Olimpo esquecido

11 O confronto final


Notas iniciais
Depois que o Renascimento explodiu na Europa, e que Martin Lutero dividiu a igreja romana, os anjos deram início a um rodízio minucioso, colocando Ísis, Amon e Tuth nas encarnações mais importantes da Terra. Havia vezes que Ísis e Amon nasciam como primos, com Tuth como o primeiro filho, para assumir um reinado, ou nasciam em separado para provocar revoluções.

Depois que o Renascimento explodiu na Europa, e que Martin Lutero dividiu a igreja romana, os anjos deram início a um rodízio minucioso, colocando Ísis, Amon e Tuth nas encarnações mais importantes da Terra. Havia vezes que Ísis e Amon nasciam como primos, com Tuth como o primeiro filho, para assumir um reinado, ou nasciam em separado para provocar revoluções. Defenderam povos na África, na América, sempre a pedido dos anjos. Também Armand, Osíris e todos os gênios da Renascença se colocaram a serviço dos anjos, enquanto o mundo evoluía nas ciências, na tecnologia... Mas, o inimigo sempre mudava de roupa, mudava de rosto, organizando guerras terríveis, encarnação após encarnação.

Quando o século XX foi chegando, com duas guerras mundiais no horizonte, os anjos enlouqueceram. Chamaram aos gritos a todos os amigos de Amon, a todos os seus filhos e netos, pois entender o pensamento dos homens era com eles. Os anjos não tinham nenhum pensamento brilhante desta vez.

E, para tentar adivinhar de que maneira iriam ganhar uma guerra insana contra um inimigo poderoso, discutiram sobre tudo, num encontro na Lua, com todos sentados no chão, num círculo gigante. Pouco a pouco, as tarefas de cada um começaram a ser delineadas. Os mais experientes como Tuth, Martin Lutero, Osíris e Armand assumiriam como governantes de nações importantes para dar apoio e entrar nessas guerras no momento certo. Depois, foram anotando os nomes dos futuros generais de exércitos; os nomes dos cientistas que ajudariam na construção de armas para defesa, tanto no ar como na terra e no mar; os guerreiros que formariam as resistências, as guerrilhas, pois seria metade do mundo lutando contra a outra metade.

Contudo, o maior problema era escolher onde é que encarnariam Ísis e Amon, pois os dois seriam procurados desde bebezinhos. Amon seria menino prodígio; Ísis nasceria uma vidente paranormal; quer dizer, os dois delatariam a si mesmos e seriam mortos antes dos dez anos.

Anchesenamon e Belisa, guerreiras como Tuth, opinavam que os pais Ísis e Amon não necessitavam encarnar desta vez, pois os três davam conta do recado. Osíris opinava a mesma coisa: nascer para morrer com dez anos era desnecessário. Mas Armand era de outra opinião, e falou com firmeza:

— É claro que eles necessitam encarnar! Ganhar as duas guerras é uma coisa, mas o que vem depois será ainda pior! Eles vão inventar a bomba, gente! Estaremos frente a frente com o extermínio da raça humana. Sugiro que os dois encarnem no fim da segunda guerra, quando nosso inimigo vai estar descuidado, ou morto, e desta feita eles poderão nascer e sobreviver em segurança. Ísis repete a saga da “Guerra dos cem anos”, guiada pela voz dos anjos, e Amon dá o golpe final.

Ísis completou:

— É lógico que vamos entrar nessa briga! Concordo em encarnarmos bem no fim das guerras. Eu vou nascer num lugar isolado, paupérrima, num país de misérias, e entro em cena na velhice. Meu amor faz o mesmo no outro lado do mundo. Pobre não chama a atenção de ninguém. Os malfeitores vão procurar pelo casal, e nunca vão imaginar que estaremos longe um do outro.

Armand completou a ideia:

— O machismo continua forte lá embaixo, então Ísis vai passar despercebida. Malvestida, roupa suja e rasgada, vai ser bom para esconder sua formosura. Mas Amon, tu serás procurado que nem rato no mundo todo. Melhor seria que encarnasses uns vinte anos depois de tua mulher. Podes nascer rico, mas fica longe da política, pois ninguém pode adivinhar quem és tu. Acho que mais uma vez vais ter que ser uma “Sombra”...

Todos riram com gosto desta vez. Até os anjos concordavam que ele fosse o homem invisível, o mais longe possível de Ísis. Mas Amon falou, sem parar de rir:

— Tá bom... encarno depois de uns vinte anos, mas quero que nos juntem na maturidade. Eu poderia vir a ser um gigolô, apaixonado por uma velha quente...

Enquanto as risadas tomavam conta, os anjos começaram a abraçar os que partiam. Um a um, os filhos e netos de Ísis foram abraçando-a e deixando Amon com o rosto cheio de lágrimas. Seus filhos eram valentes, destemidos, e iam viver uma encarnação infernal, pois a maldade não teria limites desta vez. Os Earthman seriam tão cruéis, que as chacinas ficariam escritas na história como uma página vermelha e vergonhosa. Por incrível que fosse, ninguém acreditava ainda em reencarnação. Os ricos eram impiedosos com os pobres, e odiavam gente negra. África era o lugar mais miserável da Terra e, sem dúvida, seria invadida, esmagada, como sempre fora. Sem dúvida, esta seria a pior de todas as vidas vividas e morridas.

Quando finalmente ficaram a sós, Ísis e Amon demoraram para acalmar as emoções, pois estas seriam suas últimas vidas encarnadas no planeta. Se todos eles fracassassem, a Terra iria entrar numa nova “Era de Gelo”; os anjos já tinham tudo decidido. Esfriariam as águas do mar, lançariam furacões violentos arrasando tudo, e nevaria durante tanto tempo, que os homens congelariam como picolés. E, na Constelação de Orion, já havia uma nova espécie de “animais pensantes”: eram gambás evoluindo, caminhando em duas pernas, dando os primeiros grunhidos e esperando pelos desterrados do planeta Terra.

Amon abraçou sua parceira de guerra e beijou-a emocionado. Nunca se arrependeram da vida que um dia decidiram viver juntos. Haviam lutado um bom combate. Haviam sido heróis de uma boa causa, e só haviam brigado por causa de ciúmes, pelo excesso de paixão um pelo outro... E Ísis perguntou-lhe:

— Deseja mesmo me encontrar, amor? Acho que vou ter que fazer cinco cirurgias plásticas para que te apaixones por mim.... e tem mais, se me desprezares, eu vou te matar!... Amor, acho que desta vez a ciumenta vou ser eu...

— Eu vou te amar velha, pobre, como for... nada vai impedir nossas noites de luxúria. Sabia que com a idade tu ficas mais tarada?

E Ísis não falou mais nada. Seu amado beijou-a com doçura, que só ele possuía, e derreteu-se inteira, tomada pela paixão. Lá no fundo, Amon ainda sentia um pouco de ciúmes de Osíris e Armand, que nunca deixaram de amá-la. Não olhavam para ela, pois sabiam que Ísis só tinha olhos para Amon, mas ciúme era assim mesmo. Ser galhudo, naquela terra, havia sido, afinal, seu maior pesadelo.

Enquanto isso, os anjos faziam apostas mais uma vez. Os amigos de Amon apostavam que ele e Ísis iriam instaurar a paz definitiva na Terra, e que iniciariam uma nova era de conhecimento, de justiça social, enquanto a maioria dos anjos apostava contra eles. Alegavam em coro que os Earthman haviam sido burros durante 3.500.000 anos, e era chegada a hora de ir fazer malvadezas em outro lugar.

Mas, numa coisa, todos concordavam: ao primeiro ataque nuclear, com ameaça de extermínio de toda a vida na Terra, eles mesmos matariam a todos. Isso estava mais do que decidido. Outro planeta como Marte, nesse lugar da Galáxia, estava fora de questão. O paraíso da Terra, com suas florestas úmidas e quentes, estava em primeiro lugar; a vida selvagem, em segundo lugar; o clima, em terceiro; a saúde das águas, em quarto; e os homens estavam no último patamar de intenções de socorro.

E, depois de matar a todos, os Earthman não seriam mais os Earthman.

Seriam os Orionman, ou alguma outra coisa parecida...

Fim

Notas finais
Quando finalmente ficaram a sós, Ísis e Amon demoraram para acalmar as emoções, pois estas seriam suas últimas vidas encarnadas no planeta. Se todos eles fracassassem, a Terra iria entrar numa nova “Era de Gelo”; os anjos já tinham tudo decidido. Esfriariam as águas do mar, lançariam furacões violentos arrasando tudo, e nevaria durante tanto tempo, que os homens congelariam como picolés. E, na Constelação de Orion, já havia uma nova espécie de “animais pensantes”: eram gambás evoluindo, caminhando em duas pernas, dando os primeiros grunhidos e esperando pelos desterrados do planeta Terra.
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