Onde? Quando? E Por quê?
1 Sete de julho de dois mil e dezenove.
Seis horas e quinze minutos da manhã. Domingo, frio e ventoso, de céu claro e azul. Um dia calmo em East Bay, uma cidade de pouco mais de cinco mil habitantes, pacífica, calma, um verdadeiro retiro paradisíaco na Terra, um local que por muitos é descrito como destino de velhinhos para aproveitarem suas aposentadorias longe — mas nem tanto — dos barulhos e agitação da cidade grande.
Os ventos sopram vigorosos vindos do mar, que tem ondas chegando até pouco mais de dois metros, que se quebram nas rochas basálticas, que estão depositadas na beira da praia, aos pés de um penhasco, formando cortinas de vapor d´água, dando um aspecto parecido com o de neblina ao amanhecer. O que dava uma cara misteriosa e enigmática ao local. Ao lado do pequeno penhasco, que tem entre sete a oito metros de altura, uns sete metros de distância do penhasco, há uma casa de madeira, de dois andares, uma casa relativamente grande de cor marrom avermelhado, cor de madeira com toque de verniz.
O vento sopra forte, agora às seis horas e vinte e três minutos, o vento bate no vidro do segundo andar da casa, com força suficiente para fazer Meredith acordar, a jovem mulher de vinte e nove anos abre os olhos de leve com o barulho do vento batendo na janela de vidro. Ela não se assusta, apenas abre os olhos e decide que está na hora de acordar. Meredith já sabia ao comprar a casa que muitas vezes situações como essa iriam acontecer é o preço por morar ao lado do mar, no seu paraíso particular, por vezes ela acordará com o barulho do vento batendo na janela, com o barulho das gaivotas plainando sobre seu telhado, ou até mesmo com o mar furioso de ressaca esculpindo as rochas adjacentes. É assim que as coisas funcionam, a água bate nas rochas. Erosão, é transportada pelo mar. Deposição, assim se acumulam formando novas feições. Mas Meredith não se importava com esse pequeno preço a pagar, ela escolherá a casa e não se arrepende.
Meredith então se vira, vê que sua cama de casal, ao seu lado está perfeitamente arrumada, ela acha estranho, mas apenas se coloca de cotovelos sobre a cama, se impulsiona e senta-se sobre a mesma, ela então se levanta, um pé de cada vez, ereta ao lado da cama, Meredith, de cabelos pretos, tão escuro quanto o mais profundo buraco já encontrado na Terra, sua pele morena combina com seus olhos castanhos escuros, Meredith tem um metro e setenta e seis de altura e sessenta e quatro quilos, longe de ter um corpo atlético, mas sempre muito preocupada com a saúde, então ela sussurra algo baixo, algo parecido com “estranho” ou “esquisito” enquanto observa todo seu quarto, com as sobrancelhas franzidas, como se estivesse investigando a cena de um crime.
Meredith então caminha em direção a sua escrivaninha, examina o local. Dois livros que ela nunca chegou a ler, mas sempre os deixou sobre a mesa pois todas noite ela dizia a si mesma que iria começa-los, além dos livros há também um cinzeiro, que nunca fora usado para seu real propósito, pois além dos primeiros dias da faculdade de jornalismo, Meredith nunca mais fumou. Meredith então olha com mais atenção, como se estivesse procurando algo, mas seja o que for, ela não encontrou.
Já com um olhar mais assustado ela vira seus olhos para a parede ao leste da casa, onde não há janelas, ela examina os quadros pendurados na sua parede com atenção e estranhamento, ela foca o olhar. TRRRAC, o vento novamente bate na janela, mas dessa vez Meredith se assusta, ela dá um impulso involuntário para trás, com a boca aberta e os olhos arregalados. Ela ficou sem fôlego por um milissegundo, Meredith então vira o pescoço e olha em direção a janela, e percebe que foi somente o vento batendo na janela novamente, ela então se vira mais uma vez para a parede a leste da casa e caminha em direção a parede examinando todos os quadros que estão na sua parede cor marrom avermelhada.
Meredith sente um calafrio, então vira-se e pega um roupão que estava pendurado em um cabideiro a frente de sua cama, ela o veste, sobre o short azul e a blusa branca que estava vestindo. Mais uma vez sua atenção retorna para a parede, seu certificado de formatura pela Faculdade de Grand City (FGC); uma reprodução de A noite Estrelada de Van Gogh, e mais alguns quadros. Mas novamente o que Meredith procurava não estava lá. Agora ainda mais assustada, Meredith caminha em direção a porta do quarto, caminha de pressa. – Mas que mer... – ela faz uma pausa enquanto abre a porta com a mão direta. – ...da – completa Meredith ao abrir a porta e passar entra ela.
Meredith agora está no corredor de cima da casa, há uma porta a sua frente, o banheiro. Ela abre a porta, examina com seus olhos, vaso sanitário, banheira, chuveiro, pia, tudo que um banheiro em qualquer lugar da cidade, do estado ou melhor, qualquer banheiro normal tem.
— Mas o que é isso? – exclama Meredith com um olhar assustado. Ela então dá mais uns passos, na última porta do corredor de cima da casa. Mão direita na maçaneta. Ela gira. A porta se abre. Um berço e uma escrivaninha e algumas caixas vazias e outras ainda fechadas. Mas nada, nem ninguém, além disso. Isso faz com que os pelos da nuca de Meredith se arrepiarem, sua respiração fica ofegante, ela deixa a porta entreaberta e se vira em direção a escada
Meredith desce as escadas de pressa. – Harry? – grita Meredith esperando ouvir alguma voz vindo do lado de baixo enquanto desce as escadas.
— Ei, Harry!!! – grita ela de novo. Mas dessa vez percebe-se o nervosismo em sua voz.
Meredith desce a escada e acaba tropeçando no meio da escada, mas se segura no corrimão. Ela deu uma leve torcida no seu tornozelo direito, mas a dor ainda não chegou até seu sistema nervoso. Meredith termina de descer a escada, ela já está na sala de estar, uma sala ampla com uma janela enorme de front para a escada. A sala de estar é um grande espaço amplo, em conceito aberto junto com a cozinha e a sala de jantar. Esse foi um dos motivos que a fez escolher a casa, Meredith, no dia que fora a visitar, conseguia se imaginar cozinhando alguns biscoitos sobre a ilha de granito preto na cozinha, enquanto observava seus filhos brincando na sala de estar, esse era um dos sonhos de Meredith, desde nova. Esse é um sonho. Meredith, observa a janela a sua frente, a sala é iluminada apenas pela luz solar que entra pela janela.
— Harry, você está aqui? – diz Meredith ao caminhar em direção a cozinha. Então ela olha, mas não há ninguém.
— Harry? Eu não estou gostando disso. Onde você está? – exclama Meredith, tentando afastar a tensão da sua voz enquanto se direciona para o lado oposto da casa.
Ela passa pela sala de jantar. Nada de diferente. Abre mais uma porta. Outro banheiro. Mas nenhuma alma viva. Ela fecha a porta. Seus olhos estão lacrimejando, sua respiração ainda mais ofegante.
— Harry? – diz Meredith mais uma vez, mas agora sua voz está mais baixa, quase como um sussurro.
Meredith segue, há mais duas portas nesse corredor. Ela então segue, se posiciona de frente para a segunda porta, ele está aí, ele vai sair e me dar um susto, isso é a cara dele, isso se passa pelo cabeça de Meredith. Ela põe a mão direita na maçaneta. Gira. Abre. Caixas vazias e outras ainda fechadas, uma bagunça, fruto da mudança recente de Meredith, não havia sequer três meses que ela fora morar na casa. Meredith olha fixamente para o cômodo de quatro por seis metros. Mas nada. Nada além de caixas. Nada além da porcaria de caixas.
— Droga. – exclama ela.
Meredith fecha a porta e a primeira lágrima escorre de seu olho esquerdo. Ela enxuga o rosto, suas costas estão doendo, e ela já não sente mais frio. Ela está suando. Com um calor que vai da ponta de seus pés, até sua cabeça. Há mais uma porta no fundo do corredor, uma porta que até hoje Meredith ainda não chegou a abrir, no dia que veio visitar a casa a corretora lhe disse que esse era o único defeito da casa. Por ter ficado muito tempo vazia, a casa tinha alguns vazamentos no porão e muito mofo, mas nada que uma boa, e de certo modo pequena reforma, não pudesse dar conta, mas isso não fez com que Meredith repensasse sobre a compra, ela sabia que essa era a casa, essa era a casa que ela cozinharia biscoitos para seus filhos enquanto observava-os brincando na sala de estar.
Meredith caminha até a frente da porta, a porta do porão mofado, ela precisa conferir, é o último lugar da casa, o lugar que ela nunca entrou. Mas muitas coisas vêm a sua cabeça, mofo. O porão está cheio de mofo. Mofo não é bom para mim. Mofo não é bom para o beb...
Meredith afasta esses pensamentos da sua cabeça, tomando coragem para pôr a mão na maçaneta da porta. E se Harry estiver lá embaixo, se ele está escondido lá embaixo para me fazer uma surpresa. Mostrar que ele arrumou o porão, que não há mais mofo.
Meredith já com a mão sobre a maçaneta, seus pelos estão arrepiados, sua mão tremula, ela está suando, um pingo escorre de sua testa até cair no chão, ela começa a sentir a dor em seu pé, é como se tudo isso estivesse tentando enviar um recado para ela, não abra a porta, não abra a porra da porta!!! Mas ela precisa saber, isso tudo é muito louco, o que está acontecendo? Que horas são? Onde está Harry?
Meredith então gira a maçaneta, ela sente o barulho metálico da tranca se abrindo, os feixes de luz que entram pela janela iluminam o vão entre a porta e o porão... Meredith vai abrir a porta, ela vai entrar... Eu vou descobrir tudo, merda, eu vou descobrir tudo agora... Pensa Meredith.
TOC-TOC-TOC...
Meredith, estava prestes a entrar no porão quando houve alguém batendo na porta da frente. Ela então fecha a porta, um sorriso me seu rosto. Ela caminha em direção a porta, ela manca, pois sente a dor no seu pé que havia torcido na escada.
—Harry, é você? – pergunta Meredith indo em direção a porta. – Já estou indo. – responde Meredith ao atravessar de pressa a sala de jantar, a sala de estar a cozinha até chegar ao hall de entrada.
— Já estou chegando. – diz Meredith ao pôr a mão sobre a maçaneta da porta de entrada. Um sorriso estampa seu rosto, misto de alegria com alívio. Mas então em fração de segundos o sorriso some, a tensão retorna. Sobrancelhas franzidas novamente. Mais uma sensação de estranhamento se fosse o Harry, por que ele bateria na porta? Por que ele simplesmente não entraria? Não é o Harry? Não! Tem que ser o Harry. Isso tudo se passa pela cabeça de Meredith conforme ela gira a maçaneta e abre a porta.
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