Olhos Atentos
1 Último dia em Lumiose
Notas iniciais
Na época, eu era uma Spritzee.
Eu havia me perdido do meu bando há muito tempo, então ficava vagando pela cidade em busca de alimento e ninhos abandonados de pássaros nas redondezas, já que dentro da cidade não havia nenhum.
Algumas pessoas me davam comida, outras rejeitavam e me mandavam embora. Como não era muito morta-fome, me satisfazia com algumas frutas e então ficava o resto do dia observando o movimento: carros, viajantes, treinadores e outros humanos passeando e se divertindo. Com sorte era possível encontrar vendedores ambulantes de algodão doce ou pipoca, e os vendedores eram legais em me oferecer um pouco. Afinal de contas era interessante observar Lumiose. Era uma cidade eletrizante que nunca ficava parada, cheia de lojas, padarias, cafés e muita coisa que descreveria uma cidade moderna. Exceto em algumas vezes onde ocorriam apagões, os quais eu já presenciei mesmo que poucas vezes, mas isso eu relevo.
Um dia, quando voltei a um velho ninho de Fletchling para uma confortável noite de sono, comecei a refletir. Pensei sobre toda a situação em que eu me encontrava, em meu antigo bando e em Lumiose e seus habitantes.
Então cheguei á conclusão de que eu não poderia viver assim pra sempre. Não desse jeito, não nesse lugar.
E eu estava certa.
No meio da noite levantei voo e tentei desfazer o ninho onde estava com o bater das minhas asas. Não foi o suficiente para destruí-lo, mas sim para desajeitá-lo, tendo assim como garantia o fato de eu nunca mais voltar atrás naquela decisão.
Ignorei qualquer perigo e avancei para Lumiose, estando ela em toda a sua glória iluminada de sempre. As cores tinham muito mais destaque á noite. Foi um dos únicos momentos onde senti prazer de morar por perto. Não sou e nunca fui rápida, então voei lentamente até o topo daquela grande e graciosa torre do centro da cidade, que atraia muitas pessoas por vários motivos. Lá de cima pude apreciar uma visão bonita e grandiosa de todo aquele terreno urbano. Os humanos têm muitos defeitos, mas constroem coisas incríveis.
Hipnotizada pela paisagem noturna, não me dei conta de que um corvo de aparência não muito agradável — pelugem negra que também imitava um chapéu em sua cabeça, asas pequenas e andar desengonçado. — se aproximou de mim e começou a observar as mesmas imagens que eu presenciava.
“Isso é uma beleza...” disse o Murkrow, com voz engraçada e desajeitada.
“É, sim. Mas estou me mudando daqui.” respondi, a voz rígida e suave ao mesmo tempo. Talvez até um pouco mais fina do que hoje.
“Ué, não consigo imaginar motivos para um pássaro como nós querer sair deste paraíso. Aqui tem comida de graça, luz á vontade e...”
“Acorda, cara.” resmunguei. “Eu não sou como você. Vai perceber quando olhar para o lado.”
Ele rapidamente o fez e se chocou com minha penugem rosa e perfumada. A expressão dele nunca me permitiu concluir se ele ficou admirado ou espantado.
“É, você é diferente. Nunca vi alguém como você por aqui.”
“Pois é, né?” respondi, no tom mais sarcástico que pude.
Alguns segundos se passaram, e eu começava a ficar impaciente. Queria dar o fora dali e seguir com meu plano de “fuga”, mas por alguma razão me sentia presa pela conversa que o corvo armou. Até que ele resolveu dar continuação.
“Por que não vem comigo para a nossa toca? Acho que consigo convencer meu chefe a deixar você ficar lá.”
“Toca?” respondi, com expressão patética.
“Sim, é onde eu moro com meu bando. É o lugar onde eu nasci e durmo lá desde pequenininho.”
“Posso dar uma passada nisso aí, seja lá o que eu vou encontrar por lá.”
“Ah, e meu nome é Row, pra... ficar mais fácil de a gente falar um com o outro.”
“O meu é Anne...” respondi.
Ele fez um gesto com a asa direita para que eu o acompanhasse e voamos para um beco dominado pelo cinza, não muito longe dali. Apenas passamos por alguns poucos bancos e postes.
Recuei assim que vi vários objetos de ferro jogados por lá. Vários canos e vigas de metal na parte de cima dos becos escondiam olhares curiosos de outros Murkrows. Senti um pequeno calafrio.
“Olá! Alguém está aí? Temos visita!” gritou ele, sua voz ecoando pela escuridão.
“Pessoal? Sou eu, o Carvão! Eu trouxe uma amiga legal pra vocês conhecerem!”
Nenhuma resposta.
Só alguns minutos depois um sinal de vida apareceu, com um vulto grande que surgia pouco a pouco do fundo daquele beco escuro. Os olhos nervosos ao redor do lugar ficaram tensos e se esconderam logo depois do aparecimento daquele Honckrow.
Era um pássaro bem maior do que a espécie do Row. Tinha peito volumoso e asas largas, bico amarelo e olhos instigadores. Também aparentava ter um chapéu na cabeça, porém este era maior e mais lardo, cobrindo parte de seus olhos. Sua penugem azul-escura escondia penas vermelhas em suas asas, e suas patas eram negras como a noite. Aparentava ter uma echarpe no pescoço devido a certa quantidade de penas brancas.
“Por que você está incomodando todos com seus gritos, Carvão?” disse lentamente o grande corvo, aparentemente o chefe daquele bando. A voz grossa, firme e intimidadora. Parecia roca, soando como se falar fosse um fardo.
“Seu nome é Carvão?” perguntei, me virando para o pássaro menor ao meu lado. Ele estava acanhado e aparentava medo.
“É como um apelido. Cada um tem um aqui.” respondeu ele, a voz amedrontada.
“Responda logo.” reforçou o Honckrow.
“Est... está bem, chefe. Dê-me só um minuto.”
“Você tem medo dele?” me virei novamente para Row e ele confirmou com a cabeça.
O grande chefe daquele bando de pássaros se virou para mim, me encarou com um olhar de desprezo e balançou a cabeça lateralmente em desaprovação. Por mais que minha ideia não fosse originalmente essa, retribuí o olhar de desprezo e levantei o queixo.
Não que isso fosse a decisão mais certa naquele momento.
“Posso saber o motivo de ter trago uma fada pra toca?” Pelo visto eu havia irritado o grandão.
“Ela não é perigosa, senhor...” respondeu o Murkrow, a voz praguejando em nervosismo. Senti mais coragem em seu falar.
“Sim, ela é! Sabe o problema que tivemos com fadas da última vez.” A voz do grande corvo se levantou, assumindo um tom agressivo. Comecei a achar minha atitude passada um erro.
“Se eu estou dizendo que ela não é, é por que ela não é!”
Dessa vez foi a hora do Murkrow levantar a voz. Seu bico empinado logo se abaixou ao olhar nos olhos do grande corvo com peito inflado que o encarava.
Não era um bom dia para demonstrar bravura.
Fiquei quieta por alguns segundos esperando uma ação vinda de ambos os lados, em vão. Sussurrei para o corvo ao meu lado para que tomasse cuidado.
“O que está fazendo? Seja lá o que for, é uma grande besteira!” alertei.
“Não se preocupe, eu posso fugir daqui pra onde eu quiser se algo der errado.” sussurrou de volta para mim, ainda com medo na voz. A última frase soou como uma previsão. Óbvio que algo daria errado.
“Cometeram um grande erro, você e sua nova amiguinha.” alfinetou o Honckrow, estendendo as penas aos poucos.
Senti outro calafrio. Eu sabia me proteger, mas não podia afirmar o mesmo sobre Row.
“Murkrow, ataquem com o que têm!” exclamou o chefe do bando.
Tudo depois disso foi uma bagunça. Vi ferramentas e outros objetos de ferro sendo jogados na minha direção de mesmo modo que pedras eram atiradas no medroso Row. Desviava o máximo que podia, tentando me afastar do perigo. Olhei para trás: Row havia sumido. Se por um lado ele era covarde em fazer isso, do outro lado era mais seguro assim. Várias aves já haviam parado de batalhar e se afastavam aos poucos, a maioria por cansaço e medo.
Naquele momento, o silêncio predominou de repente. Parei e olhei ao redor: não vi nada além dos pássaros em silêncio e da noite serena, que sutilmente iluminava Lumiose.
Foi quando senti uma pancada na nuca.
Olhei para trás e vi um martelo jogado no chão, feito inteiramente de ferro. O próprio enferrujado devido ao mal cuidado que tinha dentro daquele imundo lugar dominado pelos corvos. E lá estava o grande Honckrow, frustrado por ter Pokémon tão fracos ao seu redor.
“São todos descartáveis.” resmungou ele. Tomei coragem para falar.
“Assim como você.”
Seus olhos se encheram de raiva. Seu orgulho lhe consumia a cada segundo que refletia naquelas palavras.
“Está satisfeita com a bagunça que fez? Vá voar por aí com seu amiguinho, agora.”
“A violência não era necessária.”
“E quem é você para me dizer o que é necessário?” Ele chutou uma caixa de pregos lá de cima com uma das patas, dos quais consegui desviar por alguns centímetros de sorte.
Foi então que ouvi a voz dele.
— Deixe a fada em paz, corvo.
Olhei para o fundo daquele beco assim como o Honckrow deveria ter feito antes de ser atingido por um Fairy Wind que literalmente varreu todos os pássaros dali em um furacão brilhante antes de desaparecer.
— Olá, Spritzee.
Era um humano. Tinha cabelos lisos e castanhos, pele branca e estatura média, corpo típico de um adolescente. Usava um casaco branco com uma estampa que imitava uma carta de baralho negra de seis. As mangas estavam dobradas até o cotovelo. Usava também um short jeans azul e sapatos azuis sem cadarço com poucos detalhes rosa.
Ao lado deste, estava sua terrível parceira Sylveon. Uma raposa cuja pelagem era de um rosa ultra claro, parecia branco. Tinha grandes orelhas rosa e um pequeno rabo, de mesma cor. Suas patas e laços no pescoço e orelha direita também compartilhavam desta mesma coloração, os laços tendo detalhes brancos. Destes, grandes fitas brancas cujas pontas eram azuis pendiam e se esticavam sem limite algum. Os olhos azuis sem pupilas da raposa me encaravam friamente.
— Você está machucada, certo? — perguntou ele, tocando nas minhas asas. Seu olhar era altruísta, porém assustador: Os olhos castanho-claros quase brilhando dentre a escuridão. — Será bem cuidada onde moro. Quer vir?
Olhei na direção da Sylveon, que hoje conheço como Elise. A raposa me lançou um olhar de decepção ao perceber que eu hesitava em concordar com a proposta.
Pensei por alguns minutos. Tudo só havia dado errado por causa da minha ideia mirabolante de “mudar de vida”. Não queria arriscar muito, mas não cogitava voltar de maneira alguma. Olhei ao meu redor e ao perceber que não haveria outro caminho, concordei em acompanhar a estranha dupla.
E a última coisa da qual me recordo quando olhei para trás foi ver um Murkrow feliz encarando a lua crescente.
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