Notas iniciais
Sim, tem mais de um mês que eu não posto e eu peço muitas desculpas, nem sei porque fiquei tanto tempo sem postar, mas esse veio com muuuito carinho, tomara que compense! Boa leitura, espero que gostem do capítulo ♡

"Paremos de indagar o que o futuro nos reserva e recebamos como um presente o que quer que nos traga o dia de hoje.” Heráclito de Éfeso

No final Barbie acabou aceitando que estava sozinha.

Em algum momento eu encontrei forças para levantar, andar, viver. Ou pelo menos tentar. Por quanto tempo eu estava andando? Horas? Dias? Meses? Anos? A paisagem não mudava em nada, eu continuava a ver a mesma mata alta muito verde, as mesmas árvores de tronco torcido, embora escassas e algumas vezes uns pequenos lagos cobertos de peixes e limitados frutos do mar.

– Onde estou? — perguntei certa vez para um peixe azul de listras amarelas.

– Em casa — respondeu com uma voz muito aguda. Perguntei para outros vários peixes em outros vários lagos, mas só tinham uma única resposta.

– Em casa — responderam todos.

Eu ainda tinha uma alternativa, o biscoito da sorte de Nêmesis, que balançava constantemente em meu bolso lembrando-me de todas as promessas que eu ainda teria que cumprir. Entretanto, não me arriscaria a usar tal privilégio sem ter certeza de que não teria outra alternativa, temia não conseguir pagar minha dívida e só os deuses sabem o que me ocorreria caso não a quitasse.

Em casa. Em casa. Em casa... Será que eu tinha morrido? Não. Eu não tinha morrido, realmente não faria a menor lógica.

Chegou um momento em que perdi toda a noção do tempo, caia na grama ou em algum lago e dormia, as vezes desmaiava, mas sempre dormia com o Sol no topo do céu e acordava com ele no topo. Eu estava ficando louca. Onde eu estava? O que eu faria? Quanto tempo se passara? E agora?

Dormi.

Eu estava em mais um dos inúmeros sonhos que tive no local, não faria diferença, provavelmente eu teria muitos outros sonhos depois deste. Eu estava em frente a fogueira do Acampamento Meio-Sangue, o ar tinha cheiro de lenha queimada e marshmellows assando. Todos colocavam mais um pingente em seus colares, o que representara o ano. Naquele em especial pusemos uma árvore em homenagem Thalia Grace, que perdera a vida para que seus acompanhantes Grover, Annabeth e um filho de Hermes chamado Luke pudessem escapar e chegar ao acampamento com vida.

Acordei e dormi.

Era outro sonho agora, outro ano. Agora o pingente era em homenagem a Percy Jackson que salvara todo o mundo quando recuperou o raio mestre de Zeus. Todos sorriam, eu sorria, afinal era apenas mais um ano que se completava no acampamento. A espera de um período de paz inundava a todos, sorriríamos, enquanto nos fosse permitido sorrir.

Acordei e dormi.

Me vi na batalha contra Cronos. Lembro que na época a maioria do chalé de Hermes ficou em dúvida de qual lado seguir, uma vez que o próprio Luke, o chefe do chalé tinha escolhido o lado dos titãs. Corri muito, lembro que estava na patrulha da frente, lutando no mesmo local que Percy Jackson. Mas não foi só isso que o sonho me lembrou. Vi o momento em que derrotava mais um monstro e no céu vi uma imensidão de águias um tanto parecidas com aquela que eu e Annabeth matamos para salvar Jason e seus amigos. Ninguém mais tinha visto aqueles monstros, todos lutavam normalmente em terra sem medo do céu. Todos menos eu, eu vi os animais. Naquele momento o vento mais forte que já presenciei forçou todos os monstros a recuarem, não só isso, eles foram forçados contra a água, em um lugar muito distante da batalha e acabaram morrendo afogadas. Ninguém jamais soube disso e na época eu não entendi o ocorrido, hoje me faz sentido.

Acordei e dormi.

Agora não me encontrava no Acampamento ou em qualquer lugar conhecido. Me encontrava em um salão escuro cuja única luz irradiava das mãos de um menino apoiado na parede, ao longe. Lucas.

Imediatamente senti minha pulsação acelerar e um milhão de perguntas surgirem na minha cabeça. Um zunido irritante se alastrava ao longo de todas as perguntas que eu tinha que fazer, sentia necessidade em pronunciar. Acabei por ignorá-las quando a figura loura interrompeu sua caminhada em minha direção a milímetros de distância de mim.

– Olá rainha da ironia — ele não precisou explicar, se referia a nossa primeira conversa quando disse que era extremamente irônico uma filha dos três grandes com o nome de Barbie -, sentiu minha falta? — As palavras vinham quase como um sussurro o que não contribuía em nada com meu coração acelerado. Eu via-o em cada detalhe cada perfeição e imperfeição do rosto, como se quisesse memorizar, não podia me esquecer de nada. Lucas sorriu percebendo minha expressão, quando o fazia suas covinhas se tornavam visíveis, que saudades daquele sorriso.

– É claro que senti sua falta — as palavras saíram engasgadas — sinto sua falta.

– Estive te observando — ergui as sobrancelhas diante tal confissão — você tem me decepcionado Barbie.

– E posso saber como você esteve me observando? — digo ignorando as outras milhares de perguntas mais importantes a serem feitas.

– E isso importa? — Lucas retira uma mecha de cabelo dos meus olhos e brinca com ela por um instante antes de colocá-la atras da minha orelha, depois devagar abaixa a mão e toca nas maças do meu rosto e continua até meus lábios. O choque de sua pele na minha era eletrizante de forma que tive que prender a respiração para evitar de soltar um suspiro alto, a expressão em seu olhar não era muito diferente de como eu mesma estava a segundos atrás, como se quisesse me memorizar por completo.

– Aonde você está? — Por algum motivo a pergunta me pareceu importante, urgente. Eu sei, ele estava no reino de Hades, eu sei ele estaria nos Campos Elíseos, mas não era suficiente, era como se esses fatos que me rodeavam fossem respostas incompletas.

– Estou com você — agora nossos rostos estavam a milímetros de distância de forma com que eu sentia sua respiração gélida contra meu rosto. Aproximando o rosto um pouco mais sinto ele roçando a boca em minha orelha — sempre estarei — sussurra.

– É tudo culpa minha — sinto as lágrimas chegando e me censuro por não conseguir contê-las, sentia como se um nó cada vez maior se formasse em minha garganta. Não demorou muito para meu rosto se encher de sangue.

– O que é culpa sua? — ele me rodopia, depois me puxa para perto e com pequenos passos começamos a dançar ao som das batidas de nossos próprios corações. — A culpa é sua, de fato. Você é a culpada por eu ter tido uma morte digna e não acabar vivendo pelo resto da vida como um animal — sentia o tom amargo em sua voz como se só a lembrança de Nova Orleans já o perturbasse -, você é culpada por não me fazer desistir de tudo e achar um propósito para o resto da minha vida.

– Isso não é justo — digo depois deixo o silêncio tomar o local -. Quero dizer não é certo — retomo -, você deveria ter tido uma vida linda e suas opções não deveriam ser virar um selvagem aprisionado ou morrer no reino de Hades, seu propósito de vida não deveria girar em torno de satisfazer a vontade dos deuses — pressiono minha cabeça contra seu peito e tento me acalmar concentrando-me nas batizadas de seu coração -.

– Barbie — ele levanta minha cabeça me forçando a olhar em seus olhos -, você realmente acha que fiz tudo que fiz por causa dos deuses? Sinceramente quero que os deuses vão para o inferno — arregalo os olhos assustada imaginando o que meus pais achariam disso -. Não ligo também para o que pensam de mim ou o que vão fazer eu já morri mesmo — sua voz não carregava angústia, raiva, nada, ele apenas contestava esse fato, eu querendo ou não Lucas estava morto -. Quando fui para Nova Orleans fui pela minha irmã, ela precisava de mim e não me importava o que Apolo pensava sobre isso. Depois de tanto tempo lá eu comecei a achar que era tudo um castigo por não ter ouvido meu pai e deixar minha irmã ir sozinha, mas não fazia sentido, eu sabia que tinha feito o certo. A verdade é que por muito tempo passei a desacreditar que qualquer sentimento que eu expressasse por alguém acabaria resultando em algo de bom para mim.

– E agora você está morto — digo amarga-.

– Deixe-me terminar. Quando você e Annabeth chegaram e me salvaram a primeira coisa que qualquer um pensaria era para correr de você. Não porque você é do mal, mas porque você é poderosa Barbie, as pessoas tem medo do que não podem ter, elas temem o que foge de seu controle. Só que eu não consegui sentir nada disso, tudo que eu pensava era o tanto que eu fiquei impressionado e quando você matou aqueles monstros eu só conseguia pensar em chegar perto e te proteger, te tirar daquele lugar. É ridículo eu sei — diz ele com um sorriso torto -, mas eu senti, você provavelmente podia me matar erguendo o mindinho e eu quis te proteger foi quando eu percebi que valia a pena sentir de novo.

– Você fez tudo para me proteger eu entendi, eu nem sei o que dizer Lucas, porque não sou eu quem é um sonho agora, é você — o sangue continuava jorrando dos meus olhos sem controle algum, eu já não me preocupava mais, que sangrasse.

– Para de ser tão negativa e pensa pelo meu lado, Barbie — ele limpa o sangue do meu rosto com as mãos e pressiona meu rosto contra seu peito -. Esta ouvindo? Meu coração batendo? — aceno que sim com a cabeça — ele não batia, não sentia, não existia mais antes de você chegar, então se meu coração está batendo agora, a culpa é inteiramente sua e eu serei eternamente grato por isso, e acredite que eu morreria mais mil vezes só para poder senti-lo bater de novo — ele aperta minha cintura com mais força causando formigamento em toda minha espinha e apoia a cabeça no meu ombro de forma com que posso sentir sua respiração contra meus cabelos. Ficamos assim talvez por uma eternidade, talvez por um segundo, agora com ele sentia como se o tempo não existisse.

– Lucas, o que eu faço? — ele levanta a cabeça e olha nos meus olhos com um olhar intenso não me deixando alternativa a não ser corresponder o olhar — Estou perdida, não tenho mais ninguém. — a minha voz soa na altura das minhas esperanças, o que no momento estavam depressivamente baixas.

– Você tem a mim — ele sussurra com a boca muito próxima da minha, conseguia sentir seu hálito, hortelã.

– Não pelo tempo que eu queria, na verdade — eu estava me lamentando, eu sei, mas era tudo que eu conseguia fazer.

– Por que? Veja só, estamos só eu e você aqui, eu diria que se você dissesse para sempre, ficaríamos aqui para sempre — ele diz entre sorrisos, a boca cada vez mais próxima da minha.

– Para sempre? — pergunto com urgência, coração acelerado, respiração acelerada, tudo.

Fecho os olhos quando seus lábios finalmente tocam os meus, não se prolongando muito, como se fosse apenas uma lembrança. Uma lembrança, lembrança. A palavra ecoa na minha cabeça e por entre minhas pálpebras ainda fechadas a imagem de um Percy enjaulado aparece na minha cabeça, para sempre é tempo demais, meu irmão precisa de mim.

– Eu quero ir embora, Lucas — digo me afastando, mas as palavras saem baixas como se eu mesma não acreditasse, não quisesse as pronunciar, então repito — Eu quero ir embora — dessa vez as palavras ecoam nas paredes como uma repetição infinita.

– Tem certeza disso? — ele ergue as sobrancelhas claramente chateado.

– Tenho, você já fez o que tinha que fazer, eu ainda tenho muito trabalho a cumprir — digo decidida — como faço para ir embora? — ele me lança um sorriso torto tentando alterar a expressão de decepção em seu rosto.

– Vira de costas, por favor — obedeço ouvindo o barulho dos tênis gastos que uso desde o começo da missão contra o chão de madeira escura — agora feche os olhos — fecho esperando abri-los e perceber que tinha voltado para aquele lugar em que tinha a sensação de prisão eterna. Meu estômago embrulha com a ideia — agora abra -. Quando abro percebo que ainda estou no mesmo lugar, mas que aquela fonte de luz que irradiava das mãos de Lucas estava agora em meu pescoço, um pingente em formato de Sol -. Ande com ele e sempre estarei com você, ande com ele e jamais irá te faltar luz — sussurra contra meu ouvido.

– É lindo, obrigada — digo me virando para olhá-lo novamente.

– Sabe, de uma forma ou de outra ainda vamos nos reencontrar, adeus Barbie Simpson — diz encostando o nariz e testa contra os meus. Fecho os olhos e respiro fundo, querendo recordar da sensação de sua pele contra a minha.

– Adeus Lucas Bane — digo após uma longa pausa.

– Só para você saber, beijo em cadáver não conta — ele me puxa para junto de si e dessa vez quando nossas bocas se encontram não sinto mais nada além de Lucas como se todo o meu corpo tivesse sido anestesiado, só sinto ele, só existe ele.

Acordo, porém dessa vez não volto a dormir, não porque meu sono foi embora, longe disso, na verdade um certo pingente em formato de Sol que surgiu no meu pescoço irradiava uma luz tão forte que me impediu de dormir.

Mas tudo bem, dessa vez ia dar certo. Peguei relutante o biscoito da sorte de Nêmesis no meu bolso, tive que aceitar o fato de que sozinha jamais acharia uma saída para essa situação. Esmago o biscoito em minha mão e digo em voz alta:

– Preciso de ajuda para sair daqui.

Quando abro minhas mãos novamente percebo que os restos de biscoito se foram deixando a vista somente um pequeno papel com escritos em ambos os lados.

Vocês semideuses são horrivelmente tediosos e previsíveis — Nêmesis

E do outro lado:

Se vingue daquela que sequestrou seu irmão.

Ps: olhe para cima.

Automaticamente levanto o olhar e não posso deixar de sorrir quando vejo um pégaso inteiramente branco vindo ao meu encontro.

Notas finais
Acho que esse é o primeiro capítulo da fic realmente romântico, então confesso que estou um pouco insegura. POR FAVOOOOOR sejam sinceros em relação ao que acharam e não deixem de comentar, a opinião de vocês sobre esse capítulo é MUITO importante para mim! Espero que tenham gostado, e não esqueçam de deixar seu comentário, seja ele positivo ou negativo, o importante é deixar sua opinião, xoxo :D Sarah