On Our Way, I Found You
1 Chapter 1 - Our Way
Notas iniciais
— Intervalo. Podem se retirar.
Essa frase poderia ser interpretada de várias formas.
Para os nerds, era o momento ideal para rever os exercícios de física que deveriam ser entregues para a próxima aula. Para os zen — que eu particularmente prefiro chamar de “normais anormais” — seria a hora de tocar violão no pátio da escola antes que o monitor os tirasse de lá. Os dançarinosiriam para auditório ensaiar aqueles passos impossíveis que só são vistos na televisão.
Tinha também os estranhos. Ninguém os via no intervalo, e, para ser sincera, nem nas aulas de todas as matérias, tirando as de biologia. Não imagino o porquê. Na verdade, nem quero imaginar. Ah! Não posso me esquecer das líderes de torcida, que junto dos jogadores de futebol, iam sentar na mesa central da cantina apenas para rir por motivos desconhecidos. Bem, nem tão desconhecidos assim.
Acabei de perceber que essa escala acadêmica parece muito coisa de filme. Tipo Mean Girls.
Entretanto, podemos dizer que este é o sistema da minha escola atual. E, em que lugar me encaixo nessa classificação?
Sinto dizer que em nenhuma.
Provavelmente, sou do grupo das normais anônimas ou das novatas isoladas. Como preferir.
Sendo assim, sempre tem aquele começo em que falamos sobre a nossa vida.
Meus pais entraram para a lista exorbitante de casais divorciados quando eu tinha oito anos, e até um tempinho atrás eu morava com meu pai antes de notar que não dava para ficar mais tanto tempo separada da Dona Layla. Vulgo, minha mãe.
Definitivamente não.
Então, bem, morar em Chicago era até legal. Não especialmente incrível, na realidade, mas suportável. A parte piegas era ser chamada de “normal anônima” — acho que “novata isolada” era pior — mas com toda certeza era muito melhor ser tachada de tal coisa quando se chega numa escola nova no meio do ano letivo.
Muito mesmo.
Peguei meu suco de laranja de caixinha e fui caminhando tranquilamente entre os corredores, observando tudo, analisando tudo, como sempre fazia desde que chegara à escola. Eu sempre ia para o terraço, que era o único lugar inabitado ali e onde eu ficara na maioria dos intervalos e almoços nas duas semanas de aula que já tinham passado.
Quando cheguei, sentei-me no chão e inspirei o ar limpo. Era um lugar tão lindo, tão...
indescritível. Possuía plantas por todos os lados. Cada uma em algum tipo de vazo ou ornamentos específicos que deixavam o local mais harmonioso e mágico. E era tão colorido. Todas as minhas flores prediletas estavam ali: camélias, rosas, lírios... Eu simplesmente amava aquele lugar.
Era simplesmente impossível não amar.
Fechei os olhos. A brisa quente batia em meu rosto e eu podia sentir os raios solares cobrindo várias partes do meu corpo. Ainda bem que de manhã o sol não fazia tanto efeito, já que sou extremamente branca — não desoxigenada, apenas muito branca —, demasiada luminosidade solar poderia acabar com a minha pele. Às vezes suspeitava de que tinha até alergia ao sol.
Então, eu não poderia me dar o luxo de aderir um câncer de pele ou talvez um ressecamento destrutivo, daqueles que te deixava uma mancha horrorosa pelo corpo. Por isso, olhei as horas, me retirei daquele pequeno espaço único e comecei a andar pelos corredores da Fairy Tail Academy novamente. Ainda faltavam quinze minutos para o intervalo terminar.
— Lucy!
Virei na direção da voz, porém a única imagem que veio foi de um aglomerado de alunos se dirigindo para a biblioteca, à cantina ou aqueles que preferiam o pátio somente para relaxar. Eu, por outro lado, queria encontrar um lugar que não fosse vista.
Talvez seja sua imaginação. Existem várias Lucy’s no mundo, quem dirá na escola, pensei.
Concordando com minha suposição, dei de ombros e continuei caminhando, porém, a voz não queria ser ignorada.
— Lucy! Espera!
Okay, eu não estou louca, constatei.
E — por sorte — não estava, pois quem me chamara era a minha única conhecida, Mirajane Strauss, uma linda albina extremamente gentil. Ela era a única pessoa que me conhecia na escola por causa da minha falta de sociabilidade. Mira era receptiva até quando não queremos, e sendo a capitã das líderes de torcida, super gentil, e muito, muito falante, utilizou todos os modos para me cativar um pouquinho.
E conseguiu.
Um pouquinho.
— Ah, oi Mira, desculpa — falei, com o rosto quente.
Ela deu uma risadinha, ainda dando alguns pulinhos antes de me alcançar.
— Tudo bem, eu já sei que você é um pouco avoada — ela disse, rindo em seguida.
Abri um sorriso.
— Acho que qualquer um perceberia isso.
— Tem razão — fez uma pausa —, quer lanchar?
Ela usava as roupas das líderes de torcida, o que me levava a pensar que treinava até aquele momento, então, provavelmente, queria muito comer alguma coisa. Mesmo assim, minha apatia social me fazia declinar quase que imediatamente. Estava pronta para dar alguma desculpa para justificar minha falta de interesse, quando notei que uma das líderes vinha ao nosso encontro com um sorriso enorme no rosto. Olhei para Mira com uma expressão afetada. Sorrisos e pessoas não eram sinais de coisas boas, não para mim.
— Desculpa... — Ela arqueou uma das sobrancelhas, provavelmente já sabia o que viria a seguir — Tenho que falar com o diretor para ajustar minhas aulas extras, sabe... Caloura... Meio do ano…
Ela fez uma carranca.
— Eu posso ir com você! — disse, completamente emburrada.
— Não! — Não poderia simplesmente transformar uma das meninas mais populares daquele lugar em uma antissocial como eu — Pode ir almoçando com suas amigas, eu já tomei um suco de laranja.
— Mas, Lucy... — Por sorte, naquele momento, chegou a menina que estava vindo em nossa direção e puxou Mira perguntando se ela já comera. Minha deixa.
— Até mais, Mira — Acenei enquanto ela era puxada pela colega que parecia extremamente impaciente e faminta. Logo chegariam mais meninas como ela e isso já me dava vontade de sumir.
Okayyy, admito, não sou uma pessoa especialmente sociável. Não mesmo. Afinal, nunca, em toda a minha vida, eu fora boa em conversar com as pessoas. Jamais. Não por que não tentei, mas sim porque não tenho jeitinho para falar com os outros. E, infelizmente, não consigo mudar isso.
Dei um suspiro e virei em outra direção, talvez fosse melhor eu me relacionar com as paredes de algum lugar — talvez as do banheiro — e me distanciar um pouco da minha nada inédita solidão.
Aquele era o intervalo para o lanche, então muita gente circulava por todos os lados. Afinal, no almoço, a maioria preferia ou ficar na cantina falando sobre nada, ou ir comer fora, e se levar em conta o grupo dos estranhos, não me surpreenderia se eles fizessem, bem... sei lá... Experiências com sapos?
Dei uma risadinha, parando no meio do corredor e observando aquele redemoinho de gente. Tinham pessoas em todos os cantos; nos armários, nas portas dos banheiros — tanto femininos quanto masculinos; talvez tenha rolado alguma briga ou eles estavam apenas se espionando mesmo —, no chão, nas salas... será que no teto também?
Soltei um suspiro pesaroso.
Além desses alunos que ficavam em seus cantinhos particulares, tinha uma multidão — sou exagerada, não nego — barrando a minha passagem para o outro lado. O que me deixava apenas algumas escolhas de locomoção. Era uma decisão difícil. Eu poderia simplesmente virar em outro corredor e seguir para algum lugar, quem sabe achar outro canto solitário. Porém, esse mesmo corredor livre dava direto na cantina e eu realmente não queria encontrar Mira novamente.
Sem chance.
Outra opção era o corredor por onde tinha vindo. Dei um sorriso vitorioso e quando me virei para ir ao lado oposto, vi que…
Havia MUITO mais gente do que do outro lado.
“Você só pode estar de brincadeira.”
Virei-me novamente e analisei os fatos: se eu seguisse reto, daria na biblioteca. Mesmo levando em conta o tanto de alunos que circulavam por ali, sejamos honestos: ninguém me notaria. Afinal, eles estavam mais interessados em suas conversas aleatórias do que em uma garota simples se espremendo entre sua matilha. E também me levaria a um resultado satisfatório.
Já virando à direita, eu teria que passar pela cantina para chegar a algum lugar habitável e definitivamente aquilo estava fora de questão. À esquerda, só tinha os banheiros com os meninos espiando o banheiro feminino, então não.
Sobrava o lado oposto à minha frente, mas, vejamos, parecia brotar todos os tipos de adolescentes naquele lado. Quanto mais minutos passavam, mais um aparecia.
Só havia uma opção.
Tomei fôlego e fui em direção àquele mar de gente, me espremendo até virar gelatina e pedindo diversos — e entrecortados — “licenças” devidamente ignorados. Eu até poderia dizer que foi uma experiência divertida e engraçada, que serviu para uma aprendizagem mega importante como os desenhos infantis insistem em mostrar que devemos ser amigos uns dos outros.
Mas na verdade, me senti numa casa dos horrores.
É, é, já entendi a parte dos exageros.
Todavia, realmentenão foi divertido. Eu fui empurrada tantas vezes que só
consegui me manter de pé porque era presa por outra pessoa. Tenho certeza absoluta que meu tênis deveria estar um tanto marcado de tantas pisadas que levei. Ah, sem falar nos xingamentos que certamente foram pronunciados por várias pessoas.
E foi mais ou menos desse jeito, tendo apenas 1,65 de altura e roupas básicas, era quase impossível ser verdadeiramente notada naquele lugar. Não existiam gentilezas, era mais “Se não sabe se virar, não deveria ter vindo, otária!”.
Depois do meu transtorno social, ajeitei minhas roupas levemente amassadas — amassadas! — e meu cabelo, que deveria estar parecendo um ninho de passarinho, ou algo bem pior. Então, para incrementar minha fachada de isolada e fingir que aquele acontecimento não tinha sido nem um pouco traumatizante, alcancei meu celularno bolso, meus fones e coloquei para tocar alguma música de algum gênero. Meu objetivo era ir para a biblioteca e ficar por lá até o fim do almoço.
Antes disso, me virei para o lado.
E não sei por que raios fiz isso. Não sei se foi por algum tipo de instinto natural, ou porque “tinha que acontecer”, talvez destino, mas enfim…
Só sei que do outro lado, isso, na direção reta que ultrapassei o redemoinho de pessoas assassinas. Na entrada desse mesmo lado, um garoto me observava. Um garoto estranhamente interessante.
Um garoto de cabelos róseos.
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