?
Foi como se o cérebro de Natsu tivesse entrado em combustão. Em um segundo estava ali, no outro encontrava-se nos aposentos de uma casa muito antiga, no corpo de uma criança. Não controlava seus movimentos, nem suas falas. Tudo o que podia fazer era ver e sentir. Havia um homem vindo em sua direção com uma faca em mãos e uma mulher chorando do outro lado do cômodo enquanto observava a cena.
— Não faça isso, Ivan. Ele ainda é meu filho — falavam em outra língua, a qual Natsu deduziu ser russo, e, mesmo que não soubesse sequer uma palavra, conseguia entender tudo. Sem que tivesse ordenado, seu corpo o fez andar para trás. Sentiu que ele chorava, aterrorizado, sentindo a morte se aproximar cada vez que Ivan dava um passo.
— E também filho de um monstro. Eu preciso, Marya. Convenci a todos que deveriam esperar pelo nascimento apenas para que pudesse poupar sua vida. Não há mais como adiar, ele precisa morrer antes que seja tarde. Não tente se enganar, ele também é um monstro. Veja isto, com uma semana de vida tem a aparência de uma criança de sete anos.
Natsu havia percebido assim que ouviu os nomes. Aquelas eram as memórias do Koscheivich, estava no corpo da criatura em sua infância, como acontecera quando Alexei lhe contou toda a história, só que agora com mais clareza. Sentia tudo o que ele sentira naquela época, todo o pavor, chegando até a sentir pena do monstro, e percebendo que estava errado. Se pudesse usar as memórias do Koscheivich como arma, ele próprio não as teria mostrado.
Suas costas bateram na parede, não havia mais para onde fugir. Ivan se aproximava, segurando o cabo da faca de caça com firmeza, um pouco hesitante, talvez pelo pedido de Marya e pela inocência que a criança, a qual sequer havia aprendido a falar ainda, aparentava. Precisava convencer a si mesmo de que ele era um perigo a todos. Então, reunindo toda sua convicção em seu punho, cravou a faca no estômago da criatura.
Dragneel sentira aquela dor, sentira o metal penetrando em sua carne, sentira o pressentimento do Koscheivich de que a morte se aproximava a cada instante. Contudo, aquela era uma faca comum. A morte não o visitou naquele dia, nem em nenhum após aquele. Tal como o pai, ele era imortal. Poderia ser ferido, mas não morto.
Assim que a dor amenizou, ele fugiu daquela casa, aproveitando-se do choque que sua sobrevivência causara a Ivan e Marya. Segundo a lenda, o Koschei era imortal apenas por ter escondido sua alma em uma agulha, dentro de um ovo, dentro de um pato, o pato dentro de uma lebre guardada em uma caixa enterrada sob uma árvore verde do carvalho, ninguém jamais imaginaria que seu filho herdaria a mesma habilidade.
As memórias seguintes passaram-se rapidamente. Basicamente, mostraram os tempos em que o Koscheivich fugiu e se escondeu enquanto as pessoas o caçavam. Temido e revoltado, causava pânico entre as pessoas após ter desenvolvido gosto por carne humana. Os que tentavam caçá-lo, acabavam em seu estômago, até o dia em que alguns caçadores mais habilidosos conseguiram prendê-lo. O trouxeram de volta à vila, onde as pessoas tentaram pôr fim à sua existência ateando-lhe fogo, o que lhe deixaria marcas pelo resto da vida.
A próxima e última memória mostrou a Natsu o último dia do Koscheivich como era conhecido até então, quando fora outra vez capturado e atingido pelo feitiço desenvolvido por Baba Yaga, o qual deixara seu corpo literalmente em pedaços.
Dragneel sentiu cada uma daquelas dores intensamente, como se tudo acontecesse com ele próprio. Quando voltou a seu próprio corpo, sua cabeça explodia de dor e percebeu que suava frio. Seus sentimentos com relação ao Koscheivich eram diversos. Medo, compaixão, pena, pânico. Sua vida fora marcada por fatos terríveis, mas que ainda assim não justificavam suas ações.
Entendeu o motivo que o levara a querer tanto descobrir como Natsu conseguira invadir suas memórias. Aquelas eram coisas pessoais, eram o que sobrara de sua existência, lembranças que lhe diziam o que ele era, e portanto incompartilháveis.
— Divertiu-se o suficiente? — o monstro perguntou, afastando-se. Natsu não conseguia responder, seu corpo inteiro doía intensamente, impedindo sua mente de formular uma resposta. — Pronto para me contar o que eu quero?
Independente da dor, e por mais que fosse inútil manter aquilo guardado, Natsu continuou escondendo suas informações.
— Vai ter que fazer melhor do que isso — respondeu, provocando-o com um sorriso sarcástico.
Após um momento de surpresa, o Koscheivich riu.
— Quanta coragem... É uma pena que seja apenas encenação. Bem, de qualquer forma, imaginei que fosse dizer algo do tipo. Conheço você melhor do que ninguém poderia jamais conhecer, Dragneel. Nem mesmo... ela.
A área iluminada aumentou, revelando alguns metros à frente de Natsu uma pessoa ajoelhada e adormecida, alguém que ele reconheceu imediatamente. Lucy. O pânico o consumiu ainda mais, misturado com a dor que continuava torturando-o. Tentou convencer a si mesmo de que não era real, não era realmente ela quem estava ali. Isso seria impossível. Mas, ainda assim, sentiu seu coração acelerar devido ao medo.
— Não pode fazer nada a ela.
— Tem certeza disso? — o monstro se aproximou, deslizando sua unha pelo lado direito do rosto de Natsu, ferindo-o tanto em sonho quanto fisicamente. — Se posso fazer isso em você, o que lhe garante que não posso fazer nada com ela?
— Você está conectado a mim, mas não tem ligação nenhuma com a Lucy.
O Koscheivich riu, andando em direção à loira, deixando que os fios do cabelo de Lucy escorregassem por entre seus dedos.
— Você acha que sabe muita coisa sobre ela, porém a verdade é que não sabe tanto quanto pensa.
— Por que? O que você sabe sobre ela? — Dragneel questionou.
— Talvez possamos fazer uma troca de informações, o que acha?
— Não... — Natsu respondeu, poucos segundos depois. — Está blefando.
— Bem, então boa sorte em descobrir sozinho. Apenas direi que será uma sensação inesquecível me alimentar de sua querida Lucy quando tomar o controle do seu corpo. Tenha certeza de que apreciarei muito.
— Lucy... — ele a chamou, seu tom de voz não mais escondendo seu medo. Queria fazer alguma coisa, afastar o Koscheivich de perto dela, mesmo que não fosse real, mas as correntes o impediam de se mexer, e aquilo o deixava em desespero.
Então tudo desapareceu. O Koscheivich, Lucy, o lugar, tudo se foi, dando lugar a uma breve claridade que o acalmou instantaneamente, antes de cair no sono. Dessa vez, sem nenhum pesadelo.
***
A primeira coisa que viu quando abriu os olhos foi Gray sentado em uma cadeira ao lado da cama, usando o celular. Tentou se mover, mas seu corpo inteiro ainda doía, sem contar a terrível dor de cabeça que não desaparecera.
— Até que enfim você acordou — o moreno comentou assim que percebeu que Natsu havia despertado.
— Por quanto tempo eu fiquei desacordado? — Com um pouco de esforço, conseguiu se sentar na cama.
— Algumas horas. E você deveria me agradecer. Tive que te dar um banho e, acredite, não foi uma experiência agradável.
— Lucy esteve aqui? — a pergunta repentina deixou Gray sem reação. Ficou dividido entre responder a verdade ou atender ao pedido da loira de não dizer que ela o havia encontrado.
— Por que acha isso?
— O ar. Está com o cheiro do perfume dela — era uma meia verdade. Realmente sentia de forma muito fraca o perfume que costumava usar, mas sua pergunta vinha da sensação de tê-la visto quando acordou do pesadelo, apenas não queria dizer aquilo para Gray.
O moreno arqueou as sobrancelhas, tentando em seguida captar o cheiro, sem conseguir sentir nada.
— Que espécie de pessoa é você que consegue sentir o cheiro da namorada após ela ter ido embora já há um bom tempo?
— Então ela esteve aqui — Gray permaneceu em silêncio, percebendo que havia dado uma resposta sem querer. — Como ela estava?
— Como deveria estar? Você apagou no meio da rua com o corpo praticamente parecendo uma fogueira. Estava preocupada, e aparentemente sem dormir há dias — Natsu aguardou por mais informações. — Fiquei com pena dela, devia ter visto o estado em que saiu daqui. Quase não a deixei ir embora. Ver você acabou com ela, cara.
Dragneel não sabia se ficava devastado por saber que causara tanto mal a Lucy, ou se sentia-se feliz por saber que ela se preocupou, o que significava grande coisa. Tomado por um impulso repentino, tentou se levantar, porém Gray o impediu.
— Preciso falar com ela.
— Eu concordo, realmente precisa. Mas não hoje. Se tentar sair dessa cama hoje não vai conseguir chegar nem ao corredor, Natsu. Nenhum de vocês vai morrer por esperar até amanhã.
— Amanhã é segunda, eu tenho que trabalhar — o garoto protestou.
— Então espere até a noite.
Natsu ainda tentou insistir, mas por fim Gray acabou ganhando a discussão. O dia seguinte pareceu ser interminável. As horas nos relógios o deixavam impaciente, contando os segundos até que chegasse a noite e pudesse enfim resolver seus assuntos, preparando suas falas o máximo que podia em sua mente. E, quando o fatídico momento enfim chegou, no instante em que Levy abriu a porta, sua ansiedade e temor atingiram o limite.
— Hey — a cumprimentou. A pequena, surpresa pela visita inesperada, lhe deu um sorriso esperançoso e o pediu que entrasse e esperasse na sala, sem sequer perguntar o motivo pelo qual ele havia aparecido. Não era necessário, ela já sabia.
Talvez o momento mais longo do dia tenha sido aquele, talvez até mesmo mais interminável do que qualquer outro em sua vida. Esperar por Lucy naquela pequena sala, em pé em frente ao sofá, impaciente demais para esperar sentado por aquele momento que provavelmente decidiria uma parte importante de seu futuro. E quando a viu, descendo as escadas, aparentemente sem saber que sua visita era ele devido à expressão de surpresa e choque em seu rosto, pensou que seu coração fosse parar, sendo obrigado a suprimir o desejo de prendê-la em seus braços e nunca mais deixá-la escapar.
Bem diante de seus olhos, ao mesmo tempo tão próximos e tão distantes, ambos prestes a desmoronar, sem mais nenhum lugar para se esconder. Apenas os dois. Talvez pela última vez juntos, talvez pela última vez separados, num momento tanto aguardado quanto temido.
— O que está fazendo aqui? — a loira perguntou, descendo o último degrau, sua voz por pouco não falhando.
Por mais que ele também quisesse evitar aquela conversa e, se possível, pular para a parte em que voltavam a ser como antes, reuniu o máximo de coragem que conseguiu e respondeu:
— Acho que precisamos conversar.
Fale com o autor