Olhos que Vigiam
1 Olhos que Vigiam
Notas iniciais
Diário de viagem — dia 25 de outubro
Bom, eu nunca fui de fazer isso, mas… a psicóloga disse que pode ajudar. Com as próprias palavras dela: “Você foi uma pessoa muito introvertida durante toda a sua vida, até mesmo em momentos que não deveria ter sido. Por isso, sem uma válvula de escape, criou-se uma condição complicada em você, da qual todas as suas frustrações são acumuladas até que chega um ponto que explodem, e seu sistema nervoso entra em colapso. Escrever um diário vai te ajudar, de certa forma, a se livrar dessas emoções negativas. Vão todas pro papel. Além disso, vai fazer bem pra sua memória. Daqui a 30 anos, quando o retrato do passado for se apagando, um registro como esse pode manter as coisas de pé”.
Claro que não acreditei em metade de toda aquela verborréia, mas eu quero melhorar. Como ela está disposta… Vamos lá. Porque não?
Comecei o dia bem hoje. Me levantei, escovei os dentes. Decidi tomar o café no refeitório do trabalho (que é onde estou escrevendo isso), já que ia chegar mais cedo. Ah, sim, esqueci de falar. Eu trabalho como motorista de uma companhia de viagens. Nós cruzamos o país num ônibus — de estado a estado ao menos três vezes por semana.
Nós trabalhamos em duplas — então enquanto alguém comanda o volante, a outra pessoa descansa. Eu gosto bastante daqui. Bom, meus colegas estão vindo pra cá e eu vou encerrar por aqui.
Diário de viagem — dia 27 de outubro
O maldito do meu colega quer que eu cubra ele numa folga minha! Pode isso? Só me procura quando quer pedir favor… E eu, trouxa, disse que sim! Porque fiz isso?
Dia 30 tava praticamente certo — eu ia numa festa à fantasia pela primeira vez na vida, ia me divertir, ia beber muito, ia esquecer meu divórcio! Maldição. Mas vamos lá…
Hoje o horário de almoço foi esquisito. Tava todo mundo falando de alguns ataques no interior do país. Fazendeiros, alguns bichos. Sei lá. Prestei pouca atenção porque meu almoço era uma torta de framboesa feita pela minha vó.
Mas chegando em casa, a primeira coisa que fiz foi entrar no Google e pesquisar melhor o que diabos estava acontecendo, e eis que me deparo com tais matérias:
ANIMAIS SÃO MULTILADOS NO INTERIOR DO PAÍS — FAZENDEIROS ESTÃO ASSUSTADOS!
Cachorros — ovelhas — cavalos — patos e outros.
Os ataques ocorrem a noite e pela manhã os animais são encontrados mortos (ou parcialmente mortos) e sem as orelhas. Não há marcas de mordida, mas os cortes são feitos com precisão cirúrgica. Quando há morte, os cadáveres são encontrados sem uma única gota de sangue no corpo.
PÂNICO NO INTERIOR: ESPECIALISTAS DIZEM QUE LOBOS PODEM SER OS RESPONSÁVEIS!
Alguns quilômetros depois dos locais dos ataques, investigador encontra pegadas estranhas — além de uma poça de vômito com várias orelhas. Ele não acredita que sejam lobos.
Lobo? Mas que tipo de lobo faria isso?
Inquieto, eu pesquisei a fauna completa desse território. Não temos lobos aqui no país.
Eu imediatamente abracei meu gato.
Não dormi direito. Fiquei com aquilo na cabeça.
Diário de viagem — 29 de outubro
Acordei tarde, mas corri e consegui chegar antes que a viagem partisse. Fui correndo, ou seria substituído e perderia o dia. Tenho contas pra pagar!
Dormi muito mal essa noite. Tudo aquilo que li me deixou extremamente perturbado e me fez ficar com aquilo durante a viagem toda, pensativo. Enquanto ia guiando o volante, ficava imaginando que tipo de ser seria cruel o bastante pra fazer aquilo.
Na natureza os predadores procuram atacar um ponto vital da vítima (geralmente o pescoço) pra que ela perca sua vitalidade. Ainda é cruel, óbvio, mas acaba logo. O que eu vi… aquilo é tortura!
Quase bati o ônibus, e foi por pouco. Minha parceira de viagem me deu uma bronca e se ofereceu pra me substituir antes da hora. Aceitei. Tava tremendo. Encostei a cabeça na janela e fiquei colocando as mãos nas orelhas.
Voltei pra casa. Chamei meu gato, mas ele não veio. Procurei por toda a casa, e ele não achei em lugar nenhum.
Diário de viagem — 30 de outubro
Bom, enfim chega o dia o bendito dia. Não dormi direito esses dias, mas tudo bem… Vou ter 3 dias seguidos de folga. Meu gato ainda não voltou pra casa. Isso me preocupa, mas já me disseram que gatos às vezes escapam pra “conhecer o mundo”. Algum instinto animal que precisa ser saciado fora de casa. Tomara que ele volte logo, sinto falta dele.
Hoje, vamos viajar daqui do centro até o litoral, passando por algumas cidades afastadas.
As primeiras 5 horas da viagem ficam com minha parceira, enquanto as outras 5 vão ficar comigo. Deixei um recado para minha vizinha, pedindo pra ficar de olho e cuidar do meu gatinho caso ele apareça enquanto estive fora. Bom, como estão todos acomodados lá atrás e já botei o papo em dia com a minha colega, vou tirar uma soneca aqui. A viagem vai ser longa!
Eu acordei horas depois, com a voz da minha colega me chamando. Era minha vez de dirigir. Eu… eu nem sei como contar isso! Mas vou tentar contar em detalhes.
Já estava dirigindo faz pelo menos duas horas. Olhei no relógio, ainda faltavam pelo menos 4 horas pra amanhecer — e menos que isso pra chegarmos ao destino.
Boa parte dos passageiros já dormia, alguns estavam conversando — em cochichos baixos. Eu decidi fazer uma pausa rápida pra ir ao banheiro, por isso estacionei o ônibus no acostamento e fui pra parte de trás. Passei por várias poltronas, onde casais e pessoas solitárias dormiam sossegadamente, enquanto outra parte dos passageiros acessava os celulares com headphones e fones sobre as orelhas.
Chegando na porta do banheiro, apertei a maçaneta — mas não abria. Estava trancada, o que significou que algum passageiro a usava.
Pois bem, não tive escolha. Tive que sair do ônibus e ir lá fora. Descendo, percebi o quão frio estava — com o ar gelado soprando sobre mim. Um silêncio constrangedor, como o ônibus fosse o único carro daquela estrada. Percebi então que estávamos no interior.
Andei até a parte da estrada onde havia mato e me preparei pra fazer a minha necessidade.
Percebi que os matos se moviam de forma anormal, afinal o vento não estava tão forte assim. Com exceção do farol do ônibus — que apontava pra um outro lado, o lado em que eu estava olhando era escuro. Eu respirei fundo.
Do mato, duas esferas brancas surgiram. Pensei que podia se tratar de algum vagalume, mas eram grandes demais pra ser isso. Me faltou ar quando percebi o que era aquilo.
Eram olhos!! Eles estavam me encarando!!
Aquele feixe de luz ocular me atraía. Era como um imã que puxava-me ao seu encontro, tomando de mim, pouco a pouco, cada movimento do meu corpo. Dei um passo em direção à aquilo, mesmo não querendo.
Não!
Eu levei as mãos até as pernas, tentando me libertar daquele controle.
Não!
Um segundo passo. Quanto mais perto da criatura, mais forte o barulho que ela produzia. O som era familiar, era como se… como se algo tivesse raspando metal ou coisa muito próxima daquilo. Era insuportável, agoniante! Meus ouvidos começaram a doer.
Ouvi um barulho vindo de longe, e aquilo prontamente me tirou do transe. Não consegui identificar o que era, e não quis ficar pra descobrir.
Assim que me livrei daquilo e recuperei o controle do meu próprio corpo, corri imediatamente para o ônibus. Eu tranquei a porta com tanta força que acabei acordando minha colega, no susto. Ela tentou me perguntar o que havia acontecido, mas eu não disse uma única palavra. Precisava sair dali o quanto antes...
Dia 31 de outubro
Acordei de madrugada, com um barulho esquisito na porta. Será que é o meu gato, finalmente? Sumiu por 2 dias, e deixo aqui registrado! O barulho tá ainda mais alto, parece que são unhas raspando na madeira. Com certeza é ele!
Vou lá ver.
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