Olívia (Desafio Diário)
1 Lá fora
Notas iniciais
Tenho aprendido que às vezes é necessário deixar o meu interior sem algumas respostas. Parece ser infinitamente sedento de conhecimento, de explicações... E isso acaba me isolando numa redoma imaginária onde existe uma profusão de vozes sobrepondo-se às outras, o que acaba retirando toda e qualquer força que poderia haver dentro de mim. Sinto como se estivesse de joelhos no chão sem forças para me reerguer. No entanto, no momento em que me permito externalizar e observar o que se passa ao redor só percebo o silêncio. Ninguém parece se importar com as minhas guerras internas, porque na verdade ninguém se importa mesmo, ninguém tem a capacidade de enxergar o interior dos outros. Dessa forma, ao poucos acabo recuperando minhas forças e quando, no meu subconsciente, fico de pé novamente tento me concentrar um pouco mais no que acontecia ao meu redor e eu acabava não percebendo.
Consigo sentir o vento suave no meu rosto com seu efeito calmante. As árvores balançam, as pessoas seguem seus passos sem parecer se importar com questões existenciais como essas que tanto têm me perturbado. Sempre achei que devíamos responder tais questões ou pelo menos compreender sua origem, mas há alguns anos que tenho percebido os efeitos colaterais que essa atitude acaba gerando em mim. Já era uma pessoa quieta e reclusa antes disso tudo, e agora a minha percepção com os demais tem ficado quase nula. Por isso não sei se julgo ou admiro a alienação dessas pessoas (o que, por si só, já é um julgamento) pois eu ainda sou muito insegura para prosseguir minha vida sem compreender os motivos que a fazem ser como é.
Mas o mundo continua girando.
Minha amiga tem me dito que no dia que me apaixonar vou esquecer estes pensamentos e só vou querer aproveitar a vida ao lado da pessoa que amar. Acho tudo isso uma bobagem, eu jamais deixaria minha intelectualidade em segundo plano, jamais me apagaria por conta de alguém, quem quer que fosse. Não sinto falta do amor ou do que ele poderia me proporcionar. Minha felicidade depende de mim e de mais ninguém, não é mesmo?
Com esse pensamento me dirigi ao café mais próximo, necessitava me tranquilizar, me sentir na minha zona de conforto novamente. Me dirigi ao atendente para pedir um café quando notei que me era familiar. Ele percebeu algo na minha expressão, mas não disse nada. Por fim, acabou levando o café até a minha mesa. Não sabia dizer ao certo de onde o conhecia mas parei de encará-lo para que não acabasse pensando que estivesse afim dele ou algo do tipo. No entanto, por um bom tempo percebi seu olhar sobre mim, que acabava desviando timidamente toda vez que nossos olhares se cruzavam.
Depois de terminar o café me dirigi ao caixa para realizar o pagamento. Foi quando leu meu nome no cartão de crédito.
— Olívia — arregalou os olhos e me olhou em silêncio.
Sorri, envergonhada. Não soube imediatamente o motivo daquela reação, não até ler seu nome no crachá enquanto pegava meu cartão novamente: “G. Ramos”.
De repente o café já não bastava mais para me levar à minha zona de conforto. Não acreditava em tantas coincidências, mas o que mais poderia ser?
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