Notas iniciais
Enjoy!

“Exausto” é a palavra certa para me definir nesse momento. É sexta-feira, terminei o expediente no centro e não poderia estar mais feliz com o desenrolar dessa primeira semana com as crianças.. Depois de tudo pelo que eles já passaram nessa vida, eu esperava um ambiente hostil e pouco receptivo, mas, eles foram incríveis e me receberam com todo o amor. A pureza das crianças me encanta todos os dias e isso só me dá mais certeza de que estou no lugar certo.

Porém, estou cansado. Muito mais do que o normal.

— Claude! – Ouço a voz de Janine.

— Olá querida!

— Como foi a aula hoje?

— Foi incrível, como todas as outras. As crianças são maravilhosas! Muito obrigada, Janine, pela oportunidade, serei eternamente grato.

— Ah querido, deixe disso. Você é apenas perfeito para o cargo, não teria como escolher outra pessoa. Bom, estou indo para casa. Até segunda-feira.

— Tchau, até segunda querida.

Depois que ela saiu da sala, fui tomado por uma vontade inexplicável de tocar piano novamente e dessa vez, toco uma canção um pouco mais feliz do que da última vez. Para os dias tristes, fazer uso de pequenas doses de alegria, foi o que meu terapeuta receitou.

***

Acordo no sábado com o coração apertado por motivos bem diferentes, ainda é muito cedo e o sol nem nasceu. Hoje, terei o diagnóstico do que está me causando os problemas de cansaço constante, tontura e dores. Mas, esse diagnóstico eu receberei no hospital em que encontrei aquele homem, no outro dia. Se eu encontra-lo novamente, será que vou conseguir fingir que não estou sentindo nada?

Visto uma camisa de linho preta, calça, pego as chaves do carro e sigo a caminho do hospital com todas essas coisas girando na minha cabeça. Estaciono e desço do carro, reparando em uma moça alta olhando para mim com uma cara estranha, como se estivesse com medo... Uma pessoa branca deve achar “Nossa, ele deve estar com isso da doença na cabeça, achando que todo mundo o olha sabendo que ele tem SIDA”, mas uma pessoa negra vai entender do que eu estou falando.

Dessa vez eu não usei as escadas, a fadiga me mataria antes do 23º andar. Subi de elevador até o setor de patologia e lá encontrei meu médico no consultório 02. Não me dei tempo para procurar o desconhecido das escadas, tampouco ficar pensando nele, afinal, nunca aconteceria nada e eu precisava tira-lo da minha cabeça. Mas, ao entrar no consultório me deparei com uma coisa inesperada: O desconhecido das escadas sentado ao lado do meu médico.

— Olá Claude! Sente-se, por favor. Como está se sentindo?

— Ah.. É.. Olá Dr. Nelson. Eu..

Nem uma frase completa eu estava conseguindo formular, simplesmente não pude tirar os olhos do desconhecido das escadas e Dr. Nelson deve ter percebido.

— Claude, este é o cardiologista Louis Apolline. Ele vai nos ajudar daqui em diante para resolvermos o seu caso, ok?

— Bem, ok. Muito prazer, Sr. Apolline.

— O prazer é meu, Sr. Claude. – A voz dele era melodiosa, como bem me lembrava.

— Mas, porque eu preciso de um cardiologista?

— Claude, depois dos exames que fizemos encontramos uma obstrução em uma das artérias ligadas ao seu coração. Por favor, não precisa ficar assustado, nem se exaltar. O Dr. Louis está aqui para falar um pouco melhor sobre isso. – Dr. Nelson pedindo para eu não me exaltar frente a algo tão inesperado, é a mesma coisa que pedir para parar de respirar.

— Eu estou muito assustado.. Não tenho como negar. Me expliquem, como consertar isso?

Dessa vez, o desconhecido das esca... Louis. Dr. Apolline falou quem falou.

— A artéria está obstruída e não está deixando o coração bombear sangue suficiente, por isso você se sente tão cansado, para resolver precisaremos fazer uma intervenção cirúrgica que irá desobstruí-la. Temos uma data para semana que vem, o que você acha?

— Quero mais detalhes dessa cirurgia. Mas, acho que podemos fazer semana que vem.

Passamos quase uma hora de tempo discutindo os termos da cirurgia, afinal, eu nunca havia passado por algo como isso antes e precisava ter a situação sob o meu controle, para ter um pouco de paz, ou pelo menos algo similar a isso. Ao final, pedi ao desconhecido (eu realmente preciso aprender a parar de chamá-lo assim) para sair da sala e conversei diretamente com o Dr. Nelson. Eu precisava saber se ele havia falado da minha condição para ele e de como isso iria interferir na cirurgia. Ele me assegurou que não seria um problema e que eu ficaria bem.

Nos despedimos e antes de sair da sala, meu coração começou a palpitar por uma simples questão: o Dr. Apolline estaria me esperando do lado de fora da sala ou não?

Abri a porta com expectativa (expectativa essa que eu não deveria ter, ele é seu médico, não seja estúpido, Claude) e ele não estava lá. Apertei o botão para chamar os elevadores e imediatamente um alarme piscou na minha mente, me dizendo que eu precisava ir para as escadas. Ao abrir a porta eu o vi. Encostado na parede, despreocupado, tomando um copo de café e sorrindo como se fosse manhã de natal.

— Olá Sr. Claude. Você gosta de café?

Eu comecei a sorrir com a pergunta e aceitei o segundo copo de café que ele me oferecia, tomando cuidado para nossas mãos não se tocarem. Sentei em um dos degraus da escada e apreciei o gosto amargo do café preto, sem um pingo de coragem de falar qualquer coisa que fosse, mas falei.

— Ah.. Gosto.

Ele sentou ao meu lado e ficamos lá por alguns minutos, tomando nossos cafés e olhando para uma parede cinza com uma placa vermelha onde estava sinalizado “23º ANDAR”. Nenhum dos dois se atrevia a falar qualquer coisa, estávamos assustados, amedrontados, excitados com a situação? Não sei dizer exatamente. Mas eu senti novamente a mesma coisa que senti no outro dia nessas escadas, o ar estalando aos meus ouvidos com pura eletricidade, que emanava de nós dois.

Era demais para ignorar, mas eu precisava. Levantei e disse apenas:

— Até semana que vem, Sr. Apolline. – Ele me olhou com surpresa e frustração. Ai.

— Até semana que vem, Sr. Claude.

Eu desci as escadas correndo, com o coração pulando e a cabeça a mil. Que situação mais estranha foi essa que acabou de me acontecer? Eu nunca me deixei aproximar de alguém assim, o que mudou dessa vez? Eram algumas das dúvidas que me rondavam os pensamentos.

Entrei no carro arfante e dirigi até o centro de adoção, era cedo e por ser sábado algumas crianças ainda dormiam. Fui até a sala de música, sentei ao piano, fechei os olhos e repeti o meu mantra “A minha luz é maior que qualquer problema” algumas vezes, até abrir os olhos, bem mais calmo e começar a tocar mais uma vez a canção do meu coração. A tristeza pode ser um caminho sem volta, meus queridos, a menos que ela esteja acompanhada com um pingo de esperança.

Notas finais
Aos que acompanham essa história, pensaram em desistir e ficaram com raiva dessa autora que vos escreve, eu só peço 2 coisas: Paciência e empatia. Alguns problemas aconteceram e eu fui impedida de escrever pela minha própria cabeça (pasmem!), mas, estou voltando.. Aos poucos.. Mas, voltando. Espero que tenham gostado do capítulo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.