Enquanto fingia se arrumar para ir para o trabalho Jem já podia ouvir o som de Will e Tessa discutindo sobre algum livro vindo do outro lado da porta. Isso trouxe um pequeno sorriso aos seus lábios.

Jem não era nenhum iletrado, considerando a média ele até que lia bastante, uns três ou quatro livros por mês sem contar os mais recentes que ele estava lendo para as suas matérias na faculdade comunitária, talvez até uns sete a dez se ele contasse esses, mas as vezes ele sentia como se fosse em comparação com Will e Tessa que estavam sempre com um livro na mão e que terminavam em média um diferente a cada dois ou três dias. O interessante é que ao longo dos últimos dois meses em que eles estavam morando ali Will tinha começado a ler os mesmos livros que Tessa para depois discutir com ela a respeito, e com freqüência discutir no sentido mais literal da palavra porque os dois com freqüência acabavam quase gritando e com os punhos cerrados por causa de alguma interpretação sobre a obra que um tinha feito que o outro discordava. E ao longo da última semana ele viu livros deixados na poltrona da casa ou na mesa da cozinha que tinham dois marcadores diferentes, era meio fofo como um mini clube do livro informal, Jem conseguia ver claramente em sua mente a cara que os dois fariam se ele dissesse isso.

“Eu achei que você não tinha aula nas quartas” Tessa disse assim que reparou na presença dele na cozinha.

“Não é aula, meu gerente me pediu pra ir mais cedo hoje, teve um problema no estoque e que ele precisava de ajuda”

“Eu espero que o babaca esteja te pagando hora extra pra te fazer acordar a essa hora no seu dia de folga” Will disse.

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Jem não gostava muito de mentir, mas naquela ocasião ele disse para si mesmo que não devia sentir nenhuma culpa : dizer o que estava acontecendo só ia preocupar eles, e provavelmente sem qualquer motivo. A primeira parte era verdade, mas mesmo com o seu otimismo a segunda parte soou meio falsa em sua mente.

Umas três semanas antes todos os empregados da loja tinham feito exames de sangue, a maioria ficou comentando que era um teste de drogas, mas Sophie uma garota tímida que trabalhava no RH disse pra ele que os testes eram apenas por uma questão padrão de seguros de saúde dos empregados. Alguns dias depois disso ele tinha sido chamado para o RH onde lhe informaram que algo estranho tinha aparecido nos seus exames e que ele devia consultar um hematologista, e ele o fez no dia seguinte, e no outro, e no outro, e mais alguns médicos com especialidades que ele nunca tinha ouvido falar.

Quando a recepcionista mandou ele entrar Jem foi e assim que entrou deu um sorriso para o Doutor Eperstein, ele tinha vindo a desenvolver uma certa simpatia pelo médico, afinal tirando Will e Tessa ele era a pessoa com quem Jem passara mais horas ao longo das últimas duas semanas. Doutor Eperstein sorriu de volta mas havia uma inegável tristeza em seus olhos.

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Já no elevador Jem disse para si mesmo que não era tão ruim assim, não era como se eles tivessem lhe dado uma sentença de morte certa, havia muitos tratamentos experimentais e Doutor Eperstein tinha conseguido uma vaga para ele começar em um na semana seguinte. E mesmo se fosse uma sentença de morte demoraria um tempo razoável para aquilo que estava dentro dele começar a mostrar efeitos.

Assim que ele saiu do elevador ele começou a andar, não em direção ao apartamento ou ao emprego que ele disse que estava mas sem realmente direção. Todos os pensamentos sobre o que estava dentro dele pareceram desaparecer como um passe de mágica assim que ele saiu do elevador, na verdade pensamentos gerais de sua vida.

Ele ficou andando por horas apenas absorvendo todas as imagens que a cidade mostrava, sem realmente pensar em nada, apenas vendo e apreciando, o máximo que lhe passava por sua mente é que Will ou Tessa talvez gostasse de ver alguma coisa ou outra pelas quais ele passou.

Horas mais tarde também como um passe seus pensamentos coerentes voltaram como um passe de mágica, o céu já estava escuro, ele tinha faltado o trabalho, felizmente o dinheiro em seu bolso ainda estava ali porque do jeito que ele passara o dia qualquer um podia ter tirado que ele nem teria reparado ou se importado.

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“Além de te fazer ir mais cedo o cara te prende até essa hora ? Cara Michael Moore estava certo naquele documentário em que ele fala sobre condições de trabalho nesse país” Will disse.

“Ele não é assim, é só hoje que ele precisava de um pouco mais de ajuda, não foi nada demais”

“Eu não gosto de concordar com o Will mas acho que nessa vez ele talvez esteja certo, você parecia acabado quando você entrou pela porta do apartamento, eu até achei que você vomitar ou algo assim”

“Eu fiquei meio nauseado no metrô, não teve nada haver com trabalho, e como vocês podem ver tudo que eu precisava era um banho, eu estou okay”

Tessa e Will ainda olharam para ele parecendo meio preocupados, e isso fez com que ele tivesse certeza que não falaria nada a respeito do que ele tinha descoberto mais cedo com eles, se eles já estavam agindo desse jeito por acharem que o patrão dele estava lhe dando trabalho demais, ele nem conseguia imaginar como eles agiriam se soubessem o que estava realmente acontecendo.

“Então quais são os livros do mini clube do livro de vocês dois nessa semana ?” Jem perguntou para mudar de assunto mas mesmo assim lhe deu uma certa satisfação ao ver que as expressões nos rostos de seus amigos foram exatamente aquelas que ele tinha imaginado.

“Nós não temos um clube do livro, é só que o seu amigo fica lendo as coisas que eu compro e tendo opiniões estúpidas sobre eles que tem que ser discutidas” Tessa disse.

“Opiniões estúpidas ? Eu duvido que você consiga citar um exemplo disso”

“Você achou que Amada era realmente um fantasma ao invés de apenas uma outra mulher que acontece de ter o mesmo nome da filha da Sethe como tem bem mais indícios de ser a realidade”

“Ela era realmente um fantasma, o livro vive sendo citado como um exemplo da literatura de terror do século vinte”

“Você nunca ouviu falar dessa coisinha chamada terror psicológico ?”

Por um acaso Jem tinha lido o livro que os dois estavam discutindo dessa vez, e achava que os dois estavam se focando nas questões erradas a autora tinha deixado ambíguo pras duas interpretações poderem ser discutidas como verdadeiras e que no final não importava se a personagem título do livro de Toni Morrison era ou não um fantasma porque o efeito que ela teve nos outros personagens era real e era isso que era o foco principal. Jem se sentiu um tanto tentado a entrar na discussão, mas decidiu que não apenas se sentou no sofá e continuou observando seus amigos com um leve sorriso em seus lábios.

Notas finais
Obrigada por ler, comentários são sempre apreciados.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.