Omission
1 Capítulo 1 - Corredor
Talvez a verdade sempre tenha estado bem aqui, diante dos meus olhos.
Talvez eu apenas nunca tenha tido noção de como enxergá-la, até agora.
Dentre todas as lembranças que tenho, essa foi apenas uma das que nunca mudou.
A mesma chuva.
O mesmo corredor.
Os mesmos sons...
Mas ainda assim, sempre que sinto o cheiro de tinta branca, tenho a sensação de que existe algo errado com ela.
Como uma fotografia antiga com algo fora do lugar.
Algo pequeno de mais para ser notado à primeira vista, mas impossivel de ignorar depois que é encontrado.
Eu a observei tantas vezes que poderia reproduzí-la de memória.
Cada sombra, cada som, cada mínimo detalhe.
E talvez tenha sido exatamente por isso que deixei de notar suas falhas?
Ou porque era mais fácil acreditar que aquela lembrança estava correta? Mas se esse fosse o caso, porque o cheiro de tinta branca sempre voltava?
Talvez o problema não estivesse na memória?
Fecho os olhos.
Puxo o ar intensamente por minhas narinas, como se por um instante pudesse encontrar o motivo de estar naquele local.
Talvez a resposta estivesse ali? Mas e se eu não a encontrasse ali?
E se talvez estivesse bem escondida entre os inúmeros detalhes que eu já conhecia tão bem?
A chuva continuava caindo.
Pesada.
Constante.
Um lembrete de que aquele local talvez não fosse uma memória afinal?
Batendo contra as janelas com a mesma insistencia de que sempre era capaz de me lembrar....
Do lado de dentro, silêncio.
O corredor permanecia vazio, ao abrir meus olhos. Ou era assim que eu me lembrava deles.
As luzes do local piscavam acima da minha cabeça, lançando sombras rápidas nas paredes.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Porém foi justamente aí que algo mudou. Não a lembrança em sí.
Mas eu.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, pude talvez notar um simples e singelo detalhe que nunca havia me chamado a atenção.
Um som.
Fraco.
Distante.
Quase totalmente abafado pela chuva.
Tentei escutá-lo novamente, dessa vez com os olhos fechados.
E ele veio outra vez.
Um latido.
E então, algo mudou.
A lembrança vacilou, tal qual o bruxulear de uma vela.
Eu não me lembrava de ter um cachorro naquela noite. Pelo menos, achava que não.
Ainda assim, quanto mais tentava ignorar aquele som, mais difícil se tornava fingir que ele não estava ali.
Era como ver uma rachadura em um vidro. Aparentemente inocente e imperceptível quando se olhava rapidamente, mas que depois de uma vez visto o local das rachaduras, era impossível notar outra coisa.
Tentei avançar pelo local, mas era como se algo impedisse meu avanço.
A água agora parecia escorrer pelas janelas, formando sombras e pequenas poças invisíveis ao longo do piso, que caminhavam em direção aos meus pés e me davam a sensação de estarem querendo me prender no local, como todas as outras vezes, mas...
Havia algo de diferente agora. Ou seria mais uma peça da minha imaginação?
Avanço um passo.
Depois outro.
E mais outro.
Cada passo que eu dava, a incerteza aumentava, porém em contra partida, o cheiro de tinta se tornava mais presente.
Sufocante.
Nauseante.
Como se estivesse de fato preso nas paredes e agora estivesse dizendo que eu deveria segí-lo? Mas porque?
Ou seria que estava preso dentro da minha cabeça?
As luzes do corredor piscaram mais uma vez. Por um breve instante, tudo ficou escuro.
Meus olhos ainda tentavam se adaptar a mudança de iluminação de forma naural, porém quando a claridade retornou, é que tive a impressão de ver algo se mover no final do corredor.
Apesar de rápido, eu sabia que não era uma pessoa, ao menos, não aparentemente.
Apenas uma sombra.
Rápida de mais, baixa de mais, mas havia algo nela que me chamou a atenção.
Ela piscava junto com as luzes do corredor.
Minha respiração mudou.
Meu coração parecia mais acelerado...contudo, não era capaz de falar exatamente se aquilo de fato fazia parte da lembrança, ou se aquilo havia sido uma criação da minha mente naquele momento.
Afinal, era isso que as memórias fazem, não? Corrigem detalhes, preenchem pontos vazios e até inventam coisas.
Às vezes me perguntava de fato quais das minhas lembranças eram efetivamente minhas e quais não eram, mas naquele ponto, nada mais fazia sentido, exceto o maldito cheiro de tinta, que mesmo estando distante, ainda ecoava na minha mente e no meu nariz, me deixando com a nítida sensação de que algo estava errado, mas sem me dizer o que estava errado.
E então veio novamente o latido, porém dessa vez mais próximo.
Meu corpo parecia estar ciente de algo sobre aquele momento, porém uma névoa intensa e forte insistia em bloquear minha mente, me fazendo focar apenas em detalhes e coisas que não deveria.
E foi então, que pela primeira vez em toda minha vida, eu senti um medo, mas era um medo diferente.
Era medo de continuar lembrando.
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