Onde Tem Ódio Tem Amor
75 But loving him was red
Notas iniciais
Antes das brigas estava acostumada a dormir ao lado de Natsu e, portanto, sabia que por alguma razão que desconhecia seu corpo emitia mais calor do que qualquer outra pessoa que já havia conhecido. Contudo, naquela fria manhã, quando o barulho da chuva fina que caía lhe despertara, percebera que Natsu encontrava-se ainda mais quente do que o normal.
Sentou-se no colchão, colocando sua mão sobre a testa dele, ouvindo-o murmurar e se remexer na cama. Como pensava, estava muito provavelmente febril.
— Eu estou bem — ele resmungou sem abrir os olhos, sua voz rouca.
— Não parece nem um pouco bem — Lucy respondeu. — Há quanto tempo você está acordado?
— É só um resfriado. Algumas horas, acho.
— Por que não me acordou?
Natsu sorriu de canto, ainda de olhos fechados.
— Não queria te acordar. Gosto de te ver dormindo, e ultimamente não tenho tido muitas oportunidades para isso.
Lucy bufou. Bom, ao menos descobriu outra coisa que nunca mudaria, a teimosia de Natsu.
— Devia ter me acordado, você está queimando, Natsu. O que está sentindo?
— Nada de mais, já disse. Estou perfeitamente bem.
Não exatamente uma verdade, mas a verdade era algo que não poderia contar a Lucy. Estava inquieto, quente além do normal e sua cabeça doía. O único sintoma novo era uma irritante dor de garganta, porém, fora ela, todos os outros se encaixavam em uma situação pela qual já havia passado e não queria passar outra vez, conhecida como “ataque de Koscheivich”, nome dado por ele próprio. Tivera um pesadelo durante a noite, não tão intenso quanto normalmente, mas, ainda assim, fortificava sua teoria. Achava que o monstro estava se aproveitando de um possível resfriado para tentar invadir sua mente outra vez. As dores não o incomodavam. O medo, contudo, sim.
— Não respondeu minha pergunta.
— É só um resfriado, Lucy. Apesar de eu adorar sua preocupação comigo, não precisa se preocupar — retrucou, finalmente abrindo os olhos, incomodados pela luz que atravessava a janela.
— Isso deve ter acontecido por causa do mergulho no riacho ontem, estava frio demais. Sabia que isso seria um problema — a loira respondeu, ignorando a segunda sentença. — Você fica doente muito fácil, Natsu.
— Eu sou frágil. Preciso de cuidados especiais.
Lucy riu.
— É claro.
— Mas, sabe, não me arrependo da diversão no riacho. Valeu a pena.
— Aparentemente essa diversão vai te fazer ficar de cama por algum tempo.
— E não dá para ter certeza se foi isso mesmo que causou o resfriado. Está fazendo muito frio ultimamente.
— Isso é só você tentando arranjar desculpas.
— Eu posso estar certo.
— E pode estar errado.
— Vamos ficar com o “eu estou certo”, ok? — Natsu encerrou, sentando-se no colchão.
— Vamos fingir ficar com o “você está certo” — Lucy respondeu, sorrindo.
— O que você preferir.
— Acho que estamos sem nenhum remédio para gripe aqui — comentou. — Vou precisar ir à farmácia comprar alguns.
A loira tentou se levantar, porém uma mão segurando seu punho a impediu.
— Não... me deixe sozinho — Lucy arqueou as sobrancelhas, estranhando o comportamento. A recente separação talvez pudesse ter algo a ver com isso, mas duvidava que mesmo aquele motivo levaria Natsu a agir daquela forma. Lembrava-se, porém, das noites em que ele tinha maus sonhos, quando sempre lhe pedia para não se afastar.
— Teve um pesadelo?
Ele suspirou.
— Parece ridículo para alguém da minha idade ter medo de ficar sozinho por culpa de um pesadelo, mas é. — além do mais, não eram exatamente os pesadelos o problema, mas quem os causava.
— Não se preocupe, a farmácia é perto daqui, não vou demorar.
Hesitante, Natsu a soltou.
— Lembra uma vez quando fiquei doente, você disse que iria à farmácia e demorou mais de uma hora?
— Não vou fazer isso. Além do mais, eu já precisava mesmo ir para comprar algumas coisas.
— Tudo bem — o garoto respondeu, com a cara fechada. Lucy riu. Se tivessem filhos algum dia e eles fossem parecidos com o pai estava perdida. O pensamento, apesar de divertido, a fez lembrar que ultimamente o assunto filhos andava lhe trazendo muita dor de cabeça.
Sozinho no quarto, sem conseguir respirar direito e estranhamente sentindo frio, Natsu começou a pensar no que poderia fazer para matar o tempo enquanto esperava por Lucy. Pegou o celular novo e procurou pelo número de Leslie, precisava esclarecer algumas dúvidas e tinha mais intimidade com a ruiva do que com Alexei. Além do mais, seu relacionamento com seu tutor não andava muito bom desde a descoberta por parte dele de que Natsu dormia com sua irmã. Alexei era definitivamente o tipo de irmão extremamente protetor, por mais que tivesse sido criado longe de Lucy. A possibilidade do garoto colocá-la em perigo o fez criar certa antipatia por Natsu, mesmo que ainda nutrisse empatia pelo rapaz devido ao fato de serem tão parecidos. Por esses motivos, preferiu mandar a mensagem para Leslie.
“Pergunta rápida: Koscheivichs gostam de resfriados?”
Poucos segundos depois a resposta veio:
“Nunca vi um deles resfriado, mas provavelmente não. Quem gosta de estar resfriado? Ok, falando sério, por que a pergunta? Está resfriado e sentindo as coisas que... bom, nós sentimos?”
“Yep”
“Uma doença debilita nosso sistema, então provavelmente sim, ele pode estar querendo se aproveitar. Just keep your eyes open, Dragneel”
“Ótimo, não posso nem mais ficar doente em paz”
“É, eu sei, ser um hospedeiro é um saco, não é?”
“Com certeza”
Largou o celular sobre o criado mudo e bufou. Queria se distrair, ficar deitado o deixava ainda mais inquieto, porém, com cada centímetro do seu corpo dolorido, também queria apenas conseguir voltar a dormir. Esperar por Lucy foi uma tortura, espantada com alívio quando ela atravessou a porta carregando uma sacola e um copo com água, depois de aproximadamente quinze minutos após ter saído.
— Cumpri minha promessa — disse, sentando-se na cama e lhe entregando a sacola e o copo. Natsu franziu as sobrancelhas ao olhar o conteúdo da sacola e encontrar além dos comprimidos para gripe um teste de gravidez.
— O que é isso? Você não está grávida também, não é? Porque uma gravidez por vez é suficiente — comentou, em tom de brincadeira.
— Então tudo bem quando a pessoa grávida é sua ex-namorada, mas quando é a atual você encara como um problema? Interessante.
— Estava brincando, Lucy — se apressou em falar, sentando-se outra vez na cama. Odiaria que o clima bom entre os dois acabasse por conta de uma brincadeira, mas relaxou quando viu o sorriso de canto no rosto da loira. Ela também estava brincando. — Pra quê comprou isso?
— Para Lisanna. Você irá fazê-la realizar esse teste. Não tem como ela forjar um teste de farmácia, ainda mais com você acompanhando o processo.
— Eu vou? — perguntou.
— A não ser que queira voltar a dormir no sofá.
— Eu vou.
— Quero acabar de uma vez com essa história — comentou, sentindo uma inquietação causada pelo medo. Fosse qual fosse o resultado, o melhor era descobrir a verdade.
— Eu sei, eu também — e como queria. Talvez conseguisse um pouco de paz depois de comprovar que Lisanna mentia. Já tinha problemas suficientes para uma vida inteira. Literalmente. Pegou um dos comprimidos e ingeriu com a água, sentindo sua garganta doer quando o líquido desceu. — Lucy, você já pensou em ter irmãos?
A loira estranhou a pergunta tão aleatória e repentina.
— Não, na verdade. E nem tem por quê pensar, já que nunca vai acontecer.
— Eu tinha uma irmã — comentou. Lucy se atentou às palavras. Natsu nunca mencionara aquilo antes.
— O que aconteceu com ela?
— Nem cheguei a conhecê-la, era mais velha. Meus pais me contaram que ela morreu pouco depois de nascer, segundo os enfermeiros. Só que minha mãe jurava que o bebê que eles entregaram não era minha irmã.
— Acha que ela pode não ter morrido?
— Não sei, talvez. Mas bebês são todos iguais para mim. Pode ser que minha mãe tenha só se confundido.
A história a deixou intrigada. Imaginou se Natsu não tinha vontade de procurar pela irmã, tentar encontrá-la. Sabia que se soubesse da possibilidade de um membro da sua família estar vivo iria procurá-lo. Todos seus parentes estavam mortos.
— Por que me contou isso agora? — estavam juntos há um bom tempo, ele poderia ter dito antes.
— Penso nisso às vezes. Não sei, só senti vontade de contar.
— Tem a ver com o pesadelo que você teve?
— É, tem — mentiu. Tinha a ver com Lucy, na verdade, mas obviamente não poderia dizer isso.
— Por que você não tenta descobrir o que aconteceu mesmo, Natsu? Eu poderia te ajudar.
— É uma coisa antiga demais. Não acho que vale a pena desenterrar isso agora.
— Sinceramente, acho que nunca seria tarde demais para encontrar a verdade. Mas, bem, a decisão é sua — a loira se calou por alguns segundos, analisando o rosto pensativo de Natsu. Tentou imaginar uma versão feminina dele, vê-lo crescendo ao lado de uma irmã com a mesma personalidade, mentalizou o pequeno Natsu disputando os brinquedos. Era adorável demais. Talvez fosse gostar de ter uma cunhada, como uma irmã que nunca tivera. Observando-o, sua mente voltou para a realidade, quando notou uma pequena mancha vermelha no lado esquerdo do peito de Natsu. — O que é isso?
Ela colocou a mão sobre o ponto vermelho, e ele colocou sua própria mão sobre a dela. O contato fazia sua pele arder. Lembrava-se daquela marca, ganhou-a no dia em que descobrira a verdade sobre o Koscheivich, foi onde se concentrou a maior parte da dor que sentiu.
— Não é nada, provavelmente só uma picada de inseto ou coisa do tipo.
A loira notou a inquietação em sua voz, percebeu que havia algo errado. Ele se concentrou na sensação provocada pelo toque dela naquele ponto especifico. Era quase como se ela e o Koscheivich pudessem estar conectados daquela forma. Sentia a troca de energia dela para ele, por mais que imaginasse que Lucy não conseguisse perceber também.
— Às vezes parece que você esconde coisas de mim, Natsu — comentou, fazendo-o voltar sua atenção para ela. — Tenho medo disso, de que acabe afastando a gente cada vez mais.
— Eu não estou escondendo nada, prometo — sentia-se mal por mentir daquela forma, mas fazia-o para protegê-la. Tentou se consolar convencendo-se disso.
— E eu quero acreditar. Estou tentando confiar em você. Tentando muito, por mais que ache em alguns momentos que é burrice fazer isso. Então, por favor, me convença de que estou errada.
— Pode confiar em mim, Lucy — ele se aproximou, encostando seus lábios nos dela, sem deixar que ela tirasse a mão do lado esquerdo do seu peito, propositalmente, para que ela pudesse sentir sua frequência cardíaca aumentando. — Se não em minhas palavras, em meu coração.
Lucy levou sua mão livre à nuca de Natsu, puxando-o de volta para o beijo. Se pudesse, se prenderia neles para sempre. Os beijos de Natsu estavam inclusos na sua lista de melhores coisas do mundo. A vida parecia mais simples, os problemas pareciam sumir, a realidade se tornava distante. Era um calmante natural, e por isso a possibilidade de perdê-lo lhe apavorava tanto.
— Você vai acabar ficando doente também — ele comentou quando se afastaram.
— Eu não ligo — a loira franziu a testa. — Não ligo em ficar doente por beijar você. Em que tipo de pessoa você me transformou, Dragneel? Isso não é saudável. Quer dizer, literalmente não é.
Natsu sorriu.
— Na saúde e na doença. Não é lindo o quanto somos unidos? — comentou, sarcasticamente.
— Primeiro, não somos casados.
— Ainda.
— Segundo, é, com certeza vai ser lindo quando nenhum dos dois conseguir sair da cama.
— Quem disse que eu ia conseguir te deixar sair daqui de qualquer jeito? — como nos velhos tempos. Contanto que o nome “Lisanna” não entrasse na mente de nenhum dos dois, estariam bem, Lucy concluiu. Infelizmente, não poderiam fugir dele para sempre.
***
Já era fim de tarde, estava na cozinha preparando um chá de alho para ajudar com o resfriado de Natsu, sem que ele soubesse, obviamente, porque se descobrisse jamais iria querer tomar, às vezes Dragneel conseguiu ser ainda pior que uma criança, quando o celular dele tocou. Prestou atenção apenas nas falas de Natsu, tentando deduzir do que se tratava.
— Sim, é ele... Entendo... Não, tudo bem, estou indo.
Quando desligou, passou-se um segundo com o garoto olhando para o nada, antes de perceber o olhar ansioso no rosto de Lucy.
— Quem era? — a loira perguntou, sem aguentar esperar mais.
— Do hospital. Aparentemente Lisanna sofreu um acidente grave — a surpresa estava estampada no rosto de Lucy. — Eu sei que não é muito justo com você, mas será que pode vir comigo? Eu meio que estou com medo, porque, bom, você sabe, algo pode ter acontecido com o bebê, se é que ele existe.
Não podia negar que ela também sentia medo, e de forma alguma deixaria de acompanhar Natsu. Parecia, afinal, que havia comprado o teste inutilmente.
— Claro, sem problemas.
O caminho todo até o hospital foi silencioso, carregado de tensão. Nem a música que tocava no rádio do carro ajudava a dispersar os pensamentos de ambos. As duas possibilidades passeavam por suas mentes. Se fosse mentira, seria ótimo. O problema seria a verdade. A conversa amigável de mais cedo, os beijos ternos, tudo poderia acabar em questão de minutos quando pisassem naquele hospital.
— Nervosa? — Dragneel perguntou quando puxou o freio de mão do carro, ao chegarem.
— Talvez. Um pouco. Muito. Ei, talvez você pudesse aproveitar e se consultar também, boa coincidência ter que vir ao hospital quando está resfriado, economiza a viagem — comentou brincando, tentando amenizar o clima.
— Não, acho que não é necessário.
— E você, está nervoso?
— O que, para saber como será minha vida daqui em diante? É, talvez. Bom, vamos acabar logo com isso. Rápido e de uma vez.
— Que a sorte esteja a nosso favor.
Lucy nunca gostara de hospitais. Achava o ambiente pesado demais, ainda que intrigante. Imaginava quantas histórias começavam e terminavam entre aquelas paredes, quantas pessoas diferentes passavam por ali a cada dia, cada uma com um peso diferente a carregar. Sentou-se em uma das cadeiras da recepção, enquanto Natsu pedia informações sobre Lisanna. A recepcionista pediu para que aguardasse enquanto chamava o médico responsável.
Ele não tardou a vir, explicando a situação da moça, dizendo que ela aparentava estar fora de risco, consciente, com alguns ossos quebrados e esperando para realizar outros exames. Informou também o número do quarto e disse que se quisessem poderiam visitá-la, mas não mencionou a informação mais importante para o casal.
— E quanto ao bebê? — Natsu perguntou. O médico pareceu confuso.
— Que bebê?
Para Lucy a pergunta era mais do que suficiente para sentir um alívio tão grande que mal pode permanecer em pé. Contudo, o garoto precisou confirmar o que ouvira, e sua reação definitivamente não fora como a esperada.
— Lisanna não está grávida? — havia alívio em sua voz sim, mas havia também raiva. Muita raiva.
— Não, a senhorita Strauss não está grávida, posso afirmar com 100% de certeza.
— Em que quarto o senhor disse que ela está mesmo?
— 214.
— Natsu? — a loira o chamou.
— Lisanna pode ter sobrevivido a esse acidente, mas definitivamente não vai sobreviver a mim.
Antes que pudesse chamá-lo outra vez, ele já havia se posto a correr pelos corredores até o quarto da albina. Nada pôde fazer além de seguir os seguranças que dispararam atrás de Dragneel, agarrando-o no exato segundo em que ele alcançara a porta. A raiva estampada em seu rosto quando viu Lisanna.
— Me soltem! Eu vou matar essa vadia! Como você pôde me enganar assim?! Hein, Lisanna?!
Os seguranças o arrastaram para fora do local, atraindo olhares de curiosos que observavam a cena. Lucy os seguiu, sendo obrigada a segurar Natsu para impedir que ele tentasse entrar no hospital outra vez.
— Quer se acalmar?! — a loira exclamou.
— Me acalmar?! Ela mentiu, Lucy! Ela me fez acreditar que eu havia feito algo que jamais faria! Ela fez nós dois sofrermos por quase um mês! Não peça pra eu me acalmar!
— Exatamente, nós dois passamos por isso, eu sei o que você está sentindo agora, mas não vai resolver nada você continuar nesse estado.
Lucy tinha razão, ele precisava se controlar, pois sentia a agitação dentro de si começar a acordar o Koscheivich. Precisava controlar sua raiva antes que fosse tarde demais para controlar qualquer coisa em si.
— Vamos para casa.
— Me dê as chaves do carro.
— Por que?
— Acha que eu vou deixar você dirigir nesse estado? Vai acabar nos matando.
Ainda que hesitante, ele obedeceu. Passou o caminho inteiro em silêncio, olhando através da janela do carro. Apenas voltou a falar quando passaram pela porta do apartamento.
— Ainda não consigo acreditar que fui tão burro em acreditar na Lisanna. Não acredito que quase perdi você por culpa de uma mentira.
Fora completamente interrompido por um beijo inesperado e intenso.
— Não importa mais, Natsu. Acabou — disse, sorrindo.
Nunca uma mentira a deixara tão feliz.
Losing him was blue, like I’d never known
Missing him was dark gray, all alone
Forgetting him was like trying to know somebody
You’ve never met
But loving him was red
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