Onde Nós Vamos
4 Capítulo IV
Notas iniciais

O final de semana foi super tranquilo e passou voando. Aí na segunda-feira a ficha caiu que a ideia de fazer um trabalho com o Mike não parecia grande coisa, mas ainda não havíamos falado sobre isso. Eu o estava evitando o máximo, sempre me escondendo e esgueirando pelos corredores e salas, eu sentia que ele estava me caçando como um lobo caça um cordeiro. Quando tocou o sinal fui até a biblioteca me esconder por alguns minutos até ter certeza que a barra está limpa.
— Young? — A voz rouca fez os pelos do meu pescoço eriçarem. Perigo, gritava cada célula do meu corpo.
Me virei e lá estava.
— Mike? — Engoli seco.
Ele sempre foi mais alto que eu. Estava usando uma jaqueta de couro, jeans rasgado e all star surrado. Sua pele branca estava toda ruborizada indicando que fizera algum tipo de esforço e os cabelos loiros selvagens se emaranhavam numa luta e a pior parte dele, seus olhos, olhos tão azuis que pareciam piscinas de vidro. Ainda tinham o mesmo ar de selvagem e elétrico. Eu não sabia dizer o que ele estava sentindo naquele momento. Repulsa talvez.
— Precisamos conversar.
— O que você quer? Eu não tenho nada para falar com você. — Tentei soar firme, não ia me deixar intimidar.
Ele semicerrou os olhos confuso.
— Na verdade temos. — Ele se aproximou. Perigoperigoperigo. — Temos um trabalho de Cultura Asiática, lembra?
Ah é mesmo. Esqueci.
— Ah, sim, sim. Do que você precisa? Quer que eu faça sozinho? Eu faço, não precisa se preocupar.
Ele me olhou com uma cara confusa.
— O quê? Não, temos que fazer juntos. E na semana passada você saiu tão rápido que esqueceu de pegar o tema, então queria saber se você poderia ir no meu trabalho, assim te passo os detalhes.
O jeito que ele fala, tão calmo e firme. Ele amadureceu muito. Nem parecia o mesmo garoto que eu conhecia.
— C-Claro. Que horas eu passo lá?
— Umas 16h. É a hora do meu almoço. Eu trabalho no Cresmont no centro.
E antes de sair do corredor, ele parou.
— Te vejo lá. — Disse dando umas tapinhas com os dedos na prateleira e por fim saiu.
E novamente congelei, exatamente como naquele dia. Muitas coisas passaram pela minha cabeça e me senti com treze anos outra vez. Precisava conversar urgentemente com o Gary.
...
— Ah, cara! Perdi de novo. — Gary xingou. Estávamos jogando Naruto Storm.
— Então, podemos focar no assunto? — Tentei mantê-lo na conversa.
— Ah, sim. Claro, você e o Mike. — Ele olhou nos meus olhos. — Você parece assustado com isso tudo.
— Sério, Gary? E você é ruim nos jogos. Vamos falar coisas obvias?
— Calma, senhora. Não precisa mostrar as garras, eu quero dizer que o fato de ele ter aparecido do nada te afetou mais do que eu pensei. E depois?
— Nada, depois disso voltamos a nos ignorar pela escola.
— Bom, eu acredito que ele só queira fazer o trabalho mesmo. Tipo ele vem passando sempre com notas o suficiente. E esse trabalho faria isso por ele.
— Como você sabe disso? — Perguntei intrigado.
— Querido, eu preciso saber sobre tudo. E acho que não deveria se preocupar... a não ser que.
— A não ser o quê?
— Que você ainda sinta algo, bem lá no fundo. Um canto tão obscuro do seu coração que você fingi não existir, mas que agora foi desenterrado.
Só a menção daquela possibilidade fez o meu rosto pegar fogo com tamanha imbecilidade.
— O Quê?!?! EU SENTIR ALGO??? Não, não, não, não, não. Não e não.
— Bom, foram muitos ‘nãos’... e eu acho você ir por que já são três e quinze. — Gary apontou para o relógio atras dele.
Fui correndo pegar o ônibus. E consegui chegar cinco minutos atrasado e fui direto para dentro do prédio antigo. O Cresmont é um cinema antigo que todos na cidade iam até o novo shopping abrir uns quatros anos atras, então só os undergrounds e os casais frequentavam, era tipo a renda que os mantinham abertos. Assim que entrei vi o Mike de costas ajeitando algo atrás do balcão dos doces. Ele estava usando o uniforme do lugar.
— Mike? — Disse me aproximando.
— Meus deuses! — Mike se assustou e esbarrou nas coisas. — Zach, que susto!
— Me desculpa, odeio quando fazem isso comigo.
— O Gary tem cara de fazer isso mesmo.
— Sim. — Respondei segurando a risada. Eu percebi que ele ficava fofo naquele uniforme, mas ignorei o pensamento.
— Bom, eu só preciso terminar o ciclo aqui na pipoqueira e já saiu de pausa.
— Beleza.
— Beleza. — Ele repetiu automaticamente fazendo um gesto de continência. Mike sempre teve essa brincadeira que só fazia sentindo na cabeça dele.
Esperei alguns minutos até ver o Mike saindo de algum lugar, ele tinha posto uma jaqueta aviador por cima.
— Vamos?
E o acompanhei até o lado de fora, entramos num beco do lado do prédio. Até que era jeitosinho para um baco baldio e sujo. Tinha uns assentos encostados na parede. O Mike sentou sem cerimônia, acredito que era ali que ele passava a suas horas de almoço.
— Desde quando você trabalha no Cresmont? — Perguntei dando umas batidas antes de me sentar.
— Há um ano mais ou menos. — Ele tirou uma marmita da sacola. — Estava precisando de uma grana e ocupar a mente. Fora esse ainda tem mais um bico aos sábados.
— Legal. — Fiquei surpreso, o Mike que eu conhecia teria se exibido por aquilo, mas ele não o fez. Essa versão dele ainda mantinha uma postura. — Então, vamos falar sobre o trabalho?
— Sim, claro. Vamos falar sobre a Chang ‘e, a deusa da lua na mitologia chinesa.
— Bom, é um bom tema. Poderemos trabalhar em cima dela, lendas, culturas e rituais.
— Concordo. — Ele disse com a boca cheia. — É uma ótima ideia. Eu sei que...
— River! — Um rapaz esguio surgiu do nada. Era bem mais alto que a gente, mas pelo rosto cheio de espinhas aparentemente tinha a mesma idade que nos. — Precisamos de você na Sala 6, incidente com refrigerante.
— Sério, Peter? Agora estou de almoço.
— Depois você continua, estou ocupado recebendo um carregamento lá atrás. — E sem querer ouvir ele deu meia volta e adentrou no cinema.
— Como é bom ser cinquenta por cento da mão de obra desse lugar. — Ele tampou a marmita e sacudiu as migalhas. — Bom, Zach. Temo que teremos que continuar depois. Sexta, na sua casa?
— Claro, claro. — Me levantei também.
O clima ficou meio estranho, de repente não sabia como me despedir dele. E o Mike também travou e no fim apertamos as mãos como se nunca tivéssemos feito aquilo.
Chegando em casa já mandei mensagem para o Gary.
Acabei de chegar. 17:40
E aí como foi o encontro? 17:43
NÃO. FOI. UM. ENCONTRO. 17:44
Só fomos falar sobre o trabalho. 17:44
Tá, bom. Não sabia que era assim que
se chamava hoje em dia tsc tsc jovens 13:51
Ai, Gary. Como você é ridículo. Até amanhã. 13:51
Nem me dei o trabalho de esperar a resposta, fui tomar o meu banho para ir jantar, logo os meus pais estariam em casa e eu já queria ficar pronto. Mas depois entrei no Discord para conversar com ele. Contei tudo o que tinha acontecido e o quanto o Mike havia mudado.
— E você nunca pensou o motivo dele ter feito aquilo? Por que uma pessoa não muda da noite para o dia. Algo já devia tá rolando aos poucos.
E foi essa pergunta que ficou na minha mente quando deitei a cabeça no travesseiro. O Gary não sabia quantas vezes eu me perguntei aquilo, quantas vezes criei inúmeras respostas, possibilidades e teorias. Parecia que quanto mais procurava mais longe a verdade estava.
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