Não sei que horas que eu dormi. Sei que o homem do lado ficou me olhando, a música tocando e as árvores passando vagamente pela lateral do ônibus. A música rápida me deu sonhos esquisitos, um furão gigante que atacava as casas e eu montada em cima dele. A verdade é que não sei quanto tempo dormi, mas foi o suficiente para capotar na poltrona quase pela metade da viagem.

- Taylor, acorda — alguém me cutucava delicadamente.. que dedos quentes. — Taylor, paramos em uma cidadezinha.

- Agora não, amor — reclamei com meu marido imaginário balbuciando algumas outras palavras que nem mesmo eu entendi.

- Não sou seu namorado Taylor — a voz dele parecia desapontada — É Bryan! Acorda mulher, você não terá mais tempo de fazer nada.

Abri os olhos devagar, bocejando e olhando para o garoto que se encontrava praticamente em cima de mim. Quando sai do meu transe de sono percebi que era o homem chato da viajem e lhe dei um empurrão.

- Não preciso de você para acordar.

- Não é o que parece — ele riu — Você dormiu cinco horas seguidas.

Me levantei sem olha-lo e peguei a mala de Ricco. Sai do ônibus ainda quieta, tantando entender onde estava. Algumas coisas me indicavam que era a primeira passagem para o inferno. Mas depois que li uma placa com os dizeres "Welcome to Tintyville" percebi que haviam me sequestrado a um lugar totalmente diferente de onde eu deveria estar, mesmo não querendo, olhei desconcertada para o homem.

- Tinty é uma cidade não oficializada pelo E.U.A — olhou me respondendo o olhar — mas é um bom lugar. Tem um posto, um restaurante, uma gruta, um lago, um.. — O homem parecia conhecer todas as características do local então apaguei a voz dele na mente e peguei o celular no bolso. Sinal.. sinal.. nada. — ...e sem sinal. É a parte ruim.

- Obrigada Guia Turístico, você deve ter vindo dessa bosta pra conhecer tudo não?

- Na verdade, Senhorita Taylor, está escrito naquela placa ali.

Bufei e sai andando, já procurando algo para comer. Pelo que ele havia dito, realmente era verdade. Havia somente um restaurante, e de verdade, não parecia ser um bom lugar para comer. O Dono tinha suas vestes sujas de sangue e o próprio local não parecia apropriado. Madeira velha, e o som dos animais morrendo era horrível. A única coisa boa, no entanto, era o cheiro de comida caseira. Levei uma mão ao bolso pegando os trocados que eu tinha, entrei por vencida quando meu estomago roncou.

Se ignorarmos o vendedor, o barulho e a madeira, foi a melhor comida em anos. Era o melhor frango que comi por toda a face da terra, o melhor arroz com lentilha, a melhor salada, e depois os melhores morangos que já vi e comi. Degustava com classe os morangos quando o homem se sentou ao meu Lado.

- Come com classe, para quem ronca feito um porco. — respirei fundo ignorando o comentário, ele riu — mas você parece um anjo dormindo.

- O que você quer aqui.

- Em dez minutos o ônibus sai.

- Eu já vou, pode ir.

- Te espero lá.

Segurei novamente a respiração até ele sair. Por mais que ele fosse um Deus Grego, seu jeito me deixava com tanta raiva que eu poderia simplesmente mata-lo. Que insulto, falar do meu ronco. E nem foi eu, foi Ricco.

Faltavam cinco minutos para poder entrar no ônibus e decidi ir ao banheiro. Se existia algo que eu sentia nojo, era banheiro de ônibus, então prefirivelmente, fui no do restaurante. Novamente, as condições não eram as melhores, porta com barulho de filme de terror, algumas teias de aranha no teto mas o local em si era limpo. Fiz minhas necessidades na correria e tomei um susto quando um som começou alto, só percebi depois de um tempo que era alguma máquina cortando em pedaços os animais.

Assim que fui abrir a porta, algo emperrou. Mesmo com a tranca totalmente solta a porta não conseguia abrir. Foi o UP do desespero. Comecei a gritar e socar a porta, até percebi o quanto de folego eu tinha. Olhei para o horário. O ônibus sairia em um minuto.

- SOCORRO! — mas o som que saia de mim, era bem mais baixo do que da maquina matadora. — PELO AMOR DE DEUS!

Sentei na privada e olhei para porta. O que me restava era a força. Dei um impulso breve e corri para porta me jogando de corpo. Esperava que eu me quebrasse, ou que a porta se quebrasse, ou que alguem não ouvisse. Só não esperava que Bryan abrisse a porta.

Senti que o chão devia ter quebrado sua coluna e que pela primeira vez, eu estava agradecida de ve-lo perto de mim. Olhei para o homem bonito e sorri. Mas rapidamente escondi o rosto porque o dono do restaurante apareceu.

- O PUTERO É NA PROXIMA CIDADE, RESPEITO ONDE EU TRABALHO, SUAS CRIANÇAS INSOLENTES! — entrou na cozinha, voltando com seu som habitual. Legal, agora ele ouve né?

De qualquer forma, o choque foi o que me deu forças para amarrar a novamente e olha-lo com nojo.

- O que você esta fazendo aqui!

- O ônibus está para sair.

- MEUDEUS

Corri sem ligar para mais nada. Ricco ficava em sua bolsa reclamando, mas depois ele entenderia. Perder o ônibus não é nada legal, principalmente, em algo parecido com Silent Hill. Bryan me acompanhava preocupado, talvez o que ele fosse fazer no seu destino realmente era importante. Perto da rodovia onde todos nos devíamos encontrar haviam varias... nada. Engoli seco olhando para Bryan.

- Onde que é o ponto de encontro?

- Aqui.

- Onde estão as pessoas?

- Não sei.

- Onde está o ônibus?

- Eu não sei.

- Onde, onde pelo amor de Deus me fala perto de onde nós estamos?

- Eu não sei.

- ONDE ESTÁ MINHA BAGAGEM?

- Eu também não sei.

Sentei no chão com as mãos na cabeça, essa era uma viagem perdida, certeza. Alguma coisa havia se consumido para nada acontecer. Eu precisava de um plano. Tudo tinha ido embora com nossa condução. Mala, dinheiro, praticamente nossa vida. Engoli seco e olhei para Bryan, que também parecia preocupado.

- Eles fazer a chamada dentro do ônibus e verão que esqueceram a gente aqui, não é?

- Na verdade — ele coçou a cabeça — Eles fizeram a chamada aqui na frente. E eu já dei nossos nomes na lista.

Notas finais
coments?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.