Olimpo esquecido

6 Um reinado de morte


Notas iniciais
Mas, no resto do mundo, com o passar dos milênios, os Earthman levantavam os primeiros impérios da Terra. Na Índia, na China, no Egito, no Mediterrâneo e na Mesopotâmia erguiam cidades belíssimas. Eles haviam abandonado a era da ignorância e havia muitos agricultores que sabiam tudo sobre lavouras; artesãos que eram gênios da tecelagem, da cerâmica, do bronze, do cobre, do ouro e da prata. E o melhor de tudo era que havia ficado para trás a época dos homens feios e peludos. Na Ilha de Creta, as mulheres eram belíssimas, além de esportistas brilhantes, muito maquiadas, bem vestidas, com penteados cheios de graça. Na Índia, elas vestiam tecidos bordados com fios de ouro, com pedras preciosas, adereços na testa, pintura corporal e xales translúcidos. Na China, o que deslumbrava era a seda que vestia tanto as mulheres quanto os homens, além das cortinas delicadas e os palácios pintados de ouro. Embora a desigualdade social fosse grande, os mais ricos não mediam esforços para realçar a beleza humana.

Nos séculos seguintes, Noé e Amon examinavam as tribos com cuidado para encarnar com suas esposas, preferindo sempre as ilhas de baixa população ou aqueles lugares com tribos muito primitivas, como Nova Zelândia e América, porém pacíficas. E, durante toda uma vida, ensinavam aos homens aquilo que era primordial: às vezes um dialeto mais sofisticado, noções básicas de Astronomia para se orientarem durante a noite com as constelações das estrelas, mas também sobre as mudanças do clima conforme os Solstícios de verão e de inverno e dos Equinócios, quer dizer, tudo aquilo que era necessário aprender, para saber o melhor tempo de semear e de colher.

Noé fazia uma vasectomia nele mesmo depois do segundo filho, mas Ísis e Amon tinham sempre seus dez filhos, que os seguiam aonde quer que eles fossem. Tuth, Anchesenamon e Belisa eram os três maiores, que ajudavam os pais em tudo. Amon e Tuth gostavam de dar saltos, cambalhotas, às vezes ao som de tambores; já, outras, de flautas, ou de instrumentos de som sofisticados, inventados pelos próprios Earthman. Ísis e suas filhas preferiam mexer a cintura, cobertas de flores ou de penas, conforme os lugares da Terra, remexendo as nádegas e enfeitiçando os homens.

Nascer nas Ilhas era também muito aprazível. A mãe Terra os alimentava com generosidade, e, a mata exuberante, com suas cachoeiras altas e suas lagoas cristalinas, era pura magia, era como nascer no paraíso da Terra. Vestiam o mínimo de roupas, e ao entardecer dançavam na praia com a luz das estrelas. Dormiam ao relento, nadavam nas águas mornas ao amanhecer, e trabalhavam apenas semeando para que nunca faltasse o alimento.

Ísis e Amon começavam a se perder dentro do mato assim que os beijos ficavam mais ardentes e a paixão da adolescência aparecia nas suas vidas. O namoro virava vício, como em todas as vidas anteriores, e apenas a chegada dos filhos os separava. Construíam a casa de paus firmes ao redor de uma árvore viva, tampavam-na com folhas de bananeiras ou plantas similares, e se preparavam para receber os filhos. Morriam de velhos, aos cem anos, deixando uma grande descendência a chorar sua partida.

Mas, no resto do mundo, com o passar dos milênios, os Earthman levantavam os primeiros impérios da Terra. Na Índia, na China, no Egito, no Mediterrâneo e na Mesopotâmia erguiam cidades belíssimas. Eles haviam abandonado a era da ignorância e havia muitos agricultores que sabiam tudo sobre lavouras; artesãos que eram gênios da tecelagem, da cerâmica, do bronze, do cobre, do ouro e da prata. E o melhor de tudo era que havia ficado para trás a época dos homens feios e peludos. Na Ilha de Creta, as mulheres eram belíssimas, além de esportistas brilhantes, muito maquiadas, bem vestidas, com penteados cheios de graça. Na Índia, elas vestiam tecidos bordados com fios de ouro, com pedras preciosas, adereços na testa, pintura corporal e xales translúcidos. Na China, o que deslumbrava era a seda que vestia tanto as mulheres quanto os homens, além das cortinas delicadas e os palácios pintados de ouro. Embora a desigualdade social fosse grande, os mais ricos não mediam esforços para realçar a beleza humana.

E foi assim que Noé e Andrômeda nasceram na Mesopotâmia, entre as tribos nômades do deserto; e Amon e Ísis nasceram no Egito, em torno do ano 1.800 a.C.

Amon recebeu o nome de Amenofis IV, pois ele nasceu num palácio onde o brilho do ouro e o chão de pedras azuis – que parecia um lago que brilhava – cegavam os olhos. O melhor de tudo era que Ísis deambulava por perto, pois ela também nascera nobre, filha de um conselheiro do Faraó. E ela foi nomeada como Nefertite. Brincaram desde pequenos nos jardins do palácio, correram pelos corredores caindo, deslizando, e nos becos que encontravam, longe dos olhares das escravas, beijavam-se na boca com doçura. No Nilo, mergulhavam para as profundezas, acariciavam-se, e, dessa forma, foram felizes a cada dia vivido.

O casamento foi apoteótico, digno do Faraó que um dia governaria o reino. Ísis foi vestida com roupas douradas, brincos gigantes pendurados nas orelhas; seus olhos foram maquiados com linha preta escura e na boca lhe foi colocado um batom vermelho vivo. Quando ficou em frente a Amon, ele ficou pasmo, pois em nenhuma encarnação ela estivera tão linda, sequer nas muitas existências em Olímpia, já que a maquiagem das mulheres de Angor era apenas um perfume afrodisíaco atrás das orelhas.

A lua de mel aconteceu num barco que subia o rio Nilo, ao compasso de músicas entoadas em homenagem a eles. Ísis estendeu-se de costas numa cama macia, toda nua, para que Amon apreciasse sua beleza perfeita. Amon beijou-a em cada parte do corpo, com adoração, examinando cada canto com curiosidade, afinal eles eram apenas dois adolescentes que nada sabiam sobre sexo. Somente um escravo o havia instruído sobre as artes de amar, numa conversa secreta, enquanto caminhavam pelos jardins. Mas Ísis também havia sido aconselhada pelas suas escravas na noite anterior. Após Amon iniciar a sedução, ela acariciou-o com doçura, deixando-se possuir quantas vezes ele desejou, nessa noite sem fim.

E a primeira noite dessa lua de mel ficou famosa no reino, fazendo com que muitos homens tentassem superar o recorde do Faraó, que dormiu só ao raiar do Sol. Era o que os escravos, que espionavam entre cortinas, juravam para todo mundo. Falavam que, ao amanhecer, eles faziam xixi nas cumbucas, e depois dormiam esgotados.

Sequer os filhos os separaram nessa vida, pois no palácio havia amas de leite prontas para alimentar as crianças. Em nenhuma vida primitiva eles namoraram tanto, e por tanto tempo. Ísis ficava prenhe assim que seus dias de resguardo de maternidade terminavam e o sangramento desaparecia. Ela via os filhos desfilarem nos braços das amas de leite e das escravas, que os cuidavam com zelo, poucas vezes ao dia. Enquanto a barriga crescia com mais um filho dentro, o chamego não tinha fim, como duas pessoas que só eram felizes uma junto da outra.

Certa vez, uma escrava deu-lhe um conselho sábio: podia-se evitar a gravidez e ensinou-lhe uma tabela, para ela contar os dias férteis, nos quais deveria se abster do namoro. Dessa forma, tiveram seis filhos, de nove em nove meses, e lua de mel eterna.

Mas a maturidade chegou na vida deles, e Amon teve que aprender com seu pai como governar o reino. Desta vez, então, uma vez ao dia, Amon sentava no trono vestido de Faraó, e Ísis sentava ao lado, de mãos dadas. Os filhos os rodeavam, estendidos em sofás deliciosos, comendo frutas, ou sentados por perto para ouvir tudo. Principalmente Tuth, o filho mais velho, que algum dia herdaria o trono do pai. Depois recebiam os súditos, com as reclamações do dia a dia. Condenavam à morte os criminosos, decidiam quantas chibatadas receberiam os ladrões, e as brigas entre vizinhos resolviam com sabedoria. Terminada a audiência, comiam um banquete, conversavam com os filhos, e se retiravam cedo aos aposentos.

E os anos foram se passando. Após a morte de seu pai, Amon teve que assumir definitivamente a coroa e dedicar mais tempo aos problemas do reino.

Todos os dias Amon dava atendimento aos construtores e aos escribas, recepcionava os visitantes de outros reinos, e recebia o povo com suas lamúrias eternas. Mas tudo isso ele fazia com felicidade. O que o deixava irritado ao extremo era ter que dar atenção aos sacerdotes do templo. Eles exigiam tributos para os “Deuses”, os quais não passavam de esculturas de madeira com rostos de bichos. A estátua de Toth, então, era hilariante, digna dele, seu rival, em cada dia vivido em Olímpia. Em todas aquelas encarnações ele tentava reconquistar Ísis, e Amon havia lhe dado algumas surras por causa disso. E agora ele olhava para esses deuses e se perguntava como é que iria dar fim a tamanha bobice.

Porém, havia algo mais sinistro ainda: os povos nômades e famintos do deserto, que estavam sempre cobiçando a fartura do Egito. Amon lhes enviava caravanas com grãos e lhes dava acesso ao Nilo, porque um povo que comia não atacava. Mesmo assim, Amon formou um exército bem preparado para possíveis ataques. Ele e seus filhos praticavam tiro com balestra, tiro ao alvo com arco e flecha, e treinavam de tudo, correndo pelas areias em uma biga... Faziam pontaria em bonecos de pano, em competições periódicas, e todo o exército os seguia, como a deuses vivos. Tuth era tão bom guerreiro que, com dezesseis anos, já era venerado e adorado pelos seus soldados e pelo povo.

Outra empreitada, que Ísis realizou com seus filhos, foi entre os escravos esqueléticos que morriam na juventude. Todos os dias percorriam os casebres imundos, repartindo pão, frutas, cerveja – essa era a comida básica daquele tempo. O pão era tão nutritivo, por causa das farinhas bem tratadas, que os egípcios o comiam junto a uma cerveja que os protegia contra doenças e lhes alegrava o espírito. Ísis também lhes levava cabritos, para que nunca faltasse o leite para o queijo e o creme; e as frutas secas, muito abundantes no reino.

Quando Tuth ficou tão preparado quanto Amon para governar o reino, Amon sentou-o no trono, e mudou-se com Ísis para a margem direita do Nilo, entre Mênfis e Tebas. E tentando lembrar-se dos aquedutos da Índia, desenhou uma cidade avançada, com sistema de esgotos, ruas de pedras miúdas, jardins nas grandes avenidas, estábulos para os cavalos de seu exército, palácios para a nobreza, mas não permitiu que os sacerdotes trouxessem suas imagens ridículas para enfeitar o novo templo. Dentro desse templo, a única coisa que havia era a imagem do Sol, único rei do céu, que nutria as lavouras com seus raios e, dessa maneira, os homens nunca passavam fome.

No entanto, Ísis e Amon fizeram muito mais do que levantar uma cidade de sonhos: escreveram de punho e letra uma nova filosofia para o futuro, que mostrasse a verdade sobre os mistérios da vida e da morte. A reencarnação, com seus ciclos de vida encarnada e da vida depois da morte, como espíritos, foi descrita nos mínimos detalhes, inclusive mostrando de quantos em quantos anos isso acontecia. Também deixaram escrito que o universo era dividido em duas energias – metade positiva e metade negativa –, e que tudo o que existia era feminino ou masculino, por causa dessa dualidade cósmica. Acrescentaram conhecimento sobre eletricidade, magnetismo, astrologia, medicina, biologia, zoologia, matemática, tudo que podia iluminar a mente dos homens da Terra.

Quando terminaram tudo, escolheram os escribas mais fiéis e de confiança para que guardassem esses escritos em lugares “secretos”. E lhes falaram que só poderiam compartilhar essa nova informação com mentes brilhantes; e nunca permitir que o conhecimento caísse em mãos erradas. Amon era firme em dizer que um delinquente culto era mais ameaçador que um criminoso ignorante. Não existia nada mais perigoso que o saber em mãos de “gênios do mal”. Era dessa maneira que outros mundos haviam sido destruídos, por culpa de gênios que inventaram armas para destruir a vida, não só dos homens, mas também de toda a fauna e da flora.

Mas, no Egito, as paredes tinham olhos e ouvidos. Embora os escritos nunca foram encontrados pelos inimigos de Amón, os escribas morreram misteriosamente, enquanto a revolução tomava conta nas ruas de Tebas, do dia para a noite.

A primeira tragédia que aconteceu foi a morte dos filhos menores de Ísis e Amon. Tuth conseguiu fugir na calada na noite com as irmãs, Anchesenamon e Belisa, e os três chegaram na cidade de Amarna para ajudar o pai a enfrentar os rebeldes, dirigidos pelos sacerdotes, que odiavam Amon com ardor.

Ísis vestiu Anchesenamon, Belisa e Tuth com roupas de escravos, e Amon lhes falou com seriedade e firmeza:

— O futuro do Egito está com vocês, pois sua mãe e eu vamos ser mortos. Coloquem isso na cabeça. E quero coragem, nada de lágrimas! Tuth deverá casar com Anchesenamon, e nomeá-la rainha do Egito; e Belisa, bem, filha, sua salvação será ser concubina do rei. Nesta vida não conhecerão a felicidade do sexo, do casamento de amor, nem deixarão filhos para descendência, mas essa é a única maneira de sobreviverem a este tempo insano.

Depois os cinco se abraçaram e choraram mesmo. Ísis os viu partir com o coração partido, porquanto ser herói naquela terra de ignorantes era assim mesmo. Depois se vestiu de soldado, subiu numa carruagem ao lado de Amon, e correram a se colocar à frente de seus soldados fiéis ao Egito e a eles mesmos.

Mas Amon foi morto assim que foi descoberto. Uma flecha envenenada cravou no seu braço, e Ísis o viu cair ao chão, no meio da batalha. Ela desviou a carruagem e, chegando na cidade, estendeu-o na cama para vê-lo morrer entre estertores. Deixou as lágrimas para depois, e voltou para o combate na carruagem de Osíris, seu general chefe. E um a um foram ganhando essa batalha, mas perderam a cidade, a qual foi saqueada sem dó e incendiada. O templo ficou em chamas, e nas avenidas as pessoas corriam fugindo do horror.

No fim do dia, tudo eram lamúrias em Amarna, e os soldados se perguntavam tristemente sobre o que fariam, pois Tebas estava em mãos dos inimigos. Ísis, então, pediu Osíris em casamento. Ela ainda era a rainha por direito, e podiam entrar em Tebas para desafiar o invasor e recobrar o trono. Colocaram o corpo de Amon numa carroça dourada e se encaminharam para Tebas, onde chegaram ao amanhecer. Atrás deles, todas as pessoas da nobreza: os escravos, o exército e o que restara, como carroças com suprimentos, cerâmicas, mobílias, tudo que o povo conseguiu resgatar.

Na entrada de Tebas, o povo os recebeu chorando, pois nunca houve nem haveria um Faraó mais amado que Amon. Ísis cruzou as avenidas sem derramar lágrimas, e quando viu seus inimigos mandou prendê-los e matá-los no mesmo dia. Depois levou o corpo de Amon para ser preparado para a mumificação.

Porém Ísis não sobreviveu muito tempo como rainha. Osíris caiu envenenado no meio da rua, com um dardo no braço, lançado de um beco escuro. Ísis, ao seu lado nesse momento, chorou desesperada, pois ela não sabia mais como iria proteger seus filhos. Teria que dar o trono para Tuth e, quem sabe, o matariam do mesmo jeito.

E ela nunca soube desse futuro, pois uma cobra a mordeu no meio da noite, causando sua morte em pouco minutos.

Tuth assumiu o trono com glórias, depois de matar todos os que conspiraram contra seus pais. Casou com sua irmã, Anchesenamon, e ela foi coroada rainha do Egito. Escolheu um marido para Belisa, um escriba fiel, que lhe jurou que a protegeria com a vida. Entretanto, para isso, teve que fazer sacrifícios. Entrou no templo de Tebas para homenagear os “Deuses”, curvar-se diante deles, e devolver o poder religioso aos sacerdotes.

No entanto, Tuth não foi assassinado por ninguém. Seus inimigos das fronteiras acharam que o Egito estava enfraquecido e o invadiu num dia qualquer. Ele subiu em seu carro, à frente de seu exército, e avançou para defender as fronteiras. Foi gravemente ferido em combate e morreu com infecção generalizada dias depois.

Anchesenamon, então, para manter o poder do reino, casou com um sacerdote. Venceu a guerra contra os selvagens, protegeu o Egito de todos os inimigos que o tentaram derrubar, e, um dia, morreu com honras e glórias. Não deixou descendentes, pois Ísis lhe havia ensinado a evitar filhos nos dias férteis, contando os dias com uma tabela mágica. Já, Belisa, teve cinco filhos, tão lindos quanto Ísis e Amon.

Notas finais
Na entrada de Tebas, o povo os recebeu chorando, pois nunca houve nem haveria um Faraó mais amado que Amon. Ísis cruzou as avenidas sem derramar lágrimas, e quando viu seus inimigos mandou prendê-los e matá-los no mesmo dia. Depois levou o corpo de Amon para ser preparado para a mumificação. Porém Ísis não sobreviveu muito tempo como rainha. Osíris caiu envenenado no meio da rua, com um dardo no braço, lançado de um beco escuro. Ísis, ao seu lado nesse momento, chorou desesperada, pois ela não sabia mais como iria proteger seus filhos. Teria que dar o trono para Tuth e, quem sabe, o matariam do mesmo jeito.