Olheiras
1 Capítulo único.
Notas iniciais
"Carlos não era só conhecido. Ele era idolatrado. Tocava piano como ninguém e, de fato, você não conseguia achar alguém com tamanho talento como o dele. Era um ícone e referência para os jovens da sua idade que ansiavam adentrar no mundo da orquestra. Seus pais, dois empresários já conhecidos por seus negócios afortunados e seu conservadorismo inegável, viam o filho com orgulho. Afinal, Carlos Guerra era um prodígio e..."
As chamas queimaram o papel fino do jornal. O adolescente soltou um suspiro pesado e foi até o banheiro que ficava de frente ao seu quarto; a torneira da pia fora aberta e a água ficou represada nas mãos em concha do garoto. Ele molhou o rosto como se quisesse se livrar de alguma coisa ruim. Ele vivia um pesadelo, sim. Tinha certeza disso. Olhou-se no espelho; as olheiras eram visíveis mesmo em sua pele escura. Seus lábios carnudos estavam feridos por conta do hábito que Carlos havia adquirido de mordê-los a todo momento. Mas mesmo com esses pequenos detalhes, qualquer pessoa que o olhasse certamente diria que ele estava bem, saudável e completamente feliz.
Riu de desgosto. Não haviam mentiras maiores que aquelas.
Há quantas noites Carlos não dormia? Sempre o mesmo sonho. Sempre o mesmo medo. Acordava no meio da madrugada suado e assustado, olhando para os lados certificando-se de que não havia ninguém ali. Quando ele notava sua completa solidão, levantava-se e ia até o piano. Lá ele poderia relaxar. Lá ele poderia ser ele mesmo. Lá só havia ele e sua mente bagunçada. Mas lá também havia seu objeto de maior desejo e maior temor.
Enquanto os dedos longos e finos de Carlos tocavam as teclas brancas e pretas com suavidade, seus pensamentos vagavam para um mundo completamente diferente do que ele se encontrava. Havia festa, dança, alegria, simplicidade. Mas acima de tudo, havia Benjamin. Esse nome causava arrepios em Carlos e não de um jeito ruim, mas sim de um jeito prazeroso. O garoto mordia os lábios em deleite enquanto a música ecoava em seus ouvidos e servia de trilha sonora para suas memórias. Enquanto os dedos longos e finos de Carlos passeavam pelas teclas, na sua imaginação era o corpo de Benjamin o seu instrumento. Tocava com maestria, com soberba e desejo. Tocava-o para poder ouvir a melodia que sairia de seus lábios, seus gemidos roucos e baixos, seus gritos agudos e eufóricos. Aquilo era melhor que qualquer canção de qualquer orquestra em que Carlos já havia sonhado em tocar. Mas quando a música acabava e o garoto voltava para realidade, o frio da noite lhe causava calafrios e o silêncio o assustava. Ele se lembrava de quem era, onde morava, quem eram seus pais e qual era a sua educação. O medo vinha sorrateiramente, só esperando o momento certo para explodir e causar pânico; Carlos sentia o estômago revirar quando pensava no que seu pai faria caso descobrisse o que ele havia feito naquele dia maravilhoso onde se apresentou para crianças pobres da favela de sua cidade, quando pensava que toda sua carreira e seu reconhecimento iriam por água a baixo caso sequer sonhassem que ele tinha se relacionado com um garoto pobre.
Permitia-se pensar nele constantemente. Não que pudesse controlar, de qualquer forma. Aventurava-se pelo menos uma vez na semana para se encontrar com o garoto, sempre com alguma desculpa para cima das perguntas curiosas de seus pais. Não conseguia conter o desejo. Sua líbido gritava por Benjamin. Mas ele estava ficando enlouquecido; desejava poder suprir de seu amante o máximo que podia, mas ao mesmo tempo tentava manter-se na linha esperada pelo Sr. e Sra. Guerra. Só que Carlos já não controlava mais seus atos e seus receios estavam dando lugar à irresponsabilidade. No fim, o que os dois grandes empresários pensariam ao saber que o filho era gay?
Mas é claro que aquela história não teria um final feliz. Numa das fugas do pianista, seu pai mandou que um de seus amigos mais confiáveis fosse atrás do filho, porque já estava começando achar estranho tantas saídas furtivas para o outro lado da cidade. Não precisou de um plano, esquema ou qualquer investigação mais profunda. Estava explícito o romance entre os dois garotos.
Naquele mesmo dia Benjamin se tornou estatística. Outro favelado morto e esquecido.
Carlos morreu de amor dias depois, quando tentou alçar voo pulando de uma ponte para se encontrar com Benjamin.
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