Olhos de Cobra

27 Capítulo 26 - Cobra


Notas iniciais
Bom dia, amadas! Hoje vou deixar um capítulo aqui bem cedinho porque terei um dia cheio! Esperem por boas surpresas na sequência desse capítulo. Gostaria de saber se vocês querem que eu continue a postar dois capítulos por dia ou somente um! É com vocês. Um beijo grande!

Cobra!

A última coisa que ouvi foi o grito histérico de Karina. Depois só escuridão. A dor me deixou segundos depois e a inconsciência me abraçou de forma arrasadora.

Acordei no hospital. Não em um quarto como esses que vemos em filmes, mas em uma maca no meio da enfermaria lotada de pessoas e gente chorando ou gritando de dor.

Meu rosto estava inchado. Era difícil até abrir os olhos. Mas os ouvidos estavam funcionando muito bem.

― Que bosta, Cobreloa. ― A voz do mestre Lobão soou ríspida. ― Nada de empenho, zero de concentração, falta de treino e o corpo todo quebrado. Eu devia te expulsar da Khan.

― Você não vai fazer isso.

― Estou pensando seriamente em fazer.

― Eu te dei uma boa grana, Lobão.

― Mestre! ― Ele bateu na boca do meu estômago, me fazendo gritar. ― Para você ainda é mestre. Sabe Cobra, seu tempo tá passando. Você já não é nenhum garotão promissor. Quando conseguir andar, passa na Khan e pega suas coisas. Você tá fora do esquema.

― Mestre. ― Tentei me levantar, mas eu mal conseguia respirar. ― Mestre não faz isso comigo. Eu posso vencer o próximo...

― Volte a me provar que você é lucrativo, Cobreloa. Por enquanto você é só uma pedra no meu sapato. Boa sorte.

A figura embaçada dele sumiu da enfermaria. Mordi meus lábios com tanta força por causa da dor física e da raiva que queimava, que senti gosto de sangue. Um enfermeiro se aproximou, segurando meu queixo.

― Cuidado aí, irmão. ― Meio que rosnei.

― Quem está aqui com você? ― Ele estava anotando algo em uma prancheta.

― O cara que acabou de sair e não vai voltar. Não sei onde estão meus documentos.

― Eu tô com ele agora.

A voz anasalada de Karina surgiu como música enquanto o enfermeiro se virava.

― Você deve ser menor de idade, mocinha. Não pode assumir a responsabilidade.

― Não, mas eu assumo. ― Duca se aproximou também. Karina devia tê-lo convencido a me ajudar. Virei o rosto. Além de perder tudo, lá se ia embora o meu orgulho. ― Ele vai ter que passar a noite aqui?

― Não. Tudo bem com o baço. Só quebrou duas costelas. ― O enfermeiro virou-se para mim. ― Vai ficar alguns dias de molho, lutador. Podem ir pra casa agora.

Fechei os olhos recostando no travesseiro. Tempo era o que eu não tinha.

― Cobra, a gente vai te levar.

― Não, Karina. ― Voltei meus olhos para eles. ― Agradeço a boa vontade. Mas me deixem.

― Para com isso, Cobra. ― Duca se adiantou. ― Você não vai conseguir ir a lugar nenhum sozinho. Aceita a ajuda, cara. Não minha. Da Karina.

Fiquei olhando para frente, a dor consumindo cada parte do meu corpo. Mas Duca tinha razão. Eu não iria conseguir sair dali. Concordei com um aceno afirmativo. Ele me ajudou a me levantar, mas não foi o suficiente. Karina teve que me apoiar do outro lado.

― Posso tocar aqui? ― A mão dela pousou devagar perto da minha garganta assim que ela me abraçou.

― Cuidado com a costela. ― Foi a única coisa rude que consegui dizer.

― Eu sou a sua costela agora. ― Ela sorriu. ― Vai Duca. No ritmo do passinho.

O ritmo deles , apesar de lento, doía como a morte. Não que eu já tivesse ficado perto dela, mas enquanto eu andava, entrava no carro de Duca, e saía de novo ao chegar no QG, parecia que a morte estava bem próxima.

― Duca. Avisa a Bianca pra mim. Ela sabe como convencer o meu pai.

― Leva ela com você, Duca. ― Alcancei a porta de vidro, me desvencilhando de Karina. ― Estou bem.

― Vamos reviver essa ceninha? ― Karina me ajudou com a porta. ― Vai, Duca. Avisa a Bianca. Eu vou ajudar o Cobra e subo. Não vai demorar.

Eu não tinha forças para contestar. Eles me ajudaram a chegar no fundo do QG e a me deitar. Quando Duca saiu, rezei para que Karina fosse com ele. Mas ela ficou. Ela era teimosa. Da mesma maneira que ficara quando me encontrara arrebentado por causa de uma luta ilegal, ela estava ali novamente, segurando um copo com água e uma caixa de remédios.

― Eu acho que é esse comprimido primeiro. ― Ela se sentou por perto. ― Abre a mão, bebê. Não sou uma boa enfermeira. Nem tenho muita paciência.

Tomei o remédio com dificuldade. Doía só de mexer o maxilar. Tentei me sentir um pouco mais confortável nos travesseiros, mas com metade do tronco enfaixado ficava difícil. Abri os olhos novamente e peguei Karina concentrada em contar as minhas costelas. Ela estava tendo dificuldade por causa das faixas.

― Estou só contando para ter certeza de quantas costelas terei que virar hoje.

Sorri um pouco.

― Por que entrou nisso, Cobra?

― Não ia dar pra pegar um passe para o exterior na minha categoria, Ka. ― Franzi o cenho. ― Meu Deus, isso dói muito.

― E agora? ― Ela ergueu as sobrancelhas. ― O que você vai fazer?

Ouvimos batidas na porta antes que eu pudesse responder.

― Não deixa o seu pai vir aqui me esculachar. Vai com ele, Ka. Eu vou dormir.

― Não. Ainda não tivemos a nossa DR. ― Ela sorriu, saindo para a parte da frente do QG. ― Ah, não. ― Ouvi o vidro se debatendo. ― Meia volta, já. Ah não! Você também não!

Karina foi obrigada a abrir quando alguém começou a bater com força.

Saltos batiam impertinentes no chão. Jade. Havia mais alguém com ela. Só esperava não ser o paulista. Mas era Pedro.

― O que houve, vagabundo? Acabamos de saber que vocês tinham chegado. E que você tava mal.

Não respondi.

― Ele se machucou no campeonato, Jade. ― Karina respondeu por mim. ― Mas ele vai ficar bem.

― Ótimo. Eu vou cuidar de você. Como fiz da última vez.

― Não, Jade. ― Balancei a cabeça. Eu não tinha estruturas para ter Jade ali.

― Eu vou ficar com ele, Jade. Pode ficar tranquila.

― Quem não fica tranquilo sou eu, né, Karina? ― A voz de Pedro estava me irritando. ― Você disse que nós íamos brincar de cão e gata para compensar sua ausência na peça, Esquentadinha.

― Pedro! ― A voz dela saiu ríspida. ― Não. Eu vou ficar aqui com ele. Ele cuidou da minha perna. Estou retribuindo.

― Me deixem sozinho! ― Eu estava farto de tudo aquilo. Todos me olharam com a cara assustada. ― Leva a Karina daqui Pedro. Vá com eles, Jade. Eu quero ficar sozinho. Não me obriguem a me trancar no banheiro a noite toda. Respeitem a minha vontade.

Eu não aguentava mais ouvir toda aquela conversa. Pedro foi o primeiro a deixar o QG. Jade e Karina travaram uma luta silenciosa até que a morena decidiu sair. Virei o rosto. Não queria ver Karina. Era difícil olhar para ela. Era mais fácil sentir a dor física.

Depois que ela também se fora só me restou o silêncio. Suspirei, sentindo-me mais aliviado. Alguns segundos de paz e tudo bastou para que eu chorasse como um fraco.

A realidade voltou a me socar fortemente. Eu estava perdido. Ferrado. Estupidamente encrencado.

Mas a pior parte é que aquilo não atingia somente a mim.