I'm scared
I've never fallen from quite this high
Falling into your ocean eyes
Those ocean eyes

Era como viver em um clichê, mas o que eu poderia fazer? Era impossível não encarar aqueles olhos.

Sirius Black era a definição de perigo, eu sabia muito bem. Ainda assim, apesar de entender os riscos que eu corria só por pensar naquele tipo de coisa, era como se seus olhos atraíssem os meus – e se não estivesse por perto, entrassem na minha mente e invadissem até mesmo meus sonhos. Estava ficando insuportável.

É claro que eu já ouvira falar de relacionamentos entre homens, mesmo sendo o início de 1817. Ainda mais estando na Universidade de Cambridge, um ambiente razoavelmente progressista, onde esse tipo de comentário acontecia vez ou outra sem uma conotação tão ruim. Mas nunca havia considerado que talvez quisesse um. Até porque naquela época isso seria praticamente um suicídio.

Até conhecê-lo.

O dia em que James nos apresentou talvez seja o mais icônico da minha vida. Naquele dia, houve um daqueles momentos de epifania em que algo de repente faz sentido. E foi justamente quando os olhos dele encontraram os meus – mais um clichê para a conta, suponho.

Ele sorria um sorriso largo ao se aproximar e apertar minha mão, simpático, mas eu só conseguia ver seus olhos. Eram expressivos, profundos e de uma cor estranha. Cinzas? Na hora só o que eu conseguia pensar era em como se pareciam com um oceano revolto pronto para me engolir.

O contato durou pouco – melhor para minha própria sanidade – mas foi o suficiente para me fazer pensar neles por muito mais tempo do que seria saudável.

Para minha agonia, aquela foi apenas a primeira de muitas vezes em que nos encontraríamos ao longo daquele ano. James parecia achar que de repente éramos um trio, apesar de morarmos cada um em um dormitório com outras pessoas e estarmos em três cursos diferentes. Não que eu esteja reclamando, mas na verdade acho que ele nunca imaginaria que seria o responsável direto por tudo o que veio a acontecer depois.

Fosse pela insistência de James ou apenas porque iria acontecer de qualquer forma, nós realmente viramos um trio. Em pouco tempo, éramos grandes amigos. Nos encontrávamos na biblioteca central para estudar no final de semana, fazíamos passeios de barco pelo rio Cam, íamos ao pub nas quintas-feiras e conversávamos sobre tudo.

Bom, quase tudo.

A questão é que aquela sensação do dia em que James me apresentou a Sirius nunca realmente passou. E se no início era fácil reprimir os pensamentos em torno disso por simplesmente evitar encará-lo por tempo demais e tomar o cuidado de nunca ficarmos sozinhos apenas eu e ele, com o tempo a tarefa foi se tornando cada vez mais complicada.

Em algum momento entre Maio e Junho daquele ano, um pouco antes das férias de verão, eu percebi que nem estava mais me esforçando para tirar meus olhos de cima dele. Era apenas inevitável e nem meu subconsciente parecia acreditar que eu conseguiria fugir.

Já conhecia os contornos, o desenho e o brilho dos olhos dele com precisão. Poderia descrevê-los à perfeição se alguém me perguntasse. Eram definitivamente cinzas, com um halo azulado em torno, tinham um brilho travesso quando Sirius estava animado e uma sombra melancólica em seus momentos mais reflexivos. Eram tão profundos que às vezes eu achava que talvez fosse me afogar, então me lembrava de desviar e tentar pensar em alguma outra coisa no último segundo só para não enlouquecer.

Ele não parecia notar, no entanto, toda essa minha observação. Ou fingia muito bem. Difícil dizer.

Não que eu estivesse sendo transparente por vontade própria. Eu definitivamente não queria mostrar coisa nenhuma. Eu nem sabia o que aquilo tudo significava, na verdade. Eu tinha uma obsessão por olhos ou em particular pelos olhos dele? Eu sentia algo mais por ele?

Esse tipo de pensamento não era autorizado a perambular pela minha mente por mais do que alguns segundos por vez. Assim que eles vinham, eu tratava de trocá-los por qualquer coisa relacionada à minha tese, aos compromissos com a Universidade e, é claro, mulheres. Todos nós fazíamos isso, uns mais, outros menos. Era o jeito. E não era ruim, mas foi com o tempo se tornando muito mais uma válvula de escape do que algo prazeroso.

O auge da minha insanidade foi no final do verão, lembro bem, na última semana de Agosto, um pouco antes das aulas retornarem. Na cama com uma cantora, eu vi Sirius Black. Bem na minha frente, como uma assombração, no lugar onde deveria estar a mulher com quem me deitava. Afastei-me dela tão rápido que quase caí da cama e aquele foi o fim das transas casuais. Não estavam servindo para coisa nenhuma mesmo.

Com mais aquela revelação para minha mente já atormentada pelos meus próprios desejos, me permiti pela primeira vez sentir medo. Não era possível que eu fosse azarado o suficiente para sentir atração exclusiva por homens. Como eu ia conseguir viver daquele jeito? Pessoas do mesmo sexo eram fruto proibido, e sentir desejo por elas uma infração criminosa, uma perversidade.

Os dois meses que se seguiram foram da mais pura aflição, principalmente por voltar a vê-lo quase diariamente sob aquela nova perspectiva em aceitação. Parte de mim lutava constantemente contra uma mente insana, que imaginava cenários impossíveis sem nem mesmo precisar que Sirius estivesse no mesmo ambiente – e se ele estivesse, seus olhos faziam seu trabalho e atraíam os meus com um magnetismo que parecia crescer a cada dia mais. Outra parte de mim, contudo, tentava racionalizar e de certa forma também entrava na minha loucura, pois começava a pensar que talvez houvesse algum jeito de fazer aquilo acontecer.

Talvez houvesse um jeito de mostrar a Sirius que eu afinal o queria muito, muito mais do que como um amigo.

E eu planejei. Tantas vezes. Criei cenas hipotéticas na minha cabeça onde eu dizia tudo a ele. Não me importaria se ele não correspondesse, apesar do desejo de que ele se sentisse da mesma forma e fosse só muito melhor do que eu em esconder. Não me importaria nem mesmo se ele dissesse que tinha asco do meu sentimento e não quisesse mais que fôssemos amigos. Eu não achava que ele fosse fazer algo assim, de qualquer forma. Mas eu só precisava tirar aquilo de dentro de mim o mais rápido possível.

Consegui juntar a coragem para dizer a mim mesmo que era hoje na noite de Halloween de 1817. Havíamos combinado de nos encontrarmos no nosso pub preferido – James, Sirius e eu. Cheguei antes, peguei uma cerveja e sentei sozinho em uma mesa qualquer, me sentindo subitamente nervoso. Talvez não fosse o melhor momento. Como ia assumir aquilo para ele no meio do pub, com James junto? Era melhor em algum outro dia.

James chegou a seguir e começamos a conversar, mas o nervosismo não saiu da minha cabeça. Comecei a ficar paranoico em algum momento, pensando que James deveria estar desconfiando de tudo e me julgando. Mais tarde eu soube que ele estava completamente alheio a tudo que se passava na minha cabeça alucinada, mas naquele momento eu realmente achei que ele estivesse prestes a descobrir meu segredo. E fiz o que qualquer um faria sob tamanha pressão.

Olhei em volta na procura por uma válvula de escape. Não iria ajudar em nada, mas me comprava tempo e fazia James acreditar que eu gostava de mulheres.

Não me lembro de muita coisa daquele início de noite. Mas o que eu me lembro é de ver Sirius chegar no pub e procurar por mim e James com os olhos. Desviei antes que ele me visse e continuei beijando quem quer que fosse a garota à minha frente. Só queria não pensar. Fiquei ali por muito mais tempo do que gostaria. De repente toda a bravura que havia reunido para finalmente contar tudo pareceu se dissipar, e eu não me sentia pronto nem mesmo para apenas encará-lo como em outra noite qualquer.

Mas aquela não era uma noite qualquer. Foi só no final que eu comecei a desconfiar de que algo estava para acontecer, mas acho que o universo me mandou sinais ao longo da noite.

Em algum momento decidi que não poderia fazer aquilo para sempre e me juntei a eles. Sirius parecia sério e tenso, diferente do seu normal. Era o primeiro sinal, mas eu estava tão angustiado e preocupado em dissimular minha própria tranquilidade que nem pensei no que aquilo poderia significar.

Foi uma noite estranha. James falava muito, bebia muito e gesticulava muito. Eu e Sirius nunca estivemos tão quietos. Eu tentava rir das piadas de James e das coisas que falávamos, mas Sirius não parecia nem se esforçar – bebia, no entanto, com voracidade, e me encarava. Fiquei sem entender como de repente os papeis pareciam invertidos e eu sentia o peso dos olhos deles constantemente sobre mim. Provavelmente o segundo sinal, porém eu não entendi como um.

Levamos James ao próprio dormitório, já que ele não era capaz de chegar lá pelas próprias pernas. Ele era ridículo quando bêbado e me rendeu algumas risadas com as besteiras que falava, desanuviando o ambiente pesado pelo menos para mim. Depois disso, não tive escapatória senão estar sozinho na companhia de Sirius. A forma como eu me senti naquele final de noite, enquanto caminhava na direção dos nossos dormitórios – que ficavam um pouco longe do de James –, andando sobre o meio-fio sem encará-lo e perdido nos meus próprios pensamentos, foi precisamente como um adolescente cheio de hormônios e tensão sexual. Não podia ser só minha impressão – Sirius estava definitivamente me encarando.

Sorri sem conseguir me conter e me virei para ele, entregando meus olhos aos seus sem pudor. Pela primeira vez em muito tempo permiti que sustentássemos o olhar e tudo o que veio junto. Os olhos dele continuavam ali, tão vastos e misteriosos quanto eu me lembrava, agora direcionados aos meus.

“Você está muito sério essa noite, Black.” Resolvi bancar o descolado, com uma coragem que não sei de onde tirei.

Nossa troca de olhares pareceu durar tanto. Senti como se através dela eu finalmente dissesse tudo o que queria dizer há mais tempo do que me lembrava, e intimamente torcia para que ele entendesse. Por favor...

Parecendo ouvir minha súplica, ele deu uma rápida olhada em torno e veio até mim. Foi rápido e ao mesmo tempo foi como se aquela curta caminhada para cruzar a distância que nos separava tivesse levado horas. E de repente ele estava sobre mim. Alguém poderia dizer que eu estaria preparado depois de tanta expectativa, mas a verdade é que eu nem soube o que me atingiu.

A sensação dos lábios de Sirius Black sobre os meus foi tão arrebatadora que eu me choquei e resisti, mas só por dois segundos. Então ele me pressionou mais conta a parede e segurou minha mão. Senti seu corpo quente contra o meu e relaxei. Sirius Black me queria como eu o queria. Que se exploda o resto do mundo, eu não me importo. Poderia morar dentro daquele beijo.

Exceto pelo fato de que estávamos no meio do campus e poderíamos ser vistos, e então a felicidade de descobrir a reciprocidade seria destroçada, seríamos presos na melhor das hipóteses, e mortos na pior. Afastei-me dele, relutante, colocando uma mão em seu peito.

“Não podemos fazer isso.”

“Como assim?” Pude sentir seu tom decepcionado, a testa franzida.

“Não aqui, Sirius. Imagine se formos vistos.” Tratei de explicar, antes que ele achasse que eu estava me arrependendo. Mantive a mão em seu peito, e com a outra toquei seu rosto e encarei seus olhos diretamente.

Era incrível vê-los tão de perto finalmente.

“Tenho uma ideia.” Ele disse de repente, o sorriso travesso que eu tão bem conhecia começando a se desenhar. “Estou sozinho no dormitório essa noite, Fabian está visitando a família. Digo, se você quiser...”

Sirius Black estava corado? Era noite sem lua, breu quase absoluto, e seria difícil de dizer com certeza, mas ele parecia estar. Corado por considerar a ideia de estar sozinho comigo em seu dormitório.

Eu devia estar louco, mas a única coisa que consegui fazer foi sorrir e dizer que sim.

O resto é história. Não uma das mais simples, nem das mais fáceis. Mas certamente memorável. Vivemos pelo desafio de ousar amar quem não devíamos, assumir nossos desejos e parar de fingir. Nos expusemos a alguns riscos inimagináveis, mas fomos prudentes e pacientes na maior parte do tempo. E quando o momento certo chegou, um pouco depois do casamento de James e Lily, tomamos a decisão que mudaria nossas vidas para sempre – para melhor.

Partimos em direção a Paris, onde a vida para pessoas como nós era um pouco menos difícil. Já estamos aqui há dez anos. Nesse meio tempo recebemos Harry, nosso afilhado do coração e filho de nossos melhores amigos, para visitar alegres. Dumbledore vem com frequência também. Conhecemos pessoas incríveis por aqui, que nos apoiaram instintivamente. Somos felizes.

E mesmo depois de todo esse tempo, quando me deito à noite ao lado do homem que escolhi para dividir a vida, e ele me encara com seus olhos que são como dois oceanos, me sinto de novo como aquele universitário, não mais tão indefeso e inseguro, nem tão cheio de medo e receios, mas ainda completamente refém desse seu olhar profundo.

Notas finais
Assim que eu escrevi sobre Remus e Sirius em ‘Regras da sociedade’, eu soube que ia querer escrever um pouco mais sobre a história deles ?“ e dar um final feliz pra eles no Universo Alternativo. Tive a ideia de fazer sob o ponto de vista do Remus depois de ler algumas histórias do Pride Month (que eu descobri a existência depois que já tinha passado). E a inspiração veio um dia ouvindo Ocean eyes, da Billie Eilish. Nunca tinha escrito Wolfstar e espero ter sido digna desse casal tão amado.

Admito que na época em que eu lia e escrevia Fanfics mais frequentemente, há em torno de 10 anos, esse ship era algo muito ocasional na minha cabeça, quase nunca considerava, rarissimamente lia. Sirius/Marlene ou Sirius-eternamente-rebelde-pegador-e-solteiro e Remus/Tonks ou Remus-lobo-solitário ou Remus/outra-personagem-feminina eram mais frequentes.

Mas o tempo passou e as percepções da gente mudam né? (E que bom!)

Atualmente eu estou tão apaixonada nesse casal e na ideia deles juntos que acharia difícil escrever algo diferente disso. Acho que devo agradecer à nova geração de fic-writers que abriu minha mente para esse ship, que se não é canon, deveria! Mas boto fé que é haha

Se ler, me conta o que achou? Lembre-se que é minha primeira Wolfstar oficial (junto com ‘Regras’). Beijos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!