Olhos da Meia-noite
10 Laço de Sangue
Notas iniciais
Aquela declaração de arrependimento tocou profundamente Milena. Nunca pensou nisso, justamente para não se sentir mal. Como há muito tempo não aparecia para sua família, sumira, não sabia de seu pai, sua mãe, sua vida. E estava pensando nisso agora. Não tinha mais mãe, mas conseguia ver em Lady Anthonya uma mãe.
— Sabe, Senhora, sinto como se a senhora... não sei se devo dizer... mas como se a senhora fosse... uma mãe para mim.
Lady Anthonya sorri. Milena chegara a pensar um dia que ela não ria nunca. E realmente não tinha motivo algum para rir. Mas ela sorria agora, um sorriso terno.
— Sempre senti falta de Laurence. Mas foi para o bem dele que me afastei. Como não o vi morrer, sua memória esteve viva dentro de mim todos estes séculos. Jamais quis sentir afeto por ninguém, não queria que absolutamente ninguém tomasse o lugar de Laurence e Kurt. Eles foram minha vida. Minha vida! Mas, agora, sinto como se... como se você fosse minha filha... mas... o lugar de Laurence ainda é o mesmo, nada mudou, apenas foi... acrescentado e... eu não sei o que dizer!
Lady Anthonya abaixa os olhos, e Milena percebe uma pequena lágrima de sangue. Milena a abraça e, Lady Anthonya, depois de tantos séculos, relembra o prazer de abraçar alguém. Quase instintivamente, os caninos de Senhora e Criança da Noite crescem, e as duas mordem o pescoço, uma da outra.
Milena nem se lembrava o quanto o sangue de um vampiro é doce, principalmente de uma geração antiga. As duas fizeram um Laço de Sangue. Agora, eram como mãe e filha, não mais simples Senhora e Criança da Noite, Tutora e Aprendiz. E Milena estava muito feliz. Lady Anthonya, não sabia se suportaria tamanha felicidade. Mas seu coração, antes morto, não o coração de seu corpo, mas o coração de sua alma, agora estava vivo, radiante, alegre, emocionado. Com tantos séculos de rotina, de fuga, de estudo, Lady Anthonya pensava que não fosse possível ter qualquer sentimento por qualquer coisa ou pessoa. Sempre se lembrava de seu filho e seu marido, e se tornava uma pessoa amarga, guardando-se para encontrar-se com eles no Paraíso. Mas, como estava errada! Era muito bom buscar a felicidade, senti-la perto, abraçando-a! Milena não tomaria nunca o lugar de seu filho, mas seria uma boa filha, e não a deixaria nunca. Esperava que, juntas, pudessem controlar a Shufi, a Fome, e pudessem alcançar o Lugar Celeste que lhes foi tirado. Deixar de ser um cainita e voltar a ser humano, para morrer a morte definitiva e fazer a travessia em direção à luz.
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