Olhares do Amanhecer
1 Flores da Manhã
Notas iniciais
Primeiro capítulo do Desafio, feita com base na música do terceiro dia (Every Breath You Take, The Police). Espero que aproveitem... tanto quanto eu a aproveitei.
Boa leitura.
Meus olhos bocejaram, ao passo que o sol levemente tocava as pontas de minhas bochechas. Tão tímido ele era, que mal conseguia ultrapassar direito os vãos, abertos pela madeira da minha janela. Seus feixes lançavam uma luminosidade plácida ao meu pequeno quarto, tão abarrotado de coisas quanto eu estava na minha cama. Bem... pelo menos até o feixe bater bem no meu olho.
Luz tímida, mas ainda tinha a mira mais perfeita de todas. Irritante, não?
Bocejei de verdade, esticando meus braços para o teto, como se estivesse saudando o novo dia... ou apenas espantando o sono. É, talvez essa opção fosse a mais provável. Afinal, não havia motivos para saudar um novo...
Quando olhei para o relógio, quase tive um ataque cardíaco. Eu tinha perdido hora!
Meu lençol voou pelo ar, logo antes de meus pés já atravessarem a madeira, em busca do chuveiro mais próximo que eu poderia encontrar. Talvez mamãe não ia gostar desse meu "tratamento com as coisas de casa". Mas eu nem me importei. Alias... nem queria me importar.
Havia outra coisa para se importar.
A ducha foi rápida, gélida. Do jeito que eu gostava de começar um dia... apesar de ainda achar terrível entrar debaixo de um chuveiro daqueles. Mas não dei tempo a mim mesmo para reclamar de uma água glacial, pois já estava eu coando um café. As calças foram rápidas de se vestir, e a camisa branca... botões. Botões são tão desagradáveis quanto um zíper emperrado, por mais elegantes que sejam. Comentários a parte, apesar de tudo.
Mas... eu não peguei a gravata. Não ainda. Delicadamente, abro o lacre da minha janela de madeira, que impedia que a luz fina do dia chegasse à minha minúscula sala de estar. O deslizar dela pela madeira produz aquele som característico, que chegava até a ser agradável. E esse som me levou ao lado de fora.
O dia, lindo como qualquer outro carioca, havia acabado de brotar das terras férteis, com suas folhas graciosas brotando pouco a pouco, revelando sua beleza ao mundo. Nesse caso, na forma de uma rua antiga, com casas de mesma idade pontilhadas por árvores grandes e belas, que lançavam seu verde pelas folhas largas e leves, oscilando graciosamente pelo vento fresco da manhã. O sol já lançava sua luz por tudo, e a vida seguia seu ritmo. A padaria já lançava o aroma dos pães fresquinhos no ar, que já logo serviriam para meu café da manhã. Dona Inácia já estava mexendo em seu pequeno jardim, que cultivava como se fosse seu prêmio, sua preciosidade.
E, curiosamente... eu estava pensando nisso, quando algo me chamou a atenção na rua.
E era ela.
Foi como se, por mero toque de mágica, uma estrela tivesse decidido descer do céu noturno, e apreciar a natureza da antiga rua. Uma estrela, porém, feita de braços, de pernas... e de alma. Sandálias de uma cor marrom clara batiam pelo asfalto, produzindo um sonzinho típico, mas... gracioso. O vestido, da cor do sol em seus dias mais amarelados, pintavam pelo tecido em flores de tal cor, banhadas por um estranho azul claro, como se os raios de sol estivessem atingindo as flores, e banhando com essa reflexão os céus do mundo todo.
Os cabelos... talvez fossem a melhor parte do espetáculo divino. O negro deles parecia dançar pelo ar fresco, ondulando em cada partícula de oxigênio e nitrogênio que poderia haver naquele espaço, tornando-as especiais... pelo simples fator de terem tocado naquele cabelo liso e longo. A pele era de um branco, mas não daqueles que se dizem imaculados, ou do belo negro. Mas um branco bronzeado, em levezas nada exageradas, pelas pinceladas que o sol dava naquela flor de beleza.
Mas... tudo perdia, se eu olhar naqueles olhos. Olhos de um azul tão belo, tão incrível... que o infinito parecia simplesmente ter inveja, de toda a beleza que existia naquela porção de azul claro, tão celestial quanto o céu do Éden. E aquele sorriso... que simplesmente parecia combinar com tudo o que havia na Terra. E ela desfilava pela rua, dando bom dia para Dona Inácia, que respondia tão alegremente quanto suas flores, que também pareciam desabrochar, para aquela rainha das flores, que descia a rua naquele instante. Sua graça parecia ter despertado até o canto dos pássaros, que até aquele instante se limitava a um ou dois cantos. Mas, agora... lá estavam eles. Os Bem-Te-Vis gritavam a glória da musa, assim como os pardais, ao se enrolarem pelas leves correntes de ar matinais. Tudo parecia simplesmente mais belo com ela...
Até meu coração.
Ele batia de um jeito mais forte... mas me fazia sentir-me mais leve. Apoiei minha cabeça nas mãos, com os cotovelos na base de madeira da janela. Eu parecia simplesmente entorpecido pela visão. Visão bela e eterna, visão que emanava graça e beleza de todos os ângulos possíveis, de todas as formas existentes, que nem mesmo os livros de ciência conseguiam reproduzir. Não... nada iria conseguir reproduzir o que meus olhos estavam captando. Aquilo era, simplesmente... divino. Uma beleza divina, uma simpatia que nem as flores resistiam.
Silencioso, a vi passar pela rua, no seu trajeto diário até a padaria. Fazia isso todos os dias, todas as manhãs antes de ir para seu trabalho, onde ficava até 7 da noite. E voltava para casa no ônibus, que atracava na rua de baixo. E ela subia aquela rua com a mesma felicidade. E a mesma e eterna luz, que nunca parecia se apagar. Nem na aparência externa... e nem na interna.
Os mais nobres não diriam isso de mim. Nunca havia conversado com ela... desde o primeiro dia que a vi descendo pela rua, no último Novembro. Desde lá... eu a venho observando. Todos os dias ela faz a mesma coisa, e todos os dias eu acordava mais cedo... apenas para vê-la descer a rua. Porque, quando isso rolava... eu simplesmente esquecia que tinha que aguentar o saco do editor naquela sala lotada de gente. Simplesmente esquecia de ter chutado a ponta do armário, na trajetória até ali. Simplesmente... esquecia de tudo. Porque aquela visão me fazia esquecer de tudo. Me fazia voar, sonhar... e...
...Amar?
A vi sumir dentro da padaria, suspirando em tristeza. Havia sido tão curto naquele dia... tão rápido, tão raso. Mas, mesmo assim... eu conseguia sentir todo o sabor da fruta. Todo o doce, todo o prazer... todo aquele sentimento quente, que se sente no peito. Todas as vezes era curto... e todas as vezes eu me entristecia. Pelo simples fato de não poder fazer alguma coisa a mais... além de observar.
O coador logo deixou o aroma do café vazar pelo ar, e nem demorou para minha caneca se encher. Terminei de abotoar o último e insensato botão, e logo beberiquei o café. Quente demais... como sempre. Talvez eu devesse diminuir um pouco o tempo que eu deixava a água ferver... ou não? Eu perderia a visão da mulher... se eu fizesse aquilo? Eu havia passado a cometer esse pequeno defeito diário, pois... simplesmente esse "defeito" não era nada, se comparado ao imenso prazer que sentia toda a manhã. Um imenso prazer... como se meu coração estivesse vibrando de alegria, sempre àquela hora da manhã.
Suspirei, enquanto esperava a moça sair da padaria, para eu comprar meu pão. Encontrar ela? Não era algo que eu gostaria de fazer. Eu era apenas um admirador, um admirador extremamente admirado por uma beleza sem fim, que vivia a algumas casas acima da minha. Como ela poderia sequer olhar um cara como eu, que nem o quarto sabia arrumar? Ela olharia alguém quem nem sequer tem coragem de pedir um aumento para o chefe, quanto menos dizer oi para ela?
Ela... olharia...?
Abanei a cabeça, terminando o café em bons e curtos goles. Ainda tinha que lavar a xícara, antes de me enforcar com gravatas e com papos chatos de escritório. Ia ser um dia tão longo quanto chato, possivelmente.
Mas... mesmo assim... arranjei motivos para pegar a gravata na gaveta, e vesti-la. Motivos para pentear o cabelo com água de torneira, e pente comprado de vendedor ambulante de praia. Motivos para pegar a pasta, com coisas atrasadas para entregar por piedade, em troca de um cheque escrito com rapidez e impaciência, todo fim de mês. Motivos para ir na padaria, comer o pão e pegar logo o ônibus, lotado àquelas horas. Porque... mesmo que o dia fosse o mais desagradável de todos, na face do Universo... eu tinha motivos para sorrir.
Porque sabia que, no dia seguinte... ela estaria lá. E eu também.
Notas finais
Até amanhã.
Fale com o autor