Olhos errados

1 Capítulo único - A garota dos olhos errados




A garota dos olhos errados

e o garoto que eles encontraram

A grande questão sobre Hyuuga Hinata era que ela sempre, sempre, sempre olhava para o lado errado.

Era algo bobo, na verdade, do tipo de coisa que deveria passar despercebida, apagada em meio a tantas outras coisas que haviam acontecido e que ainda estavam para acontecer. E quase passou, de fato, quase. Quando tudo o que todos mais desejavam eram o poder de olhar apenas para frente, alguém com os olhos fixos em outro lugar qualquer deveria inegavelmente ser, afinal, ignorado. Mas não foi. Fosse pela razão que fosse, fosse talvez exatamente por ser tão errado perder por aí os olhos, os olhos de Hinata Hyuga chamaram a atenção.

Não tanto assim, no começo, mas chamou. Um par de olhos azul-verão procurando com curiosidade e diversão o que tanto prendia os olhos cor de pérola nos lugares mais estranhos e inesperados.

Eram jovens demais, naquela altura. E, pequeno bobo como era, o dono dos olhos de verão só ria baixinho, só para os próprios pulmões, caçoando que aqueles olhos sem cor deviam estar quebrados, e que olhavam para o nada porque nada era tudo o que viam, independente de para onde olhassem.

Não era assim, o garoto-verão soube depois, quando um pouquinho maior. E, junto ao que soube, soube também que aqueles olhos viam o que ele não era capaz de ver nem mesmo se apertasse bem juntinhas as sobrancelhas. Resolveu-se, então, com sorriso bobo de admiração, que essa era a solução: Hinata Hyuuga, com seus olhos cor de gema preciosa, via coisas para além do que ele via, mesmo quando olhavam para o lugar errado. E acreditou nisso, verdadeiramente acreditou, mesmo quando claramente via que não era sempre que o poder ocular lendário fazia franzir o cenho tão sereno da garota dos olhos errados.

Acreditou, de verdade acreditou, ao menos até perceber que poder ocular algum de clã poderoso algum poderia explicar por que Hinata Hyuuga olhava para o leste quando o sol se punha, para as sombras em dias de sol e para o céu em dias de tempestade. Nada poderia, absolutamente nadinha, explicar porque ela olhava para pedrinhas em campos de flores, para a areia nas praias e para tudo enquanto todos os outros olhos fechavam-se.

Era uma garota estranha, aquela Hyuuga. Com os olhos sempre brilhando na direção errada...

O garoto dos olhos azuis-verão só não percebeu – não, pelo menos, até ser tarde demais para conseguir voltar atrás – que, para notar como aquela garota errada sempre fitava os lugares errados, era preciso que mantivesse sempre seus olhos nela.

Era lógica, no fim, mas Uzumaki Naruto nunca tinha sido exatamente bom com coisas assim complicadas. Se talvez tivesse percebido a gravidade de ter perdido seus olhos para aquela garota sem nem ao menos perceber, talvez não tivesse se deixado levar com tanta despreocupação e orgulho para frente dela para dizer, com todas as letras e algumas outras mais, o que desde sempre quisera saber:

— Você está sempre olhando pro lado errado, sabia disso?!

Porque, naquela altura, mesmo que mais velho, ainda era bobo o bastante para se encher de coragem e deixar-se levar pela embriaguez de saber que a vila que se tornara sua família cerrava em sonos tranquilos os olhos, para, finalmente, pôr-se propositadamente diante da garota dos olhos errados.

E ele poderia ter se surpreendido – verdadeiramente poderia – ao ver fixos em si, tão abertos quanto luas cheias, os olhos dois olhos pérola, mas não o fez. Limitou-se a tremer a pontinha dos dedos e morder o cantinho da bochecha, enchendo um pouquinho o peito, como fazia sempre que sentia aqueles olhos sobre si.

— Eu estou olhando para você, Naruto-kun. – as duas luas minguaram-se suaves antes de abrirem-se cheias, novamente – Sempre estou.

— É exatamente por isso... – rebateu, escondendo um sorriso, sussurrando baixinho um “É exatamente por isso” antes de sorrir novamente, desta vez largo, cerrando envergonhado os olhos antes de abri-los para fitar admirado os olhos cor de pérola – Sempre olhando errado. Pro lado que ninguém olha.

— Isso não é verdade... – havia repreensão no sorriso que ela lhe lançou – Não mais, ao menos... – o sorriso abriu-se mais um pouco enquanto os olhos lunares corriam ao redor, fitando com cuidado a reconstrução da vila e com carinho uma sacolinha de presentes que Naruto relaxadamente trazia nos braços – Prova que... eu nunca olhei de verdade pro lado errado, não é?!

— Se é assim... – começou, desviando o olhar e torcendo para que Hinata não notasse o corar de suas bochechas – Se é assim... – repetiu, forçando-se a olhá-la novamente na tentativa de esquecer o quão envergonhado ficara com a resposta tão assertiva recebida – Para o que estava olhando agorinha pouco, então?! Antes de me ver...

Perguntou, meio travesso, sorrindo para a resposta que nem sabia direito se entendera ou não, exatamente, exatamente!, como dali para frente, durante meses, faria. Uma pergunta, uma resposta, um sorriso. Sempre. Às vezes, eram formiguinhas trabalhando, às vezes a alga afundando no caldo do lamen, às vezes as pedras irregulares de algum muro, às vezes o quadro torto na parede de seu pequeno apartamento, às vezes as mãos entrelaçadas juntas. Quase nunca, verdadeiramente, entendendo nada das razões pelas quais a garota estranha dos olhos de lua arregalava-os.

Mas não demorou muito para que ele já nem mais precisasse perguntar. E isso arrancava um monte de risadas das pessoas que os viam pelas ruas de Konoha. Bastava que sorrisse para Hinata, e com um sorriso de volta receberia a esquisita resposta para a pergunta silenciosa. Era quase como um jogo. Às vezes de longe a via e de longe ela apontava para algum lugar. Às vezes se arriscava a acertar, especulando com o olhar divertido qual o alvo dos olhos pérola, sorrindo aberto para o riso divertido que arrancava de Hinata a cada erro. Às vezes, bastava que se colocasse quietinho ao lado dela, e com carinho ela lhe diria tudo o que quisesse perguntar.

Não demorou muito, também, para que por si próprio começasse a buscar por coisas que agradariam os olhos de pérola. E não demorou para que começasse a arrastá-la consigo para mostrar todas as mais estranhas e mais bonitas paisagens que cercavam a vila. E também não demorou muito para que ele mesmo se empenhasse a colocar coisas bonita no caminho que sabia que ela percorreria. E não demorou muito, também, ainda que mais do que as outras demoras, para que perceber que não importava o quão lindas e incríveis fossem as coisas que encontrava, nunca seriam tão lindas nem tão incríveis quanto a intensidade com que brilhavam os olhos de lua ao olharem para elas.

Foi então daí que, daquele jeitinho suave de quem sabe que não adianta negar mais, Uzumaki Naruto percebeu que independentemente de para onde olhassem os olhos de Hyuuga Hinata, ele queria ter para sempre seus olhos nela.



Notas finais
Ooolá, tudo bem?!

Muito, muito obrigada por ter lido a história! Espero do fundo do meu coração que tenha gostado!
Eu tinha essa história rascunhada e parcialmente escrita num caderno há um bom tempo, mas nunca tinha revisado nem nunca tinha considerado postar. Mas daí pensei "por que não, né?!", e cá estou eu postando!
A verdade é que histórias como essa saem totalmente da minha zona de conforto... Então estou um pouquinho nervosa sobre ela! Hahahahah
Enfim, espero que tenha gostado! Se gostou, me deixe saber! =)

beijo, beijo, =*
Yuki
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!