Olho no Olho

1 Olho no Olho


Em todas as manhãs ela leva o café até minha cama, massageia os meus pés e escova os meus dentes. Ela sorri enquanto tira o meu pijama, sorri quando passa o desodorante em minhas axilas e continua sorrindo ao apertar o nó de minha gravata.

Ela é a mulher perfeita.

É linda, não é de falar muito e, quando nervosa, não discute por nada desse mundo, só pisca os olhos constantemente, como se aquilo lhe ajudasse a conter os nervos.

Ela se chama Rosie. É a minha servente, minha cozinheira e minha faxineira. Só não é a minha amante. Acho que não faço o tipo dela... Uma pena! Ela é o meu tipo.

Demorei um pouco para descobrir que estava apaixonado por Rosie. Quando chegou em casa, ela simplesmente foi para a cozinha e preparou a janta.

“Está gostoso?”, me perguntou.

Um pouco nervoso com o cansativo dia de trabalho, nada disse, apenas afirmei com a cabeça.

“Quer mais?”

“Não, obrigado”, respondi.

Então saí. Deixei-a ali entre as louças sujas e a imundice que só vemos nas cozinhas de homens solteiros.

Ao acordar, parecia que eu estava em outra casa. Não via o lixo no meu quarto, ou as roupas espalhadas pelo carpete empoeirado. Não encontrei as latas de cervejas que completavam aniversário no canto da sala, ou a teia da aranha Priscila. É! Quando você não tem ninguém, acaba colocando nomes até em aranhas, e assim, pode conversar com elas mais facilmente.

“Cadê as minhas coisas?”, quis saber, um tanto exaltado.

Pela primeira vez, seus cílios gigantes agitaram-se instantaneamente, trêmulos, nervosos como asas prestes a alcançar voo.

“Eu guardei”, disse ela. “Lavei e passei suas roupas, costurei as rasgadas e fiz panos de chão com as peças velhas.”

“E... cadê todo o lixo?”

“Eu reciclei.”

“Reciclou o meu lixo?”

“Sim”, disse-me sorridente.

“Hm... tá bem. O café está pronto?”

“Sim, senhor”, respondeu ela com aquela sua voz potente e incrivelmente feminina.

“Tá.”

Surpreso, e angustiado, dirigi-me a cozinha. Nada de pratos sujos, nada de restos de molho no piso branco, nada das manchas de óleo no fogão. Ou Rosie era macumbeira, ou uma ajudante muito eficaz.

Ela afofou a cadeira para mim e pediu que eu sentasse ali. A sensação foi incrível! A cadeira não mais estava bamba!

“Ehr... Rosie”, lembro-me de ter dito, “por acaso você fez aquelas panquecas que tanto... tanto...”

Sequer consegui terminar a frase. À minha frente, panquecas fumegavam num prato decorado com rodelas de tomate e alface.

“Chá, suco ou café?”

Tossi.

“Suco, pode ser?”

“E quais são as opções?”, zombei.

“Pêra, uva, abacaxi, limão, acerola, guaraná, pêssego e manga. Desculpe-me se esqueci de comprar os outros sabores, mas é que, com o dinheiro que encontrei perdido nos vãos do sofá, era o máximo que pude comprar.”

“Não, não... Ehr, está ótimo! Pode pôr qualquer coisa.”

Ainda transtornado, fui trabalhar. Ser subgerente de banco é uma bosta. O salário não é lá essas coisas, afora que as oito horas que passamos ali são muito estressantes. Pelo menos com a grana que ajuntei nos últimos meses, consegui pagar Rosie.

E assim os dias foram se passando. Rosie, sempre muito calada, fazia tudo o que eu queria e aceitava tudo o que eu sugeria. Era muito melhor do que o Gildo, meu poodle que morreu há três anos atrás. Gildo bateu as botas por ter ingerido leite estragado, por esta razão, nunca mais deixei o leite azedar na geladeira, com medo de Rosie bebê-lo e também morrer. Eu tive medo de perdê-la, até sonhava com isso. Quem faria as massagens nos meus pés? Quem me levaria o café da manhã na cama? Quem aceitaria ouvir todas as minhas lamentações sem dizer absolutamente nada?

É... Rosie era a mulher perfeita!

Depois de um mês que ela apareceu em minha vida, percebi que estava amando-a, mas amando-a de verdade, um amor superior ao que sentia por Gildo e pelo dinheiro. Descobri isso no começo da semana, no momento em que eu comia a macarronada tradicional de domingo. Rosie lavava a louça, se mexia toda, o quadril indo de lado a lado. Aquilo mexeu comigo. Deixei até de mastigar para apreciar melhor aquela visão. Suas curvas à mostra na mini-saia justa, a camiseta pólo amarela combinando perfeitamente com a pele rosada... E o decote! Ah, o decote! Eu ficava imaginando o que encontraria se seguisse a linha...

“Precisa de algo, senhor?”, perguntou-me ela.

“Não, não”, respondi. Percebi meu rosto se enrubescendo, e ela também deve ter notado isso, pois sorriu timidamente.

“Estou cansada. Preciso carregar minhas energias.”

“Você quer que eu lhe ajude?”

“Não, senhor. Não é necessário.”

“Tá...”

“Quer mais alguma coisa, antes de se deitar?”

Sim, é claro que eu queria! Queria imensamente tê-la em meus braços, queria poder beijá-la e chamá-la de meu amor!

“Não, Rosie, obrigado. Pode descansar.”

Ela sorriu para mim mais uma vez. Eu retribui o sorriso e pronto.

Pronto.

Estávamos sozinhos, eu a minha macarrona, e logo, só sobrara eu.

Dois fios de lágrimas formaram-se no canto de meus olhos e desceu para meus lábios tristes. Estavam salgadas.

Deixei o prato sujo na mesa, engoli o choro e fui dormir.

Feriado de carnaval era sempre uma bosta. Pior ainda do que ser um bosta de subgerente de banco. Contudo, se existia uma coisa boa nisso tudo era poder ficar em casa durante três dias sem fazer nada, nada, nada! Segunda, terça e quarta sem fazer nada! Não precisava nem me levantar da cama. Poderia eu aproveitar Rosie durante estes dias!

Mas era feriado... Rosie merecia uma folga. Coitada, trabalhava tanto!

“Rosie, querida”, disse a ela, “você não precisa passar, lavar ou cozinhar durante o carnaval.”

“Por que?”

“Oras, você trabalha demais.”

“Mas é o seu direito.”

“Mas também é o seu direito.”

“Não me importo.”

“Não se importa?”, perguntou, os olhos se abrindo e se fechando milhões de vezes por segundo. “O que vai fazer, então?”

“Tire uma folga.”

“Folga? Para onde vou? Eu só tenho você!”

Olhei bem em seus olhos, levantei-me da cama e toquei em seus braços. Sua pele era macia, parecia borracha.

“Que bom!”, disse eu, muito sorridente.

Ela fechou os olhos, eu também fechei. Ela aproximou seus lábios dos meus, mas eu recuei.

“O quê?”, Rosie não entendia o que estava havendo.

“Não sei se devo, não sei se é permitido.”

“Ninguém vai saber.”

“Não?”

“Não.”

“Que bom!”

“É... que bom!”

“Eu te amo, Rosie.”

Rosie sorriu carinhosamente e me beijou.

No outro dia, acordei com Rosie caída no chão. Chamava por seu nome, mas ela não me ouvia. Será que caiu da cama? Será que se machucou?

Rapidamente, levei-a para a sala, pluguei uma ponta do fio na sua nuca, coloquei a outra ponta na tomada, apertei o seu nariz e pronto.

Pronto.

Rosie já sorria para mim novamente. Os olhos tão similares aos olhos d’um humano.

Sempre linda, ela pegou em minha mão e alargou ainda mais o seu sorriso.

Rosie, a mulher perfeita!

E pensar que eu a comprei numa liquidação! Última peça, pronta para ser recolhida das lojas por ser de uma versão ultrapassada. Gostei dela assim que a vi na vitrine entre os outros robôs. Guardei meu salário por três meses só para comprá-la!

“Quer alguma coisa?”, perguntou-me, como sempre.

“Sim, Rosie, eu quero.”

E então a beijei.

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