Onde Nós Vamos
5 Capítulo V
Notas iniciais

23 de setembro. Começo da primavera, o calor já estava dando espaço ao clima fresco e úmido, com pitadas de ventos fortes. A previsão já dizia que o inverno estava para chegar em novembro e com ele muita neve, e por isso o clima iria se adaptar aos poucos.
Como era sexta eu já sabia o que esperar. O Sr. Tamaki deu uma olhada nos trabalhos que já estavam meio caminho andado, ele curtiu a ideia do Mike sobre colocar curiosidades folclóricas da região. Fiquei super animado para começar.
Naquele dia estava mais tranquilo com as coisas, decidi ir para o ginásio e participar da aula dessa vez. Troquei o uniforme padrão pelo de educação física, que consistia de uma bermuda curta e uma regata que deixava algumas gordurinhas escapar.
— Alunos! —O Sr. Bullworth apitou para chamar a nossa atenção. Eram cento e vinte quilos bem distribuídos em um corpo de um metro e setenta, pena que seus únicos neurônios eram voltados a esporte e roupas que valorizassem seu corpo escupido em mármore. — Hoje vamos jogar uma partida amistosa de Dogdeball. Dividam-se em duas equipes, bolas no centro em dois minutos! Quero ver essas bundas flácidas se exercitando! AGORA!!!
Ele apitou de novo.
— Vou mostrar quem tem uma bunda flácida. — Victoria se materializou do meu lado. — Young, quero você.
E assim começou a divisão dos times. Finnick ficou como líder do time adversário. Agradeci pelo Mike ter sido escolhido para o meu time, assim podia focar mais no time inimigo e não nele.
Todos a postos. O silencio se instalou no ambiente. Acho que não seria só uma partida amistosa, a rivalidade era quase palpável.
— COMECEM! — Indicou o treinador antes de soar mais uma vez o bendito apito.
— Time, vamos mostrar para esses cabeças ocas como é que se joga! — Victoria gritou correndo em direção ao meio da quadra.
Corremos junto com ela em direção as bolas. Consegui roubar uma e recuar o mais rápido possível, sabia que logo eles iam tentar acertar alguém. Vi o Jim perdido e desarmado, um alvo perfeito. Joguei o mais forte que pude e teria acertado se capitão Finnick não tivesse interceptado com a bola que segurava com as mãos. Ele ia proteger os aliados. Cinco na defesa, três ataques. Percebi a formação pela forma que jogavam.
— Victoria, precisamos nos dividir! — Mike gritou. Ele desviou de duas bolas que passaram como um foguete. — Robocombo!
— Entendido! Young, Miles e Janet. Ataque! River, Gale, Prince e Kayle, comigo na defesa! Quero bolas no chão.
Assim entramos na formação. Eles paravam o máximo que dava enquanto eu, o Miles e a Janet tentávamos acertar o máximo deles, Prince e Gale foram acertados, na zona morta eles nos dariam suporte conseguindo o máximo de bolas possíveis. Consegui acertar dois e o Miles um. Após alguns minutos estávamos somente eu, o Mike e a Janet, mas o time do Finnick ainda tinha cinco. O Mike consegui interceptar algumas bolas e a Janet eliminou um antes de ser acertada. Então sobrou somente eu e ele, naquele calor do momento parecia que o tempo passavam em câmera lenta. O garoto colocou duas bolas no chão e segurava uma terceira, eu sabia o que era aquilo, uma jogada secreta que havíamos inventado quando crianças, ele pretendia levar dois.
Sem perder tempo corri em sua direção, os quatros que sobravam jogavam para nos acertar a qualquer custo, mas eu me desviei de todas, ignorei tudo o que não fosse aquelas duas bolas no chão. Peguei a primeira, Mike já jogou a sua como se quisesse acertar, mas na verdade era só uma distração para que ao invés de desviar, o alvo iria direto para onde eu estava mirando e fosse acertado. Mesmo acontecendo diversas vezes, eles não conseguiram deduzir a jogada e levamos três deles, e foi quando me distrair com a Victoria que jogava uma bola para o nosso lado, não percebi que o Will Florence estava mirando em mim.
A bola vinha com toda a fúria e só pude fechar os meus olhos esperando o impacto e dor, mas não veio. Então os abri e as costas do Mike cobria todo o meu campo de visão, ele estava muito próximo, dava para sentir o cheiro de suor e perfume amadeirado.
O som da bola quicando me tirou daquele devaneio. Ele se sacrificou.
— Morte Súbita, Zach. — Ele disse me entregando a bola. Todo seu rosto era uma confusão, ele estava eufórico, ofegante e suado. E aqueles olhos, aqueles malditos olhos.
Com isso foi para a zona morta. Agora era eu e o Will. Morte Súbita. A palavra ecoou na minha cabeça. O silencio reinou por longos segundos. Will tinha a maioria das bolas e eu só duas, obvio que na cabeça dele era só jogar desesperadamente que me acertaria. Então ele começou a joga-las e eu só desviava, joguei uma para ele não perceber, Will continua trocando bolas com sua zona morta, mas o que ele não percebia que aos poucos ele estava perdendo as bolas e que todas estavam indo para a minha zona morta. Morte Súbita. Mike fez a parte dele e eu a minha. Quando Will se deu conta, já era tarde. Eu tinha a maioria.
— AGORA! — Dei o sinal.
E assim todos da minha zona morta jogaram as bolas ao mesmo tempo. Will ficou confuso em meio à confusão e eu só precisei acerta-lo com a que eu já tinha. Fim do jogo.
Quando acabou todos do meu time vieram me agradecer pela partida e elogiar pelos movimentos e jogadas. Todos, menos o Mike, ele parecia distraído com algo e acho que ele voltou a ser o Mike que eu já conhecia.
— Boa jogada para um viadozinho. — Jimmy Hartline surgiu com sua presença desprezível.
Antes que eu pudesse responder, Victoria ficou na minha frente.
— Porque você não vai masturbar o seu micro pênis? E deixa de ser tão asqueroso.
— Falou a putinha da escola. — Ele respondeu com ar de superioridade.
— A putinha que vive nos seus sonhos e que você nunca vai ter chance.
As meninas que andavam com a Vic começaram a vaiar e soltar xingamentos. Ali podemos presenciar dois animais selvagens em seus habitats, Victoria sempre reinando com seu veneno e sua trupe de seguidoras tão ocas quanto uma Barbie. Tenho certeza que ela só me defendeu por que ganhamos a partida, caso o contrário seria eu no lugar do Jimmy, que é o abutre de toda escola. Então nem me importei que os dois se comessem vivos, só fui me afastando lentamente.
— Tá bom, tá bom. Chega! — O treinador Bullworth interveio. — Todos liberados! Não esqueçam de passar na minha sala para pegar o tema do trabalho que quero para o final do semestre.
Todos gemeram de tristeza.
— É. É. Vão ter que fazer trabalho sim, agora deixem de ser bebês chorões e se troquem. River, Young. Arrumem a quadra antes de irem.
Porque comigo? Eu não fiz nada nesse inferno.
Assim todos foram para o vestiário, restando somente eu e o Mike.
— Olha. — Disse para tentar chamar a atenção dele ou traze-lo para essa realidade. — Eu posso arrumar isso sozinho. Não precisa ficar.
— Não, tem problema. — O seu tom de voz era frio. Mas o mais estranho é como se ele não estivesse falando comigo e sim com uma terceira pessoa.
E assim ficamos em silêncio. Demoramos mais do que eu imaginei, quando acabamos só havia sobrado nós dois, eu queria falar algo, mas não conseguia. Havia algo de errado.
Entramos no vestiário. Eu estava muito desconfortável, era a primeira vez que teria alguém no chuveiro junto. Alguns acham exagero meu, mas os chuveiros ficavam dispostos em uma pequena sala completamente coberta por cerâmica branca, dois bancos no meio do ambiente e vários chuveiros um do lado do outro e não havia divisórias, ou seja, quando todos tomavam banho... vocês me entendem.
Prometi a mim mesmo que não iria olhar o Mike, não queria ver aquele idiota pelado. Fui logo para o lado oposto do dele juntamente para ficar de costas. Liguei o chuveiro e entrei, a água estava bem gelada e forte, do jeito que eu precisava.
— Ei, Zach. — A voz do Mike me pegou de surpresa, quase me virei por instinto.
— Q-Quê.
— Eu acho que não vou poder ir hoje.
—Tá bom. Posso saber o motivo?
— É algo pessoal. Não posso dizer.
Aquilo me atingiu. Fiquei me perguntando se talvez foi algo que disse ou fiz.
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