Estava ficando cada vez mais frio do lado de fora, Harry foi obrigado a fechar completamente a janela do carro. Eram três horas da tarde e o sol se escondia entre as nuvens densas e acinzentadas. Apertou os dedos contra o volante como fazia quando estava tenso.

-É... Parece que a TV estava certa afinal -resmunga- vem neve por aí.

A garota ao seu lado, Nina, mantém os olhos na paisagem que passa rápido pelo vidro, a estrada vazia cortava um grande campo de vegetação rasteira até onde a visão permitia ver.

-E qual o problema de um pouco de neve? –perguntou ela ainda mantendo os olhos no lado de fora.

-O problema é que vamos nos enfiar num lugar deserto no meio do nada no pico de uma montanha.

-E daí? O jornal disse que a nevasca vai durar três dias e nós vamos passar quatro, e vamos ficar numa casa grande e aconchegante, não é como se fossemos acampar em barracas.

-Já assistiu “O iluminado”? Foi exatamente isso que eles pensaram.

Nina riu e finalmente o encarou.

-Admita Harry, você esta arrumando desculpas para não ir a esse passeio desde que ficou sabendo que a Anna iria. Qual é? Vocês terminaram quando? No segundo ano? E até hoje você evita até a presença dela.

-Assim como você faz com os nossos pais?

Ela suspirou.

-É diferente...

-Não, não é! –interrompeu – Vocês brigaram por um motivo tosco já faz seis meses e você nem atende os telefonemas da mamãe. Não falou com eles nem nos seus aniversários.

-Não quero falar sobre isso.

-Eu sei. Você nunca quer.

Harry olhava para estrada a sua frente tão grande que parecia não dar em nada. Seus pés já doíam de tanto dirigir, afinal se passaram seis horas desde que pegou sua irmã na rodoviária e lhe pesava pensar que precisava dirigir mais três horas até chegarem ao destino.

Apertou os dedos contra o volante mais uma vez e quebrou o silêncio que já pairavam entre eles por alguns minutos.

-Você esta certa. –disse lentamente. –Eu não quero ver a Anna, e também não há nada nessa viagem que me faça ficar animado. Estou indo mais por sua causa e do Sam que insistiu tanto.

Nina pôs a mão sobre a perna de seu irmão como quem acaricia um cão.

-Relaxa, Sam me disse que umas amigas dele vão, eu dei uma olhada no facebook delas e cara, são lindas, você vai se amarrar. Só tira o olho Carla, ela é minha.

O garoto riu.

-Carla? Pensei que gostasse de homens. E aquele cara, como é o nome? Steve?

-Steve era só um passa tempo, e sim, eu gosto dos dois, afinal quem come de tudo não passa fome não é mesmo?

Os dois riram. Sua irmã era única pessoa no mundo que podia brigar e depois fazer as pazes sem precisar de desculpas, eram diferentes em quase tudo, mas se entendiam nas suas diferenças, e sempre foram assim desde pequenos.

Quando criança, mais ou menos aos nove anos, Harry caiu de bicicleta e com o choque acabou comprometendo seus dentes. Para consertá-los era necessário usar uma espécie de aparelho metálico que mantinha a boca aberta por um ano inteiro, o que lhe rendeu vários apelidos na escola, seus amigos zombavam sempre que o viam. Um dia durante o intervalo das aulas um grupo de alunos mais velhos o cercaram e começaram a mexer com ele, empurrões e xingamentos para todos os lados. Foi quando Nina chegou para defendê-lo, pequena e magricela, e ainda por cima um ano mais nova que seu irmão, todos riram dela. A noite naquele mesmo dia Harry viu sua irmã ser colocada de castigo por seus pais, a diretora da escola havia ligado para eles lhes dito tudo, até mesmo a parte em que Nina xingava os meninos com palavrões que normalmente crianças não falariam.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.