Dias de chuva são sempre mágicos. Mal dá pra notar a passagem do tempo até que chegue a noite. E quando ela chega, eu mal lembro o que fiz durante o dia. Principalmente quando tenho o dia de folga.

Sei que devia ter passado o dia estudando, mas foram vários plantões durante as últimas semanas e hoje eu precisava colocar o sono em dia. Infelizmente, à noite eu tive mais uma aula no hospital. E como esse hospital fica perto da minha casa, eu fui a pé. São apenas alguns quarteirões e ainda economizei na passagem de ônibus. Noite agradável, de fato, exceto pelo problema que começou semana passada: Estou sendo atormentado por alguma coisa sempre que saio de casa à noite.

Esta noite eu já esperava encontrar algum espírito no hospital. Virou rotina ouvir alguma voz vinda do vazio, pedindo por ajuda. Mesmo assim, não dá pra me acostumar ou pelo menos não sentir medo. Mas hoje foi tudo estranhamente calmo. Voltando pra casa sob uma leve garoa à meia noite, mesmo molhado me sentia bastante calmo. Mas logo no meio do caminho, as luzes dos postes começaram a se apagar conforme eu me aproximava, deixando meu caminho mais escuro, embora não completamente, pois as nuvens refletiam as luzes alaranjadas do resto da cidade. E, ao passo que algumas vozes sussurrantes me acompanhavam, eu sentia mãos tentando me agarrar. Não havia ninguém ali e tenho certeza que se a luz voltasse, eu continuaria não vendo ninguém. Essas mãos vinham de qualquer direção e não importava o quanto eu aumentasse minha velocidade, elas não ficavam para trás.

Um forte calafrio percorreu minhas costas e esse foi o sinal para disparar às cegas pelas ruas em busca de um lugar seguro. As noites entre segunda e terça-feira costumam ser vazias, mas hoje a cidade estava completamente deserta. Ir direto para casa poderia atrair essa coisa para o último lugar que eu gostaria de encontrá-la, então peguei outro caminho, sem um rumo definido. A noite estava ficando cada vez mais escura e acho que corri quase um quilômetro, até encontrar um poste que não se apagou com minha proximidade. Ao lado, se encontra uma pequena igreja ou algo do tipo. Sempre fui aberto a novas ideias e pontos de vista sobre o sobrenatural, mas nunca acreditei muito nessas coisas até presenciar pela primeira vez. Agora, busco qualquer forma de ajuda que possa me livrar dessa situação. Sempre quis superar a morte, e por isso entrei no curso de medicina, mas parece que agora ela me persegue de outras maneiras.

À esquerda da entrada há um pequeno gramado com algumas flores e algumas árvores, cercado com cordas, e na parede há uma cruz. Foi a minha última esperança. Eu pulei na grama e caí ajoelhado aos pés da cruz. Me recolhi sentado em posição fetal, com os olhos cerrados, tremendo de frio e medo, e assim fiquei por algum tempo. Nada passava por minha mente a não ser a vontade de me livrar disso. Ali eu passei parte da noite, não tinha coragem de sair dali, mas não foi uma noite nada tranquila.

A sensação de segurança logo passou e um incômodo silêncio, quebrado apenas pelo som de uma ou outra ambulância à distancia, me perturbava. Meus medos e terrores me cercavam, se aproximavam, escarneciam de mim. Então depois de algum tempo, mesmo com medo, eu abri os olhos e vi que o céu estava mais claro. Não demoraria para o sol nascer e eu ainda tinha que ir pra aula.

"Preciso pesquisar isso na internet". Esse pensamento era recorrente na minha mente, enquanto voltava para casa. Eu só pensava em dar um fim a esse tormento. Mas enfim esse dia chegou ao final. Agora só quero descansar, mas tenho aula logo logo...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.