Olhe para mim
1 One-shot
Notas iniciais
Sentado diante de sua nova tese, digitando letra por letra no computador com monitor de tubo recém-comprado, ele podia ouvir sua esposa do outro lado, ninando a filha de 3 anos no berço. Ela cantava com uma voz tranquila que ele ternamente ignorava, pois já se tornara uma parte indissociável da sinfonia que seus dedos compunham enquanto apertava sem parar as teclas pequenas demais para eles.
Então, motivado por aquele sentimento de ausência que o vinha perseguindo desde a última vez em que estivera com seu avô, Jotaro abriu a gaveta e retirou aquela única foto que tinha com o velho e seus amigos.
Ele ainda se lembrava daqueles dias estranhos em que a adrenalina e a possibilidade de ser morto o perseguiam da mesma forma que uma sombra ao dono. Quando salvar a vida da sua mãe era tudo o que importava e ele era jovem e inconsequente e talvez silencioso demais. Às vezes, a vida nos cobra mais por tudo aquilo que deixa de ser dito e feito do que pelas falas e atitudes impensadas. Ele tinha cada vez mais certeza disso conforme o tempo passava.
Fechou os olhos e tentou lembrar do som da voz de cada um deles, seus amigos. O avô, que vivia gritando e era facilmente impressionado. Polnareff, com aquela voz aguda e o jeito afetado, sempre mais confiante do que deveria. Avdol, sorrindo sabiamente e encontrando a saída para uma situação difícil de forma lógica. E Kakyoin, que...
Ele afastou aquela lembrança durante alguns segundos, chocado por perceber que não se recordava da voz do seu melhor amigo, mas o tipo de choque falso e superficial que as pessoas fantasiam para si próprias em busca de consolo.
Yuki entrou no quarto e fitou a foto por cima de seu ombro antes que ele tornasse a guardá-la na gaveta, embaixo de alguns papéis amassados, em sua maioria guias de viagens — China, Irã, Egito… Ela não falou nada, pois sabia que ele nunca fora um tipo especialmente falante, muito menos quando forçado a isso.
“Acho que vou precisar levar Jolyne no médico amanhã, a garganta parece inflamada de novo.”, comentou, desejando que ele falasse algo, demonstrasse um pouco de preocupação talvez. Até mesmo um mísero “o que houve?” a deixaria contente, mas Jotaro apenas abanou a cabeça, assentindo.
“Tudo bem.”, foi tudo o que disse e Yuki suspirou enquanto apanhava sua camisola no armário e anunciava que ia tomar banho.
Não esperava que ele a acompanhasse — há quanto tempo Jotaro não chegava perto dela? Yuki calculava que havia pelo menos 4 meses desde a última vez em que tivera uma noite realmente boa com ele -, mas gostava de anunciar as coisas em voz alta de qualquer forma, como se assim fosse ser mais capaz de construir uma relação sólida com aquele homem mas sólido ainda.
Ele permaneceu parado, encarando a tela brilhante e pixelada do computador, pensando em como odiava cada palavra que havia escrito. Pensando em como odiava aquela maldita forma de comunicação; por que os seres humanos precisavam de algo tão esdrúxulo e ineficiente quanto vozes e palavras para se comunicar? Golfinhos não tinham esse problema. Eles simplesmente vibravam o que queriam comunicar e não havia necessidade de ler o que ficava guardado nas entrelinhas. A mensagem era positiva ou negativa, sim ou não, tudo muito fácil, muito simples. Por que acrescentar tantas entonações e olhares e expectativas ao processo?
Frustrado, seu punho atingiu o tampo da escrivaninha e fez chacoalhar a caneca roxa que ganhara de presente de dia dos pais de Jolyne; dois golfinhos pulavam de encontro um ao outro nela e ambos pareciam felizes.
“Você parece bravo”, comentou uma voz miúda e analítica à suas costas.
Jotaro virou na cadeira, encarando Jolyne, que vestia um pijama rosa com estampa de corações. Naquela época, o cabelo loiro dela ainda era curto, mal chegando ao queixo e qualquer tentativa de prendê-lo resultava em penteados mirabolantes mal finalizados.
“Você devia estar dormindo”, ele declarou com certa indiferença, mas levantando e apanhando-a no colo para levá-la novamente para o berço.
“Não estou com sono”, ela retrucou, fechando a cara e apertando sua cara, tentando convencê-lo a colocá-la de novo no chão. “Por que você estava fazendo ORA na mesa?”
“Eu não estava fazendo ORA na mesa…”
“Claro que estava, pai.”
Ele ainda achava graça nessa palavra. Seu próprio pai vivia viajando, então ele não tivera muita chance de pronunciá-la, mas, no final, era apenas isso — mais uma palavra de um vocabulário humano mediano de 30.000 palavras.
Jotaro deitou Jolyne no berço, mas ela logo tornou a levantar, alegando de novo que não queria dormir, o que o irritou. Pelo som do chuveiro caindo, Yuki ainda demoraria para terminar o banho e de repente aquilo o deixou mais irritado, mesmo sabendo que não deveria se sentir assim. Ela era sua filha, mas parte dele sentia-se ultrajado por ter de assumir alguma responsabilidade por ela. Como se algum dia ele fosse ter tanta habilidade quanto a esposa para tratar da filha, quando… Bom, quando ele mal podia se recordar de Kakyoin.
“Por que você não olha pra mim quando falo com você, papai?”, Jolyne questionou e sua voz era só um sussurro triste. Aquela pergunta o acertou com mais força do que qualquer surra que já tivesse tomado ao longo de sua vida e havia muitas que contar. “Você não gosta de mim?”
O silêncio dele a fez deitar no berço encolhida e começar a chorar. Jotaro estendeu a mão, mas de repente era como se a menina estivesse a centenas de quilômetros de distância e, como se seu corpo não passasse de um fantoche, ele se sentiu mergulhado no fundo do oceano, ouvindo a filha chorar de outro plano, outra dimensão, outro universo.
Não conseguia alcançá-la, por mais que tentasse.
Da mesma forma que não conseguira alcançar Kakyoin — e Kakyoin estava morto, não é?
Ele não podia se permitir alcançar Jolyne.
Como poderiam sequer esperar isso dele, afinal? Ele não podia olhar em seus olhos púrpuras — azul tão claro que se mistura ao sangue das veias, é o que eles falam — e não pensar nos olhos de Kakyoin.
Kakyoin, que acumulava informações inúteis da mesma forma que algumas pessoas se tornavam obsessivas por idols.
Kakyoin, que se sentava ao seu lado em silêncio e sempre deixava que a conversa fluísse no ritmo dele, não importava quanto tempo ele levasse para formar as palavras ou pensar nas expressões certas.
Kakyoin, que nunca iria crescer e talvez se formar na Julliard, que nunca poderia ter mais de dezessete anos como ele.
Como esperavam que ele seguisse em frente e amasse aquela criança, quando tudo o que via nos olhos dela era a lembrança eterna do seu fracasso em salvá-lo?
Porque em sua petulância, em sua eterna arrogância, dono do tempo, ele nunca fora realmente capaz de controlá-lo.
Mesmo que parasse o mundo por cem mil anos, não haveria como retornar para aquele dia há mais de 20 anos atrás e impedir que Dio levasse do mundo aquele que provavelmente fora o único capaz de alcançá-lo na ilha em que vivia isolado desde jovem.
Então Jotaro se afastou e retornou cambaleando pelo corredor até o quarto que dividia com Yuki. Quando alcançou a porta e avistou as costas da esposa, se recompôs, o rosto uma eterna máscara de indiferença e dureza, o porte altivo, a voz distante.
“Jolyne está chorando de novo, não sei o que ela quer, melhor você ir até lá”, ele diria e tornaria a se sentar na frente do computador, ignorando as reclamações da esposa sobre ele nunca ser capaz o suficiente para lidar com a filha deles.
E quando ficasse sozinho e ouvisse novamente a voz de Yuki a cantar para Jolyne, tentando acalmá-la, ele se permitiria chorar em absoluto silêncio, em parte pela chaga que a morte de seu amigo deixara em si e que nunca se fecharia, em parte por saber que nunca conseguiria se perdoar pela chaga que deixaria na própria filha, ainda que soubesse que era melhor dessa forma.
“Por que você não olha pra mim quando falo com você, papai?”, a pergunta dela ecoa em sua mente como a sentença final de um júri impiedosa.
“Porque meu coração não suporta a possibilidade de amar tanto uma pessoa e perdê-la, não de novo.”, seria a única defesa dele, para sempre.
Notas finais
Como sempre imaginei ele e Jotaro os melhores amigos da vida, não conseguia parar de pensar que a morte dele acabaria deixando sequelas e é isso aí.
Caso encontre algum erro ao longo da one, por gentileza, me avisem nos comentários. :)
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