Em uma manhã chuvosa, um rapaz corria em meio a chuva, carregando em seus braços vários pacotes e sacos plásticos. Ele entrava rua após rua, correndo euforicamente, parecia cansado, mas não diminuirá seu ritmo. Ele tropeçava por entre poças, completamente cheio de lama e molhado. Ele continuou correndo, até que tropeçou acidentalmente caindo e derrubando tudo que tinha em mãos. Tentou ainda puxar alguns sacos, na esperança de conseguir salvar algumas coisas, porém todas estavam quebradas, amassadas, sujas ou completamente destruídas. Carros apressados não diminuíam a velocidade e demonstravam que o atropelariam a todo custo. Assustado ele apenas levantou e correu até a calçada. Enquanto observava tudo que comprara ser completamente esmagados pelos carros, ele chorava baixinho com uma de suas mãos ao rosto. Sentou-se ao meio-fio, ignorando completamente a chuva que o encharcava dos pés a cabeça, ele tinha um olhar vazio e desolado, enquanto suas lágrimas se misturavam a chuva que escorria por seu rosto.



— Uwokisa, veja! O que aquele homem está fazendo sentado na chuva? ― Exclamou Richard correndo na direção do rapaz.

― Richard, espere! Não saia de debaixo do guarda-chuva! ― Gritou Uwokisa correndo atrás de Richard.



O rapaz continuara imóvel, olhando fixamente para um só lugar com um sorriso triste e forçado ao rosto. Richard segurou aos ombros do rapaz e perguntou se estava tudo bem. Bruscamente o rapaz levantou e começou a caminhar lentamente, fazendo o caminho oposto.

Olhando toda aquela bagunça, Uwokisa reparou um buquê de rosas vermelhas ao chão, entregou o guarda-chuva ao Richard e caminhou até o buquê pegando-o em suas mãos.



― Isto aqui seria seu? ― Questionou Uwokisa, segurando o rapaz pelo ombro.

― Eram, mas agora elas já não têm nenhum valor. Assim como eu. ― Murmurou e abaixou a cabeça.

― Elas só estão um pouco sujas, amassadas e molhadas, com um pouco de cuidados elas ficarão novinhas. Assim como você. ― Disse olhando fixamente para o rapaz.

― Deixe-me lhe pagar um café e você nos conta direitinho o que houve, que tal? ― Questionou Richard sorrindo, cobrindo o rapaz com o guarda-chuva.



Agradecido, o rapaz aceitou a oferta. Ao chegarem a um restaurante familiar, sentaram e o rapaz se apresentou, seu nome era Carlos e ele tinha vinte e três anos.

Richard não conseguia mais conter sua curiosidade e perguntou insistentemente o que ele estava fazendo sentado à chuva. Ele queria saber a todo custo à história de Carlos, seus olhos brilhavam a cada suspiro e arrumar de cabelo dele. Seus cabelos negros haviam conquistado completamente a atenção de Richard.



― Eu quebrei a minha promessa... ― Suspirou Carlos, segurando com as duas mãos a xícara de café.

― Uma promessa? A punição então era sentar à chuva e pegar um resfriado? ― Disse Uwokisa em um tom irônico.

― Eu prometi a ela que a visitaria todos os dias, que estaria sempre ao seu lado, que a protegeria, independente de como, quando, eu sempre estaria lá. Eu deveria estar ao seu lado este tempo todo. É tudo culpa minha afinal! ― Exclamou Carlos, apertando forte a xícara.

― Certo senhor cavaleiro de armadura brilhante, vamos por partes. Conte do início, quem é “ela”? ― Questionou Uwokisa, repousando suavemente sua xícara à mesa.

― Ela, minha vida... ― Deu um longo suspiro, movendo negativamente a cabeça. ― Minha noiva está no hospital. Seu nome é Vivian, conheci ela à dois anos atrás, eu estava trabalhando como carregador em um museu e ela era fotógrafa. Fiquei impressionado por sua beleza logo que a vi, mas só com o tempo eu pude conhecer a pessoa maravilhosa que ela era. Sempre dedicada, colocando sempre os outros em primeiro, antes mesmo do que a si mesma. Este era o seu maior dom, mas também seu maior defeito.

Graças a isso ela deixara de se dar qualquer valor, isto me incomodava muito, muito mesmo. As pessoas ao seu redor, não sabiam valorizar seus esforços, nada nunca era o suficiente para eles. Parecia não haver diferença se ela fizesse ou não algo por eles, mas... Ela nunca confiou em mim, minhas palavras, minhas promessas. Sabe o quanto é difícil você dizer a verdade, ser sincero mas ninguém acreditar em você? Mas não a culpo por isso, sendo ela acho que nem mesmo eu acreditaria, sei que mesmo quando ela ignorava, dizia que era mentira ou fazia de conta não acreditar, sei que no fundo ela sabia que eu realmente a amava.

Acontece que com o tempo as coisas foram piorando cada vez mais, a distância era um obstáculo tremendo, mas de fato nunca me impedira. Eu apenas fui fraco demais, me deixei guiar pelo medo e incerteza e não soube decidir o meu caminho. Quando eu então finalmente percebi que se não estivesse a seu lado, as coisas só continuariam a piorar e piorar cada vez mais. Ela já estava escondendo coisas de mim, coisas importantes, coisas que eu queria saber. Ela achava que eu não queria saber, que não me interessavam, que ela não queria me perder por tanta complicação. Mas era a vida dela, o mundo dela! Eu queria fazer parte dele de qualquer maneira, não me importava como! E se isso era a única forma que eu tinha de me sentir presente em seu mundo, era isso que eu queria...

Eu não sei o que houve, de repente começou a agir estranho, ela não confiava, não acreditava, sumia por dias e aparecia, me deixando morto de preocupações e saudades. Não existia uma explicação concreta para seu comportamento, ela havia deixado de me contar as coisas e todas as vezes que tentávamos conversar sobre, geravam mais outros problemas e ambas as partes saíam machucadas. Pessoas de ambos os lados ou até mesmo desconhecidos, não apoiavam essa relação conturbada, eles sabiam como ela era e no que tudo isso resultaria. Tudo isso somado às fofocas e histórias, só a deixavam mais confusa quanto a seus sentimentos. Mesmo assim eu insisti que nada iria atrapalhar minha decisão, eu já havia feito a minha escolha, era ela... E já havia passado da hora de parar de andar para trás por medo, por incerteza.

Então dois dias antes de viajar para visitá-la a pedi em casamento, mas não a contei que estaria indo para pedi-la pessoalmente. Ela gargalhou e fez graça, mas no final aceitou. Fiz um mistério no ar e a avisei que ficaria dois dias sem aparecer, por conta da viajem que não contei, ela não pareceu se importar, deu de ombros e disse que tudo bem. Parti para encontrá-la , finalmente eu iria realizar todos os meus sonhos, cumprir todas as minhas promessas, implorar teu perdão por ter demorado tanto por todo este tempo...

Dois dias depois, lá estava eu. Coloquei minha melhor roupa, as rosas vermelhas que ela tanto amava e segui até seu endereço. O céu estava fechando então pedi um taxi. Ao chegar a porta de seu apartamento toquei sua campainha. Meu coração pulava, parecia que ele sairia pela minha boca, minhas mãos suavam e minha respiração estava difícil, a dor da ansiedade de vê-la abrir a porta passou a ser algo insuportável. Eu estava muito nervoso, sem saber se entregaria as rosas e esperaria um abraço ou a abraçaria e entregaria as rosas... Eu só queria o seu abraço... Algum tempo se passou e ninguém veio atender a porta. Imaginei que ela poderia estar no banho, afinal seus banhos demoravam horas. Esperei alguns minutos e toquei a campainha novamente, ainda sem que ninguém aparecesse. Perguntei meio sem jeito a uma mulher que ia saindo de seu apartamento ao lado, se a moça que morava aqui tivera saído. Ela sorriu e balançando a cabeça negativamente me alertou que esta garota nunca saía. Comecei a bater a porta em intervalos curtos de tempo, eu estava cada vez mais nervoso. Estaria ela me evitando por eu não ter lhe contado o porquê da viagem e ter me afastado por tanto tempo?

Coloquei a mão na maçaneta e a porta estava destrancada, entrei lentamente chamando seu nome. Estava tudo muito silencioso, muito calmo. Uma luz enorme vinha de seu quarto, seu computador estava ligado. Andei um pouco mais e vi por debaixo da porta uma luz vinda de dentro do banheiro, me aproximei e ouvi o barulho do chuveiro ligado. Por alguns segundos suspirei aliviado com um imenso sorriso ao rosto. Sentei-me ao sofá da sala e voltei a imaginar o que faria e dessa vez se eu arrancaria ou fingiria arrancar sua toalha. Um tempo depois, fiquei curioso com o que ela estaria fazendo no computador antes de ir tomar banho. Levantei-me e caminhei até seu computador e sentei abrindo uma das janelas de navegador que estava minimizada e fiquei confuso e assustado com o que vi.

Métodos, imagens, dicas, para um suicídio bem executado. Abri página por página e não parecia ter fim, abri seu histórico e já há várias semanas ela vinha pesquisando sobre isso. Quando eu já estava bolando em minha cabeça como eu iria reclamar com ela sobre isso, me caiu a ficha do que de fato estava acontecendo. Assustado, levantei correndo e fui até o banheiro, hesitei por um segundo para abrir a porta por medo de meus pensamentos estarem certos, mas respirei fundo e entrei de uma vez ao banheiro. Eu simplesmente não acreditei no que vi! Lá estava ela, deitada ao chão, toda cortada e recoberta por sangue em todo seu corpo. Seus lábios brancos, o chão completamente sujo. Corri e a abracei forte, envolvendo-a em meus braços chamando seu nome repetidas vezes, seu corpo ainda estava quente. Ela estava tão magra que eu não tive quaisquer dificuldades em carregá-la. Corri para fora, gritando por ajuda. Algumas pessoas apareceram e nos levaram até o hospital onde a encaminharam diretamente para a sala de cirurgia.

Eu não conseguia acreditar, nosso primeiro dia, nosso primeiro abraço... Eu havia chegado tarde, eu não consegui cumprir minha promessa e agora eu também a perderia... Várias horas mais tarde os médicos vêm até mim dizer que conseguiram reanimá-la quase como um milagre, como se alguém lá em cima estivesse olhando por ela, mas que infelizmente ela ainda estava muito fraca por ter perdido tanto sangue. Antes de saírem me alertaram que toda aquela perda de sangue e talvez algum outro ocorrido, poderia lhe causar sequelas graves, sequelas essas que eles ainda infelizmente não sabiam dizer, pois ela estava em estado de coma. Passei a visitá-la todos os dias, arranjei um emprego de meio período e me mudei para sua cidade. Dessa vez eu não iria quebrar mais nenhuma promessa, era o mínimo que eu poderia fazer, era o único modo de fazer parte da vida dela agora, visitando-a todos os dias.

Meses se passaram e nenhuma melhora, eu virava noites observando-a e aos gráficos ao computador, esperando um suspiro diferente, um risco elevado, qualquer coisa que indicasse que ela ainda estava ali, que ela ainda iria acordar, que ela iria melhorar... Mas durante muitos meses tudo se repetia, nem sequer uma esperança de melhora aparecia. Todos estavam ficando desiludidos. Um certo dia então, quando eu acabara de pegar no sono, comecei a ouvir apitos e barulhos altos e estranhos vindo das máquinas, fiquei assustado, achei que tinha puxado algum fio com os pés ou algo parecido. Quando que de repente ela se senta à cama bruscamente, confusa e buscando ar desesperadamente, enquanto suava muito. Gritei os médicos que começaram a correr e logo invadiram, tomando toda a sala e me colocando para fora dela. Alguns minutos depois eles saíram sorrindo e comemorando, apertando minha mão e dizendo que milagrosamente ela havia se recuperado. Todos estavam felizes, corri até o quarto gritando seu nome sorrindo e fui recebido com um seco e frio “quem é você?”.

Meu mundo deu voltas, eu não conseguia acreditar que ela estava falando sério. Retruquei sem graça e pedi-a para parar de brincadeiras fora de hora, que a situação era séria e não havia espaço para brincadeira. Aproximei-me dela para finalmente dar o meu tão desejado e sonhado abraço e fui rudemente repelido, pude então perceber que era mesmo sério. Ela jamais me repeliria, muito menos um abraço, nosso primeiro abraço...

Não era justo! Todo aquele meu sofrimento, tudo que passei, tudo que lutei, todo o tempo que esperei e ela simplesmente não se lembrava de mim?! Impossível, mentira! Ela estava fingindo, tentando me afastar, Pelo menos era o que eu queria pensar...

Ela estava letárgica, desatenta, passava o tempo inteiro olhando a chuva pela janela, não queria conversar, não era mais a mesma garota de sempre. Quanto mais e pensava que era tudo mentira, mais eu tentava odiá-la por isso. Por que ela adorava me fazer sofrer? Por que ela mentia tanto? Minha cabeça criava perguntas que simplesmente não tinham como serem respondidas. Ingrata, maldita, depois de tudo que fiz por ela, depois de ter mudado completamente minha vida por ela, de ter amado-a tanto...

Mesmo assim continuei a visitá-la todos os dias, até que ela me perguntou o por quê de visitá-la todos os dias. Se eu não tinha nada mais importante para fazer. Ela queria saber quem eu era e o que eu fazia, menti dizendo que trabalhava visitando doentes em hospitais. Ela sorriu abaixando a cabeça e dizendo que até onde se lembra, por toda a sua vida ela sempre foi um fardo na vida dos outros, sempre atrapalhando e ocupando espaço desnecessário. Retruquei dizendo que algumas pessoas às vezes fazem promessas que tentam cumprir dia após dia. Novamente ela sorriu me perguntando se afinal esta era a minha promessa. Eis que então, um sentimento doloroso tomou meu peito, vê-la sorrir daquela forma para mim e lembrar os sentimentos que eu estava tentando ter por ela neste momento difícil, logo ela que eu amava tanto, apenas por duvidar de seu estado mesmo quando todas as provas estivessem bem ali aos meus olhos.



― Então você se afastou dela? ― Interrompeu Richard.

― Nem que eu quisesse eu conseguiria. Na verdade, me afastei um pouco para pensar, mas não foi nada definitivo. Eu de fato não consigo me ver longe dela por tanto tempo.

― Por que a visita ainda se ela não se lembra de você? ― Interrompe Uwokisa com um ar sério e frio.

― Ela é frágil, precisa de alguém do seu lado, precisa de amor e carinho, mesmo que seja orgulhosa demais para aceitar isso de qualquer um. Além disso eu a amo acima de tudo, tenho esperanças de que um dia a minha garotinha vá acordar...

― E se não? ― Pergunta Uwokisa. ― Você não acha que esteja perdendo muito tempo tentando reviver memórias que se foram, enquanto poderia estar criando novas? Você acha que vai conseguir esperar tanto por ela, quanto ela esperou por você?

― Eu não sei do futuro... ― Suspirou Carlos.

― Não sabe do futuro? Que tipo de resposta é essa?! ― Exclamou Uwokisa batendo na mesa. ― Que amor é esse que não lhe permite fazer planos e suportar dores por piores que elas sejam?! Pare de ser tão egoísta, pare de pensar só em si mesmo, de dar atenção total e unicamente a sua felicidade!

― E tudo que eu passei por ela?! ― Grita Carlos, levantando-se da cadeira.

― O que você quer? Que coloquei no jornal, que falem que você é o melhor homem do mundo, não tendo feito nada além da sua obrigação? Afinal é tudo culpa sua e ainda sim você teve coragem de duvidar da pessoa que dá a vida por você. Sendo que todo o cuidado que você teve, foi por puro ato egoísta de querer ela para você, ou melhor, o simples fato de ter sido a causa disto tudo com ela! O que sente? Culpa? Remorso? ― Grita Uwokisa, também se levantando da cadeira. ― Não ache que está sendo um herói. Você não passa de um espinho em uma rosa, uma erva daninha em um jardim. Agindo por puro egoísmo.

― Como você consegue ser tão estúpido, frio e imundo? ― Disse Carlos com lágrimas nos olhos.

― Passei por coisas piores, mas não me arrependo de todo modo, afinal, estes é que construíram e fizeram de mim o que eu sou hoje.

― Sim, um monstro frio que só enxerga aquilo que quer ver. Se afunda em suas próprias palavras, em suas próprias mentiras. Mente tanto para todos e para si mesmo que passa a acreditar em sua própria mentira. Você se sente tão solitário aqui dentro, que sente que todos devam sofrer junto com você com suas palavras imundas, não é atoa que ninguém quer ou se importa com você. ― Interrompeu Carlos, segurando o peito de Uwokisa pela blusa, encarando profundamente seus olhos.

― Vamos andando Richard. ― Murmurou Uwokisa soltando-se de Carlos e caminhando até a porta.

― Não! Nós não podemos, temos que ajudá-lo! ― Exclamou Richard que correu até Uwokisa, lhe puxando pela bainha da blusa. ― Uwokisa, você sabe que ele precisa de nós, por favor, abra seu coração...

― O que eu tinha já parou de bater a muito tempo, sou apenas um monstro insensível e frio agora. ― Disse Uwokisa, saindo pela porta debaixo de chuva.

― Sabe... Isso não foi legal e desnecessário... ― Disse Richard de cabeça baixa. ― O Uwokisa é uma boa pessoa e não precisava ouvir isso tudo. Às vezes você deve pensar que é só porque você sofre que todos a sua volta devam sofrer junto com você. Ele só estava tentando ajudar, mesmo que ao seu modo... Escute, ao final da rua existe uma encruzilhada, pegue o caminho da esquerda e siga até o bosque, você vai avistar uma clareira e então uma enorme mansão. Visite-nos no jantar caso queira se redimir e precisar de ajuda. ― Disse Richard olhando para trás por cima dos ombros indo em direção à porta.

― Obrigado, mas eu não preciso de ajuda. ― Interrompeu Carlos, virando-se e sentando.

― O convite está feito, apareça sempre que puder, serás sempre bem vindo. ― Suspirou Richard abrindo o guarda-chuva e correndo em meio a chuva.



Era confuso tentar descrever o que tinha acontecido. Antes completos estranhos, então conhecidos e repentinamente ambos já se preocupavam e importavam uns com os outros. Carlos já não se sentia tão sozinho, apenas confuso sobre o que o rapaz de cabelos vermelhos houvera lhe dito. Ele segurava firme a xícara, rodando lentamente o anel em seu dedo, ouvindo a chuva que caía e os barulhos da trovoada. Ficou imóvel por alguns segundos observando o relógio da parede, então calmamente levantou, tirou uma nota de sua carteira, colocou sobre a mesa e saiu caminhando lentamente, pensativo, sequer se importando com a chuva. Mas afinal, o que ele planejava?

Enquanto isso, Uwokisa corria, corria muito rápido quase que sem rumo. Suas roupas e seu cabelo estavam completamente encharcados. Chegando em meio a um jardim imenso e abandonado, ele tropeçou em um pedaço de raiz de uma enorme e velha árvore, permanecendo ali deitado sob a chuva. Apoiando seus cotovelos ao chão, ficou de bruços e ergueu um pouco sua cabeça ao céu, tremendo e chorando, confundindo suas lágrimas entre a chuva que escorria pelo seu rosto. Lentamente, ajoelhou-se e passou uma de suas mãos ao rosto, confuso. Perguntando-se o que era aquilo, aquele estranho sentimento que tomara seu peito de forma tão violenta. O que estava acontecendo com ele? Estaria se tornando o fraco Uwokisa de sempre? Ele se perguntava enquanto continuou ali, respirando fundo, olhando para o céu escuro, recoberto de nuvens que pareciam derramar suas lágrimas ao mundo, como se uma forma dos deuses mostrarem sua tristeza e reprovação por como o mundo caminhara. Tirou uma de suas luvas e observou as marcas de sua mão, como se tentasse fazer a si mesmo lembrar o que afinal ele era, negando todas as coisas boas que lhe estavam acontecendo... Você pode ficar tão viciado em um certo tipo de tristeza, que qualquer sentimento diferente é repudiado de seu coração, de sua mente... Fechou seus olhos, suspirando fundo com suas mãos ao peito, apertando firme. Ele precisava organizar as coisas em sua mente, era tudo tão rápido e repentino e se perguntando o porquê de tudo aquilo ser exclusivamente com ele. Permaneceu sentado sob a árvore, que lhe oferecia uma pequena proteção da chuva, até o cair da noite.

Quando a chuva acalmou-se, como uma leve garoa que caía, ainda sem dizer uma palavra, ele levantou-se e fora caminhando de volta a mansão com sua cabeça baixa, olhando firmemente para o chão e os passos que dava. Após um longo tempo de caminhada, ele parou em frente ao portão de entrada do jardim da frente de sua mansão. Encarou-a com um olhar desolado e vazio por alguns minutos e calmamente caminhou até a porta da mansão. Ao abri-la, ele se deparou com a lareira da sala acesa e um sofá em frente a ela, sofá este que não pertencia a esta sala. Ignorou e caminhou até a sala de jantar, reparou então que a mesa estava completamente posta. Candelabros espalhados por toda a mesa, suas velas estavam quase que completamente derretidas. Levantou seu olhar e notou Richard dormindo sobre um prato vazio, ele havia esperado por Uwokisa para o jantar, até que adormecera com a sua demora. Ele continuou parado ao lado da mesa observando-o até ser interrompido de seus pensamentos por alguém que descia as escadas.


― Eu disse-lhe para comer, mas ele insistiu que esperaria por você. ― Disse Carlos, segurando uma toalha em seus cabelos e cintura.

― O que você faz aqui? ― Disse Uwokisa sem esboçar nenhuma reação.

― O garoto me convidou, ele me disse que...

― Não importa o que ele disse! ― Gritou Uwokisa interrompendo bruscamente Carlos. ― Esta é minha mansão e eu não quero mais ninguém nela, se você se importa tanto com o que ele diz, leve-o com você! Eu quero todos fora da minha frente, da minha mansão, da minha vida agora mesmo!

― Uwokisa... ― Disse Richard com um tom doce e sonolento, surpreendendo Uwokisa com sua mão quente segurando a sua. ― Você prometeu que sempre estaria comigo... Vamos, não seja mau. Desculpe-me, eu que chamei o Carlos aqui, pois ele precisa da nossa ajuda, da sua ajuda. Eu sei que mesmo que eu tente, você é o único que pode ajudá-lo de verdade, Uwokisa...

― Richard, eu... Eu lamento, mas não posso. Não sei cuidar sequer de mim, quanto mais de outra pessoa. ― Disse Uwokisa soltando a mão de Richard e voltando a sala.


Caminhou até o sofá em frente a lareira e ao fazer a volta por ele para se sentar, observou que houvera uma linda garota repousando sobre ele. Era como um anjo, ela respirava com dificuldade, tão pequena quanto uma criança, um rosto sereno e delicado, cabelos bem compridos chegando até seus pés, prateados e brilhantes, pele branca como a neve e lábios bem rosados. Uwokisa ajoelhou ao chão em sua frente e cobriu sua boca com uma de suas mãos, balançando negativamente sua cabeça, várias e várias vezes, em tom de espanto. Tirou a mão que recobria sua boca e assustado aproximou-se dizendo:



― Quem é ela?! O que faz aqui? ― Gritou assustado e confuso.

― Vivian, minha noiva! ― Disse Carlos confuso com a reação de Uwokisa.



Uwokisa não conseguia acreditar que aquilo era possível, ele sentia que conhecia aquela garota, de muito tempo atrás. Ele sabia quem ela era exatamente. Ele estava paralisado, seu rosto demonstrava pânico, ele tremia e suava frio. Até que lentamente e com muita dificuldade ela abriu seus olhos, que o deixou imediatamente sem ar. Olhos prateados, bem claros e vivos, encarando-o bem ao fundo de seus olhos, como se dissessem a sua alma que o reconhecera e o achara depois de tanto séculos, como um reencontro...


[...] Era uma tarde calma e ensolarada, Uwokisa estava sentado à beira de um riacho, limpando suas feridas. Praguejava muito enquanto tomava em suas mãos, água para lavar o rosto e molhar os cabelos. Repentinamente, de dentro do riacho surgiu uma garotinha que fora ficando de pé aos poucos, encarando profundamente aos olhos de Uwokisa. Os dois continuaram se encarando por um bom tempo, até que aproximando-se mais, a garota perguntou:



― Não estás com medo de mim?

― Claro que não, eu não tenho medo de nada. Muito menos de uma garota qualquer. ― Exclamou Uwokisa, enquanto passava um pano úmido em suas feridas.

― Que animal feriu você? ― Perguntou a garota, sentando-se ao lado dele.

― Um tipo de animal que supostamente deveria ser racional. ― Disse ele, calçando suas botas.

― Um animal que deveria ser racional, isso existe? ― Perguntou ela.

― Me pergunto a mesma coisa... Se não se importa, estou partindo, adeus. ― Disse ele, levantando-se e caminhando por entre as árvores.

― Espere! Você ao menos tem um destino? ― Perguntou ela virando-se virando para trás. ― Afinal, eu moro aqui. Posso lhe mostrar o caminho, se desejar. A propósito, meu nome é Ogawa.

― Prazer, Uwokisa. [...]



― Ogawa, você está viva...? Mesmo depois de tudo aquilo, como, como conseguiu? ― Questionava ele, eufórico e com os olhos cheios de lágrimas.

― Desculpe-me, Ogawa? Lamento senhor, meu nome é Vivian, é um prazer em conhecê-lo. ― Disse ela levantando-se e sentando ao sofá.

― Carlos a sequestrou do hospital depois que você saiu, por isso ele precisa de ajuda. Eles sabem onde ele mora e com toda certeza irão atrás dele a todo custo, assim que notarem que ela sumiu. ― Disse Richard, aparecendo por detrás de Carlos.

― Parece que todos que pisam nesta mansão ficam presos a ela de alguma forma e por algum motivo... ― Disse Uwokisa, levantando-se e colocando suas luvas discretamente. ― Bem, estou faminto. Alguém mais está?



Ele parecia querer desviar o assunto, de forma a evitar mais perguntas, dúvidas e corações machucados, discutir de nada resolveria e todos continuariam com seus segredos. Sentaram-se a mesa para jantar, todos estavam em silencio, apenas era possível ouvir o barulho dos talheres ao prato, alguns longos suspiros, o som da chuva forte que caía ao telhado e janelas da mansão e os carros que passavam ao lado de fora dela. Era um silêncio perturbador, de forma que incomodava Richard. Ninguém parecia estar feliz, a comida não parecia estar boa. Era como se a companhia um do outro fosse incômoda para todos ali presentes. Isto o estava perturbando mais que qualquer coisa...



[...] “Estou sozinho, preso. Sinto-me sufocar pouco a pouco, minhas pernas parecem não estar obedecendo às vontades de minha mente, mas sinto que mesmo que elas estivessem livres eu não conseguiria sair por contra própria, pois elas parecem obedecer às vontades de meu coração... Eu tenho medo de sair do que me prende, do que me sufoca. Temo descobrir o que a liberdade e felicidade significam, quando tão logo eu posso perdê-las e me afundar em uma tristeza e prisão pior ainda... Sinto como se eu fosse dependente desta dor, como se só através dela eu pudesse lembrar de fato, quem eu sou.

Eu deixaria de ser eu mesmo se tentasse me livrar destas correntes? Será que a felicidade que eu tanto busco me nega dia após dia, para que eu possa perceber o que eu sou, o que mereço? Será que eu me sinto feliz...? Não quero arriscar perder o que tenho agora tentando melhorá-lo, antes uma grande dor conhecida, que uma desconhecida. Mesmo que por muitas vezes, estas desconhecidas venham a te acompanhar mais cedo ou mais tarde, quem sabe até mesmo por toda a vida...

Escuto alguém chamar pelo meu nome ao longe, está ficando cada vez mais alto a cada noite, posso agora ver rostos e sorrisos. Vejo uma luz vinda em minha direção, suave, ela me parece quente e acolhedora, como um abraço... Um abraço de mãe... Mas não! Eu não quero que esta continue a me iluminar, não me sinto digno de quaisquer sentimentos de quem quer que seja. Amor, compaixão, saudade, piedade, pena... Sentimentos são dispensáveis em minha vida.

Sinto-me observado, sinto algo muito ruim apertar o meu peito, avisando-me de algo muito ruim a caminho. Sinto medo... Quero fugir, quero me livrar de minhas correntes, quero que me deixem em paz. Sentimentos, pensamentos, lembranças, apenas sumam. De que vale a vida eterna se ela é apenas feita de dor e sofrimento? Essa sensação... Sim, eles estão vindo, eles irão cobrar tudo que lhes devo e não tenho como fugir. O dia de prestar contas parece estar muito mais próximo do que meus cálculos preveram, mas não posso agora, não estou pronto ainda! Preciso de mais tempo, eles não podem vir agora. Por favor, não agora, não me levem tudo que tenho... É só o que tenho...” [...]



― Uwokisa, está acordado? ― Gritou Richard, batendo à porta do quarto de Uwokisa. ― Preparei o café da manhã, tem panquecas, torrada e geleia, estaremos te esperando na sala de jantar.



Uwokisa estava atordoado com o sonho que houvera tido naquela noite. Ele não sabia de quem era aquela voz, aqueles rostos e de onde vinham todos aqueles sentimentos. Ele estava mesmo sentindo que eles viriam? Levantou-se da cama e tirou de dentro de uma gaveta a foto sua e de sua mãe. Observou-a sério por alguns minutos, deslizando seus dedos suavemente pelos cabelos e rosto de sua mãe na foto. Deu um largo sorriso, sentando-se a cama, completamente em silêncio, sequer um suspiro era ouvido. Tirou uma chave de dentro de outra gaveta e pegou uma pequena caixa de dentro do baú. Aconchegando-se e encostando suas costas à cabeceira da cama, usou a chave nesta caixinha, que se abriu lentamente e uma linda, calma e doce melodia começara a tocar suavemente, enchendo os seus ouvidos. Era uma caixinha de música, daquelas bem antigas entalhadas em madeira.

Um sorriso se formou e lágrimas escorreram em seu rosto, enquanto uma pequena bailarina de porcelana branca “dançava” de um lado a outro da caixinha de música. Quando que o pardal, atraído pelo som da música entra por um pequeno buraco do vidro da janela quebrada de seu quarto, pousando gentilmente em seu ombro. Ele estava encharcado com a chuva e parecia não estar conseguindo voar direito. Bem atendo ele continuou ali, parado ao seu ombro, aproveitando juntos, a linda melodia que parecia gentilmente ninar as almas inquietas de cada um...



― Uwokisa, finalmente você chegou! Eu já estava indo novamente lhe chamar, imaginei que não me ouvira da primeira vez por ainda estar dormindo. ― Disse Richard alegremente abraçando-o.

― Bom dia Richard, Carlos, Vivian. Lamento tê-los feito esperar por tanto tempo, um amigo meu se machucou gravemente e precisei cuidar dele. ― Disse Uwokisa, segurando algo em suas mãos.

― Um amigo, no seu quarto? Hm... ― Questionou Carlos, entortando de leve a boca e sorrindo.

― Sim, um amigo. ― Disse Uwokisa, abrindo suas mãos e mostrando o pardal que morava em seu jardim. ― Aparentemente ele quebrou a asa durante a tempestade de ontem, por isso decidi deixá-lo aqui dentro conosco até que melhore.

― Não gosto de aves, seres repugnantes e asquerosos. São como ratos voadores que comem qualquer peixinho de água doce. ― Interrompeu Vivian, virando seu rosto.

― Bem, isso é mesmo uma pena, senhorita. Pois a mansão é minha e se eu digo que um pássaro irá ficar conosco, ele irá. Caso isto venha a lhe desagradar profundamente, a senhorita tens a porta de saída às suas serventias. ― Disse Uwokisa com um tom arrogante.

― Ora essa seu...! ― Exclamou Vivian levantando-se da cadeira com uma expressão enraivada.

― Certo pessoal, vamos manter a calma aqui, pois não estou pretendendo comer pão banhado a sangue está manha. ― Disse Carlos segurando Vivian pelos ombros.



Sentaram-se a mesa e aos poucos eles começaram a trocar ideias e conversarem animadamente. Todos davam pequenas migalhas de pão ao pequeno pardal, exceto Vivian que havia praticamente declarado guerra contra a ave. Uwokisa estava quente e sorrindo por dentro, por como tudo havia mudado tão repentinamente e para melhor, mesmo que ele não conseguisse sorrir ou expor isso para os outros. Richard observava Uwokisa discretamente, seu rosto sério e seus olhos vazios, preocupavam-no tremendamente, ele queria perguntar o que houve, entrar novamente nos pensamentos de Uwokisa e descobrir os seus problemas para tentar resolvê-los, mas não iria atrapalhar o momento que estavam tendo, por mais que perguntar fosse tudo que ele mais gostaria no momento.

Conforme a tarde caía, o pardal começara a ficar inquieto, ele não conseguia voar alto, nem por tempo suficiente, por mais que tentasse, para sair por alguma janela. Ele parecia precisar sair imediatamente de lá, mas ninguém entendia sua inquietação. Ao cair da noite o pardal mal conseguia ficar de pé, respirava com dificuldade e sua asa machucada parecia estar enegrecida, enquanto sangrava muito. Não havia ninguém que pudesse ajudá-lo, todos estavam em suas camas, dormindo, pois já houvera passado das duas da manhã. Enquanto o pardal estava ali, sobre a mesa de jantar, ofegando, sofrendo e agonizando de dor, lutando sozinho à sua própria sorte.

Em seu quarto, Uwokisa foi acordado por um imenso estrondo vindo da parte debaixo da mansão. Abriu sua porta e calmamente caminhou pelo corredor silenciosamente, temendo acordar alguém àquela hora da manhã e estando vestido apenas com um pedaço de pano amarrado à cintura. Desceu as escadas aos poucos, quase que na ponta dos pés, pisando suavemente degrau por degrau e caminhou até a mesa de jantar, no intuito de checar se estava tudo bem com o pardal. Ao chegar lá ele notou que ele não estava mais, apenas várias penas marrons e rastros de sangue espalhado por todos os cantos. Muitas penas que, ao segui-las pareciam aumentar gradativamente de tamanho e quantidade. Sem esboçar nenhuma reação, ele seguiu as marcas de sangue até chegar em frente à lareira apagada de um outro salão. As cortinas tinham sido arrancadas e haviam rastros de pegadas de um pássaro imenso e que logo se seguia por pegadas humanas. Nas paredes existiam marcas de mãos e arranhões profundos, que se seguiam até quase o chão. Uwokisa tentou imaginar que alguém houvera invadido a mansão e tentado matar o pardal, coisa esta que não era de todo impossível, pois todos odiavam aquele pardal por ser muito encrenqueiro, barulhento, ladrão e bagunceiro.

Aproximou-se mais e observou que as cortinas cobriam algo grande em frente a lareira. Segurou uma ponta e puxou rapidamente ela, tirando-a de cima daquilo que ela cobria, afastando-se significativamente do que quer que fosse sair de lá. Debaixo havia um rapaz, de cabelos castanhos curtos e cheios, tão finos e brilhantes quanto penas. Sua pele era clara, seus olhos negros e profundos, tal qual a noite que refletiam a imensa luz da lua e algumas sardas recobrindo a área de seu nariz e bochechas. Ele estava ao chão, deitado sobre seus joelhos dobrados, completamente nu e ensanguentado. Seu braço estava quebrado e com estranhas marcas negras. Haviam muitas penas ao seu redor, como se vários pássaros houvessem sido depenados ali mesmo.

Lentamente, quase que sem forças e usando seu outro braço o rapaz levanta seu corpo e permaneceu ajoelhado. Olhou firmemente para Uwokisa, com um olhar desolado, arrependido, assustado e envergonhado. Virou sua cabeça para a janela por uns segundos, observando a lua que estava bem alta ao céu estrelado, alguns segundos depois, voltou-a para Uwokisa, dando-lhe um largo e longo sorriso caloroso.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.