Once Again - Interativa
18 Capítulo 17
Notas iniciais
Capítulo 17 —
Escolher um vestido que expressase o que Jade sentia naquele momento não era uma tarefa fácil. Ela já tinha pedido para o guarda roupa ser renovado e segundo suas próprias criadas ela era a selecionada que mais trocara as roupas e que mais gastara com vestidos. Mas ali, diante dos seus olhos em uma noite tão especial todos pareciam absurdamente patéticos e iguais.
Jade correu para o banheiro e lavou bem o rosto, removendo toda maquiagem. A água fria penetrava seus poros, causando um leve arrepio atrás da nuca. Ela suspirou e encarou o reflexo no espelho.
O que ela deveria fazer agora?
–Kaleb escolheu você para um encontro de madrugada. Você já se destaca entre as outras, meu amor – Jade falou para seu próprio reflexo.
Mesmo reconhecendo sua beleza sem maquiagem, Jade não ia se permitir receber Kaleb de cara limpa. Secou o rosto na toalha de algodão e puxou todas as suas maquiagens da gaveta do banheiro.
Ela sempre carregava várias coleções diferentes de maquiagens junto consigo, desde que era muito criança. Sua mãe costumava dizer que nenhum fio de cabelo poderia estar desarrumado quando você gostaria de surpreender alguém, você realmente teria que deixar a pessoa enquasquetada e se perguntando se ali, por trás daquele rosto pintado havia algum defeito.
Com sombra marrom e preta nos olhos e boca rosada Jade já sabia que roupa usar: mini saia branca e blusa transparente preta. Afinal, imprevisível era como ela andava sendo descrita em todos os jornais. Fazer jus a palavra seria algo bom.
X
Kaleb chegou a porta de Jade em ponto. Ele bateu uma vez e ninguém atendeu. Por um curto minuto achou que a garota só poderia estar de gracinha. Bateu uma segunda vez e o silêncio foi a única resposta que teve.
Sério?
Na terceira e última vez ela o atendeu. Usava uma mini saia branca combinada com uma blusa transparente preta: Sim, o príncipe estava vendo o tope de rendas preto que Jade usava. A maquiagem estava comum, mas mesmo assim bela. E os cabelos castanhos soltos combinavam perfeitamente com os brincos grandes em forma de triangulo. Ele sorriu.
–Que demora.
–Espero que isso não tire nenhum ponto meu.
Mas Kaleb não respondeu. Tratou logo de puxar a mão da garota e depositar um beijo demorado.
–Entre, Alteza.
–Não precisa me chamar assim – Kaleb pediu. – Quer dizer, pode me chamar do que você quiser.
Nossa, mas ela era bonita mesmo. E de saia? Kaleb nunca tinha visto uma menina de saia.
–Então... O que a gente vai fazer?
Ele se aproximou. Ela não se movimentou. Suas sandálias pareciam ter se grudado no chão.
–Não sei – respondeu. – O que você quer fazer?
Jade fechou os olhos. A respiração de Kaleb perto da sua a fazia perceber o hálito de hortelã. Kaleb era alto e isso já o fazia chamar a atenção, além é claro da sua beleza. Mas ele era muito mais bonito de perto, e isso Jade faria questão de falar para suas concorrentes. Seus olhos também eram lindos como duas pedras – o verde entrava em fusão com um castanho chocolate. Era único.
Jade passou seus braços ao redor do pescoço do príncipe e sorriu.
Kaleb abriu um sorriso debochado e quando Jade menos esperava ele agarrou sua cintura, puxando-a para perto com tanta força que sua respiração falhou entre o movimento rápido.
–Vou dar uma sujestão.
E a beijou. A beijou tanto que Jade sentiu-se muito longe dali. As mãos de Kaleb, que a um segundo atrás estavam em sua cintura já subiam para sua nuca e se enroscavam no seu cabelo e nos brincos. Parecia loucura que conseguiam ficar se beijando por tanto tempo sem precisarem buscar ar.
Ela foi a primeira a se distanciar. Mas só o fez porque seus pulmões realmente não tinham mais condições de segurarem mais oxigênio.
Seu peito ia e vinha numa velocidade absurda. Jade colocou as mãos no peito de Kaleb e olhou dentro dos seus olhos. Ela queria dizer tanta coisa. Perguntar tanta coisa: Porque ele simplesmente chegara beijando-a? Eles nunca tiveram uma conversa de verdade. Respirou fundo:
–Finalmente, Vossa Alteza.
Ele lhe deu um selinho:
–Estava esperando por isso?
–Não sei. Foi bom.
–Que foi?
–Nada, Kaleb!
–Porque você fica me olhando desse jeito?
–Que jeito?
–Deixa... – ele se inclinou para beijá-la mas Jade recuou
–Ei. – ela disse – Eu estava olhando a sua boca. Ela tem um pouco de batom aqui.
–Onde?
Jade lhe mordeu os lábios bem de leve e depois tornou a olhá-lo.
–Bem aqui.
Kaleb semicerrou os olhos e riu.
–Desculpe, pode me mostrar de novo?
Ela o mordeu mais forte dessa vez.
–Acho que é por aqui – murmurou.
E os dois riram. Kaleb a puxou para um beijo. E mais um. E mais um...
X
Jade se separou de Kaleb quando sentiu que os dedos do garoto procuravam brincar demais com a abertura do seu tope. Ela se distanciou, assustada.
–A gente vai fazer isso? – perguntou.
O príncipe bagunçou o cabelo. Jade já tinha dado conta de bagunçar bastante, mas mesmo assim ele passou os dedos pelas madeixas e mordeu os lábios enquanto a encarava. Os dois ficaram se olhando por um tempo até que ele a puxasse, distribuindo beijos pelo seu braço.
–Tá bom, me desculpe Jade.
–Não é isso. Eu fiz uma pergunta: A gente vai fazer isso?
–Você quer?
–Você quer?
Kaleb pareceu pensativo. Jade pensou que colocara tudo a perder. E se ele não quisesse mais ela agora? Eles já tinham se beijado um monte. Jade nem estava mais usando a sandália e seus lábios estavam inchados – ela podia sentir. O que custava? Se eles fossem um pouquinho mais longe?
–Não parece muito justo com as outras garotas, né? Se a gente se deixar levar pode ter muita consequência no dia seguinte...
–E se a gente tentasse? – Jade o interrompeu – Olha, eu não me importo. Eu vim aqui para conquistar você, Kaleb, você sabe disso. Quer melhor jeito de vermos se combinamos partindo pra segunda fase?
–Segunda fase?
Ela sorriu de leve:
–É.
Kaleb a olhou no fundo dos olhos. Caramba, Jade queria tanto ficar horas olhando aquela mistura louca de duas cores. Mas eles também tinham um pouco de dúvida e insegurança hoje – ele realmente dava importância para as outras meninas.
Mas ele também dava importância a Jade. Ela sentia que sim. Sim, ela estava certa.
–Nós nem tivemos um encontro de verdade.
–Tivemos sim. Você me levou para jantar. Já até cavalgamos, Kaleb! Nenhuma garota foi cavalgar com você além de mim...
Ele abriu a boca para falar mas Jade se empolgou:
–E você sempre pareceu tão distante, tão focado em outras coisas. Agora você está aqui, vivendo o momento e o minuto de agora, não está? Sem pensar em nenhum futuro e nenhum passado. Vamos tentar?
Kaleb a beijou calmamente e depois segurou o rosto entre as mãos.
–Você me diz quando parar.
Jade assentiu e fechou os olhos. Seu corpo tremia de dentro para fora.
–De luz apagada, por favor.
Ela sentiu quando Kaleb se distanciou, porque as mãos no seu rosto deslizaram e o calor a sua frente sumiu. Não queria abrir os olhos. E o clic do interruptor a avisou de que estavam no escuro. Jade o esperou com o coração na garganta e o curto segundo de distância pareceu dois meses de espera até que finalmente Kaleb a beijasse de novo.
Porque no escuro tudo era mais fácil?
Os dedos de Kaleb traçaram uma linha dos ombros de Jade até a sua cintura e se firmaram nesse ponto, apertando-a de leve enquanto lhe beijava. Era possível sentir cada movimento que traçavam. O peito anormalmente acelerado da garota contra o do príncipe. As mãos dele que inesperadamente seguravam seu queixo e acariciavam seu rosto. Em um minuto ele era extremamente delicado e sensível enquanto seus beijos eram quentes e pediam por mais. Ele estava dando o tempo a Jade. Ela ainda poderia dizer que não.
–Me leva pra minha cama – ela pediu engolindo em seco.
Kaleb não hesitou. Seus braços se agarraram com firmeza nas costas de Jade e ele a ergueu enquanto leva-a para a cama.
Mais beijos. Nem mesmo o lençol gelado parecia capaz de amenizar o calor de Jade. Sua mão tremia e antes mesmo que pensasse em pedir para que Kaleb lhe arrancasse a blusa ele já o fizera. Jade suspirou profundamente. O príncipe lhe beijou de novo.
E tudo pareceu parar. Nem mais o escuro do quarto conseguia lhe esconder. Quem ela estava tentando enganar? Os beijos e tudo o que estava acontecendo era bom demais. Mas não estava se encaixando. Não. Não era agora para os dois fazerem aquilo.
Kaleb tinha recuado, pensado que as outras meninas ficariam chateadas e isso só a lembrava que Jade não era a sua única opção. Ela nem mesmo sabia se era a opção mais importante!
–Kaleb. Kaleb, já chega.
Ele recuou, espantado.
–O que foi?
Jade tentou encarar seu rosto, mas o escuro deixava tudo um borrão preto. Mesmo assim, tentou olhá-lo. Kaleb estava sentado sobre sua cintura, com a camiseta azul toda torta e amassada.
–Eu não quero. Me precipitei demais. Não quero a segunda fase.
Kaleb suspirou e deitou do seu lado. Braços cruzados sobre o abdomem. A menina rolou na cama, ficando de bruços sobre o lençol.
–Você tá bravo?
–Não! Jade, claro que não.
–O que você está pensando?
–Pensando no que eu pensaria amanhã se a gente transasse hoje.
–Eu também.
–Vou pro meu quarto, tá bom?
O príncipe se levantou.
–Kaleb?
–Sim?
–Quero sair mais com você.
–Também quero sair mais com você Jade.
–Quando vamos sair?
–Logo, imagino.
Ele se inclinou sobre a cama e depositou-lhe um beijo na testa. Um beijo doce de boa noite. Era tudo que ela precisava.
X
Jessica entrou a passos largos no Salão. Usava um terninho preto bem justo, marcando a barriguinha chapada. Seu corpo era magro demais, dando a impressão de ser uma pessoa quebradiça, mas só conheçendo-a para provar o contrário: Jessica era uma mistura de doce com um toque bem acentuado de severidade. Ela queria tudo certinho, mas sabia como convencer as pessoas a fazê-lo.
Desde que haviam entrado no castelo, as meninas puderam ter mais intimidade com a moça. Fotógrafa, escritora, jornalista, professora de etiquetas e mãe (Chace, era o nome do menino de dez anos), Jessica era uma pessoa completa. E uma boa companhia para as tardes. Durante três vezes ao mês, ela vinha fazer uma visita especial: dando aulas de boas maneiras e preparando as garotas para qualquer imprevisto. Hoje, pela parte da manhã, teriam aulas de etiqueta.
O salão estava muito mais vazio. O clima era de tensão. Mas Jessica não pareceu ligar e já foi tomando seu lugar na cadeira vermelha, bem de frente para as moças. Ela batucou sobre seu caderno preto e sorriu.
–Prontas para mais uma manhã, meninas?
Todas assentiram.
–Então vamos começar?
–Espera, Jessica – Evelyn falou – E Jade? Ela ainda não apareceu.
–Hã... Eu fui informada sobre os horários da senhorita Jade e acho que ela tem um motivo por não estar aqui.
–Está tudo bem com ela? – Isabelle já foi se adiantando, preocupada com a amiga mais próxima.
–Imagino que sim, minha querida. Pegue a taça de cristal ao seu lado, por favor.
A menina obedeceu, mas mesmo assim insitiu:
–Será que não teríamos que dar uma olhada? Sabe, para conferir?
–Talvez ela só não esteja se sendo muito disposta – Katerina sugeriu.
–Isso. Agora vamos começar nossa aula?
–Não podemos começar sem a Jade – Evelyn bateu na mesma tecla e Kristie a apoiou.
–Hoje vamos começar sem a senhorita Jade, Evelyn. Pegue sua taça. Senhorita Kristie também. – Jessica se levantou e começou a caminhar pelo salão. Quando fazia isso, parecia gigante diante de todos, até sua voz elevava o nível – Imaginem a seguinte situação: Vocês precisam tratar de negócios sérios e importantíssimos para seu reino com um negociante não tão familiar assim. Porém, esses negócios são sigilosos e muito perigosos. Vocês devem agir clandestinamente, mas como convencer o tal negociante desconhecido? Já sabem que uma dama sempre será uma dama. Não importa as circunstâncias. Sua maior defesa e ataque é a classe. Portanto, devem-o impressioná-lo com as boas maneiras ensinadas. Tendo como dica a taça que vocês tem em mãos, o que deve ser feito? Me responda você Kristie.
–Quando chegarei ao encontro, já terei pensado em um bom vinho. De uma vinícola estrangeira. Entregarei a melhor taça que tiver ao negociante e então lhe servirei.
–Hum. Sim. Mas e como o servirá? Por favor. Demonstre.
Jessica pegou uma taça da mesa e estendeu em direção a Kristie, convidando-a a servir-lhe.
A menina, mesmo com a minuscula estatura levantou-se confiante e caminhou até a estante. Mal precisou ler os rótulos para saber qual vinho seria adequado. Kristie se virou até Jessica com um sorriso doce e misterioso no rosto e serviu-lhe perfeitamente. O líquido caiu com perfeição na taça, sem nenhuma gota para fora.
–Espero que aprecie o sabor, senhor – disse.
Jessica não resistiu a um sorriso enorme e iluminador.
–Gostei da sua atitude, garota. Sobre as outras: Observem sua amiga aqui e aprendam. Procurem sempre fazer o melhor. Segunda lição: Larguem as taças e peguem os guardanapos. Fingam limpar a boca após o jantar. – Jessica deixou de lado a própria taça e riu – Essa é fácil, não é mesmo? Por favor, essas vocês devem saber!
As meninas puseram-se a limpar a boca. A orientadora olhavá-as com atenção.
–Myranda você não precisa fazer. Sabe que seus movimentos são perfeitos, minha princesa – Evelyn não resistiu ao revirar aos olhos diante da frase de Jessica. Por sorte, apenas Kristie percebeu e lhe devolveu um sorriso compreensivo. – Katerina, minha querida, faça com mais vontade. Seus movimentos estão perfeitos Isabelle. Sim, sim, muito bom.
–Mas... hoje eu tenho algo especial para vocês. Deixem os guardanapos de lado. Alguém aqui já ouviu falar de escargot?
Myranda ergueu o braço.
–Sim, princesa. Imagino que você sim. Aliás, porque veio a aula hoje? Você sabe que não precisa vir.
–Sou uma selecionada também, Jessica. Quis vir. Só.
–Tudo bem, voltando ao nosso prato especial. – Jessica sorriu – Tenho certeza que vocês vão amar! É realmente delicioso, tem um sabor incrível. Quero uma voluntária: Ah, Evelyn, meu doce, você é perfeita.
Evelyn se levantou, ajeitando o vestido azul claro e caminhou até Jessica. A orientadora foi rápida em guiar-lhe até a mesa de centro, onde encontrava-se uma enorme panela de ceramica ainda quente e vários pratos e talheres.
–Muitos talheres não? – a mulher cochichou-lhe em tom de brincadeira. – Escargot é, na verdade, nada mais nada menos que caracois. Lesminhas.
Isabelle gemeu.
–Ai que nojo – murmurou para si mesma.
–Todas vão experimentar. Mas não se deve em hipótese alguma comer com as mãos. Existem talheres especiais, feitos para tirarem a lesma desse casco. Está vendo?
Jessica abrirá a tampa da panela e mostrava a Evelyn os crustaceos acinzentados e aparentemente nada saborosos. Ela tentou não pensar que de fato estava prestes a comer lesma e tentou prender a respiração. Por sorte ou por azar, enquanto brigava com o talher e com a comida, Jade entrou correndo no salão. Usava um vestido cor pessego, no estilo do do jantar, realçando todo seu busto. E para piorar, seus cabelos estavam erguidos em um coque: evidenciando bem os peitos perfeitos.
–Desculpe a demora, Jessica – sussurrou enquanto corria para tomar seu lugar sobre seu salto vermelho quinze.
–Está tudo bem.
Kristie se inclinou na cadeira, indignada. As madeixas ruivas balançando contra o vendo.
–Está tudo bem? Jessica, a Jade chegou atrasada a aula e você diz que está tudo bem? Lembra que atraso não é nada legal para uma dama?
–Gritar também não é muito bonito – cutucou Jade.
–Não estou gritando. Estou argumentando. Argumentar é muito importante sim.
–Já chega as duas. Evelyn, se concentre no seu prato por favor.
–Porque você demorou? – insistiu Kristie. As outras meninas observavam a pequena discussão atentamente.
–Chega, Kristie. Deixa ela pra lá – Katerina advertiu colocando as mãos sobre o ombro da garota. – Vocês duas, aliás. Deixem para discutir depois da aula.
–Não, Kat. Agora eu quero saber: Porque você demorou?
–Eu não devo satisfações da minha vida a ninguém. – Jade argumentou.
–Jura? Não é o que parece. Você sempre se acha, quer tudo pra você. Você é carente de amor, garota! Carente de carater também.
–Já chega, você tá me ofendendo.
–Quem você pensa que você é? Somos todas iguais aqui.
–Não, não somos.
–Não somos? Será mesmo?
–As duas querem serem expulsas? – Jessica perguntou seriamente.
–Só deixa eu dizer mais uma coisinha Jess. – Kristie se levantou. – Vê se cresce, garota. Quando você amadurecer nós podemos conversar.
Jade engoliu em seco mas se garantiu:
–É Jess: eu também tenho uma coisa para dizer: Kaleb saiu muito tarde do meu quarto. Já se passavam das três horas. Desculpe, não consegui acordar a tempo para a aula.
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