Olhos da Meia-noite
12 Quebrando a Sexta Tradição
Notas iniciais
Milena sente a areia sob os pés descalços. Há tempos não se permitia esse prazer. O barulho do mar a atraía, o cheiro invadia suas narinas como aroma suave, todos os sentidos agindo sobre si como um bálsamo. Dentre tudo, Milena distingue o cheiro de Ricardo, se aproximando.
— Oi.
— Como está?
— Bem, e você?
— Bem, também. Gosta daqui?
Milena olha para a vastidão do oceano.
— Sim... me lembro quando vinha muito aqui.
— Podemos voltar mais vezes, mas durante o dia. O que acha?
— Du... durante... o dia?
— Sim... já notou que só saímos à noite?
Milena engole seco.
— É só uma coincidência... é que não tenho tempo durante o dia e...
— Ah, você trabalha! Me diz onde que eu vou te buscar qualquer dia desses e...
— Não! Quer dizer... não... não é isso... é que... Ricardo... eu preciso te dizer uma coisa, uma coisa muito importante.
— Claro. O que é?
Milena se afasta, ficando de costas para Ricardo. Seus caninos crescem e Milena toma uma decisão. Vira-se para Ricardo, caninos retraídos.
— Você não sente curiosidade sobre mim?
— Como assim?
— Como eu sou... você não se pergunta de onde veio a força que usei para brigar com Cachorrão, por exemplo?
— Na verdade, sim, mas nem estava muito lembrado disso.
Milena sorri e se vira.
— Na verdade, não sou quem você pensa.
— É mesmo? E o que você é então?
Ricardo abraça Milena, que se vira e olha em seus olhos.
— Talvez você não goste de saber, talvez você me odeie, se afaste de mim... me esqueça.
— É tão grave assim?
— É.
— Bem, eu não vou dizer que não vou fazer nada disso que você disse, porque eu não sei o que você tem pra me dizer. Mas posso dizer que vou tentar te entender, e na medida do possível, não me afastar, continuar a mesma coisa.
Milena olha para aquele humano e sente mais confiança. Toca seu rosto, sente o sangue dele correndo em suas veias, vivo, mas não sente a Shufi, apenas um carinho imenso.
— Obrigada.
Os dois se olham por um instante.
— Não sou mais humana.
Ricardo sorri.
— Como assim?
— Talvez você nem acredite, mas sou um vampiro.
Ricardo sorri mais.
— Então era isso? Claro, claro. Estamos em outubro?
— Pára. Não é nada disso. Eu estou falando sério. Não se lembra de nada? De nada mesmo? Depois da briga no bar com Cachorrão?
Milena toca o rosto de Ricardo com a ponta dos dedos, da testa até o nariz. Como mágica, as imagens daquela noite voltam à mente dele, e as vê como um filme.
— Então...
— Sou um vampiro. Um vampiro de verdade.
Os olhos de Milena ficam mais claros, mais brilhantes. Suas pupilas se dilatam e se ajustam, seus caninos crescem devagar. Abre os braços e ergue-se no ar, diante dos olhos perplexos de Ricardo.
— Não acha incrível uma mulher como eu derrotar Cachorrão e aqueles rapazes?
— Eles...
— Também são vampiros. Um pouco mais fracos que eu, mas poderosos.
— Eu me lembro... mas é tudo tão longe...
Milena se aproxima de Ricardo, voltando ao chão. Os olhos e os caninos voltam ao normal.
— Eu optei pela perda parcial de memória. Não queria que você se lembrasse de mim como um monstro.
Milena se afasta de Ricardo e começa a andar em direção à avenida.
— Eu entendo se não quiser mais me ver. Vou desaparecer de sua vida...
— Milena.
— ... e não te incomodar mais...
— Espera. Não é nada disso.
Milena pára de caminhar.
— Não sente medo de mim?
— Medo? Você me livrou daqueles dois vampiros. Não, não sinto medo de você.
Milena se aproxima de Ricardo, olhos nos olhos.
— Vai haver momentos que não poderei ficar perto de você, que vou obrigar você a se afastar de mim, mesmo que seja doloroso, mas para o seu bem. Não sou humana, tenho instinto animal. Posso estar ao seu lado pra sempre, mas não todo o tempo.
Ricardo toca seu rosto.
— Eu entendo... mas vamos para a questão divertida da história.
— Divertida?
— Sim! Podemos fazer coisas que os outros não podem!
— Como o quê, por exemplo?
— Como... voar!
Os dois sorriem.
— Ok. Segure-se em mim.
Os dois se abraçam e erguem-se no ar, sorrindo. Mas Milena realmente poderia ser um perigo para Ricardo, pois estava ficando novamente com Fome, e precisava isolar-se dele, até controlar a Shufi.
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