Houve silêncio no quarto por oito segundos exatos, e, depois disso, Embry sentiu o mundo tremer debaixo de seus pés. É claro que não era exatamente o mundo que estremecia e sim o próprio corpo do quileute, que já sentia a raiva de seu lobo preenchê-lo completamente. Se queriam vingança por causa de Gregory, se o assunto pendente era com ele, por que tinham de raptá-la? Por que a envolveram naquilo?

― Por que se dar ao trabalho de vingá-lo? Ele procurou por aquilo...

― Somos uma família, garoto lobo, podemos não ter terra fixa, mas, ainda assim, somos unidos. Três de nós são irmãos biológicos e dois são agregados. Gregory era o caçula dos irmãos e os mais velhos não gostaram nada do desaparecimento dele... Pobre menino, era o mais gentil de todos nós, não costumava brincar com a comida ou judiar dos humanos como Hector.

― E quem é Hector? – rosna impaciente, dando um passo à frente e fazendo a vampira se levantar de onde estava.

― Hector é o mais velho, o líder do clã e meu companheiro. Tão cruel quanto o resto de nós juntos, tenho sorte de tê-lo como meu parceiro, não acha? – Ri. – Só não posso garantir que a ruiva tenha a mesma sorte...

Isto foi o que bastou para Embry, que avançou contra a vampira e agarrou-lhe o pescoço, realmente disposto a despedaçá-lo com aquele aperto. E apesar de não se mover ou apresentar resistência, a expressão no rosto da mulher denunciava sua raiva e a vontade que tinha de socá-lo. Todavia, ela era apenas uma informante naquele momento e deveria agir conforme as ordens que lhe foram passadas.

― Se me matar, Hector matará a humana! – grita, fazendo o lobo se conter em sua fúria. – Ou acha que me matando, ele deixará sua companheira viva? Olho por olho, garoto lobo, essa é a filosofia de Hector... Minha vida pela dela, a sua pela de Gregory. – Silêncio.

― Vou encontrá-la e matar todos vocês! – ameaça o quileute.

― Nunca a achará. – Ri debochadamente. – Hector gosta de joguinhos... – Embry franze a testa em confusão. – três vampiros estiveram aqui para buscar a humana, um saiu com a menina nos braços e os outros dois com seus pertences, cada um seguiu para uma direção diferente e, até que você encontre a trilha certa de seu cheiro, será tarde demais!

― Maldita! – rosna.

― Eu disse, ele gosta de jogar. Agora me solte ou nunca lhe contarei como encontrá-la...

O lobo recua no mesmo instante, sentindo-se de mãos atadas.

Finalmente livre do aperto incandescente do quileute, a vampira começa a caminhar lentamente pelo quarto, observando os pertences de Andy e até mesmo furtando aquilo que achava combinar com sua personalidade.

― O que devo fazer para deixarem Andy livre? – pergunta Embry, já que a vampira não parecia disposta a dizer por vontade própria.

― Em primeiro lugar, me chamo Ana, e grave bem este nome, pois essa é a senha para que o clã o deixe entrar em sua casa de jogos...

Embry sente um estranho calafrio subir-lhe a espinha quando as palavras "casa de jogos" foram proferidas, porque algo em seu interior dizia que aquele não era um bom lugar.

― Ana, entendi, guardarei o nome.

― Em segundo lugar – continua ela, finalmente parando de caminhar e retirando um pedaço de papel do bolso da calça –, você deverá estar no lugar indicado pelo mapa amanhã de manhã, na forma humana, sozinho e sem truques. – Entrega o papel dobrado.

― Quem me garante que não irão machucá-la?

― Já lhe disse, garoto lobo, o assunto pendente é com você... A ruiva é apenas a garantia de que irá andar de acordo com as regras de nosso jogo, e, depois que acabarmos com você, a libertaremos, já que Gregory gostava tanto dela. – Houve um rosnado de desconfiança. – Porém, se ousar quebrar qualquer condição ela morrerá no mesmo segundo, entendeu? – Silêncio novamente. – Entendeu, garoto lobo?

― Entendi – rosna entredentes.

― Você obedece, ela vive; se desobedecer, ela morre. Não é tão difícil de entender, até mesmo para alguém como você... Enfim, venha sozinho, amanhã de manhã... E esteja preparado para brincar!

Num milésimo de segundo Ana desaparece, deixando apenas o som de sua risada e seu cheiro adocicado para trás. E Embry permanecera lá, inerte. Sua cabeça rodava com um turbilhão de pensamentos, mas nenhum deles lhe dava segurança quanto ao que poderia acontecer. A única chance de salvar Andy e de garantir sua segurança era dançar conforme a música, no ritmo e nos passos propostos pelo clã nômade.

― É tudo culpa minha – sussurra para si mesmo, sentido por tê-la envolvido naquele jogo que, com certeza, resultaria em morte.

Dando uma última olhada para o mapa em suas mãos, o quileute retorna para La Push, onde rapidamente toma um banho e se prepara para partir. Embry não sabia até que ponto os vampiros se importariam com a segurança de Andy, eles prometeram libertá-la, porém, nunca disseram que a levariam de volta para Seattle. O inverno ainda não havia acabado, e se a abandonasse em meio à floresta?

Foi pensando nesta hipótese que o lobo apanhou seu casaco mais quente, um pequeno cobertor algumas guloseimas confiscadas do armário da cozinha, um celular que comprara no caminho para casa e alguns telefones importantes registrados na discagem rápida do aparelho, enfiando tudo num grande saco plástico e depois em sua mochila de escola como uma espécie de "emergência". Pelo menos assim Andy teria como chamar ajuda e sobreviver até que a encontrassem.

O quileute sabia que não viveria, que o olho por olho se cumpriria e que seu sangue seria derramado em vingança a Gregory. Entretanto, a morte não seria tão ruim se tivesse a certeza de que seu imprinting estaria bem...

Durante todo aquele dia, o Call se recusou a sair de seu quarto, a atender qualquer telefonema e até mesmo jantar. Hora ou outra não aguentou a pressão e chorou em preocupação, no entanto na maioria do tempo sua mente estava fixa no plano que arquitetara para sair de La Push, porque nada poderia dar errado. E quando finalmente a noite caiu sobre a reserva, a casa caiu em silêncio, como se não houvesse mais ninguém acordado.

― Perfeito – comemora sem humor –, isso será melhor que a encomenda.

Pé ante pé, Embry deixou o seu quarto em direção à porta da frente. Não queria levantar suspeitas, nem sequer conversar com a mãe. Nada de despedidas, assim é que tinha que ser, mas Tiffany não era idiota e percebera o estranho comportamento do filho. O olhar vazio, as lágrimas preocupadas que derramara e os ombros caídos como se estivesse carregando o mundo em suas costas, ela notava tudo em seu pequeno garoto.

― Vai embora? – pergunta ela, revelando seu esconderijo no breu daquela sala.

Suas mãos seguravam fortemente seu quadro preferido, o que continha a foto de Embry ainda bebê, e seus olhos estavam fixos na mochila que o Call carregava em suas costas. Droga! A despedida era inevitável...

― Eu preciso – responde somente, comprimindo os lábios para evitar dizer algo mais.

― Por quê?

― Tem a ver com a Andy, mas não é algo necessariamente bom...

― E para onde vai? – questiona chorosa.

― Não posso lhe contar.

― Vai voltar para casa? Algum dia, talvez?

― Não – sussurra com voz embargada, já não conseguindo conter a tristeza de deixar a segunda pessoa mais importante de sua vida para trás. – Eu te amo, mãe! – diz ele antes de sair pela porta e desaparecer na escuridão da noite.

― Eu também te amo – responde ela depois de vê-lo partir, caindo em lágrimas em seguida.

A chuva logo rompeu as nuvens, condensando-se no processo e desabando por todo o estado em forma de neve, tornando ainda mais fácil a fuga do quileute. À noite o camuflaria, a neve destruiria suas pegadas e a brisa fria que soprava levaria para longe o seu cheiro, era apenas uma questão de tempo para chegar ao esconderijo dos nômades.

Haviam dois lobos fazendo a ronda naquela noite, mas Embry não se interessou em saber quem eram. Ele apenas correu e correu em sua forma humana, escondendo-se entre as árvores cada vez que avistava um dos lobos, entretanto, no fim, os lupinos perceberam sua presença e começaram a segui-lo.

― Parem de me seguir – pede o Call, tentando fazer sua voz soar normal.

O quileute assiste aos corpos dos lobos contorcerem-se e diminuírem, até que seus amigos Paul e Quill estivessem novamente em suas formas humanas. Tinha como ficar pior? Primeiro a mãe, agora os amigos? A vida realmente sabia como ferrar com um momento de fuga...

― Aonde vai com essa mochila? – pergunta Paul franzindo a testa.

― Está indo embora? – questiona Quill.

― Sim.

― Por quê? – Paul novamente.

― Não posso dizer.

― Para onde vai? Aconteceu alguma coisa? Por que está partindo? – Agora era Quill.

― Não posso dizer, não posso contar nada...

E foi neste momento que eles perceberam o semblante caído do amigo, escondido por detrás de sua voz aparentemente normal. Aquela certamente não era uma mera escapada e ele não era apenas um adolescente rebelde que resolveu fugir de casa.

― Está com problemas, não está? – desvenda Quill. – Sérios problemas...

― Nós vamos com você! – relata Paul de forma autoritária, mesmo sem saber do que se tratava.

― Não vão não – rosna o lobo cinzento em resposta, surpreendendo os amigos.

― Somos seus amigos, Embry, queremos nos redimir por nossa participação naquela emboscada, de verdade. Nós podemos e queremos te ajudar.

― Já disse que não – rebate, já dando as costas para seguir seu caminho.

― Tudo bem então, siga em frente... Iremos te seguir de qualquer forma! – Agora era Quill.

― Será que vocês não entendem? – grita furioso, voltando-se para os amigos e já deixando o medo extravasar em suas palavras. – Eu preciso ir sozinho!

― Não, você não precisa – insiste Quill.

― Preciso sim! – Pausa, pensando em suas próximas palavras com cuidado para não revelar coisas demais. – Se forem comigo ou me seguirem, Andy morre!

Os pares de olhos se arregalam com a ameaça, então era de Andy que se tratava? Quem ameaçava a vida da humana? Quem eram os inimigos dos lobos desta vez?

― São vampiros – revela o Call, como se lesse seus pensamentos. – Eles levaram a Andy.

Seus rostos se tornam pesarosos em compreensão, mas então, o que poderiam fazer para ajudar se tinham de permanecer na reserva?

― Fiquem aqui... Se eu não voltar em três dias, aí sim comecem a me procurar.

― Boa sorte, irmão! – deseja Paul, dando um leve soco no ombro do amigo.

― Boa sorte, Embry.

― Se demorar... Por favor, venham me buscar! – Os lobos concordam com a cabeça. – Adeus, amigos.

Embry joga a mochila no chão, transforma-se diante dos olhos atentos de Quill e Paul, apanha a bolsa com a boca e, dando-lhes um último aceno de cabeça, foge de La Push conforme os vampiros haviam mandado. O lobo cinzento sentia seus pelos se eriçarem com a situação em que estava se metendo, sabia que não sairia vivo daquele encontro e por isso dissera aos amigos para buscá-lo, pois planejava retirar Andy de seus inimigos tendo a certeza de que a menina seria encontrada por sua matilha... Só não tinha certeza se ele seria encontrado.

Notas finais
Estou tendo apenas palestras esta semana, por isso consegui concluir mais um capitulo. Espero que gostem, eu particularmente gostei, rsrs, apesar de ser suspeita para falar... . No próximo capitulo veremos Embry chegar ao esconderijo nômade. As cartas serão postas a mesa e as regras anunciadas... O jogo da vingança finalmente irá começar! Próximo capitulo: Uma Semana para a Morte!