Olhares do Amanhecer
4 Laços Distantes
Notas iniciais
Já disse que eu adorava as manhãs de sábado?
O amanhecer, por algum motivo muito discreto e silencioso, era mais feliz, quando o calendário dizia que o dia teria o nome de Sábado. Talvez tantas pessoas respirando com alívio transmitam a energia para a natureza, a cidade... tudo. Ela sorria mais no amanhecer, se embelezava mais... e dava bom-dia aos homens cansados. Afinal, eles mereciam. Ninguém disse que trabalhar era fácil.
Segurei uma xícara de leite, enquanto observava de uma janela diferente, observando folhas vistosas desabrochando pelos galhos. Já havia se passado uma semana, desde que eu tinha falado com ela. Eu até teria ido de novo... com certeza. Mas digamos que meus devaneios, por mais deliciosos que sejam... não atraíam muito meus patrões. Por isso, fui obrigado a deixar a questão da Visão Perfeita de lado, enquanto eu limpava o chão.
Pensavam que eu só escrevia matérias? Quando um patrão quer economizar dinheiro com limpeza, você aprende a ser multitarefas na hora.
De qualquer maneira, não era dia para eu vê-la, ou sequer encontrá-la. O sábado sempre fora um mistério para mim, quanto a ela. Eu não a via ir a lugar algum... e nem pela vizinhança. Ou ficava em sua própria casa... ou talvez pegava a saída de cima, para a cidade. Mesmo que aquela demorasse vários minutos para se chegar em algum lugar útil.
Mesmo assim, continuei a observando. Meus olhos, ocultos pela falta de atenção à uma das muitas janelas da rua... ficavam sempre encantados com aqueles tons de beleza. E, depois que eu tinha falado com ela... não sei. Tinha ficado ainda melhor, ainda mais bonita. Era isso porque eu a conhecia, além de visões roubadas de janelas e sacadas? Ou talvez porque eu estava me deixando tomar por aquele sentimento?
Não acho que eu deveria ficar fanático por ela, por mais que eu gostasse. Por justa causa, meu olhar caiu para uma foto.
Mamãe... fazia tempo que eu não a via. Ela tinha se mudado para Cabo Frio, logo após eu ter entrado na faculdade. Questões de família, algo tenso. Quando o câncer atingiu titia... minha mãe simplesmente não pôde continuar na capital do estado. E todos respeitamos a decisão dela. Eu até teria ido junto, mas... precisava terminar os estudos, bem como firmar minha independência.
Mas... ainda sim, senti um pesar. As vezes, eu me arrependia de não ter ido junto, assim que eu saí da faculdade. Não que eu queira morar com minha mãe, mas... ter ela próxima. Como companheira, como amiga. Ela sempre tinha me ajudado nos momentos difíceis da escola... e olhem que não foram poucos. Escrever coisas tem lá seus "defeitos" de acordo com certas pessoas.
Peguei a foto, analisando-a. Era de família. Eu ainda tinha uns 14 anos, na época, e mamãe segurava um pé de manga, que estávamos prestes a plantar no jardim de casa. Me deixei sorrir, calorosamente. Eu adorei aquele dia, adorei ter feito aquilo com ela. Mamãe adorava jardinagem, e cultivava seu jardim com gosto de ferro. Ainda mais potente do que o da minha visinha, para terem alguma noção.
Virei o retrato, retirando a foto dele. Era uma daquelas fotos, nas épocas em que filmes ainda eram usados pra se tirar uma foto. E eu tinha o costume de anotar informações atrás da foto. E, logo que eu a retirei do porta-retrato... vejo um texto.
Para meu filho do coração
Aniversário da mamãe — 26/02/2006
Quase deixei a foto cair, quando li aquilo. Estávamos no dia 21, então...
Mamãe ia fazer aniversário!
Aquilo meio que me foi um abalo. Não acredito que tinha me esquecido dessa data! Estava eu tão perto... e tinha me esquecido. Dali a 5 dias, mamãe estaria fazendo aniversário. Estava cada vez mais perto dos 60 e... eu nem estava perto para ver isso.
Me deixei cair numa cadeira próxima. Tanto tempo... nem parece que passou tanto. Os anos que eu tinha passado na capital... pareceram ter sido o que? Meses, semanas? Parecia que foi ontem que o evento da foto aconteceu, que eu tinha plantado aquele pé de manga, ansioso para desfrutar de um futuro fruto, que dela viria a nascer. Eu e minha mãe fazíamos coisas assim juntos, sempre alegres...
E cá estou-me. Avanço pelos vinte e tantos anos, e minha mãe já se aproxima da idade avançada. Tinha passado tanto tempo assim? Os frutos da infância e da família deram lugar a chefes chatos, cafés e uma distância assim tão cruel? O que a vida tinha feito conosco?
E mais... o que eu ia fazer?
Eu adorava minha mãe, por mais longe que ela estivesse. E, com o aniversário dela logo aí... não sei. Eu queria fazer alguma coisa. Eu queria... queria poder estar lá. Queria poder abraçá-la, com todas as forças e emoções que eu tinha guardado, por tantos e tantos anos. Tudo acumulado e despejado, em um único e forte abraço.
Mas... será que eu podia? Será que eu sequer... deveria?
De repente, meus dedos se viram procurando um número pelas gavetas. Eu deveria ter guardado em algum lugar... mas onde? Dei um sorriso de satisfação, quando o encontrei debaixo de meu notebook. Porque raios eu o teria deixado ali?
Liguei para ela no mesmo instante, pondo o celular em ouvidos. E, quando aquela voz atendeu... uma chama interna se acendeu.
–Alô?
–Oi?
–Quem é?
–Mãe, não se lembra mais de mim?
Uma exclamação de surpresa e felicidade veio do outro lado, me fazendo rir. Eu já esperava por essa.
–Filho! Que bom você ligar!
–Também estou feliz, mãe.
–E aí! Tudo bom com você aí no Rio?
–Claro, mãe!
Após trocarmos os assuntos banais de sempre (Que todos já devem saber, por experiência própria), enfim vou à pergunta que estava me aguardando.
–Ei, mãe... descobri que vai fazer aniversário semana que vem, hein!
–Oh, você lembrou! Mas vou sim. Quem diria que os 57 iam chegar tão rápido?
–Mas, pra mim, você ainda é minha mãezona de 40.
–E você ainda é meu menininho de 5 anos.
–Sempre serei. Enfim... vai fazer alguma coisa? Almoço... festa?
–Ah... eu não tava pensando em alguma coisa, sinceramente. Não tem tanta gente por aqui, entende?
–Sim. Mas, bem... mesmo assim, eu queria ir passar uns dias aí.
Nem precisava de uma webcan... pra saber que a felicidade dela só aumentou naquele momento. E a minha também.
–Que bom, filho! Faz tanto tempo que não te vejo!
–Sim! Eu queria... sei lá. Pegar um quarto de hotel, e ficar uma semana aí em Cabo Frio. Com você e a tia.
–Ela ia adorar. Faz anos que não vê o petecucho dela.
–Nhé, vou adorar ver ela também.
–Quando você vem então?
–Eu ainda preciso checar isso. Hotel e tudo mais. Posso te ligar de noite? Aí a gente oficializa tudo.
–Tudo bem, filho. Estou esperando!
–Okay. Até mais... e feliz aniversário!
–Espere para me desejar isso na hora. Tchau, pequenino!
Desliguei o telefone, com um riso em face. Fazia eras que eu não era mais pequenino. Mas, no fundo do coração... e naquela ocasião... eu sempre me sentirei uma pequena criança.
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