On Our Way, I Found You

5 Chapter 5 - Feelings On War


Notas iniciais
Olá, pessoal! Como vão? Antes de tudo, quero pedir desculpas pelo atraso. Fico muito ocupada com várias coisas, principalmente com os estudos e nem vejo o tempo passando. Por isso, aqui vai um capítulo ENORME para não reclamarem! Desculpem e aproveitem! (Não esqueçam os comentários!) ✿ Mysterious Magic, MUITO OBRIGADA PELA RECOMENDAÇÃO! Você que é a perfeita, viu? Obrigada, obrigada, obrigada! Ainda vou chorar com todo esse mimo! Boa leitura ♥

Eu tinha certeza de que já ouvira muitas coisas estranhas ao longo dos meus dezesseis anos.

“Eu quero sair com você, Lucy.”

Um exemplo: quando meu pai me disse que ele e minha mãe iriam se separar.

Mamãe estava um pouco indisposta para me explicar a situação no dia, então essa tarefa passou para meu pai, que também não tinha muito jeito em dizer a uma criança de oito anos que seus pais perderam toda a compatibilidade que tiveram um dia.

“Eu quero sair com você, Lucy.”

Eu me lembro direitinho. Ele sentou numa cadeira, em meu quarto, e disse que algumas coisas ruins acontecem quando se vive muito tempo perto de uma pessoa que não é parecida com você. E mesmo que ambos queiram que essas coisas “ruins” não aconteçam, não tem como evitar.

Eu sabia disso, no entanto. Notava-se pelos gritos e xingamentos todas as noites; e também pelas diferenças. Meus pais eram inteiramente opostos. Papai era sereno, inteligente e centrado em seus casos intermináveis de advogado influente muito bem-sucedido que sempre deu e sempre dará o seu melhor.

Minha mãe, em contrapartida, era um passarinho. Enquanto papai sabia exatamente o que queria, mamãe — que até hoje não retirou o nome de casada por preguiça — só sabia viver um dia de cada vez. Aproveitar, esperar, apreciar. Ela queria tantas coisas que, para papai, eram infantis e pequenas.

Isso gerou desencontro. Meu pai sonhou com uma vida para minha mãe. Mamãe teve os sonhos dela para ele. Os sonhos não eram compatíveis e então os dois tornaram-se inteiramente infelizes mesmo sempre amando um ao outro.

Às vezes, só amar não é suficiente.

“Eu quero sair com você, Lucy.”

Morei com minha mãe durante um ano após o divórcio. Mas, depois de ver que meu pai poderia ser uma opção melhor para mim, ela preferiu que eu morasse em São Francisco enquanto iria para Chicago recomeçar sua vida. Isso resultou em sete anos morando com meu pai e ele me permitindo terminar o ensino médio com mamãe. Depois, eu faria meu próprio caminho.

“Eu quero sair com você, Lucy.”

Então, com a história de amor fatídica dos meus pais aprendi algumas coisas. Primeira: Não há razão para confiar tanto nas pessoas. Segundo: Não existe e nunca existirá um conto de fadas neste mundo. Terceiro: A felicidade é uma mera convenção construída pelas pessoas sem muita coisa para fazer.

Meus pais não eram felizes, posso dizer que eu também não era feliz.

“Eu quero sair com você, Lucy.”

Não sou idiota. Sei que estou apaixonada por Natsu Dragneel. Por isso que meu coração batia descontroladamente quando o via, por isso que amava quando ele ia me buscar e interagia de maneira tão natural com minha mãe; por isso que eu sempre queria tê-lo por perto; por isso que eu amava seu sorriso torto; por isso que eu sempre tinha vontade de beijar o meio das suas sobrancelhas quando faz uma carranca; por isso que várias vezes ao dia quero segurar sua mão; por isso, tudo de fofo que ele fazia por mim me deixava derretida; por isso que eu o acho tão perfeito…

Epa.

Calma.

Respira.

1,2,3…

Então, queridos, estou ciente de minha paixonite repentina. Muito ciente. MAIS que ciente.

E sei que é por isso que quero tanto beijá-lo enquanto ele pede para sair comigo.

O que acham disso, minha gente?

— Lucy — chamou-me. Sua voz aveludada e tão maravilhosa de escutar.

Fixei meu olhar nele que me encarava com aquela carranca fofa.

Era simples.

“Sim, Natsu, eu quero sair com você e, aliás, poderíamos ser mais rápidos e nos beijarmos aqui mesmo, o que você acha?”

Simples, simples, simples.

“Isso de novo, Lucy? Já se esqueceu de sua mãe? Do quão infeliz ela é? Do quão sozinha ela é? Do quão triste ela é? Quer acabar como ela? Apenas deixe que esse sentimento se propague. Você nunca conseguirá se livrar e ficará com isso preso dentro de você para sempre.

Você lembra. Você lembra dos gritos. Você lembra dos objetos quebrando. Você lembra de seu pai batendo as portas. Você lembra de sua mãe caída no corredor, chorando. Você lembra de estar sempre sozinha. Você lembra de quando se agachava, tampando os ouvidos, esperando as brigas acabarem. Você lembra das noites mal dormidas. Você lembra de tudo.

Também lembra que era muito mais seguro estar sozinha. Que nunca iriam rir de você, nunca iriam te destratar e nunca iriam te julgar, se ficasse quieta. Invisível. Você é invisível. Sempre foi melhor assim. Por que mudar agora? Você nasceu para ficar sozinha.”

“Essa é você, lembra?”

Meu subconsciente não era bom. Nem de longe.Mas, ele falara algo inteiramente verdadeiro.

Eu sousozinha. Sou solitária. Eu evito dores assim. Evito tudo assim.

E, eu já deixei de acreditar no amor há muito tempo.

— Oi? — Olhei para o menino mais lindo do mundo, aos meus olhos, e dei um sorriso. Isso tinha que acabar.

— Você aceita? — perguntou, seus olhos brilhando ansiosos.

— Natsu, eu... — Desviei o olhar. Ele percebeu. Ele sabia que eu ia negar, não porque eu não queria, mas porque tinha algo mais.

Natsu tinha umas maneiras estranhas de me ler que chegava a dar medo.

— Eu…

Quando notei, ele estava perto.

Muito perto.

Perto demais.

Querido, onde se encaixava “espaço pessoal” na sua cabeça?

— Não diga não — disse, segurando meu rosto — Eu quero sair com você, conhecer você. Apenas isso.

— Você já é grandinho o suficiente para saber que não é só isso — respondi.

Ele riu.

— Quer que eu diga a verdade? — perguntou. Assenti, mordendo os lábios.

Ele deu o sorriso torto.

— Bem, é que... — Chegou mais perto — Sabemos — Mais perto —, que...

Não deu para ouvir o que ele ia dizer.

— Layla, querida! Trouxe as laranjas que você pediu para mim hoje de manhã!

Certo, certo. Era a senhora Smith da rua de baixo. Nada demais. Mas, digamos assim, eu sou um pouco imprevisível quando quero — e não quero, só ressaltando — e fui pega de surpresa, então dei um soquinho em Natsu tentando “afastá-lo” junto desua proximidade comprometedora.

Foi sem querer!

Já falei que meu pai me deu algumas aulas de legítima defesa?

— AI! Mulher! Desde quando você sabe bater desse jeito?! — gritou, tampando o olho machucado com as mãos.

— Cala a boca! — sussurrei — Senhora Smith, sou Lucy, filha dela, ela ainda não está em casa! — Acenei para a velhinha parada na fachada de minha casa.

Natsu me olhou com raiva enquanto segurava o olho inchado.

Lancei-lhe um olhar de desculpas.

Ele me devolveu um acusatório.

— Ah! Boa tarde, querida. Você e sua mãe são extremamente parecidas! Mas, tudo bem. Entrego para ela depois! Até! — cantarolou, indo embora.

Suspirei e voltei meus olhos para a figura à minha frente que ainda me fitava com vontade de me jogar no outro lado da rua.

— Você sabe que não foi por querer — falei, analisando seu olho de longe. Nem eu sabia que minha potência para socos era tão forte. O machucado não parecia que precisaria de uma olhada mais drástica no hospital, mas eu tinha certeza que se não colocasse gelo naquele negócio, formaria um roxo enorme e deixaria seu rosto com uma pequena deformação inconveniente.

— Ah, eu acho que não — disse, franzindo as sobrancelhas e fez uma careta pela dor.

— Você sabe sim. — Coloquei minhas mãos na cintura e mirei-o com raiva — Entre, irei colocar gelo nesse treco.

Ele bufou, mas entrou quando dei espaço na porta.

Uma hora se passou em ajustes irritantes com Natsu. Ele era muito fresco! Toda vez que eu tentava colocar gelo no machucado, ele urrava de dor como se estivessem quebrando seus ossos em duzentos pedaços. Chegou um momento que ele me perguntara se eu não poderia agir mais como uma “menininha delicada” — palavras dele — em vez de uma “caminhoneira” — palavras dele novamente — com mãos de aço. Nessa hora, quis espancá-lo.

Quando passei o lenço umedecido, foi a mesma coisa. Porém, dessa vez, eu espanquei ele. O que gerou mais reclamações intermináveis sem nexo algum.

Por que aquele tipo de coisa acontecia apenas comigo, meu Deus?

Finalizado o uso do lenço, decidi passar a pomada, tentando usar minhas mãos com mais delicadeza para não ouvir babaquices de um babaca frescalhão com a tendência de incomodar a paz alheia. Alguém precisava pará-lo ou algum dia eu iria matar aquele homem.

Falo muito sério.

— Obrigado — ele disse, olhando para o meu cabelo ou alguma coisa acima de mim, não tinha certeza.

Estávamos no banheiro do quarto de minha mãe — onde havia a caixinha de primeiros socorros — e Natsu se encontrava sentado na tampa do vaso sanitário, enquanto eu, agachada, terminava de passar a pomada em seu olho danificado.

Olhei de esguelha para seus olhos e constatei que ele me encarava.

— Por nada. — Sorri — E desculpa também. Eu não queria lesionar seu olho.

Ele assentiu.

— Eu sei.

Ficamos em silêncio novamente.

— Você vai sair comigo? — Dei um pulo, pega de surpresa. Eu havia me esquecido da sua proposta descabida de antes.

Engoli em seco antes de falar:

— Não.

Ele cerrou o maxilar.

— Por que não? — perguntou. — Você não gosta de mim? — Quase sorri de sua pergunta. Natsu conseguia ser muito fofo quando queria.

“Meu Deus, estou realmente apaixonada por ele”.

— Você sabe que não é isso — suspirei —, é muito mais complicado, Natsu.

Terminei de passar a pomada e sentei no chão, olhando para seu rosto completamente descontente.

— É mais um de seus receios, Lucy? Come on! Você viu o que aconteceu hoje, viu que ter amigos é muito bom. Você estava bem e feliz. Qual a diferença disso e sair comigo? É apenas mais uma experiência que quero te mostrar que pode ser boa também — terminou, contrariado.

Ah, meu príncipe encantado do cavalo manco.

— Hoje foi maravilhoso, Natsu. Eu nunca poderei dizer o quanto eu sou grata a você por isso. Mas... — Inspirei — Sair... Namorar... Isso não é para mim. Nunca foi. Eu... — Ele me interrompeu:

— Como assim “Não é para mim”, Lucy? Quem te disse essa baboseira? Você? Seu conceito para as coisas é extremamente ridículo. Quando vai parar de agir feito uma idiota? — cuspiu, com raiva.

Certo. Aquilo doeu.

Quem era ele para debater meus conceitos?

Ele me conhecia há o quê? Duas semanas? O que ele sabia sobre mim?

Tomada pela raiva, respondi:

— Cala essa boca, Natsu! Você sabe nada sobre mim. Guarde sua opinião para si mesmo e engula tudo. Não sou obrigada a ouvir teorias estúpidas que você construiu para tentar me entender!

Ele franziu mais o cenho.

— Eu estou tentando te ajudar, sua... — Dessa vez, eu interrompi.

Me levantei com a postura mais indignada que eu poderia ter naquela situação e dei uma risada irônica. Ele queria apenas me conquistar para depois quebrar meu coração problemático e estragar ainda mais a minha vida.

— Eu não preciso da sua piedade. Nunca precisei. Nunca pedi a sua ajuda. — Apontei um dedo em sua direção — Quer saber? Não vou sair com você. Não importa suas intenções nessa idiotice. Não preciso de mais problema na minha vida e a cada dia que passa, Natsu, você se torna um que eu já cansei de lidar.

Eu não daria carta branca para Natsu Dragneel entrar em minha vida e causar um estrago sabendo que nunca conseguiria consertar. Eu era fraca demais. A única forma de evitar isso era machucando-o, mesmo que também me machucasse no processo.

Ele me fitou como se não acreditasse no que ouvia, mas mesmo assim, permaneci com a postura rígida e os olhos fingindo irritação quando na verdade escondiam toda a minha mágoa, não apenas com a situação, mas pela forma como tudo prosseguira.

Quando ele falou, sua voz estava rouca e um tanto indiferente, o que me magoou ainda mais.

— Muito bem. Entendi o recado. — Levantou-se — Obrigado pelo cuidado com meu olho e tudo mais. — Colocou as mãos no bolso numa postura relaxada e deu de ombros — A gente se vê. — E saiu.

Esperei o barulho dele descendo as escadas.

Esperei o barulho da porta sendo aberta.

Esperei o barulho da porta fechada.

Permiti que a primeira lágrima caísse. Depois a segunda. As próximas vieram sem a minha permissão. Elas simplesmente reivindicaram seu lugar e desabaram em meu rosto. E, com os olhos inundados e a tristeza invadindo todos os cantos do meu corpo, corri para o meu quarto e me afundei em meu leito de solidão mais uma vez.

N&L

A escola aparentava estar mais silenciosa naquele dia. Talvez porque cheguei dez minutos antes do intervalo. Os adolescentes ainda estavam obrigados a ficar dentro das salas de aula por causa de alguma lei do país, então eu poderia ser considerada uma “fora da lei” por ter matado duas aulas.

Uau, dude.

Natsu não viera me buscar naquela manhã. Eu também não fiz muito esforço para levantar. Só saí da cama quando minha mãe disse que queria ter uma filha com uma conta no banco satisfatória para levá-la ao Havaí para dançar com os caras musculosos e, teoricamente, você só consegue ser rico ficando com a bunda dormente enquanto olha um professor resmungão rabiscando no quadro um bando de coisas que talvez você se esqueça após trinta minutos.

Que grande estrada para o sucesso, mãe.

E eu estava mal-humorada. Todos sabemos.

Enquanto minha mente debatia meu mau humor, o sinal tocara revelando todos os alunos saindo de suas aulas com uma rapidez bem invejável.

Suspirei vendo as cambadas populares prontinhas para isolar a “normal anônima” novamente. Franzi o cenho e pensei em algum lugar que eu poderia evitar aquela situação embaraçosa.

Sobrara uma opção: o terraço. Velho companheiro. Dois dias antes éramos inseparáveis.

Dei de ombros, preparando-me para esgueirar entre os animais famintos e forçando a memória para lembrar o que minha mãe havia feito de almoço para mim naquele dia. Talvez fosse alguma coisa com frango e pão integral…

— Lucy! — Virei-me quando ouvi a voz de Levy, que vinha correndo em minha direção junto de Juvia.

Eu juro que não sabia o porquê de elas estarem ali.

Acelerei para alcançá-las, o que foi suficiente para alguém esbarrar em mim, fazendo-me cair em um encontro fatal com o chão.

Meu dia não poderia ficar melhor.

— Ah! Desculpa, cara! — o garoto, com alguma lesão motora, disse. Havia milhões de pessoas ali, como ele não conseguira me ver? Aliás, por que ele não ajudou a me erguer mesmo?

Levantei com a cara péssima. Só mais uma coisinha e eu iria embora para casa.

— Meu Deus! Você está bem? — perguntou Levy enquanto passava a mão em meus braços para tirar alguma poeira dali.

Ela estava muito fofinha. Na verdade, Levy, à primeira vista, era uma garota muito delicada. Bom, aí você conhecia sua personalidade e ficava meio complicado classificá-la como “fofa”, mas, ela trajava uma blusinha de ombros caídos, florida, com uma saia rosa claro. Seus cabelos azuis estavam presos atrás com o que parecia ser um lacinho azul. Em seus pés havia uma rasteira marrom e em seus ouvidos, brincos azuis e um pingente bem barulhento repleto com berloques de “garota fofa” enfeitando seu pulso.

Juvia vestia um macacão com uma blusa listrada por baixo, rasteiras também marrons e seus cabelos azuis — mais escuros que os de Levy — estavam presos num coque e usava óculos, o que era uma coisa nova. Nunca a tinha visto de óculos.

Talvez porque eu a conhecia há apenas um dia?

Dã.

Eu, por outro lado, trajava uma blusa branca, calça preta e tênis. A roupa do mau humor.

— Acho que sim — Sorri. — Como me encontraram?

— Acabamos de sair da aula de história. — Juvia disse. — Estávamos indo para o refeitório quando te vimos.

— Querendo se afastar, hum? — Levy sugeriu, com um sorrisinho sarcástico. Corei. — Pode esquecer o isolamento, Lucy! Você vai comer conosco agora! E, por que você está com a sua mochila? — Ela arregalou os olhos. — Você estava matando aula, menina? Acha que isso é correto? Olha, só porque você conheceu o Natsu primeiro, isso não significa…

— Levy! — Gargalhei. — Eu acabei de chegar. Estava em casa — tranquilizei.

— Por que você estaria em casa? Esqueceu que ainda é quarta-feira? — perguntou, colocando as mãos na cintura. Juvia olhava para a conversa com uma cara de “vamos comer, por favor”.

— Algumas coisas aconteceram. — Sorri, desviando o assunto. Ela semicerrou os olhos. — Podem ir comendo, eu vou dar uma volta…

— Não, não! Você vem com a gente! Pode vir, anda! Já disse: sem isolamentos! — falou, puxando meu braço.

Um “trec” veio na minha cabeça. Será que... Será que elas só estavam fazendo tudo aquilo porque Natsu pediu? Só estavam fingindo serem minhas amigas e que se importavam comigo porque não tinham outra escolha, e queriam apenas pagarem de boas pessoas não deixando a pobre coitada da “normal anônima” sozinha por piedade? O que tudo aquilo significava? Nós nem nos conhecíamos direito!

Elas eram lindas, conhecidas, aparentemente bem perfeitas. Por que queriam se envolver comigo? O que ganhariam com isso?

Eu não me considerava feia, muito pelo contrário. Eu tinha plena consciência de minha beleza, mas... Levy, mesmo sendo uma anãzinha e com uma personalidade bem explosiva, era fofa e delicada. Juvia, mesmo sendo um pouco complexada no amor, era esguia e muito bonita. Qual era a semelhança entre nós?

Eu era apenas “normal”.

Não é?

— Por que estão insistindo nisso? — Levy notou meu corpo tenso e a voz alterada, e olhou para mim. — Natsu pediu? Ele disse que tenho medo de me relacionar com as pessoas como algum tipo de vingança por ontem e agora vocês têm pena de mim por não ser tão influente como vocês?

Juvia arregalou os olhos.

Levy me olhava como se eu tivesse algumas cabeças a mais. Depois, seu olhar passou para um fogo que não consegui entender o que significava.

— O que você pensa que está dizendo, Lucy? — disse, sua voz baixa e rouca, como se estivesse se preparando para matar alguém.

Aquilo conseguiu atiçar toda a mágoa que se acumulara dentro de mim.

— Vocês não me conhecem. Eu não conheço vocês. Não faz sentido estarem se importando comigo dessa forma. É pena? Eu realmente não preciso, sério. Prefiro ficar sozinha a ter de suportar algo como isso — respondi, a voz elevada. Percebi que algumas pessoas já paravam para olhar, mas eu não ligava. Eu não queria piedade de ninguém. Eu queria continuar invisível. Não aguentava mais ter problemas nem resolver coisas. Queria ficar quieta. Apenas ficar quieta.

Levy largou meu braço e me olhou com chamas bem mais elevadas em seus olhos.

— Senhorita Lucy, por que pensa isso da gente? — Juvia perguntou com um pouco de tristeza em seu semblante.

— Porque ela é uma idiota, Juvia. Completamente idiota — Levy disse com os punhos cerrados ao lado do corpo.

— Porque é a verdade. Vocês duas sabem disso. Eu nunca tive “amigos”, mas sei reconhecer quando são verdadeiros ou falsos — defendi.

Verdadeiros ou falsos?Lucy, entenda uma coisa: somos suas amigas, sim. Mesmo que tenhamos nos conhecido ontem. Dane-se! Quem disse que precisa de muito tempo para uma amizade? Todas gostamos de você. Todas nós! Já te consideramos parte do nosso grupo, sabe por quê? — Eu ouvia atentamente suas palavras rápidas. — Porque vimos em você alguém que queremos ao nosso lado. Não tem Natsu que me faria gostar de você se eu não quisesse. Não há tempo que possa barrar quem são os meus amigos ou não, e não há vocêque me impeça de me importar quando você está sozinha ou não. Eu vou me importar. Acostume-se com isso.

— Senhorita Lucy — Juvia começou, com um sorriso amoroso. — Se o que você disse sobre nunca ter tido amigos é verdade, estamos mais do que animadas em ser suas primeiras amigas. Seria uma honra.

— E também — Uma outra voz surgiu no meio do nosso bolo. —, deixe essa insegurança de lado, garota, e venha comer. Temos que te contar todas as fofocas de ontem e hoje.

Erza postou-se ao lado de Juvia com um sorriso.

Levy se aproximou e segurou minhas mãos.

— Você é mais do que bem-vinda, Lucy. Na verdade, estamos te obrigando a ficar conosco. Não há outra opção além do “sim”. — E sorriu.

Senti duas lágrimas escaparem dos meus olhos. Era a primeira vez, em muitos anos, que reivindicavam minha presença, minha “entrada”. O sentimento era muito, muito bom. Eu via os sorrisos daquelas garotas que não me conheciam, não sabiam nada da minha história, mas que já se importavam comigo mais do que qualquer outra pessoa ao longo de todos esses anos.

A solidão é uma coisa esquisita. Você não liga muito para ela. Você vive dia após dia em sua companhia, mas permanece até que bem. Você sabe que não há muito o que fazer, apenas conviver harmonicamente com ela sem muito rebuliço, afinal, nada irá mudar. Mas então, você vê o que é estar sem ela. Não apenas vê, mas sente. Mesmo que parcialmente, a diferença é gritante; e o sentimento é tão grandioso e ofuscante que te atrai. Você quer aquilo, quer viver sem a solidão, quer ser diferente. É algo de apenas alguns minutos, mas traz uma felicidade sem igual.

Eu me sentia daquela forma ali, naquele momento.

Sorri e abracei Levy, puxando Juvia e Erza para aquele compartilhamento de braços e carinho. As três me apertaram e me deram dois beijos na bochecha e um beijo na testa, fazendo-nos gargalhar.

Uma pessoa deu chance para aquilo tudo acontecer.

E essa pessoa estava muito magoada comigo.

Soltei-me daquele abraço de urso à três e olhei para cada uma das meninas.

— Eu preciso me desculpar com Natsu — disse, pidona.

Elas se entreolharam.

— Depois queremos saber, em detalhes, o que aconteceu, mocinha — Levy falou com um sorrisinho.

As outras duas assentiram.

Imitei o gesto.

— Pode deixar. — Pisquei e saí correndo em busca de Natsu que eu já vira que não tinha entrado no refeitório.

Corri como se estivesse numa maratona, a culpa pesando em meus ombros. Tudo que ele havia feito durante todo aquele tempo era me ajudar e colocar minhas necessidades — mesmo nunca mencionadas — em lugares importantes em sua vida. Tudo que ele queria era me ver bem.

Nunca quiseram me ver bem.

Ele quis.

E eu o magoei.

Pensei em seu sorriso, em suas provocações, em sua interação com minha mãe, em sua disposição a caçar o ladrão da minha mochila e pensei nele me chamando para sair no dia anterior com a cara mais fofa e perfeita do mundo. Pensei em seu desapontamento quando viu que eu não lhe daria brechas para entrar em minha vida.

As meninas e todo seu discurso sobre “não-isolamento” me forçaram um ensinamento. Eu não posso barrar as pessoas que se importam comigo. Não posso deixar meu medo interferir naquilo que me faz bem. Ele queria apenas sair comigo. Talvez algumas coisas a mais. Mas, eu estava apaixonada por ele, não estava?

Corações partidos não fazem parte da adolescência? Por que comigo seria diferente?

Talvez até daria certo. Talvez ficássemos juntos, talvez.... tudo poderia ficar bem.

Eu já havia chegado ao pátio. Natsu não estava em nenhuma das salas que tinha aula, não estava na biblioteca — como se ele fosse para lá —, no terraço e nem no refeitório. Busquei uma das minhas últimas alternativas.

Caminhei meio aleatoriamente pelo local, vendo muita gente comendo, conversando, ouvindo música, estudando e alguns até dançando. Caminhei mais um pouco até chegar aos fundos do pátio e já me preparava para voltar quando ouvi uma risada.

Eu conhecia aquela risada.

Dei um passo para trás novamente e me arrastei pela parede dos fundos quando os avistei. Estava Natsu e Lisanna, juntos, do outro lado da caçamba de lixo dos fundos do prédio da escola. Natsu a prensava na parede, contando algumas coisas em seu ouvido que a faziam dar uma risadinha “sensual”, enquanto ele mostrava o meusorriso torto para ela.

Eu não conseguia desviar meus olhos. Pelo que eu me lembrava, ele disse que nunca namorou ela e todas as “informalidades” haviam terminado. Pelo o que eu me lembrava, ele havia me chamado para sair no dia anterior. Pelo o que eu me lembrava ele…

Não consegui terminar meus pensamentos porque, num piscar de olhos, os dois se beijaram. Beijavam-se com muita, muita vontade. Lisanna puxava-o pelos cabelos e ele a puxava pela cintura muita força. Os lábios lambiam-se rapidamente, como se não precisassem de ar para respirar e ambos se agarravam como se seus corpos fossem botes salva-vidas.

Meu corpo estava dormente. Foi como se tudo desligasse dentro de mim e uma voz sarcástica ao fundo da minha mente apontasse para minha cara horrorizada e risse com gosto de forma sádica.

Eu disse que ele me quebraria.

Ouvi o sinal para voltar para as salas, e como fogo que queima com rapidez, corri. Corri como se tivesse um serial killeratrás de mim. Como se existisse alguém me oferecendo balinhas suspeitas. Como se um animal louco quisesse me matar.

Corri.

Corri de Natsu, afundando todas as coisas boas dele em meu coração, tentando pensar em como acalmar meus sentimentos em guerra.

L&N

As duas aulas seguintes foram muito tranquilas. Apenas uma delas Natsu estava presente que era a de biologia, mas não fiz muita questão de me importar com isso. Desde muito tempo aprendi como não demonstrar meus verdadeiros sentimentos às outras pessoas. Era extremamente eficaz.

Às vezes a dor devia ser coberta.

Juvia e eu tínhamos a mesma aula de inglês — blehhh— um horário antes do almoço, o que me fez dar alguns pulos de alegria. Era bom ter alguém para rir com você por causa do bigode esquisito do senhor Bennet.

Aí, a hora para o almoço chegou.

Encontramos uma Levy muito irritada com Gajeel na ida ao refeitório. Aparentemente, os dois tiveram a mesma aula de matemática com uma das únicas professoras bonitas na escola, a senhorita Cana Alberona, ou apenas “Cana” ou “Can” para os íntimos.

Parece que Gajeel era um desses íntimos.

Juvia e eu não conseguimos segurar nossas risadas com tudo aquilo. Levy e Gajeel eram tão opostos um do outro que chegava a ser engraçado. Gajeel era gótico demais, alto e musculosodemais. Levy parecia uma fadinha, baixinha demaise explosiva demais.

Eram muitos demais diferentes.

Erza e Jellal apareceram quando já estávamos todos acomodados no refeitório. Levy conversava comigo e com Juvia, claramente ignorando Gajeel que comia um hambúrguer com gosto enquanto mexia no celular. Juvia saboreava alguns cookies de gergelim e eu estava muito satisfeita com meu sanduíche de frango — sabia que era algo com frango!

Quando Erza e Jellal se acomodaram — Erza vindo conversar conosco e Jellal tentando acalmar um Gajeel muito irritado — Gray chegara com seu sorriso sacana e uma bandeja repleta de coisas “naturebas”. Sua chegada foi o suficiente para Juvia se endireitar na cadeira e começar a se desligar da conversa para ficar encarando-o.

Os meninos iniciaram o mesmo assunto sobre Playstation vs Xbox e as meninas prosseguiram com um debate sobre a ausência de representantes femininas em diversas profissões. Erza e Levy ficaram muito exaltadas várias vezes.

Um instante depois, fora Natsu decidiu aparecer.

Acompanhado de Lisanna.

— Ah! Já estava sentindo falta dessa mesa e de todos vocês! — Lisanna disse, com um sorriso enorme — Sentiram saudades?

Todos ficaram em silêncio, olhando-a.

Mas foi Levy que respondeu:

— Não, fique tranquila. Você já pode ir embora — terminou, com uma cara azeda.

Lisanna fez uma expressão de surpresa fingida enquanto Natsu me encarava intensamente. Eu sabia que ele só fazia tudo aquilo para me afetar, e ele sabia que me afetaria porquetinha plena consciência de que eu gostava dele, e só porque recusei seu pedido anterior decidiu que precisava de uma vigancinha.

Você joga muito baixo, mate.”

Nunca vi em Natsu uma pessoa rancorosa. Na verdade, ele conseguia perdoar até mais do que o esperado, mas, naquele instante, pude ver uma parte dele que nunca pensei em analisar direito.

Ele odiava ser contrariado.

E, caso fosse, aquele que o contrariou iria sofrer.

Aquela constatação me machucou. Machucou mais do que eu previa. Ele estava quebrando meu coração aos poucos, desde o dia anterior, desde a sua falta de compreensão, desde o beijo que ele deu em Lisanna, desde aquela apresentação desnecessária... e desde que ele me conheceu, quando eu soube do poder que ele teria em algum momento.

Naquele momento.

Não tive forças para olhar em seus olhos e abaixei a cabeça.

— Ah, Levy, você e suas piadas de mal gosto! — Lisanna riu.

Não aguentamos. Eu, Erza, Levy e Juvia olhamos diretamente para ela, numa mensagem clara de: “Vai embora, parceira. Ninguém te quer aqui”.

Ela não entendeu, no entanto.

— Também é bom ver os meninos! Gray, você está fantástico no uniforme do time de basquete — comentou. Ele levantou a cabeça do prato natureba e olhou para ela, sem entender e Juvia se remexeu na cadeira, completamente desconfortável — Jellal, continua lindo — Jellal olhou para ela com uma carranca —, e Gajeel — suspirou —, simplesmente perfeito — Gajeel comia o segundo hambúrguer com uma cara de tédio sem ao menos olhar para Lisanna.

Levy quase deu um pulo.

— Escuta aqui, queridinha... — Erza olhou para ela, fazendo um “não” com a cabeça. Levy bufou, mas sentou-se.

Lisanna deu um suspiro alegre.

— E... Lucy. — Foi engraçado. Antes um sorriso enorme estampava em seu rosto pálido, como se esperasse o melhor presente de natal de todos os tempos, e de repente aparecesse algo completamente inesperado e sem graça. Tipo o Papai Noel dizendo um “Surpresa!” de puro mal gosto. A felicidade falsa em seu rosto deu lugar para um aborrecimento quase palpável.

Eu deveria estar assim também.

Continuei encarando-a como todos os outros sem prestar muita atenção. Minha mente estava cansada de Lisanna — as encaradas viraram passado havia uma semana —, de Natsu, de meus sentimentos, de vingancinhas, de tudo. Era tão desgastante. Por que raios ele precisava fazer tudo aquilo para se sentir melhor? Por que os homens ligam tanto para o orgulho ferido? O que há nesse orgulho que fere tanto vocês, homens? Vocês são idiotas?

Natsu deveria entender que nem sempre as coisas seguiriam o rumo que ele impunha. Nem tudo seria no ritmo que ele preferia. Como ele conseguia fazer aquilo sem nem um pingo de consideração? Como ele conseguia sair por aí, desfilando com aquela menina e achar que conseguiria alguma coisa? Por que ele queria tanto me ver triste?

Por que ele parecia exatamente como todas as pessoas que passaram pela minha vida?

Tarde demais, notei que meus olhos estavam lacrimejando.

— Lucy? — Levy sussurrou, tocando em meu braço.

Notei que todos — inclusive Lisanna e seus olhares maldosos — tinham os olhos fixos em mim. Natsu também. Ele parecia um pouco vacilante dessa vez. Estreitei meu olhar nele, dizendo sem palavras que a culpa era dele.

Inteiramente dele.

Não consegui suportar toda aquela atenção, então pedi desculpas e saí da mesa, correndo em direção à saída.

Existem algumas coisas engraçadas na vida de um adolescente. Primeiro: você sempre se apaixona. Você pode ser daqueles do contra que dizem, todo birrento, que nunca irá gostar de ninguém. Ah, doce ilusão. A puberdade te dará um tapa na cara.

Segundo: você fica maníaco por comida. Alguns são os casos contra essa regra, mas a maioria, meus queridos, seguem isso ao pé da letra.

Terceiro: você vira justiceiro e quase um membro do movimento dos sindicatos. Tudo na sua vida é um inferno, todos são ruins, todos são do mal e por aí vai.

Quarto: você sempre fica com o coração partido. Nem me venha dizer que a sua tia avó, Zeunilde, se apaixonou pelo seu tio avô, Albertino, aos quinze anos e estão comemorando bodas de diamante e nunca tiveram uma briguinha. Não ligo para isso. Essas são as queridas exceções, amados. Vocês terão um coração partido.

Assim como o meu.

Me refugiei no pátio. Havia poucas cambadas “opressoras”. Não sei porque não optei pelo terraço, mas, a única coisa que eu tinha em mente era ficar sozinha. Não era pedir muito, era?

Minhas lágrimas já estavam secas por causa do vento. Era melhor assim. Sem água. Apenas sentar e ver o que mais deu errado na sua vida e começar a se xingar, perguntando inconsciente para Deus qual era o seu problema.

Ah, que lindo dia.

Sentei na grama, na sombra de uma árvore, e fechei os olhos. Nunca gostei muito de Sol, mesmo que minha mãe amasse a praia e me forçasse ir algumas vezes, nunca fui muito adepta à claridade excessiva. Eu não era uma pálida preocupante como Lisanna e Mira, meu tom de pele era muito normal, porém, no inverno, eu conseguia disfarçar bem. Tão bem que meu pai me levou ao dermatologista no inverno passado.

Suspirei. Eu tinha saudades dele.

Percebi que alguma coisa barrou a pouca claridade da árvore e, bem sonolenta, abri os olhos, piscando algumas vezes com o fraco brilho incômodo e enxerguei o que estava à minha frente.

Melhor, quemestava à minha frente.

— O que você quer? — perguntei, minha voz ríspida e irritada. Confesso que não queria ver Natsu por um bom tempo depois daquele dia. Entretanto, como uma assombração, ele aparecia ali atormentando a minha paz ilusória.

— Eu... — ele parecia bem receoso.

Ri em meus pensamentos. Eu, com toda a certeza, não aceitaria suas desculpas.

— Não gaste saliva. Não vou te perdoar — falei enquanto olhava-o deixando bem claro que estava séria.

Ele revirou os olhos.

— Eu sei disso.

— Se sabe, por que me seguiu? — indaguei.

— Por que não quis sair comigo ontem? — Bufei. Jura, buddy? Depois de tudo, ele queria saber aquilo?

Sejamos beeeeemsinceros aqui. Já foi comprovado que eu não era uma pessoa com uma paciência bacana.

Nem de longe.

— Você não consegue sair do modo “filhinho de papai” por um segundo, Natsu? Só consegue olhar para seu orgulho ferido e ficar incomodado quando ele dói? Por que você não tenta olhar, dessa vez, para o problema dos outros e não para o seu? — exaltei, levantando-me.

Ele pareceu se irritar também.

— Eu olhei para o seu problema, não olhei? Não tentei te ajudar? Por que você sempre foca demais nos seus problemas, Lucy? Por que não tenta ver que existem pessoas que querem o seu bem?!

Ele não disse isso.”

“Ele realmentenão disse isso.”

— Querem o meu bem? Querem o meu bem? — Cutuquei seu peito — Quem quer o meu bem? Você? Com aquela demonstração ridícula de que quer ser melhor do que eu? Com aquele beijo com Lisanna só para tentar mostrar para si mesmo que seu orgulho está intacto? Com aquela aparição desnecessária com aquela garota na minha frente só para me afetar? Você é uma pessoa que quer o meu bem?

Eu já socava seu peito com raiva quando ele segurou meus pulsos, mas permitiu que eu continuasse.

Ah, mas eu continuaria mesmo se ele não permitisse.

— Você não sabe de nada, Natsu Dragneel! Você não entende! — gritei.

De novo, percebi que um aglomerado de pessoas já se formava para ver o que estava acontecendo. Pelo amor de Deus, por que aquela gente gostava tanto de briga alheia?

Ele segurou meus pulsos com mais força.

— Então por que você não me diz?! Por que você não me fala?! O que te impede, Lucy? O que te impede de me dar uma explicação? — Ele afrouxou o aperto e deu de ombros — Eu só quero te ajudar. Eu não quero que você continue se sentindo assim.

Olhei em seus olhos tentando captar alguma mentira naquela afirmação.

— Eu... Eu... — suspirei e olhei as pessoas à nossa volta. Notei que ninguém do nosso grupinho de amigos estavam presentes, apenas Lisanna com fogo nos olhos, é claro. Mas os que eu gostava não eram xeretas. Bom, aleluia — Meus pais se divorciaram quando eu tinha oito anos, Natsu. Eu... — sussurrei — Foi péssimo. Eu me lembro de tudo. Eu... não gosto de falar nisso, mas, já houveram pessoas que fizeram a mesma coisa que você. Eles me fizeram acreditar que tudo poderia ser melhor. — Dei de ombros, resignada — Eu não quero passar por isso de novo. Não quero ter o final igual ao dos meus pais. Não quero que isso aconteça comigo. Por favor. Eu não quero — choraminguei.

Era meio vergonhoso toda aquela franqueza e honestidade. Porém, que escolha eu tinha? Existem momentos na vida que seu orgulho não vale muita coisa. Muitas vezes, a exposição de quem você é consegue ser melhor e apaziguador. Os meus sentimentos estavam completamente em guerra. Eu precisava me acalmar. A honestidade não poderia ser pior do que as coisas que já tinham acontecido.

Ele me fitou fixamente, prestando atenção em cada detalhe do meu rosto. Eu não chorava, nem estava perto disso — por favor, né — mas nada ali era agradável. Não era legal contar para alguém uma das coisas que mais te afligia. Não era fácil e nem confortador. Deixava um gosto ruim na boca e um coração acelerado de lembrança.

Eu poderia ter um AVC.

— Tudo bem — disse, o rosto sereno —, tudo bem. Eu entendi. Acalme-se, hum? — Ele segurou meu queixo — Está tudo bem.

Não estava tudo bem.

Escutem aqui, meninas, quando o garoto que você gosta fica beijando algumas “amiguinhas” aleatórias e depois desfila com elas, como se a escola fosse alguma espécie de concurso de carro do ano, apenas para te fazer ciúme, como você se sentiria?

“Uma chacina vai ocorrer esta noite”, estou certa?

E, bora lá, eu estava com os sentimentos à flor da pele.

Nossas mãos estavam unidas enquanto ele tentava me acalmar, mas, no excesso repentino de indignação, tirei minhas mãos do aperto das suas de forma brusca.

— Não está “tudo bem” — frisei, olhando-o com raiva — Eu não sou obrigada a dizer meus problemas para você. Você deveria ter o bom senso de saber que tinha alguma coisa errada e esperar a minha vez de te contar. Quando eu me sentisse confortável.

Ele me olhou, culpado.

— Lucy... — Interrompi.

— Você usou Lisanna como uma fuga para seu ego inflado continuar intacto e gostou de me ver afetada com isso. — Inspirei — Natsu, você piorou as coisas mais do que imagina — dei uma pausa — E você é realmenteum problema que eu cansei de lidar.

Ele franziu o cenho.

— Lucy. — Interrompi novamente.

— Eu estou cansada. Cansada de não saber quando você vai me machucar novamente. — Ele me olhou irritado — Por favor, me deixe em paz.

— Lucy, eu…

Por favor, me deixe em paz, Natsu — pedi.

Ele parou, me olhando, mas assentiu.

— Entendi — falou, seu rosto todo contrariado, e saiu, passando pelas pessoas em passos rápidos.

Deu para ver Lisanna correndo atrás dele e alguns presentes fixando o olhar em minha reação fazendo-me sentir encurralada.

Ignorei toda aquela gente curiosa e arrastei-me para a árvore até sentar na grama, e em seguida puxando minhas pernas contra meu corpo para afundar minha cabeça nelas, exausta de tudo.

Fiquei ali até ver que todos tinham ido embora e o sinal dando seu ar de graça.

Levantei e fui para a sala em passos lentos, preparando-me para o resto daquele dia agitado.

Tão agitado que quando deu a hora de ir para casa, não me despedi de ninguém. Apenas fui correndo até minha bicicleta — ainda estava com trauma de ônibus, okay? —, mandei as devidas mensagens para minhas mais novas amigas, avisando que estava tudo bem e que eu queria descansar por um longo tempo até o próximo dia. Erza e Juvia entenderam perfeitamente, Levy, no entanto, mandou muitos emoticons infelizes e muitas palavras em maiúsculo para evidenciar todo seu descontentamento.

Ela conseguiu me fazer sorrir.

Chegando em casa, minha mãe ainda não havia voltado de uma das milhares convenções sobre uma “boa alimentação” e muito provavelmente chegaria tarde, cheia com sacolas de amostras de várias coisas integrais e orgânicas que, segundo ela, seriam muito eficazes para me ajudar a continuar saudável.

Andei um pouco sem ter o que fazer. Fiz o jantar, lavei a louça que sempre sobra do almoço de mamãe com algum convidado e terminei todos deveres que sobraram para fazer daquele dia e de outros. Logo, o tédio me invadiu.Assisti televisão, li capítulos de alguns livros aleatórios e depois não sobrara muita coisa interessante.

Foi quando eu estava terminando alguns desenhos meus que uns toques na minha janela me despertaram curiosidade. Já era oito da noite, então a maioria das pessoas deveriam estar em casa tentando lidar com suas vidas enfadonhas assim como eu.

Até tentei ignorar, poderia ser apenas um bichinho brigando por comida ou o vento batendo algumas folhas e sementes aleatórias, mas, conforme passaram-se os minutos, dava para perceber que não era bem assim. Os barulhos tornaram-se incessantes e irritantes.

O meu quarto na casa de minha mãe não era lá grande coisa. Era um pouco pequeno comparado ao quarto na casa de papai. Em São Francisco, meu quarto possuía closet, vista, arejamento e espaço. Tudo que uma pessoa precisa. Mas, em Chicago era bem diferente; não tinha espaço, vista ou closet, mas havia arejamento. Uma sacada, na qual fiquei muito feliz de estar presente naquela casa.

Abri a porta de vidro da sacada e apanhei um dos “trecos” que atrapalharam meu relaxamento. Eram pedrinhas pequenas, bem distinto de algo que animais brigariam para ter e complicado do vento trazer em tantas quantidades — afinal, tinham várias no chão. E na verdade, nem estava ventando.

O que era tudo aquilo?

Caminhei um pouco receosa, em meu pijama composto por short e blusinha de alcinhas, e quando cheguei ao pé da sacada levei um dos maiores sustos de toda a minha vida.

No asfalto — minha sacada dava para a rua — tinha muitos e muitos bolinhos desenhados de maneira um pouco distorcida em várias cores e tamanhos e um “ME PERDOA, LUCY?” escrito com cores chamativas, com o desenho de um garoto de cabelos rosas espetados com uma carinha triste, chorando como se implorasse pelo perdão da tal Lucy. Sinceramente, não consegui não rir com aquilo.

Era muito irreal.

— Não ria. Levou um tempo para fazer tudo isso.

Quase dei um grito ao ver Natsu parado ao meu lado com um buquê de camélias brancas em mãos, vestindo uma calça jeans suja de poeira, a blusa polo verde musgo um pouquinho amassada e os cabelos rosas espetados.

Tive que me segurar no parapeito para não me desequilibrar com tamanha beleza.

Puxei mais ar em meus pulmões e disse:

— O que você pensa que está fazendo, Natsu? — ofeguei.

Ele sorriu.

Não, não era o sorriso torto.

Mas era lindo mesmo assim.

— Tentando ser menos idiota. — Passou a mão pelos cabelos, num gesto claro de nervosismo — Consegui? — perguntou, estendendo as camélias.

Peguei o buquê com as mãos trêmulas.

— Está no caminho certo — respondi, cheirando as flores.

Ele deu um suspiro de alívio, supus.

— Eu... Olha... Veja bem... — bufou, nervoso e eu dei uma risadinha — Desculpe. A Lisanna... — Arqueei as sobrancelhas, esperando — Você sabe que não tínhamos, nem temos, alguma coisa. Eu realmente quis te fazer ciúmes. Não quis entender o seu lado e agi como um babaca para aliviar meu ego — suspirou, parecendo arrependido — Eu não chamo muitas pessoas para saírem comigo, mas todas que já chamei não hesitaram um instante. E... Eu pensei que seria a mesma coisa com você.

Franzi o cenho, mas não o interrompi.

— Foi estúpido pensar que seria o tipo de pessoa que cede aos encantos de um Dragneel. — Dei uma risada, então ele sorriu — Eu não quero ser mais um que errou com você, Lucy. Quero ser um dos únicos que conseguiu acertar. — Estreitou seu olhar enquanto pegou minhas mãos e me olhou cauteloso — Eu quero ajudar você. E eu errei, é fato — disse, mostrando o sorriso torto em seguida. Segurei a respiração —, mas me deixe continuar com você. Me deixe merecer a sua confiança novamente. É única coisa que eu te peço agora.

Não consegui responder. Eu estava completamente atônita.

Quando foi a última vez que alguém quis tanto o meu perdão?

— Podemos procurar outro bandido para perseguir ou você pode assaltar minha carteira no Cheescake Factory de novo, não tem importância. Podemos fazer o que você quiser. É só me dizer — terminou em um tom nervoso e afobado.

Dei um sorriso e as lágrimas inundaram meus olhos.

Eita, amiga, chega de chorar, acha não?

Natsu, ao ver minhas lágrimas, desesperou de vez.

— Lucy? Oh, man!Não era para você chorar! Olha, foi alguma coisa que eu disse? Porque... — Não o deixei terminar e interrompi suas palavras atropeladas com um abraço.As pobres coitadas das camélias caindo no chão.

— Obrigada — falei, apertando mais meus braços em volta do seu pescoço — Obrigada, Natsu.

Notei que ele relaxara.

— Você me perdoa? — questionou, seus braços rodeando meu corpo como uma jaula. Uma jaula bem aconchegante.

Afrouxei meus braços e olhei em seus olhos.

— É claro que sim — Sorri —, é claro que sim.

Ele deu o meu sorriso torto e beijou minha testa; eu beijei sua bochecha.

Então, percebi que ambos queríamos beijar uma coisa a mais.

Miramos um os olhos do outro, dizendo, silenciosamente, toda a sinceridade de Natsu, todo o seu nervosismo, toda a sua culpa e toda a sua alegria em me ver bem e feliz com ele.

Diziam a vontade de beijar meus lábios, também.

Minha respiração tornou-se acelerada e fitei sua boca com minha vontade latente transparecendo. E, pela forma que seus braços apertaram ainda mais em minha cintura e como seus olhos brilharam olhando para minha boca, eu soube.

Natsu me beijaria.

E eu queria aquilo mais do que qualquer outra coisa na vida.

Acho que ele percebera a aceitação em meus olhos, afinal, antes que eu pudesse ver, seus lábios encostaram nos meus.

Ah, a perfeição.

Era lento. Diferente do que ele fizera com Lisanna; uma rapidez repentina e forçada. Natsu saboreava aquele gesto singelo. Conduzia meus lábios para seguirem o rumo dos seus, mas deixava claro que poderia ser no meu ritmo caso precisasse. Tudo poderia estar em minhas mãos, em minha escolha.

O ritmo começou a acelerar. Beijávamos com rapidez e cuidado em medidas semelhantes. Ele reverenciava meus lábios da mesma forma que eu reverenciava os dele. Era uma troca justa e extremamente deliciosa. Minhas mãos subiram para seus cabelos e puxaram alguns fios róseos com força. Natsu deu um grunhido e apertou mais minha cintura, aprofundando seus lábios nos meus com mais força.

Era, na simplicidade da palavra, maravilhoso.

Ficamos alguns segundos ali, ambos aprofundando o beijo, quando me dei com falta de ar e desvencilhei nossas bocas, ofegante e com um sorriso que não saía de meus lábios.

Natsu não estava muito diferente.

— Amigos? — ofegou.

Assenti inebriada, tarde demais me dando conta do significado da pergunta.

Um desapontamento repentino tomou conta de mim. Eu sabia que ele estava fazendo aquilo porque pensava que minha sanidade não aguentaria algo mais. O problema era que eu queria algo mais! Muito, muito mais!

Por que garotos conseguiam ser tão complicados?!

Mate!Nós não nos beijamos? Uma troca de salivas bem íntima e gostosa? Eu não havia correspondido? Ele sofria de alguma demência?

— A-Amigos — assenti, à contragosto.

Ele sorriu e tirou seus braços do meu corpo, tomando uma distância saudável.

— Cheescake ou bolo de fubá da sua mãe? — perguntou, dando meu sorriso torto.

Juro, eu estava irritada.

Mas, agora seria minha vez de tomar as rédeas de nosso relacionamento, certo?Ele falou aquilo de propósito.

Oh orgulho, quando você deixará de existir entre nós, queridinho?

— Cheescake. Prepare a carteira, eu vou te roubar — respondi, dando um sorriso irônico

— Já está preparada — disse —, vamos?

— Eu preciso me vestir ainda, Natsu! — falei, com as mãos na cintura.

Ele deu uma olhada nada sutil em meu corpo e abriu um sorriso largo.

— Você está boazinha. Já podemos ir.

“Boazinha”, é?

— Então você não sofrerá nenhum um pouco se eu quiser ficar boa de verdade, hum?

Ele revirou os olhos.

— Cinco minutos.

— Quinze. Espere sentado — respondi, abrindo a porta da sacada e entrando em meu quarto.

Ele bateu no vidro.

— Dez! E não se fala mais nisso!

Fiz um sinal de positivo com o dedo e fechei a cortina.

Seriam vinte minutos e nenhuma discussão.

N&L

— Como ele consegue ficar falando de mim se tem até mais do que eu? — questionou Gajeel, com uma carranca enfeitando seu rosto em uma irritação bem explícita.

Estávamos todos na casa de Natsu como convidados de honra. Bem, eu era a convidada. Gray, Jellal e Gajeel iam quase todo fim de semana para lá — afinal, aquele lugar era tão grande quanto um castelo. Dava para fazer de tudo — e Levy, Erza e Juvia iam quando os meninos deixavam claro que as partidas de tudo que faziam demorariam menos de duas horas.

Elas sempre se arrependiam, no entanto.

Gajeel e Levy, pela vigésima quinta vez na semana, estavam de bem naquele dia. Levy reclamava que ele não estava dando-lhe a atenção que merecia ultimamente, então ele logo fez questão de acalentar o coração carente da namorada sempre trazendo comida, abraços e beijos grátis e a livre companhia dele sempre que possível.

Erza e Jellal, bem, não tem o que dizer. Ambos eram muito serenos e amigáveis — okay, Jellal era sereno. Erza conseguia ser... disciplinada —, e nunca tinham problemas comuns de namorados. Pelo que Erza me contara, eles estavam embarcados naquele namoro há cinco anos desde os onze anos de idade. Um pouco esquisito, admito, afinal quem namora aos onze anos? Porém, qualquer um poderia ver o quão apaixonados eram um pelo o outro, independentemente do tempo.

Era tão bom ver romances que deram certo.

Gray e Juvia, em contrapartida, viviam em um relacionamento estranho. Juvia me contou que ela sempre foi apaixonada pelo “senhor Gray” desde que era uma criança de sete anos — ela, Natsu e Gray eram os amigos de mais longa data que havia ali —, mas nunca obtivera sucesso, afinal, Gray a via como uma irmãzinha chata e não lhe dava muita atenção, sempre ficando com outras amiguinhas.

Já sabem, não é? Leiam essa última palavra com uma dose generosa de ironia.

E eu e Natsu? Bem, passaram-se seis dias após toda aquela loucura de sentimentos em fúria. Natsu estava empenhado em ser apenas meu amigo e eu estava empenhada em fazê-lo notar que não queria apenas isso. Uma parte de mim acredita que ele já sabia — muito, muito provável — mas, independente de minhas teorias, ele queria que eu largasse meu orgulho para dizer exatamente o que eu esperava de nós dois.

Nós.

Essa palavra é bem bonita, não concordam?

— Deve ser porque ele é o mais rico entre nós e — Levy enfatizou o “e”, olhando para o namorado com ironia — trabalha. Calma, querido. Quando você começar a fazer parte desse grupo tudo dará certo.

Ele olhou para ela com uma careta.

Gajeel, eu, Levy e Juvia estávamos na sala de jogos dos Dragneel’s. Como tudo naquele lugar, era grande e intimidante. A televisão — se é que aquilo poderia ser chamado de televisão — era maior do que tudo que já vi em meus dezesseis anos de existência e havia uma coleção bem clara de jogos nas muitas e muitas prateleiras de vidro. Deveriam ter mais jogos ali do que em qualquer loja daquela região, acredito eu.

Gajeel, já acostumado com o luxo de seu amigo, reparava nos videogames com raiva. Era compreensível. Ali estavam todos os Playstation’sjá lançados e todos os Xbox’s existentes. Eu também me irritaria.

Também havia outras coisas como algumas mesas de xadrez, fliperama, sofás e muitos frigobares.

— Esperando por mim, guys? — Gray perguntou ao entrar na sala, sem camisa e de bermuda. Foi até um frigobar e tirou um refrigerante. Pude ouvir um suspiro de Juvia.

Erza e Jellal entraram logo em seguida, ambos com rostos corado e de mãos dadas.

Eu, Levy e Juvia olhamos para ela com um sorriso malicioso e ela corou ainda mais, o que nos fez gargalhar alto em uníssono.

Os meninos olharam para nós três com muitas caretas. A pior fora de Gray que chegou ao meu lado e colocou a mão em minha testa, depois olhou-me e balançou a cabeça.Então gargalhamos mais.

— O que que todo mundo ri nessa casa? — Natsu chegou, também sem camisa e com apenas uma bermuda para disfarçar sua personalidade descarada.

Quase suspirei vergonhosamente.

Ele foi até Gray, pegou seu refrigerante, bebeu um gole e devolveu. Gray o olhou horrorizado.

Dude! É bom ser teu amigo e tal, mas sem boca aonde eu coloco a minha, beleza?! Sei que já passamos por muitas coisas, somos irmãos, cara — disse, colocando a mão livre em seu ombro — Mas respeite a comida, pal. Respeite a comida.

Natsu deu de ombros e arrotou bem em seu rosto.

— Boca longe, mate. Boca longe. — E sorriu.

Tive que segurar o riso.

— Vocês dois são nojentos — comentou Levy.

Erza passou o olhar por Gray e depois por Natsu.

— Sem nojeiras, Dragneel. — Erza disse e depois repetiu, pausadamente — Sem. Nojeiras. Dragneel.

Ele arregalou os olhos e assentiu depressa.

Ela olhou para ele por mais uns segundos e então voltou a sentar ao lado do namorado com um sorriso satisfeito no rosto.

Levy levantou os braços, entediada.

— O que vamos fazer agora? — Gajeel abriu a boca — Nada de videogames! Por favorzinho! — pediu com os olhos semicerrados e a boca formada num bico, fitando Gajeel, que deu um suspiro e beijou seu nariz.

— Faremos algo divertido hoje — respondeu, abraçando sua cintura.

Todos ficamos pensativos, tentando imaginar alguma coisa divertida à altura de uma turma de oito adolescentes com hormônios explosivos.

Então, olhei para Natsu que estampava um sorrisinho no rosto.

Mate? — Ele me olhou e deu uma piscadela.

Come with me, guys— disse, retirando-se.

Todos o seguimos até os fundos da casa. Novamente, era enorme como tudo na mansão. A piscina era gigante, a quadra de basquete era gigante, até as churrasqueiras eram gigantes. Acho que nunca me acostumaria com a riqueza de Natsu.

Nunquinha.

— Okay, por que você nos trouxe aqui, dude? — Gray perguntou, de óculos escuros, tentando tirar Juvia de seu braço.

Natsu, em toda a sua glória, sem camisa e com meu sorriso torto foi até umas das espreguiçadeiras que continha uma caixa azul grande, tirou de lá duas latas de chantilly e jogou uma para Gray.

Tenho certeza de que todos ficaram confusos assim como eu.

Então, Natsu veio até mim, sempre com o sorriso torto, e espirrou com vontade aquela gosminha cremosa em meu rosto.

Uma afronta. Ele sabia que eu odiava chantilly.

Peguei a lata antes que ele pudesse ver — pelo canto do olho, vi Gray espirrando em Juvia o mesmo creme e começou a correr após um grito agudo dela. E, todos entraram no mesmo ritmo, pegando suas latinhas e sendo felizes — e enchi seu rosto lindo de gosma branca.

Sua cara era um tiquinho ameaçadora.

— Heartfilia — disse, curvando-se em redenção. Sorri e notei, atrás das costas de Natsu, Levy derrubando Gajeel e inundando seu corpo de chantilly. Dei uma gargalhada.

— Dragneel. — Curvei-me da mesma forma.

Foi uma péssima ideia.

Só pude ver seu sorriso malicioso antes de ser pega pela barriga e jogada na piscina gigante.

— Natsu! — gritei, mas ele já tinha ido longe, provavelmente para jogar Gray na piscina também.

Foi tudo muito louco. Não existia uma ideia de times ou alguma coisa parecida. Eram todos contra todos. Você deveria estar muito bem equipado com suas latinhas e ter uma boa estratégia para correr, porque se não, acabaria com as roupas encharcadas e muito shampoo para usar no final do dia.

Consegui derrubar Juvia três vezes na piscina. Ela me derrubara duas. Erza foi bem complicado, afinal, ela era um monstro! Só conseguimos ganhá-la em quesito de força física e destreza, uma vez. Uma única vez! Levy, por outro lado, todos a apanhavam muito fácil por ser pequenininha e desatenta.

Os meninos foram os maiores vencedores. Um pouco injusto. Todos eles eram altos e musculosos e com uma mente rápida. Se houvesse alguma regra naquele jogo, votaria para fazer os meninos contra meninos e eles contra Erza. Ela conseguiu sujar todo mundo de chantilly e derrubou, no mínimo, cinco vezes cada um. Incluindo todas as meninas e meninos presentes.

Natsu conseguira me sujar e me derrubar, se não estava enganada, quatro vezes e eu consegui apenas três vezes. Com os outros meninos, não sabia o placar deles — os garotos agiam como animais e várias vezes vimos eles se jogarem por vontade própria na piscina. Jellal, por exemplo, cobriu-se todo de chantilly para abraçar Erza, que deu um soco nele com raiva — porém, enganei Gray duas vezes, conseguindo derrubá-lo e Gajeel, uma. Jellal era muito esperto e sempre me pegava.

Foi um dia muito divertido.

Depois de toda a algazarra, todos tomamos uma ducha que havia perto da piscina e permanecemos juntos, conversando até anoitecer.

Uma trégua, acredito eu. Levy estava sentada no colo de Gajeel, enquanto este dava beijos alternados em seu rosto. Ela falava animadamente com Erza, que mantinha suas mãos firmes nas do namorado e ele com os braços ao redor da sua cintura. Jellal e Gajeel discutiam alguma coisa sem muita importância pelos sorrisos que davam.

Gray permitiu que Juvia — que conversava comigo — agarrasse seu braço com fervor e, bem discretamente, notei que ele algumas vezes chegava mais perto e fechava os olhos, possivelmente cheirando o cabelo dela. O rosto de Juvia parecia que iria se rasgar por conta do tamanho do sorriso que estampava.

— Para você — Natsu disse, entregando-me um suco de tangerina. Dei uma olhada no suco de uva em suas mãos e o olhei.

Franzi o cenho.

— Troca? — perguntei, segurando o riso.

Ele franziu o cenho também, mas depois sorriu.

— Troco — respondeu e pegou meu suco de tangerina, dando-me o seu de uva.

Sorri, alegre.

Ele sentou-se ao meu lado e passou os braços por meus ombros, mas de uma maneira bem informal e despreocupada.

Era muito bom.

Os dois meninos começaram a discutir sobre o melhor colchão para uma boa noite de sono de uma maneira muito séria. Ambos pareciam homens de negócios — mesmo que Natsu fosse um, ele era meio que um aprendiz pelo que me disse — discutindo sobre o futuro de alguma empresa. Era hilário.

A discussão chegou num ponto que Gray se levantou e declarou que acharia a melhor cama do mundo e Natsu iria engolir todas as palavras que ele dissera sobre Gray ser inexperiente no assunto sobre “colchões de esplêndida qualidade”, afinal, ele era bonzinho apenas na parte de “colchões de boa qualidade” mas as de esplêndida não era seu ramo.Eu e Juvia gargalhamos.

E enquanto Juvia tentava acalmar a fera dos “colchões de boa qualidade”, aninhei-me com Natsu esperando que aquele momento nunca acabasse.

Ele tirou seus braços de meus ombros e apertou minha cintura, puxando-me para mais perto, mais perto dele, mais perto de seu coração descompassado, mais perto de tudo que ele me fazia sentir.

Natsu abaixou a cabeça e plantou-a em meu pescoço enquanto eu apertava seus braços em torno de mim e conduzia minha cabeça de encontro a seu peito um pouco mais profundo, mais forte, mais íntimo.

Uma trégua.

Ele beijou minhas bochechas e um sorriso se instalou em nossos lábios.

Ah, um príncipe encantado do cavalo manco.

Notas finais
Hum, hum, hum! E então? Como está? MAIS UMAS COISINHASSSSS: Ainda não tenho a data de postagem para o próximo capítulo, mas prometo que a espera será recompensada! Por isso, não deixem de ser esses leitores maravilhosos e compreensivos que são! Um BEIJÃO e um até mais, pessoal!