Onde Está Meu Coração
7 Capítulo 7 - Desapontamento
Notas iniciais
Cap 7 — Desapontamento
— Como você ousa tentar nos cegar dessa maneira?
Enquanto o resto do conselho se posicionava de guarda contra os outros três visitantes, Utena passou por seu pai para amparar Sasuke, que tentava se erguer do leito ainda sem condições para isso.
— Fique onde está. – sussurrou Utena às costas de Kikio, tão próximo que ela não conseguiu definir a quem ela se dirigia.
No entanto, Kikio nem ao menos ousaria levantar do chão, sentou sobre as pernas com a cabeça baixa, as mãos postas no chão a sua frente em sinal de submissão. Seu pai jamais lhe dirigira olhar mais duro. Em contrapartida, ela nunca o havia desobedecido de tal maneira. Mas nem passara pela cabeça alertar ninguém que Sasuke estava lá, não correria tal risco, não com ele prostrado como estava. Fora uma tola. Quanto tempo achava que aquilo duraria? Só não esperava tal reação. Era quase audível a palavra “TRAIÇÃO” vinda dos recém chegados.
— Como ousaram escondê-lo aqui? Como ousaram trair a confiança do clã e nos por em tal risco!
— Pai, não poderíamos deixar...
— NÃO ME INTERROMPA! — Bradou Kyouya, de maneira tal que todos que estavam ali tremeram. O silencio que se instalou foi como a calmaria antes da tempestade. – Sabe o que isso pode nos causar com relação a Konoha?! Você sabe o que ele fez e o que ele é agora?!
Kikio não queria ouvir, se apoiando na idéia de que nada mudaria seu ponto de vista.
— Sei o que ele é agora e pra sempre. Meu irmão. Segundo você mesmo disse. Nosso clã nunca se incomodou com o que Konoha acha ou deixa de achar se o assunto é familiar!
— E, é assim que vocês tratam sua família, Kikio? Entocados com ele num buraco como esse? – apontou para os lados num misto de desdém e desprezo. – Vocês nem sequer tem competência para tratá-lo adequadamente!
— Melhor ele aqui do que numa cela de prisão.
— Estou avisando Kikio, não estou com paciência para mais malcriações hoje... – sibilou em tom amargo, quase dolorido.
Aquilo também a magoava. Era a primeira e com certeza seria a última vez que desafiaria o pai dessa forma, mas era injusto que não tivesse o direito de se defender... Não estava sendo nada mais do que uma Maiko, fazendo tudo para defender seus entes queridos, mesmo que fosse contra sua própria família. Porém essa convicção não evitou que derramasse lágrimas silenciosas de arrependimento, por está desapontando seu pai.
— Não sabia como ele seria recebido – aquilo veio de um sussurro baixo e rouco.
— Então, você realmente achou não estenderia a minha mão a qualquer filho meu?
Foi então que Kikio teve forças para erguer o rosto corajosamente, por que finalmente conseguira que seu pai deixasse a máscara da diplomacia cair, mesmo por trás daquelas palavras, havia um vazio latente que se refletiu em suas feições e ele não teve tempo de se esconder.
— Ele não é seu filho. – Kikio acusava, olhando-o no fundo dos olhos, sabendo o que teria por vir. O tapa que levou fez eco pelas paredes da galeria.
Em mais de vinte anos Kyouya nunca havia erguido a mão para nenhum de seus filhos. Foi a pior de todas as dores que já tivera, o descontrole momentâneo não aplacou sua raiva, pelo contrário. Quando ouviu Suishirou gritando virou-se para ela com rancor redobrado, pela consciência da cumplicidade criminosa da filha que ele mais amava e que agora era a mulher que estava abraçada ao homem que ele julgara lhe ser fiel. Começava a ver o quanto se enganara, pois não via um motivo nobre pra ele ter puxado sua Suishirou e Kikio para aquela situação. Como pudera ser tão cego? A frustração de ter errado tanto fizeram seu papel. Foi em direção deles com o brilho maldoso da ira, e sem considerar se estava machucando ou não sua filha, puxou-a bruscamente dos braços de seu prometido.
— NÃO!!! — Kazoku gritou.
Kyouia jogou Suishirou no chão, voando pra cima de Kazoku, agarrando-se em seu pescoço.
— Seu insolente. Eu confiei a você mais do que merecia sem me importar o quanto você valia – cuspiu as palavras de maneira ofensiva no rosto chocado do sobrinho. – Um lugar na sucessão do clã e a minha flor mais preciosa... Isso não foi o bastante, não é? Acaso achou que ganharia a afeição e a confiança de mais alguma de minhas filhas?!
— Kyouya-sama! Pare com isso! – Utena gritou desesperada. – Não perca sua razão por favor!
— NÃO ME DIGA O QUE FAZER UTENA! NÃO LHE DEI ESSE DIREITO!
— Estou implorando que se acalme...pai... Há assuntos a serem resolvidos com cautela no momento.
Inspirando profundamente Kyouya soltou Kazoku que escorregou da parede ao chão tossindo, com um reflexo de revolta nos olhos. Kyouya voltou-se para Utena que tentava amparar Suishirou e Kikio ao mesmo tempo. Trêmula e aos prantos Suishirou tentou se aproximar de Kazuko mas foi impedida pelo olhar furioso do pai. Do outro lado o rapaz fazia sinais de que estava bem e que ela ficasse onde estava.
Kikio ainda estava no chão na mesma posição que caíra com o tapa. O único que pareceu não se intimidar com a presença dominante de Kyouya, era Sasuke. Ele afagava os cabelos de Kikio tão delicadamente, que talvez ela nem o sentisse. Sasuke olhava para ele com a mesma intensidade de ira de uma fera quando atacam um dos seus, Kyouya estava dando a ele mais combustível para a sua alienação e era o que menos queria.
— Levem todos eles para Kora-san. Acomodem de maneira adequada sob os cuidados de pessoas de confiança – virou-se e apontou para os forasteiros, ordenando claramente para que os deixassem sob vigilância pesada. E com metade do seu controle habitual de volta, encarou Kazoku – Vá até seu pai e diga a ele que eu o estou enviando, junto ao resto da equipe dele, na missão de proteção do filho do senhor feudal do país do vento, na viajem de exploração fora do continente. Não quero você nos meus domínios por um bom tempo. E quanto a você Kikio, erga-se!
Ela levantou o rosto marcado por sua mão, o coração de Kyouya ferido tremeu em protesto, mas ainda havia dureza em sua voz.
— Quero-a em Konoha amanhã junto com os que vão arrumar as acomodações. Vou recomendar a Tsunade–sama que a ponha em missão com Neji, está na hora de seu prometido aprender a controlar os impulsos da mulher que vai ter.
Kikio notou a mão de Sasuke se fechando em seus cabelos na altura da nuca e um leve puxão quando dois membros do conselho o ergueram. Não conseguiu olhar para as feições dele enquanto se afastava, mais que nunca precisava falar com ele uma última vez, antes de partir... Antes de todo o resto ... Mas não teria outra oportunidade, não mais...
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