On my way
1 Capítulo único
Notas iniciais
Found my heart and broke it here
Made friends and lost them through the years
And I've not seen the roaring fields in so long, I know, I've grown
But I can't wait to go home
I'm on my way
Driving at ninety down those country lanes
Singing to Tiny Dancer
And I miss the way you make me feel, and it's real
When we watched the sunset over the castle on the hill
(Castle on the hill — Ed Sheeran)
Oliver Queen
Eu me sento mais ereto e inclino a cabeça para a janela do ônibus retirando os fones de ouvido onde eu ouvia um rock clássico, deixando agora os sons ao meu redor chegarem até mim. Há uma mãe tentando acalmar um bebê chorando ao fundo, um casal discutindo alheio aos filhos que chutam as poltronas das pessoas sentadas a frente deles. Eu poderia ter pago por uma passagem de avião, primeira classe se eu quisesse, mas a opção mais longa pareceu uma ideia melhor. Mais tempo para pensar, mais tempo para desistir. Observo a entrada familiar da cidade e sinto meu estômago se revirar num misto de euforia e medo, a placa agora diz Star City, não mais Starling City. Sinto um aperto no meu coração ao perceber que isso não foi a única coisa que mudou nos últimos dez anos.
Eu também mudei.
Quando eu deixei a cidade em que nasci eu não era mais do que um garoto de vinte e um anos. Eu cresci sem ter nenhuma preocupação na cabeça. Meus pais eram ricos, e eu tinha os melhores amigos no mundo. A vida era simples naquela época. Limites eram feitos para serem testados. Regras para serem quebradas.
Nós éramos jovens com muita energia e vontade de viver e prontos para desafiar o mundo.
O ônibus vira em uma rua e eu observo com certa melancolia a minha antiga escola e o campo de futebol onde vencemos o campeonato estadual. Eu era um bom jogador, mas Tommy Merlyn era um astro em ascensão, o menino prodígio, a grande promessa de Starling, nós estávamos no segundo ano e ele já tinha promessas de bolsas de várias faculdades. Memórias me invadiram ao pensar em quantas loucuras fizemos juntos e não pude evitar o sorriso em meu rosto. Quantas vezes Tommy e eu pulamos aquele muro para matar aula no fliperama que havia do outro lado da rua? Nós sempre nos achamos espertos por conseguir fugir, mas sempre que chegávamos lá encontrávamos Caitlin e Felicity, jogando há horas.
Elas nunca nos contaram como conseguiam chegar lá antes da gente, elas gostavam de mostrar que eram melhores em algo. E eu realmente não me importava com o como, eu apenas gostava da companhia delas. Embora Tommy sempre gastasse um tempo dando um sermão na irmã por matar aula, uma ironia que Felicity sempre rebatia, e ele usava o argumento de ser mais velho que ela, e que ela deveria fazer o que ele diz, e não o que ele faz, mas mesmo assim, depois do sermão ele sempre seguia em direção a Cait, meu melhor amigo tinha uma grave paixonite na melhor amiga da irmã.
Meu sorriso desaparece.
Aquilo nunca mais aconteceria.
Eu nunca mais veria Tommy tentar jogar seu charme barato ao tentar convencer Cait a ir num encontro com ele.
Todos nós mudamos e seguimos com suas vidas, pelo menos alguns de nós. Eu não via os amigos com quem dividi a infância e a melhor parte da minha juventude há anos, eu sequer sabia o que havia acontecido com eles, eu cortei qualquer contato, me mantive o mais distante possível, minha decisão, não deles. Não que alguém me quisesse por perto depois do que aconteceu. Então na época ir embora me pareceu a coisa mais sensata a fazer, eu não podia ficar.
Eu me pergunto como alguns deles estão? Casados? Com filhos talvez? Eu sabia que Cait havia se formado em medicina, mas e ela?
Sinto uma pontada no coração quando penso no nome dela.
Felicity Smoak.
A irmã do meu melhor amigo.
Meu primeiro amor de verdade, e provavelmente o único que eu teria na vida. Daqueles com direito a mão suada, sorriso bobo no rosto e coração disparando dentro do peito quando eu a via.
Como ela estaria depois de dez anos? Eu podia apostar que ela continuava linda, e com aquele mesmo jeito impulsivo que me tirava do sério, mas que ao mesmo tempo me fez cair de amores por ela. Eu podia fechar meus olhos agora e ver a imagem perfeita dela, seu sorriso doce de menina, com as adoráveis covinhas nas bochechas. O cabelo sempre preso naquele rabo de cavalo pelo qual eu adorava deslizar meus dedos e desfazer, olhos azuis tão inocentes e uma boca cheia e macia com um gosto de hortelã... Bati com a cabeça no vidro da janela. Eu tenho me forçado a não pensar nela nos últimos anos, depois de como tudo terminou num grande desastre, eu não tinha o direito de pensar nela. Embora isso não significasse que ela não invadia os meus sonhos sem permissão.
Até mesmo neles ela era petulante.
Escuto o tradicional som do exaustor quando o ônibus para na rodoviária e as portas são abertas. Pego a mochila e a jogo por sobre um dos ombros, ajeito o boné sobre o rosto e coloco os óculos escuros esperando que isso fosse o suficiente para não ser reconhecido por ninguém.
Eu ando por um longo caminho seguindo uma estrada ao redor de uma colina, não há muitas casas por ali então não preciso me preocupar com os curiosos, apenas árvores e mais árvores. Eu também não me importo com o cansaço, sabia que seria uma bela caminhada, e havia trazido duas garrafas com água. Novamente, eu poderia ter alugado um carro, mas o exercício físico é bom, mantém minha cabeça no lugar e eu uso o tempo sozinho para me preparar para o que me espera no topo daquela colina.
Quando eu chego ao meu destino, eu apenas paro observando o impacto que a construção que se ergue imponente como um castelo no alto da colina com uma visão perfeita de toda a cidade que agora se chamava Star City, tem sobre mim. Um lugar perfeito para se morar um Queen.
Eu sinto um nó na garganta, solto a mochila em frente a porta e estico a mão para a maçaneta oscilando entre abrir a porta e entrar ou tocar a campainha, mas não faço nenhum dos dois, percebo que não sou capaz de entrar na casa que chamei de lar e que evitei por tanto tempo. E pior, percebo que não me sinto pronto para encarar as pessoas que estão lá dentro. Por isso me afasto, dou a volta na construção correndo pelo terreno e encontrando no ponto mais alto daquela colina, uma árvore grande e frondosa.
Inevitável não sorrir.
Eu tinha tantas lembranças nesse lugar.
De mim e Tommy jogando futebol quando crianças e quebrando algumas janelas. Acampando bem embaixo da árvore e fazendo fogueiras enquanto assávamos marshmallows. Tentando assustar as garotas no meio da noite.
Uma lembrança é mais marcante do que as outras.
Eu me lembro de beijá-la pela primeira vez bem aqui, debaixo dessa árvore. Eu ainda me lembrava com perfeição da pressão do corpo dela junto ao meu, da sensação boa que era tê-la em meus braços, do gosto dos lábios dela. Quantas vezes fugimos para cá? Quantas vezes eu a beijei nesse mesmo lugar, escondido da vista de todos porque Tommy ficaria uma fera se descobrisse o que fazíamos?
Incontáveis vezes.
Beijá-la era um vício para mim, quando eu começava eu não conseguia mais parar. Estar com Felicity me fazia bem como eu nunca tinha me sentido antes. As mãos dela se encaixavam na minha com perfeição, as vezes eu gostava de deitar com ela no gramado, sob a sombra daquela árvore e apenas conversar com ela por horas.
Eu amei aquela garota, como eu nunca cheguei perto de amar alguém.
Como possivelmente eu jamais amaria alguém novamente.
Fechei meus olhos, uma pequena lembrança agridoce se infiltrando nos meus pensamentos.
***
— Você me ama, Oliver? — Felicity perguntou depois de um grande tempo em silêncio, nós tínhamos feito amor pela primeira vez e estávamos deitados na minha cama, apenas apreciando as sensações. Eu tinha o corpo nu dela entrelaçado ao meu, a perna dela sobre as minhas, aquela sensação gostosa de pele roçando com a pele, de calor que um corpo passava para o outro. A cabeça dela usava meu ombro como travesseiro e eu tinha as mãos dela brincando com as minhas pousadas acima do meu coração. Eu a segurava firme pela cintura mantendo-a perto de mim, eu sabia que ela teria que ir embora em breve, mas eu gostava da intimidade de como estávamos e eu queria segurá-la assim pelo máximo de tempo que eu pudesse.
Talvez até mesmo para sempre.
Ela ergueu o rosto para mim ao fazer aquela pergunta.
Eu deveria me sentir intimidado pela pergunta tão abruta, e que normalmente fazia qualquer homem fugir. Mas quando eu a fitei, quando, meus olhos se permitiram se perder na imensidão de sentimentos que havia nos olhos dela, eu percebi a verdade. Eu a queria na minha vida para sempre, Felicity era diferente das outras garotas, eu gostava de passar meu tempo com ela, de rir e conversar com ela, eu me via ansioso por nossos momentos sozinhos, então a resposta veio fácil.
— Sim. — eu disse sorrindo para ela, mas principalmente sorrindo para mim mesmo ao perceber a imensidão do que eu sentia. Eu havia me apaixonado por aquela garota, a irmã do meu melhor amigo, a garota com quem brinquei metade de minha infância e tentei fingir que não me atraia por boa parte da adolescência.
Eu sabia que já estava velho para aquela história de namorar escondido, que uma hora ou outra nós precisaríamos contar ao Tommy. Eu a amava, e eu queria todo um futuro com ela e por mais que eu gostasse daquela bolha em que estávamos, eu precisava ser honesto com o meu melhor amigo, e aceitar os socos que ele me daria.
Felicity se girou, ficando tentadoramente sentada sobre mim, seus cabelos longos caindo em cascata sobre a pele alva e cobrindo-lhe os seios, dando-lhe uma imagem inocente e ao mesmo tempo sedutora. Não contive o riso quando senti as mãos dela segurando as minhas e as levando acima da cabeça como se estivesse me prendendo.
— De um a dez, o quanto você me ama? — perguntou novamente, tentando manter um clima leve, mas eu precisei olhar apenas uma vez em seu rosto para notar a vulnerabilidade escondida ali. E eu percebi que eu não era o único ali feliz e ao mesmo tempo assustado com a intensidade do que sentíamos um pelo outro.
Ela também estava.
Soltei minhas mãos que ela prendia nas dela, ciente de que Felicity Smoak me tinha preso de uma outra forma.
— Eu amo você, Felicity Smoak, amo você duzentos e vinte de dez. — ela sorriu, o sorriso mais lindo que eu já vi em toda a minha vida, e que era apenas para mim, seus olhos azuis brilharam para mim, aliviados e felizes com minha resposta. Eu apenas afundei minhas mãos em seus cabelos, trazendo-a para mais de mim e me permitindo saborear com ela aquele novo sentimento que descobríamos juntos: amor.
Eu era jovem e não tinha muitas certezas na vida, mas com Felicity eu sabia que queria ficar para sempre.
***
Nada dura para sempre.
Essa é a realidade que tão teimosamente nós evitamos. Principalmente quando somos jovens, e a vida parece apenas uma grande aventura cujo final está muito longe de chegar. Nós não pensamos que esse para sempre pode ser interrompido a qualquer momento.
Coloco minhas mãos sobre a casca da árvore sentindo a textura áspera e sorrio quando meus dedos circulam os nomes gravados ali há tanto tempo.
Tommy Merlyn.
Oliver Queen.
Felicity Smoak.
Caitlin Snow.
Meu sorriso se alarga ao encontrar um Thea Queen entalhado de um jeito meio torto. Minha irmã, mesmo sendo muito mais nova do que eu e meus amigos, vivia sempre nos seguindo, e no final, mesmo sob meus protestos ela começou a andar com a gente encontrando em Felicity e Cait as suas melhores amigas. Espalmo as mãos sobre os nomes esperando me sentir mais próximo de quem éramos naquela época, inocentes, ingênuos, mas com os corações ainda inteiros. Mas tudo o que sinto são saudades de cada um deles. Embora uma saudade doa mais do que as outras.
— E o infame filho rebelde volta para casa. — reconheço a voz, o efeito imediato que ela tem sobre mim fazendo meu coração palpitar eu deveria ficar nervoso por saber que é ela, mas estranhamente eu apenas sinto meu corpo relaxar. — Eu encontrei sua mochila jogada ao lado da porta da frente e imaginei que estaria aqui. — seguro um riso, mesmo depois de tanto tempo ela me conhece melhor do que qualquer um — As pessoas estão esperando por você lá dentro, pensou que dez anos longe era o suficiente para ninguém mais querer vê-lo?
Há mais na pergunta dela, eu sei que há.
Mágoa. Mas também há uma compreensão que não faz o menor sentido para mim. E eu não sei como lidar com ela, lidar com a confusão de sentimentos que ela me faz sentir. Decido ignorá-los e seguir um caminho mais seguro, tentando me manter distante dela.
— Aposto que estão todos ansiosos para ter o que comentar pelos próximos dez anos. — eu digo, mau humor é o único escudo que tenho para mantê-la longe. Mas assim que me viro, que a vejo na minha frente, ainda mais linda do que antes todas as minhas convicções desmoronam e eu percebo que não há um escudo que me proteja do efeito que ela ainda tem em mim.
Os sentimentos estão tão enraizados, que mesmo usando toda a minha força não sou capaz de contê-los.
Tudo em mim me projeta para ela.
Tudo em mim a quer.
Eu quero abraçá-la e sentir seu calor e a forma perfeita que o corpo dela se encaixa no meu. Eu quero beijá-la e me certificar que seus lábios ainda tem o mesmo gosto e são tão macios quanto eu me lembro. Eu quero apenas fechar meus olhos e deitar minha cabeça sobre seu peito escutando as batidas ritmadas do coração dela. Quero senti-la perto de mim, como uma vez a tive.
Deus! Como eu quero, acima de tudo, amá-la.
Mas eu não posso, porque o passado ainda está entre nós. Essa é uma das razões pelas quais eu não queria voltar, eu sabia que vê-la e não poder chamá-la de minha seria um tormento muito grande.
— Não seja cínico. — a repreensão dela me faz focar na conversa e manter meus pensamentos para mim, eu seguro um sorriso ao notar que hábito de Felicity em me repreender não mudou com o tempo — Algumas pessoas realmente estão aqui porque se importam. — ela diz, e sinto vontade de negar — Na verdade Thea tem se perguntado se você realmente viria, sua irmã está nervosa.
E ela? Felicity se importava? Era por isso que estava aqui?
Tento evitar que aquele sentimento maldito, chamado esperança se atreva a se alojar em mim. Entre todos, ela deveria ser a que me desejava o mais longe possível de si. Ela deveria me odiar.
Então por que ela veio até você?
Por que ela continua aqui conversando com você?
— Cait veio também? — Acho mais seguro mudar de assunto, então faço uma pergunta aleatória, e desvio o meu olhar do dela olhando para baixo e me concentrando em chutar uma pedra no chão. É mais seguro do que fitá-la.
— Mas é claro! Mesmo ela se mudando para Central City depois do... — Felicity não completa a frase, mas ela não precisa, eu sei do que ela está falando. Cait também partiu depois do que eu fiz — Nós nunca perdemos o contato, continuamos amigas apesar da distância ela sempre está aqui nos momentos especiais. Isso não mudou. Nós não mudamos quem costumávamos ser.
Analiso a frase dela, o suficiente para entender o que ela quer dizer.
Que ainda éramos os mesmos.
— Eu não sou mais aquela pessoa, Felicity. — eu digo, sabendo que não podemos evitar o assunto para sempre, mas eu preciso me defender de alguma forma — Eu não sou mais um garoto inconsequente que não se importa com nada além de si mesmo, um garoto cujos pais são ricos demais para aliviá-lo de qualquer encrenca — assegurei, lembrando-me das manchetes de vários jornais da cidade, onde eu apareci como o um playboy rico que não se importava.
— Você nunca foi esse garoto. — ela negou enfaticamente, me encarando como se eu tivesse entendido tudo errado — Eu sempre soube disso, eu conheci você, Oliver, o verdadeiro você, e eu sei que há muito mais escondido atrás dos seus olhos do que você mostra aos outros. — suspirei, Felicity estava certa ela me conhecia melhor do que qualquer um, eu mostrei partes de mim que eu jamais mostrei a outra pessoa. — Mas montar em sua moto e deixar tudo e todos para trás não foi seu melhor momento.
Eu me lembrava de pouco da confusão daquele noite, mas eu me lembrava com perfeição de sentir como se meu peito fosse explodir com tantos sentimentos e emoções. Eu me lembrava de vê-la chorar, e de saber que era minha culpa. Eu parti, porque eu só queria que ela parasse de chorar.
— Eu precisava de tempo. — Digo, embora tempo não tenha sido a solução.
— Eu acho que eu também precisava. — olho para ela, realmente olho para ela. Eu vejo nos tons de azul dos olhos dela que Felicity ainda é aquela garota que eu ousei chamar de minha. — Mas então quando esse meu tempo acabou, tudo o que eu precisava era de você para me ajudar a lidar com a dor. Só que você não estava aqui. Eu não perdi apenas meu irmão naquele noite, Oliver, eu perdi você também.
Havia dor em seu olhar, e por isso desvio o meu.
Eu não quero encará-la, eu não quero ver no olhar dela o que eu havia feito com ela, mas isso não evitou que as palavras penetrassem em mim. Ela precisou de mim, e eu havia fugido. Talvez tudo o que ela quisesse fosse o meu abraço, ou alguém que entendesse a sua dor, alguém com quem ela pudesse chorar e desabafar.
Mas como ela poderia querer que esse alguém fosse eu?
— Eu o matei, Felicity. — solto duramente, as palavras arranhando a garganta ao passarem por ela — Seu irmão, meu melhor amigo! Como eu poderia ficar e segurar a sua mão durante o enterro quando eu sabia que era minha culpa? Eu estava dirigindo aquela droga de carro, eu não estava bêbado, mas eu havia bebido naquela festa e eu...
— Oliver... — sinto a mão dela roçar a minha buscando por um toque, em outra época seus dedos entrelaçariam nos meus encontrando na minha mão seu lugar. Mas ainda assim o toque suave além de evocar lembranças me fez parar forçando-me a encará-la. Deus! Eu não sabia, eu não tinha ideia do quanto eu sentia falta da sensação boa que um simples toque dela trazia. — Nós éramos apenas crianças e...
— Eu deveria imaginar que vocês dois estariam aqui! Eu odeio interromper, mas eu preciso do meu irmão e da minha madrinha. — pisco completamente atordoado pela imagem da minha irmãzinha Thea vestida de noiva. — Já está na hora. Eu sei que vocês dois provavelmente tem muito o que conversar, e vai por mim eu quero que vocês dois se acertem, mas se esperarmos mais, talvez esse pequeno garoto nasça antes do casamento e eu não quero entrar em trabalho de parto antes de comer do bolo. — Ela sorriu colocando as duas mãos sobre a barriga avantajada.
— Meu Deus, Thea! — a olho assombrado.
— Eu sei, eu estou enorme! Eu não consigo parar de comer então é provável que eu fique maior!
— Não, você está linda e tão crescida. — a corrijo ainda assimilando as mudanças — Uma mulher. — Há admiração em meu tom, mas também uma certa tristeza. Meu auto exílio me forçara a perder tanto do crescimento dela, da vida dela. Eu quase não reconheço a menina que corria sempre atrás de mim e dos meus amigos querendo participar das brincadeiras — Posso tocar? — peço, ainda incerto e minha irmã ri se adiantando a colocar minha mão na barriga dela. Eu nunca havia sentido nada tão forte assim, eu nunca havia pensando em como a vida tinha dessas pequenas maravilhas, mas com minhas mãos na barriga da minha irmã, vendo uma vida nova florescer ali, eu percebi o quanto viver era incrível. E como estamos aqui apenas por um ciclo. — Minha nossa! Esse bebê vai ser um jogador de futebol. — eu digo, logo após sentir um chute.
— Ele vai ter o nome de um. — ela diz sorrindo — Eu vou chamar seu sobrinho de Tommy — pisco meus olhos sentindo as lágrimas arderem.
— É um nome forte, ele vai ser um menino incrível. — falo com a voz embargada.
— Eu sei. — minha irmã diz, e me puxa de repente para um abraço. Me permito ser abraçado por ela, esse abraço trazendo uma enchente de lembranças de nós dois, eu me permito sentir aquele momento, eu já não sinto coisas boas assim há tanto tempo — Obrigada por voltar para nós. — Ela diz entre lágrimas e eu apenas assinto, eu não tinha vindo para ficar, mas a cada segundo que eu passava aqui, cada sentimento novo que estar aqui despertava dentro de mim, menos eu me sentia capaz de partir.
Procuro por Felicity depois do abraço com Thea, eu me sinto emocional demais, eu quero vê-la, sentir a calma que apenas o olhar dela é capaz de me transmitir, mas ela já tinha se afastado e voltado para casa, como se soubesse que eu precisava do meu tempo sozinho para me reconectar com Thea.
Ela me conhecia melhor do que eu me conhecia.
***
O casamento foi uma cerimônia íntima e simples e eu fiquei contente por finalmente conhecer Roy, meu cunhado. E recebi um abraço tão apertado da minha mãe que me fez lamentar ter sido a merda de filho que eu fui nos últimos dez anos, meu pai foi menos contido, porém nem por isso menos emocional. A conversa interrompida com Felicity girou em minha cabeça novamente. Ela disse que não perdera apenas Tommy naquele acidente, ela me perdera também. Eu parti porque não sabia lidar com a dor, a dor de perder meu melhor amigo, de ser aquele que dirigia o carro, e eu não queria encarar a tristeza que eu causei na vida de cada um dos meus amigos. Mas a verdade é que eu fui covarde e egoísta, covarde por fugir ao invés de enfrentar meus demônios e egoísta, porque ao fazer isso, ao ir embora sem olhar para trás eu causei ainda mais dor as pessoas que eu amava.
Como teria sido se eu tivesse ficado?
Meus olhos varrem o salão de festas a encontrando ali, de costas conversando com Cait que ao me ver apenas sorri e assente com a cabeça, fico feliz ao ver que ela parece bem. Felicity então vira-se para mim, lançando-me seu olhar cálido e seu sorriso doce e mais uma vez eu me sinto um adolescente, com as mãos suadas e o estômago agitado.
— Ela nunca se casou. — quase pulo ao escutar a voz atrás de mim, percebo que minha irmã havia mantido o hábito de sempre chegar de surpresa — Ela namorou alguns caras, alguns deles até tentaram algo mais sério, eu sei que ela recebeu um pedido de casamento ano passado. — engulo em seco, e sinto todo o meu corpo tencionar, a mera imagem de Felicity se casando com outro homem me deixa mais do que desconfortável, me deixa possesso de raiva. Eu não tenho o direito de me sentir assim, fui eu quem a afastou, eu que a obriguei a seguir em frente sem mim. — ... Mas ela terminou tudo, é como se Felicity não pudesse dar seu coração a mais ninguém, talvez porque ele já não esteja mais com ela. — minha irmã me fita com olhos grandes, esperando algo de mim.
Ela não estava falando de mim?
Era eu quem ainda tinha o coração de Felicity?
— Thea, do que está falando? — Ela revira os olhos perdendo a paciência comigo e assumindo aquele ar decidido.
— Estou falando para não ser idiota, Oliver! — eu solto um “ai’ quando ela bate com a palma da mão em mim com força — Desde que eu me lembro por gente eu o vi amar essa garota. Os olhares furtivos, os toques não tão acidentais os sorrisos que não conseguiam esconder... Quando começaram a namorar eu fiquei feliz por vocês dois, eu nunca tinha conhecido duas pessoas mais perfeitas uma para outra, mas então vocês tiveram a brilhante ideia de namorar escondido e a coisa só piorou.
— Você sabia? — pergunto ainda mais surpreso.
— Oh, por favor! Pensa que podia enganar a sua irmã? Todos aqueles encontros no seu quarto a portas fechadas para “estudar”? Ou como Felicity sempre tinha uma desculpa esfarrapada para não sair comigo e Cait exatamente nos mesmos dias que você também não podia sair com Tommy? Sem contar que vocês não conseguiam disfarçar o modo apaixonado como se olhavam... Eu podia ser mais nova que você, mas eu não era tola. E era óbvio o quanto vocês dois estavam loucos um pelo outro. — eu estou surpreso, eu pensei que tivéssemos sido mais discretos — Mas isso não é importante, pare de conversar comigo, e vá atrás dela, resolva as coisas, vocês dois se devem isso. — desvio meu olhar para Felicity que aquela altura deixava o salão indo para fora. Meus pés queriam segui-la, mas havia um peso no meu coração que me forçava a ficar distante.
— Eu não posso. Tommy... — não consigo terminar a frase.
— Tommy iria querer que o melhor amigo e a irmã fossem felizes. — eu sinto o peso das palavras dela dissolverem algo dentro de mim, e eu me permito, ao menos a chance de conversar com ela uma última vez. Dez anos tinha sido muito tempo, e por mais que eu tenha passado esse tempo me esforçando para não sentir nada, trancando meus sentimentos, no instante em que eu pisei nessa cidade, eu simplesmente senti tudo.
Eu precisava saber o que dez anos fizeram com ela.
Ela ainda me culpava?
Ela poderia me perdoar?
E o mais importante, ela ainda poderia me amar?
***
Eu deixo a casa encontrando o vento frio do fim da tarde, olho para o horizonte. Eu sinto uma paz sem tamanho apenas em ver a visão dela, sentada debaixo da sombra nossa árvore parecendo pensativa enquanto observa o sol do final da tarde desaparecer tão vagarosamente nas montanhas. Sua imagem me atraí de tal modo que quando percebo já estou caminhando para ela.
— É um belo pôr do sol. — é tudo o que eu digo, me sentando ao lado dela. Tomando o cuidado para não tocá-la. Eu já me sinto ansioso apenas de estar aqui com ela, não sei o que um toque poderia fazer comigo. Por isso me sinto mais seguro apenas em compartilhar um pôr do sol com ela.
— É sim. — ela confirma com um ligeiro sorriso que ilumina ainda mais seu rosto.
Um longo silêncio se segue e nenhum de nós dois se atreve a desviar o olhar do horizonte. Eu sei que eu evito olhar para ela porque sinto medo, porque por mais amigável que ela tenha sido comigo, isso não muda o fato de que eu estava dirigindo o carro que matou o irmão dela. Medo que dez anos tenha sido tempo de menos para curar aquela ferida, ou ainda tempo demais, e que eu tenha chegado tarde e ela já não precise do meu abraço. Medo de simplesmente ter perdido o sentimento mais bonito que um dia já vivi.
Eu não devo mais ser covarde.
Medo foi o que me fez ir embora em primeiro lugar.
Era hora de enfrentá-los.
Para bom ou ruim, eu devo isso a mim mesmo. Eu devo isso a nós. E a Tommy também.
— Eu sinto que temos tanto a conversar, mas eu não sei o que lhe dizer ou como lhe dizer. — o rosto dela se vira na minha direção, eu prendo a respiração por um instante, deslumbrado pela beleza dela banhada pela luz do final da tarde. Seu olhar em mim não vacila, seu rosto está atento como se ela tivesse esperado esse tempo todo por essa conversa. — Eu acho que eu deveria começar com um eu sinto muito, Felicity, eu sinto muito por aquela noite. — eu digo e as palavras começam a saírem atropeladas misturando-se com lembranças daquele dia. A pista molhada, eu perdendo o controle do carro descendo pela ribanceira e batendo na árvore. O rosto sem vida de Tommy. Olhar no rosto de Felicity quando eu disse que Tommy estava morto, as lágrimas que se seguiram... Aquela tinha sido a pior parte. — Se eu pudesse voltar no tempo eu jamais teria dirigido aquele carro. E Tommy ainda estaria aqui, toda a nossa vida teria sido diferente, teria sido bonito.
Seu olhar volta para o pôr do sol e quando ela fala comigo novamente a voz é cálida e as palavras são tranquilizantes.
— Você não tem como saber.
— Eu estava dirigindo. — ela meneia a cabeça, e quando me encara eu vejo o brilho de lágrimas ali. — Eu causei o acidente.
— Oliver... — meu nome em sua voz é decidido — Sabe qual é a sua maior qualidade? — franzo o cenho estranhando a mudança abruta de assunto, mas nego com a cabeça. — Você sempre é o responsável, desde pequeno. Você era o líder em todas as brincadeiras, Tommy podia ter todas as ideias ruins, mas era você quem determinava como iria executá-la, você também se responsabilizava quando ele quebrava as janelas da sua casa, e quando namoramos, você decidiu que seria você quem contaria ao meu irmão. Você é assim, assume a responsabilidade sobre tudo e todos. É por isso que sempre foi tão cuidadoso e prestativo. — ela sorri, e num impulso sinto a mão dela em meus cabelos os ajeitando como costumava fazer anos atrás — Mas esse também é seu maior defeito. Porque quando algo dava errado você sempre assumia a culpa. Você fez isso dez anos atrás, se responsabilizando pelo acidente no qual meu irmão morreu. — sinto algo preso na minha garganta e não sou capaz de falar — Mas vamos ser sinceros, estava chovendo, era noite, e você foi buscar meu irmão porque Tommy estava bêbado demais para dirigir. Você tentou ser responsável quando Tommy não era, tentou cuidar dele.
— Não foi assim. — abaixo a minha cabeça, eu sei que Felicity tem razão, mas parece apenas mais fácil continuar a me culpar.
— Claro que foi, Tommy morreu muito jovem num trágico acidente de carro, é triste e nós nunca nos esqueceremos dele, e eu só posso imaginar o tipo de peso que você carregou durante todos esses anos dizendo a si mesmo que foi sua culpa. Eu estou aqui dizendo que não foi. — ergo meu rosto para o dela encontrando compreensão ali e algo mais forte do que isso, algo do qual eu não posso e nem quero fugir. — Eu só posso imaginar que foi traumatizante para você passar por isso, pensar isso. Eu entendo que você precisou estar sozinho por um tempo, mas eu gostaria que nós dois tivéssemos ficado sozinhos juntos, eu gostaria de ter escutado seus medos, que você tivesse me permitido te ajudar a carregar esse peso, ou pelo menos te abraçar nas noites escuras.
— Eu queria que eu tivesse permitido isso também. — confesso, me lembrando de como tinha sido solitário, e de quantas vezes eu me senti perdido nesses últimos dez anos.
— Foi um acidente, Oliver. — ela fala mais firme ainda, e sinto sua mão encontrar a minha sobre a grama, a apertado e evocando tantos sentimentos. Ergo meus olhos para ela e vejo seu olhar implorando para que eu a compreendesse, e pedindo tantas outras coisas.
Pedindo que eu aceitasse que não tinha sido minha culpa.
Pedindo que eu me perdoasse.
Essa é uma das coisas que eu amo em Felicity, ela não precisa dizer com palavras o que quer de mim, eu sempre consigo lê-la, e isso não havia mudado em dez anos.
Nada mudara em dez anos.
Meu coração ainda é o mesmo, um pouco quebrado e maltratado, eu o deixei submerso em meio aos meus medos, mas ele ainda esta aqui, inteiro e perdidamente apaixonado por ela.
— Eu sei. — Eu falo por fim, dizer aquelas palavras trouxeram em mim um alívio inexplicável.
O peso sai do meu coração.
Eu finalmente aceito que eu não matei meu melhor amigo, eu acho que talvez tenha aceitado isso há algum tempo. Mas era difícil voltar e enfrentar a todos, enfrentar principalmente a mim mesmo e parar de me punir.
— Eu nunca te culpei por isso. — Felicity aperta minha mão com força, havia um desespero em seus olhos, e principalmente medo de que eu não acreditasse nela.
— No fundo eu acho que sempre soube que você jamais me culparia, não combina com você, eu acho que era apenas fácil dizer isso a mim mesmo, assim eu teria uma razão para não voltar. A verdade é que eu fugi não apenas porque a minha cabeça estava uma confusão, mas porque não parecia certo estar vivo quando Tommy não estava. Não parecia certo ter você, era como Tommy tivesse perdido tudo e no final eu ficasse com o grande prêmio. — explico, ganhando um meio sorriso dela.
— Então eu sou um prêmio?
Me viro para ela, me atrevendo a chegar mais perto. Me atrevendo a tocá-la ao colocar minha mão em seu rosto, o acariciando com carinho, deixando a sensação boa que era tocá-la trazer de volta todos os sentimentos que tentei banir da minha vida há dez anos.
— Você é mais do que um prêmio, você é tudo o que eu sempre quis, tudo o que eu sempre precisei na minha vida. — declaro deixando meus dedos deslizarem saudosos por seus cabelos, sinto uma das mãos de Felicity segurarem meu braço, e ela fecha seus olhos e suspirou profundamente, como se assim como eu estivesse se aproveitando a sensação boa que o toque traz. — Eu queria que Tommy estivesse aqui, que ele me dissesse que está tudo bem amar você.
Ela abre os olhos, sorrindo docemente para mim.
Meus olhos se concentram em seus lábios se perguntando se eram tão doces quanto o seu sorriso.
— Ele sabia, Oliver. — a afirmação dela me tirou da distração que são seus lábios — Tommy sempre soube sobre nós dois. Eu sei que ele se fazia de irmão super protetor às vezes, que ameaçava todo o cara que chegava perto de mim. — me lembro de algumas vezes ajudá-lo a manter alguns caras longe de Felicity — Mas ele sabia sobre nós dois.
— Se ele sabia, por que ele não quebrou a minha cara?
— Não é obvio? — ela diz rindo. Como eu pude viver dez anos sem o som da risada dela?
— Não é nenhum pouco óbvio. — nego e Felicity apenas sorri.
— Porque ele estava feliz por nós dois, porque assim como Tommy me amava, ele amava você também, Oliver. Você era o melhor amigo dele, o irmão que ele não teve e se ele admitisse que sabia que nós dois estávamos juntos, mesmo amando você, ele teria que dar uma de irmão mais velho e fingir que não estava contente. Então era mais fácil fingir que não sabia de nada.
— Isso soa perfeitamente como Tommy Merlyn. — percebo que ela esta certa, e percebo mais uma coisa que me obrigou a tirar minhas mãos dela e encará-la com mais seriedade — Eu sinto muito. — eu digo novamente.
— Eu também.
— Não Felicity, eu realmente sinto muito. Por tudo. Por ter ido embora quando perdemos Tommy, por não estar aqui para te abraçar, por não dividir com você a minha dor e conversar sobre a culpa. Se eu não tivesse ido embora, ou se pelo menos não tivesse demorado tanto para voltar, talvez nós ainda fôssemos um nós...
— Tommy teria socado a sua cara por ir embora e se fechado desse jeito. Provavelmente te arrastaria de volta para casa.
— Ele teria. — é estranho, eu já consigo pensar em Tommy sem sentir tanta tristeza, apenas felicidade por ter tido o prazer de tê-lo como meu melhor amigo, ainda que por pouco tempo.
— Mas aonde quer que ele esteja, eu tenho certeza que está feliz porque você está aqui agora. Eu estou feliz por você estar aqui. — ela diz puxando minha mão e entrelaçando na dela sob o seu colo. Eu gosto daquilo, gosto de como nossas mãos ainda se encaixavam perfeitamente, como se tivessem passado apenas dez minutos longe uma da outra e não dez anos. — Você voltou para sua casa, o tempo que demorou ou o caminho percorrido não tem importância, o fato de você voltar sim.
Pensei no longo e solitário caminho que percorri até voltar. No quanto eu senti falta do jeito que apenas ela me fazia sentir.
— É bom finalmente estar em casa. — aperto a mão dela ainda mais na minha, sabendo que ela era a minha casa. Eu a envolvo em meus braços, puxando-a para mim, sua cabeça descansa com naturalidade no meu ombro, eu me sinto aquecido por dentro, sinto como se finalmente eu tivesse enfrentado todos os meus fantasmas. Mas ainda há um. — Você ainda me ama? — a pergunta sai de meus lábios sem que eu a controle antes, e eu prendo a respiração.
Felicity ergue o rosto para o meu, ela demora em sua resposta, mas quando a dá eu me sinto o homem mais feliz do mundo.
— Eu amo você, amo você, duzentos e vinte de dez.
Deixo um beijo suave sobre os lábios dela e sorrio, porque me sinto vivo como jamais me senti antes, meu coração perdido, depois de tanto tempo, de tanta dor, finalmente voltou para casa.
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