A porta que então estava completamente cercada e encravada de vinhas moveu-se lentamente fazendo um estrondo terrível e esganiçado a cada movimento. Richard estava assustado demais para se mover e tremendo continuou a assistir a porta que lentamente e com dificuldade abria pouco a pouco.

-Ora, ora! Parece que tenho visita para o jantar. -Disse o rapaz que saíra de dentro do quarto ainda segurando sua flauta em uma das mãos.

Richard estava tão assustado que ficara confuso, pois ele jamais houvera visto alguém tão deslumbrante quanto aquele rapaz. Longos cabelos ruivos, levemente encaracolados nas pontas. Dentes devidamente alinhados e afiados, orelhas pontudas e medianas. Alto e medidamente magro e com alguns músculos. Sua voz soava tão suave, doce e pura quanto sua música. Deixando Richard confuso quanto a ter medo.

-Olá pequenino, o que faz aqui dentro? –Disse o rapaz ao ajoelhar em frente ao garoto. –Você está com fome? Richard não parecia estar com medo daquele homem, mesmo que estranho, ele passava-lhe um sentimento de paz e tranqüilidade.

-Ei! Diga-me o seu nome. –Disse o rapaz interrompendo os pensamentos de Richard.

-Desculpe, meu nome é Richard. Acabei vindo parar aqui pela sua música. Eu não queria atrapalhá-lo. Me perdoe. –Exclamou o garoto tirando seu chapéu da cabeça e o segurando firme com as duas mãos.

-Tudo bem pequeno Richard. Tome mais cuidado da próxima vez, certo? –Disse-lhe o rapaz enquanto alisava a cabeça do garoto.- A propósito que cabeça a minha, eu sou o Uwokisa. Prazer em conhecê-lo. Desculpe meus modos, alguns anos de isolamento me fizeram esquecer o que é ter visitas. Venha, venha! Você está com fome?

-Senhor não precisa se incomodar com isto. Vim apenas para escutar a música, eu estou bem. –Murmurava Richard, pisando firme seu pé ao chão.

-Hm, eu devo ter ovos e lingüiça aqui em algum lugar... Checaremos na cozinha depois, prometo lhe empanturrar por uns nove meses, há há! –Gargalhava Uwokisa, aproximando-se do garoto e o erguendo por debaixo dos braços.

-Espere, pare! O que está fazendo?! Ponha-me ao chão! –Gritava enquanto se debatia repetidas vezes, tentando sem sucesso afastar Uwokisa dele.

-Richard! O que houve?! Acalme-se pequenino, não irei lhe fazer mal, eu prometo! Você pode não me conhecer mas eu sou bem gentil, principalmente com pessoas mais novas que eu. –Disse, tentando acalmar o rapaz, levemente segurando um de seus braços.

-Onde você esta me levando?! Eu já lhe disse, ponha-me ao chão imediatamente! O que vai fazer comigo?! –Continuava a gritar se debatendo.

-Primeiro irei lhe despir. –Sorria Uwokisa, segurando firme o garoto.

-O QUE?! Solte-me agora! É uma ordem! –Disse Richard segurando firme o ombro de Uwokisa.

-Sua mãe nunca lhe ensinou que não deve sentar a mesa sujo? Vamos, lhe darei um bom banho de espuma com água quente. –Disse sorrindo colocando Richard ao chão e puxando ele pelo braço. –Aqui veja, que banheiro magnífico! Veja o tamanho desta banheira, é quase uma piscina, há há!

Richard estava confuso, ele não conseguia acreditar que aquele homem que ele acabava de conhecer, fosse uma pessoa tão gentil e animada. Ele estava feliz ao mesmo que receoso. Ninguém era tão gentil assim a troco de nada. Na verdade, nem mesmo o próprio Richard aceitava a ideia de ser tão bem tratado sem poder retribuir de forma equivalente. Ele observava Uwokisa ligar a banheira e retirar algumas toalhas e perfumes de dentro de uma gaveta, enquanto pensava em uma forma de retribuir o favor.

-Pronto! A água está quentinha. Quer que eu lhe ajude ou você sabe se virar sozinho? –Exclamou Uwokisa, acordando Richard de seus pensamentos.

-Oh sim, eu posso me virar daqui, obrigado... –Sussurrou Richard colocando seu chapéu sobre a pia.

-Se precisar de algo, estarei na cozinha preparando algo para você. Deixarei algumas roupas sobre a cama do segundo quarto à direita. Espero que sirvam. –Disse Uwokisa saindo e fechando a porta, deixando Richard desfrutar do banho.

Ele então observava calmamente o ambiente em que estava, enquanto tirava suas roupas. Viu seu reflexo no imenso espelho do banheiro que estava logo atrás dele. Por alguns instantes checou seu rosto coberto pelo cabelo, sua barriga, tocando suavemente cada parte, voltando até seus olhos e ouvidos. Ele queria ter certeza de que tudo aquilo não era penas um sonho. Era tudo perfeito demais para estar acontecendo com ele. Um garoto órfão, sujo e maltrapilho.

Por que aquele homem o acolhera de forma tão gentil? Por que ele não o matou por ter entrado na propriedade dele? Eram tantas perguntas e imagens que passavam na cabeça do pequeno Richard. Ele tinha tanto medo das coisas que pensava. Ele não sabia do que aquele homem era capaz e temia descobrir da pior forma.

Richard entrou lentamente na banheira, sentindo toda aquela água quente agradar seu corpo por completo, enquanto a espuma deixava ainda mais confortável. Era como um sonho daqueles que você não quer nunca acordar. Aquela água quente tomando conta de todo seu corpo, lhe esquentando como um abraço bem apertado, ele respirava fundo, suspirava e murmurava baixinho o quanto aquilo tudo era bom demais para ser verdade. Fechou os seus olhos para aproveitar melhor toda aquela sensação. Ofegante e com o seu coração disparado, ajeitou-se à banheira, deu um longo suspiro e adormeceu.

-Richard? Você está bem? Richard! –Gritava Uwokisa enquanto o sacudia pelo ombro.

Uwokisa havia estranhado a demora de Richard ao banho e subido para checar se estava tudo bem. Ao subir, ele encontrou Richard desacordado dentro da banheira. Imediatamente Uwokisa o tirou de dentro da banheira carregando-o. Enquanto caminhava até o quarto, Richard acordou assustado e perguntou o que está havendo. Uwokisa segurou-o firme e entrou ao quarto, enquanto Richard assustado e tremendo agarrou-se firmemente ao ombro e pescoço de Uwokisa. Ele então cuidadosamente colocou Richard sentado à cama, e o cobriu com uma toalha. Segurou seu rosto perguntando se ele estaria bem e por que ele havia desmaiado. Richard explicou que talvez houvesse sido o fato de que ele estaria com muita fome, já que não comia há dias.

Ele agradeceu por Uwokisa o ter resgatado, aproveitando para agradecer pelos cuidados e pelo maravilhoso banho. Ele então puxou uma das peças de roupa que estava sobre a cama, para se vestir, quando foi interrompido por Uwokisa que segurou seu braço se inclinando sobre ele. Assustado, Richard ficou em choque, sem executar nenhum movimento, apenas tremendo e suando frio. O que estava acontecendo era estranho demais para entrar em sua cabeça tão facilmente.

-Eu vestirei você. –Disse Uwokisa tomando em suas mãos a peça de roupa. –Ela é bem diferente do que você está acostumado a vestir. Você tem que estar impecável para o jantar. Afinal não queremos você parecendo um tonto com as roupas erradas, certo?

Calmamente Uwokisa vestiu suas roupas, tomando cuidado para não apertar ou machucar Richard. Ele levantou seu queixo para poder arrumar os babados em seu pescoço. Fez um pequeno laço com os cordões e esticou a roupa para certificar-se que ela coubera em Richard.

-Digna de um príncipe! Agora vamos arrumar o seu cabelo! –Exclamou Uwokisa, tirando um pente e uma tesoura de dentro de uma velha caixa empoeirada.

Ele então tratou de arrumar os cabelos de Richard, penteando, escovando e cortando, retirando todo aquele volume e partes estragadas. Passou de um lado a outro gentilmente, deixando o cabelo de Richard cada vez mais curto. Retirou de dentro daquela mesma caixa um pequeno vidrinho com um líquido branco viscoso, passando porções em seu cabelo. Ao terminar Uwokisa o virou em frente ao espelho, esperando ouvir algum comentário, enquanto torcia para ele ter gostado.

Richard estava perplexo com seu reflexo no espelho, ele sequer podia acreditar que aquele rapaz de olhos azuis piscina, com um cabelo loiro resplandecente fosse ele. Suas roupas magníficas, dignas de um príncipe, sua pele branca e macia como seda e um sorriso escondido entre as lágrimas que começaram a rolar de seu rosto. Aquele não podia ser ele.

Ele dificilmente podia ver seu rosto, estava sempre coberto por um longo cabelo escuro e estragado, junto com seu chapéu, que cobria ainda mais seu rosto. Sua vida corrida de roubar e esconder, não lhe permitia luxos simples como cuidar de sua aparência.

A única coisa que Richard conseguia era chorar, chorar alto e descontroladamente, soluçando e dizendo: "Eu não mereço tudo isso!

Uwokisa aproximou-se de Richard e deu um longo abraço apertado, passou a mão por sua cabeça, várias e várias vezes, sentindo cada fio de cabelo por entre seus dedos. Ele não entendia exatamente o que estava acontecendo, mas ele queria apenas que Richard não estivesse aos prantos, enquanto sua cabeça o massacrava de memórias ruins e pensamentos pecaminosos. Aquilo tudo haveria de passar, cedo ou tarde, e Uwokisa estava disposto a ajudar.