Onde Nós Vamos
3 Capítulo III
Notas iniciais

Finalmente era sexta-feira. O dia mais aguardado. O sol ainda não dava folga, o calor era de matar. Fiquei esperando o Gary para chegarmos juntos na escola e como de costume ele chega atrasado.
— Eai! — Ele diz com o sorriso tranquilo.
— Eai, Cabeça de Vento. — Nos cumprimentamos e seguimos caminho. — Foi mal por ontem, sua mãe deve achar que sou doido.
— Ah, pode ficar tranquilo. Ela já sabe do “lance”.
— Pera. — Parei na hora. — Que “lance”?
— O “lance”, oras.
— Gary, não temo nenhum “lance”. E para de fazer aspas com os dedos.
Gary me olhou como se eu fosse um desconhecido.
— Que você tem um crush no meu pai, oras. Já conversamos sobre isso.
Era só o que me faltava!
— Como assim, ela já sabe?!?! Você contou para ela?
— Hã... sim.
— Desde quando?
— Desde o Dia de Ação de Graças. — Eu odeio esse dia. Principalmente o do ano passado para ser mais especifico, mas isso é uma outra história para outro dia.
— Eu não acredito nisso, Stone. Como você pôde? O que ela vai achar de mim?
— Cara, relaxa. Ela só riu e disse que se soubesse o quanto é dureza ser casada com Adrian Stone, nem olharia para ele.
— Aí, Gary. Às vezes eu juro que dá vontade de te matar. — Bufei de raiva.
— De nada. — Ele disse como se fosse a coisa mais normal de todas.
Graças ao meu amigo já ia começar o dia estressado. Cheguei na escola com sangue nos olhos, fui direto para o Laboratório de Química, decidi que iria focar total nas aulas e esquecer o que aconteceu. E assim as aulas se seguiram, alguns professores já estavam visando as provas finais e por isso passaram algumas atividades que valiam nota e matéria de estudo. Nada fora do normal.
Já no intervalo, decidi sentar com o pessoal do Gary constituído por Clyde e Mitch, capangas dele. Um breve resumo, são valentões que não são espertos o suficiente para pensar por si só e por isso o meu amigo se aproveita de suas mentes vazias para preenche-las com maldade pura.
— E agora qual vai ser as aulas? — Gary me perguntou depois de uns minutos.
—Vou ter Francês, Cultura Asiática e depois Educação Física.
— Ah, sim. Hoje é dia de ver O Não-Deve-Ser-Nomeado tomando banho. — Gary me cutucou nas costelas.
— Aí, cala boca, Stone!
— Pensei que gostasse de ver caras pelados. — Mitch argumentou.
— O quê?
— Tipo, é o que gays fazem, não é?
Eu olhei para o Gary com a cara de “quê?”
— Olha, estou comendo. Então, pode militar à vontade. — Gary disse mordendo o seu sanduiche.
— Mitch, acho que você não conhece muitos gays, né?
— Só o meu tio e um primo meu. Povo animado.
— E eu me pareço com eles?
— Hã. Não.
— É isso que chamamos de diversidade. Não é por que eu sou gay, que faço coisas que vocês acham que fazemos. Seu tio e seu primo são diferentes, e eu sou deles. Eu gostar de homens, não quer dizer que quero ficar vendo eles pelados vinte e quatro horas por dia.
Ele me olhou com a cara de que tudo o que falei entrou por um ouvido saiu pelo o outro. Só o Gary mesmo para ter paciência.
— Ignora ele, Zach. Você sabe que não entra um neurônio nesse cérebro. — Clyde deu um tapa na nuca do outro e abriu um sorriso de desculpas para mim. Dos dois era o único que parecia ter noção das coisas.
— Bom. Eu já te falei sobre o meu novo plano de chamar a Marine para o baile? — Gary interrompeu antes que pudesse continuar.
— Não. — Voltei a minha atenção para alguém que aparentemente não estava distraído. —Você vai sequestrar ela? Ou vai salva-las de bandidos num beco num cosplay do Homem-Aranha?
— Hahaha. Não... — Ele parecia decepcionado. — A fantasia do Homem-Aranha está cara, eu estourei o meu orçamento no último serviço. Eu conversei com alguns contatos na secretaria, agora tenho toda a sua grade horaria e eu vou me esbarrar aleatoriamente com ela.
— Esbarrar aleatoriamente? É assim que chamam stalkear uma pessoa hoje em dia? Esses jovens e suas gírias.
— Engraçadinho. Você só fala assim por que não tem par para o baile.
Ah sim preciso falar sobre Marine Lovegood, o amor platônico do Gary desde que ele chegou na Glorious, mas se fosse definir os dois? Bom, a Marine seria “muita areia” e o Gary o “caminhãozinho de brinquedo”. Ela era da turma do B, muito popular, gentil, inteligente, feminista, aonde ia era o centro das atenções como se radiasse uma boa aura. Por ser a primeira garota trans a falar abertamente sobre a identidade de gênero e a importância da nossa escola ter programas que acolhessem outras pessoas trans, isso a tornou alvo dos valentões e invejosos então os ataques eram constantes. Eu a admirava muito por ser forte e continuar sua luta da maneira mais glamourosa possível.
— E nem pretendo. Sabe que odeio esses eventos.
O sinal tocou antes que o Gary começasse um discurso militante sobre eu ser antissocial e evitar eventos da escola.
Segui para a aula de Francês e depois para a de Cultura Asiática com o Sr. Tamaki, ele passou alguns exercícios de pronomes e verbos.
— Bom, queridos. — Disse depois de explicar a matéria. — Sei que ainda estamos em setembro, mas vou passar para vocês um pequeno projeto que vai valer dois quartos da nota final, então possa ser que salvem alguns ou não. — Ele abriu o notebook que estava na mesa. — O objetivo é emergir vocês mais no que falamos nesse semestre, eu projetei um trabalho em dupla e cada dupla ficará responsável sobre um tema, eu escolhi algumas como culinária, história, cinema e teatro, pontos turísticos e entre outros. E eu vou separar as duplas de acordo com o desempenho desse semestre para evitar favorecimentos.
Aquilo caiu como uma pedra de gelo no meu estomago. Colocar minha vida nas mãos do destino e casualidade nunca deu certo. Eu tive que segurar a náusea e manter a postura. Olhando para a tela, o professor começou a ditar os nomes.
Por favor, Sr. Tamaki. Minha vida está em suas mãos. Não me decepcione. Orei com todas as minhas forças.
— Tommem Prince e Matheus Kayle; Tayler Princeton e Judy Harlon; Zach Young e Mike River. — E ali estava a minha sentença de morte. — No fim da aula é só virem aqui pegar os temas. Prazo é para o mês que vem e por isso vamos conversando aos poucos sobre os detalhes e tudo mais.
Fiquei petrificado na cadeira. O que eu poderia fazer? Ele não ia trocar as duplas, mesmo se implorasse. Meus olhos automaticamente procuraram os do Mike e de novo os seus olhos azuis estavam me olhando, frios como gelo. Ele com certeza não gostou da ideia.
O sinal tocou indicando o final da aula. Agora seria educação física e acho que não estava pronto para ter esse contato com o Mike, sentia o meu coração bater muito forte, o ar não ficava nos pulmões e tudo no meu campo de visão pareceu embaçar. Eu não estava bem, fui cambaleado até a enfermaria e pedi um passe para não participar da próxima aula.
Eu precisava de ar então fui até as colinas que ficavam atrás do campo de futebol e me sentei na grama, respirei fundo e tentei me acalmar.
— Matando aula, Sr. Young? — Gary surgiu por trás me assustando.
— MAS QUE PORRA! DAONDE VOCÊ SAIU?
— Ora, da escola. — Ele deu de ombros e sentou ao meu lado.
— Como você sabe que eu estava aqui?
— Zach, somos amigos a dois anos, me disseram assim que você saiu da Enfermaria. Você é tão metódico que chega a dar sono... e eu tenho olhos em todos os lugares.
— Mais alguma coisa LeBlanc?
— Fumaças e espelhos. — Gary riu ironicamente. — Mas e aí, vai me contar o que tá rolando?
Então contei tudo para ele, como estava me sentido naquele momento e com tudo o que rolou na aula de Cultura Asiática.
— Bom, eu queria falar que estava surpreso e tals, mas isso foi tão previsível.
— Como assim?
— Olha Zach, vocês dois tem assuntos não resolvidos e o universo sempre parece juntar vocês dois. Até parece que você está preso num tipo de romance água com açúcar daqueles bem genérico. Tipo Barranca do Beijo.
— Eca, credo. Não.
— Bom, só não ver quem não quer. — Ele se aproximou de mim e pôs um braço a minha volta. — Mas saiba que estou aqui, Zach Young. Eu jamais deixaria ninguém te machucar ou te fazer mal. Tá bom? Então relaxa, é só um trabalho escolar.
Suspirei mais aliviado. Agradeci mentalmente pôr o Gary estar ali, não sei como seria sem ele.
— Esse é meu medo. Mas mudando de assunto. Como vai o plano de chamar a Marine para o baile?
Ele abriu um sorriso convencido e arrogante.
— Digamos que eu vou devolver algo importante para ela. — Ele tirou um caderno de algum lugar. Juro que não havia notado que já estava com aquilo.
— Cara, você é o pior tipo de pessoa que já conheci.
— Falou o meu melhor amigo.
— Ah é. Repete.
Ele ajeitou o chapéu invisível e riu.
— Falou. O meu melhor. AMIGO.
O agarrei e baguncei todo o seu cabelo.
— Me larga! — Gary se debatia como um gato selvagem. — Porque você não irrita o seu namorado!
— Olha que golpe baixo, seu safado. — E continuei.
Ficamos rindo e jogando provocações até o sinal tocar indicando que estávamos livres.
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