On The Street
3 Parte Três - Come right away!
Notas iniciais

O lápis girou entre os dedos quando Haiji olhou novamente para o relógio do celular. O orientador discorria coisas e mais coisas sobre o trabalho mais importante de todo aquele curso e ele, simplesmente, não conseguia prestar atenção. Eram duas horas e cinquenta e dois minutos daquela tarde, levando em consideração o tempo que ainda passaria ali, chegaria atrasado ao café. Bom, não estaria atrasado se certo alguém respondesse sua mensagem. Faltavam oito minutos para às três e a caminhada até o café levaria, provavelmente, mais dez minutos. Kiyose não sabia onde estava com a cabeça quando marcou aquele horário, chegar atrasado seria muito mal-educado da sua parte, por isso, havia tentado avisar a Kakeru sobre, o problema era que o rapaz não se dignou a visualizar sua mensagem e isso chegava a irritá-lo. Poderia Kurahara não tê-lo desbloqueado?
Voltou a olhar para o orientador, que não estava lá com a melhor das expressões e tentou se concentrar, minimamente, nas coisas que ele falava sobre seu artigo. Entendeu bem por que ele estava com aquela cara e soube ali que teria um longo trabalho pela frente. Quando lhe haviam dito que os últimos meses do curso eram os piores, não tinha acreditado. Ah, talvez sua morte estivesse mesmo próxima!
― Então, nós acabamos por aqui ― ele disse, por fim. ― Nos vemos na quinta-feira, mesmo horário.
Haiji precisou de alguns segundos para entender as falas do professor, que estava preparando para ir embora, era como se a imagem se movesse antes do áudio ser reproduzido. Balançou a cabeça, tentando se livrar daqueles pensamentos bobos e levantando para agradecer ao homem de camisa social azul. Olhou para o relógio mais uma vez antes de começar a caminhar na direção oposta ao outro homem ali presente.
Checou o chat outra vez, mas percebeu que não obteve resposta. Maldito Kurahara! Custava responder qualquer coisa só para que ele soubesse se havia visto? Ele não mudava mesmo…
― Kurahara, é bom que você tenha visto essa mensagem, se não… ― resmungou para o aparelho em sua mão, olhando para os lados em seguida, para verificar se algum automóvel passaria pela rua naquele momento.
Apertou passo e levou o celular ao bolso, vendo a fachada da cafeteria a qual haviam marcado. Ele conhecia aquele lugar desde sua inauguração, havia ficado amigo dos donos das tantas vezes que foi ali, sempre tomava três cafés e o último saia de graça. É, Akemi-san e Takashi-san tinham certo apreço por si.
A porta de vidro foi aberta com mais força que o necessário e o homem de cabelos castanho-claros entrou exasperado no estabelecimento, passando os olhos pelos rostos das pessoas até encontrar quem estava procurando na mesa mais afastada das outras, em um dos cantos do balcão. Akemi-san vivia dizendo como os casais preferiam ficar por ali quando a noite chegava ― já que o café ficava aberto até às dez horas e ali era o ponto de encontro de muitos deles ―, riu com as coisas que vieram-lhe à mente, ele e Kurahara não poderiam ser interpretados daquele modo. Eles não estavam juntos, aquela possibilidade havia sido destroçada um dia depois da Hakone Ekiden, quando estava deitado em uma cama de hospital.
Suspirou, seguindo até a mesa de forma hesitante. Ele mal sabia mais o que iriam conversar, exatamente. Na verdade, não tinha muito o que explicar. Depois de uma sequência de passadas no meio da maratona, Haiji começou a sentir o joelho, aquelas dores o acometiam desde o incidente no ensino médio, que havia o forçado a fazer um tratamento longo com remédios e exercícios específicos. Com joelho sobrecarregado pelo overtraining , as dores apareceram, o local começou a inchar e ele teve que parar por um tempo. Os médicos disseram que ele estava com um tipo de síndrome, conhecida como síndrome do corredor¹, a dor e a sensação de queimação eram insuportáveis, Kiyose acabou criando um relacionamento bastante duradouro com seus anti-inflamatórios e analgesicos que faziam com que todo aquele sentimento ruim se esvaísse em minutos. Claro que tinha que trocar de tempos em tempos, já que paravam de fazer efeito, mas sempre encontrava um nome que o ajudava.
Até os vinte anos de idade, quando descobriu que não poderia se automedicar para sempre.
Sentou na cadeira antes mesmo de cumprimentar Kakeru, que levantou o olhar com a ação. Viu-o engolir em seco e levar a xícara de café até a boca, desviando o olhar para o balcão. O nervosismo do rapaz não fazia sentido na cabeça de Kiyose, eles conversariam, talvez pudessem se entender e depois… Bom, depois ele não sabia o que aconteceria.
― Oi ― falou. ― Está aqui há muito tempo?
― Não. ― Suspirou. ― Você demorou. Aconteceu alguma coisa?
― Hm, não, nada. Não viu minha mensagem? ― perguntou, num tom despreocupado, quando estava, claramente, preocupado. Levantou uma das mãos, numa espécie de cumprimento estranho à dona do estabelecimento, que estava atrás do balcão, sorrindo ao vê-lo ali.
Viu Kurahara arquear as sobrancelhas ao pegar o celular prata, checando as mensagens que haviam chegado.
― Que mensagem? Não recebi nenhuma mensagem.
― Teria recebido se tivesse desbloqueado meu número ― retrucou com um sorriso debochado na face e acabou rindo ao ver os lábios do outro serem contraídos em um bico envergonhado ― ou indignado, dependendo da perspectiva ―, juntou as mãos, volvendo o olhar para a ponta da mesa e respirou fundo, deixando a teimosia de lado. ― Meio que esqueci de mencionar que tinha um encontro com meu orientador um pouco antes do horário que marcamos. Te mandei uma mensagem há quase uma hora, tentando te avisar, mas acabou que você não recebeu e…
― Oh, então a culpa foi sua. ― Ele o cortou, antes mesmo que terminasse sua explicação. ― É muito irresponsável da sua parte esquecer os compromissos dessa forma, Haiji-san ― advertiu Kakeru, tomando um gole maior da bebida na xícara. Kiyose abriu a boca para retrucar, mas foi interrompida pela presença suave de Sakaki Akemi com um bloco de notas azul e uma caneta preta em mãos.
Haiji sorriu ao ver a amiga e balançou a cabeça ao cumprimentá-la mais uma vez.
― E aí, Akemi-chan? Como vai?
― Indo, né? O que aconteceu contigo? Nunca mais te vi por aqui ― falou Akemi, revirando os olhos ao ver Haiji girar o dedo indicador, como se aquilo fosse resposta… ― Aliás, não tenho visto nenhum dos dois. Kurahara-kun nunca mais veio aqui visitar Kousuke, ele deve estar com saudades, não?
― Peço desculpas por isso, Sakaki-san. Mas a faculdade tem sugado grande parte do meu tempo ― explicou-se. ― Kousuke-kun e eu nos encontramos algumas vezes ao acaso, por isso, tenho vindo menos aqui.
― Tudo bem, Kurahara-kun, eu entendo bem seu desespero. E você? Seu grande imbecil? ― Apontou para Kiyose. ― Qual a sua desculpa para não vir aqui?
― Desculpa? ― Arqueou as sobrancelhas. ― Ei, eu também tenho faculdade, sabe? E trabalho. Aliás, mais ainda agora que o final do período está chegando e eu tenho que terminar… você sabe ― lamentou, levando a mão até a testa num gesto dramático. ― Eu nem deveria estar aqui hoje.
― Está nessa situação há cinco meses, por acaso? ― Ele assentiu, encostando a cabeça na mesa de madeira, o gesto fez com que ela suspirasse em resignação. ― Haiji-kun é muito irresponsável. ― Ele a olhou um tanto indignado. ― Mas fico feliz que veio aqui hoje. Essa é uma ótima oportunidade para descansar. Não se force muito, okay?
― O verbo forçar não faz parte do meu vocabulário, Akemi-chan.
―Ah, mas é claro! Devo lembrar o que causou essa cicatriz enorme na sua perna? Estou falando sério, Haiji.
― Também estou. ― Ela suspirou.
― Tudo bem, qual o seu pedido? Preciso voltar a atender os clientes.
― O mesmo de sempre.
― O de sempre, então ― ela sorriu e caminhou apressada para o balcão.
Kiyose continuou com a cabeça deitada na mesa, olhando para um ponto fixo na parede. Sentia o olhar de Kakeru sobre si, ele queria perguntar algo, era uma pena que não pudesse saber o que era. Uma música bonita começou a tocar e o homem de cabelos claros fechou os olhos, respirando fundo ao aproveitar o sentimento que ela passava. Ele conhecia a música, era o que? Beethoven? Provavelmente, a nona sinfonia. Ah, ode a alegria! Nunca esqueceria.
Mordeu o lábio inferior, queria chorar, porém, como acontecia em várias situações da sua vida, não sabia o porquê.
Voltou a atenção para o jovem rapaz a sua frente. É, ele era bonito mesmo. Com aquela expressão séria, olhos tão bonitos quanto o mar e cabelos tão pretos que chegavam a ser azuis. Fez uma anotação mental de não comentar aquilo com Kakeru. Já havia percebido, ele não gostava de elogios, pelo menos, não em relação a sua aparência.
― Não sabia que conhecia a Sakaki-san ― Kurahara falou, quebrando o silêncio de minutos infinitos.
― É, você não sabe de muitas coisas sobre mim ― retrucou, sem energia. ― Conheço Akemi-chan desde a inauguração desse café. Eu já conhecia Takashi de vista, mas ficamos amigos quando eles abriram esse lugar. ― Sorriu com a lembrança. ― E você? Como os conheceu?
― Kousuke ― respondeu, indiferente. Oh, Kousuke, claro. Coincidentemente, o melhor amigo de escola de Kakeru era irmão mais novo de Akemi, ele era um cara carrancudo, apesar da idade, ruivo, assim como a irmã e, querendo ou não, bastante simpático, de uma forma peculiar, porém, ainda assim, simpático.
Haiji sorriu mais uma vez, vendo o seu café e o seu muffin de mirtilo serem colocados à mesa por Yamamoto Takashi. Cumprimentou o homem de cabelo escuros e comeu um pedaço do muffin, elogiando o amigo por ser tão bom na cozinha. A conversa não se estendeu muito, pois Takashi logo retornou ao balcão para pegar outro pedido.
― O que? ― perguntou, ao notar a expressão de Kurahara.
― Você está enrolando ― esclareceu.
― Não, não estou. Só que não estou afim de conversar, na verdade.
― Se não está afim, por que veio, então?
― Esse é o problema, nós temos que conversar. ― Suspirou, levando a xícara à boca, o café de costume era um capuccino sem canela com bastante chantilly, não podia negar, era apaixonado por aquele café e, exatamente por isso, refreou-se, não queria bebê-lo todo de vez. ― Nós não podíamos ficar mais nessa situação de gato e rato. Não tenho mais energia pra te perseguir e sei que você também não tem pra continuar fugindo.
― Eu não…
― Não está fugindo, sei, sei, não precisa repetir o discurso. ― Revirou os olhos. ― A questão aqui é: eu quero falar com você, assim como vou falar com os outros. Mas primeiro tem que ser você, entende?
― Por que eu? ― perguntou, desviando o olhar.
― Porque eu te arrastei pra isso tudo, não foi? ― explicou. ― Eu te persegui na rua, eu te levei até aquele apartamento e te convenci a correr na Hakone. Fiz você perder um bom tempo da sua vida para cumprir meu objetivo, insisti até você não conseguir mais recusar e falhei no final.
― Haiji-san, me desculpe, mas você veio aqui só para falar besteiras?
― Por quê?
― Você acha que se eu não quisesse correr, eu correria só por causa da vontade de um velhote besta?
― Velhote? ― perguntou, com uma expressão confusa no rosto. ― Quem você está chamando de velho, seu pirralho?
― Bom, você.
― Ei! ― exclamou. ― Mesmo que tudo isso que você falou seja verdade, eu ainda briguei com você.
― Brigou comigo? Quando?
― Naquela hora, no hospital. ― Kakeru franziu o cenho em descrença, Kiyose era idiota? ― Eu fiz merda na Hakone, eu entendo, por isso, eu tenho que me desculpar por ter sido tão grosso e ter descontado tudo em você.
― Tem razão ― ele falou. ― Você fez merda, mas não na maratona.
― Como assim?
― Ah, por favor! Você sabe por que brigamos. E não foi pelo seu problema na hora de correr, foi pela sua inconveniência ― falou num tom bem-humorado, o que era bem estranho vindo de Kurahara Kakeru.
― Inconveniência?
― No hospital, quando todos saíram ― esclareceu, o que fez a mente de Haiji dar um “clic”, enquanto a boca se mexia em formato de “o”, ele lembrava, com todos os detalhes possíveis. Aquele pensamento o fez corar, algo nada corriqueiro da personalidade de Kiyose. ― Eu aceito suas desculpas. Mas ainda não entendo o porquê de se desculpar.
― Kurahara, você…
― Ah, estou bem sobre aquilo, não faça de novo, não sem a minha permissão. Mas estou bem ― Kakeru falou de uma vez, tirando um grande peso das costas do moço mais velho, que estava olhando-o de forma constrangida.
E Haiji riu, algo que não imaginou fazer ao entrar naquele café. Aquele rapaz era impressionante, não tinha como negar.
― Obrigado, Kakeru.
Fale com o autor