Olhos de Cristal
1 Um toque de perdição
Notas iniciais
Era uma vez três bruxas. Três irmãs que tinham medo do escuro; medo de viver, respirar e ver. Medo do que se espreita na noite sem luz. Até que houve um barulho na floresta. Viraram-se e antes que pudessem gritar... As trevas comeram-nas.
Pobrezinhas... Não sabem que estão na barriga do Diabo.
— Olhos de Cristal.
*
A desordem estava instalada naquela noite sombria. O medo, ódio e a profanação andavam lado a lado.
Era uma vez... um sussurro ao vento. Uma história antiga, que hoje, não sabem se é apenas um mito para os amantes ou realidade.
No Reino de El’edhel existem clãs que organizam o equilíbrio da vida, os mais fortes se sentavam no Palácio de Arcturus, zelando pela paz e livrando o mundo de discórdias. Eram quatro tronos oficiais, para povos distintos. Estavam na Quinta Era e o amor prevalecia; união e respeito. Até que uma bela dama se apaixonou pelo inimigo, nadando em águas proibidas.
Esse povo mágico também vive entre os humanos, em New Salew. Guardando segredos e títulos íntimos.
Era uma vez...
Um Príncipe Maldito que caiu no abismo.
Uma bruxa que foi marcada à escuridão.
Uma mãe que traiu e entregou suas proles à Morte.
Um Reino que não sabia, mas em breve escorregaria ao fim.
Uma criança fadada e perdida.
A irmã que foi arrastada para as profundezas do abismo.
Era uma vez...
As mulheres Crystalli.
Os Valkrun.
Os Petrus e Archer.
Uma noite, onde a lua era a única a espiar os segredos que se escondiam e que seriam esquecidos.
A noite em que todos se aniquilaram. Pois, quando a vida é dor, a morte é a única que pode nos amar.
Preste atenção na velha Ama, que revela sonhos.
‘’Malevolência ao seu querer, criança. Pois não sabemos tudo, mas queremos sentir tudo, até que exploda. Do veneno tomamos e por ele morremos. ’’
Será breve... A verdade não gosta de se esconder. E quando ela aparecer... Corra!
***
New Salem, 1897
Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor.
— William Shakeaspeare
Era uma noite fria. Nevava e o sol parou de sorrir. Os clãs de New Salem estavam reclusos, com medo; enfurecidos. Desastre. Um desastre havia acontecido e apenas uma pessoa sabia da verdade. Uma garota Crystalli amaldiçoada e que carregaria a escolha fatal.
A jovem mulher estava encapuzada, mas era possível ver as madeixas encaracoladas e longas de um mel quase dourado saindo para fora do capuz. A pele pálida se destacava contra a noite e os olhos. Aqueles olhos que pareciam dois cristais fundidos em cubos de gelo. Escondia-se sob a pilastra de pedra do Castelo Valkrun, decidida a seguir seu destino até o quarto da torre. O quarto que tanto fez seu coração se acelerar insanamente, coração que a amaldiçoou, que a fundiu ao caos.
O Castelo estava vazio, tirando os serventes e o Príncipe. Todos estavam em uma reunião, julgando-os, tramando uma punição aos dois. Respirou fundo e empurrou a porta de carvalho revelando assim os aposentos reais. Tudo estava escuro, frio e assustador. E no centro uma figura masculina se encontrava parado, olhando-a astutamente e queimava, seu coração se contorcia, assim como o da sombra que a observava. Estavam ligados eternamente.
—Jax... –Sussurrou contra o silêncio. Antes que pudesse fazer qualquer movimento até ele, já se encontrava prensada contra a fria parede sendo presa pelos pulsos, sentindo a pele fria, os olhos azuis e tempestuosos do Príncipe e a sua boca carnuda explorando seu pescoço. Arfou. –Jax... Olhe pra mim...
—Não. –A voz fria e rouca rasgou seu íntimo, fazendo-a se encolher com a ordem.
—Não! Precisa me escutar Jaxon. Não há escolha... Liennel me disse, ela confirmou que serei banida de New Salem. –Ele finalmente olhou em seus olhos. O cinza azulado dela como cristais, contra a cor azul-mar, em seus dias de ódio. –Isso é uma despedida. A nossa despedida.
—Não, não é! Liennel está morta, não saberia de nada! Acha que acredito nessas baboseiras? –Falou apertando-a cada vez mais. – Nenhum destino está traçado completamente... Não... Podemos fazer uma escolha ainda...
—Jaxon, eu não tenho mais o Cristal! Perdi minha benção, estou fadada. Eu recebi uma marca. Estou marcada ao Inferno e não o levarei comigo.
—Não seja tola! Eu sou um deus! O Príncipe desta merda! Não permitirei que nada aconteça à você! –Rugiu.
—Não, tolo é você por continuar a acreditar que há escolha! Basta... eu não posso! Não posso mais... Liennel foi levada, agarrada e arrastada ao pior dos lugares, por mim! Como posso ao menos continuar aqui? Amando você como se nada tivesse acontecido?! Responda-me!
Jaxon se afastou, já não olhava mais para a mulher que tanto ama, não podia, pois sua mente vagava nos lugares mais sombrios de sua alma. Seu coração gelado se afundou mais no precipício. Ele sabia, sabia que não a teria. Só não desejava aceitar. Passou as mãos pelos cabelos platinados e rebeldes que caiam desregular.
—Você é a droga do meu Pacto, Allana! –Gritou. – Sem você eu simplesmente não vivo. –Sussurrou a última parte.
—Eu sei, eu sei! –O coração da jovem garota se partiu. –Eu sou uma Crystalli, uma bruxa! Quebramos todas as regras, sempre foi nós dois contra o mundo. Jaxon e Allana ao infinito. Eu me tornei uma híbrida, minha irmã mais velha está morta, uma maldição foi lançada e serei banida. Não suporto a ideia de respirar outro ar que não seja o seu. Mas estou tão quebrada. ELE não vai permitir que eu continue aqui... Não podemos continuar...
—Você vai morrer de fome! O Fogo Celestial vai queimar a sua alma e eu sentirei tudo. Acha que isso vai dar certo? Que é a melhor escolha? Se for pra você queimar, queimarei contigo. Só não me deixe... –Sussurrou contra seu ouvido. –Você diz tudo isso com audácia, certeza na voz; mas conheço teus olhos, minha doce ilusão. Seu coração está acelerado, posso ouví-lo, posso senti-lo em meu intimo e Céus! Dói... –De repente seus olhos se abriram selvagens e em seus lábios um sorriso traiçoeiro surgiu. – Consigo sentir você completamente, não é isso o que você quer? Não é o que a sua alma deseja? –Passou os lábios pelo pescoço dela, pressionando de leve as presas.
—Não tente me seduzir... – Mas era tarde demais. Sabiam disso. Eram amantes eternos. Pactos.
A noite de despedida se tornou mais longa do que deveria. As estrelas sorriram de leve. O mundo explodiu quando os dois corpos, as duas almas e os dois corações se uniram. Pele contra pele. Cada vez mais fundo e indo ao clímax.
Jaxon é mau. Odiava a tudo e a todos, um matador, um guerreiro; um ceifador de almas. Mas sempre haveria uma garota.
Deitados, exploravam cada canto, como última lembrança. Uma profecia estava caindo sobre New Salem e seria no momento que a nova Crystalli nascesse e que A marcada fosse banida, tornando-se uma peregrina que as Trevas alcançariam.
— Eu sou um matador. Um monstro. Um demônio. Não mereço você. –Falou Jaxon observando o lustre. Olhando para qualquer lugar, menos para a mulher que fez seu coração voltar a bater e sua alma respirar. Passava as pontas dos dedos de leve pelas costas pálidas da bruxa. – Não mereço olhar pra você, sentir teu cheiro ou pensar em você e muito menos torná-la minha perdição. Você é muito mais que um sonho, Allana. Muito mais do que alguém como eu poderia sonhar.
—Porque nós dois somos miragens dentro de nossa própria realidade. Mas continuamos, não é? – Eles se olharam e a galáxia se encontrava dentro deles. –Sabe que isso não é um adeus de verdade. Nunca poderia ser. É apenas uma parte de nossa queda ao Inferno.
—Diga que é minha. –Pediu passando a mão pelo pequeno rosto da dama. Allana fechou os olhos, usufruindo do toque frio, familiar e dócil do amado.
— Eu sou sua. —Falou firme. Voltou a abrir os olhos. –Pena que você não é meu. – Entrelaçaram os dedos. –Príncipe Maldito.
—Você nunca entende, Llana. –Deu-lhe um sorriso triste. Levantou-se nu e olhou pela janela a lua cheia. –Uma guerra está vindo.
—Sim, está. E todos nós vamos morrer.
Assim, naquela noite, os amantes se separaram. Por anos e anos. Ela... banida. Ele? Definhando.
Todos estavam esperando. Todos os clãs. Bruxas, Vampiros, Lobisomens e Fadas. As Trevas Divinas, quando os tambores tocassem e o Inferno rachasse o chão, a miséria se ergueria para guerrear. Todos estavam perdidos, aguardando em silêncio o dia em que A Perdida apareceria e A Marcada retornaria.
Só deixam de lado que... Toda história há amor. Toda vida há clichês. E que nem para todas as guerras há salvação.
Nem todas as histórias e contos podem ter um fim... Pois o tempo leva as palavras e tudo o que temos é a revelação de estarem perdidas...
*
Fale com o autor