Olhares cruzados
3 Tudo volta ao seu devido lugar
Notas iniciais
Bran
Bran quando soube que não poderia mais andar ficou inconsolável. Queria apenas chorar. O que mais o machucava era saber que isso ocorreu por causa da sua casa na árvore. Uma das coisas que ele mais amava e em um dia que era para ser especial. O dia da comemoração pelo nascimento de seu pequeno primo Benny e do reencontro com Shireen.
Ele estava tão ferido com tudo que se recusou a receber qualquer visita que fosse. Nem seus irmãos ou tios quis ver. No tempo em que ficou sozinho ficou pensando em toda sua vida antes da queda e em como nada seria como antes. Em um dado momento se pegou pensando, sem saber ao certo o porque, em Shireen. Ele desejou ver a menina. Pensava que talvez ela fosse a única que realmente o entendesse. A cicatriz do rosto dela a torna semelhante a ele em sua atuação situação. Ela entendia como era se sentir diferente dos outros. Ela entendia como era as pessoas olharem diferente ou com pena por causa da sua condição. Era a única que podia o entender.
Seu desejo foi atendido no seu segundo dia de internação. Shireen foi o visitar com uma cara muito triste. A primeira coisa que disse foi:
– Me desculpe… Foi tudo minha culpa.
– Como assim? Você não tem culpa de nada.
–Tenho sim. Por minha culpa você subiu por último.- falou Shireen e Bran reparou que uma lágrima escorria por seu rosto. Do lado em que ela tinha a cicatriz.
– Não se culpe. Não foi sua culpa...
No tempo em que ficou sozinho Bran tentou procurar vários culpados. Culpou seu pai e Robert por terem tido a ideia da comemoração, culpou sua tia Lyanna por ter concordado e até seu pequeno primo Benny por ter nascido. E não parou por aí. Em alguns momentos culpou Robb por ter tido a ideia da casa da árvore e até ele mesmo por ter tido a vontade de a mostrar a todos. Mas em nenhum momento ele culpou Shireen.
–Não chore, por favor.- falou ele para a menina que ainda chorava mais também para ele mesmo que sofria
Shireen ainda ficou um tempo com ele. Conversando inicialmente sobre coisas sem muita importância, mas depois eles entraram em assuntos mais profundos e Bran conseguiu falar de toda dor que sentia.
–Eu entendo como se sente. Eu me sinto assim o tempo todo, toda vez que me olho no espelho, mas você não pode desistir. — falou Shireen após o ouvir Bran dizer que tinha vontade de desistir e que tinha medo do que as pessoas falariam na escola — Tem que tentar se adaptar a sua nova condição. Além disso acho que ela pode ser revestida. Um dia você poderá voltar a andar. Não estamos mais na idade média, a medicina avança a cada dia mais.
As palavras de Shireen lhe encheu de esperanças. Mesmo sabendo que a parte final sobre ele poder voltar a andar foi dita somente para o animar, mas mesmo sabendo disso ele se sentiu melhor. Realmente a visita dela lhe fez bem.
Perto do fim da conversa a menina falou sobre como iria embora da cidade em breve. Bran ficou triste ao saber disso.
– Quando irei lhe ver de novo?- perguntou Bran no momento da despedida
–Não sei. Mas tenho certeza que nossos caminhos vão se cruzar novamente. — falou Shireen, mas depois abaixou os olhos triste — Apesar de ser meio difícil por causa de meu pai… Mas até lá podemos nos falar pelas redes sociais.
Bran concordou. Enquanto Shireen passava seus contatos Bran sentia que um sentimento bom havia nascido em seu coração em meio a onda de amargura em que se encontrava. Não esperava a hora de ver a menina novamente.
*
Depois da visita de Shireen o menino se sentiu melhor e resolveu receber seus familiares. Todos ao entrarem mostravam uma cara abatida e de preocupação. A que parecia pior era sua tia Lyanna. A mulher estava com uma cara de profunda tristeza e culpa. Bran sabia que sua tia se sentia muito culpada por tudo que ocorreu com ele. Isso se confirmou quando ela disse:
–Eu sinto muito…- com os olhos cheios de lágrimas.
–Eu também sinto… — falou Robb com uma cara igualmente triste- Foi minha ideia a casa na árvore.
–Não foi culpa da senhora e nem de você Robb.- falou Bran e depois olhou para seu pai que chorava um pouco. O menino se espantou pois seu pai nunca chorava. Pelo jeito ele ia dizer a mesma coisa que sua tia e irmão, por isso Bran aproveitou e disse — A culpa não é de ninguém. Não se culpem…
Bran falou aquilo porque sabia que enquanto existisse a culpa seria impossível que as coisas voltassem ao normal, ou pelo menos, melhorassem.
Jaime
Enquanto andava pelo seu apartamento Jaime apenas conseguia pensar em como a queda do menino havia estragado qualquer chance de paz entre os Lannisters e os Starks. Principalmente porque tinham boatos que diziam que sua irmã Cersei teve participação na queda do menino. Jaime sabia porque falam isso. Eles falavam porque minutos antes de Bran cair sua irmã chamou seu filho Tommen para perto de si. Como se soubesse que tinha algo de errado com a escada.
Pelo que conhecia da irmã era bem capaz dela fazer isso e coisas muito piores, mas dessa vez ele achava que ela não tinha nada a ver com o que ocorreu. Principalmente porque em nenhum momento ele a viu se aproximar da maldita casa na árvore. Sua irmã se manteve ocupada o tempo todo menosprezando com o olhar Lyanna e seu pequeno Benny.
Ao pensar em Lyanna e no filho o homem automaticamente lembrou da conversa que teve com a mulher na festa. Sobre a paternidade de seu filho mais velho. O que ocorreu na festa não acabou somente com as chances de paz entre as duas famílias, mas acabou também com as suas chances de saber quem era o pai de Jon. Ele não teria coragem de tocar no assunto tão cedo, depois do que ocorreu. Na verdade ele não sabia se ainda tinha alguma chance com Lyanna depois de tudo.
Ele ainda estava pensando nisso quando um barulho na porta se fez ouvir. Por alguns segundos teve esperança de que fosse Lyanna. Mas ao abrir a porta viu que era seu irmão anão Tyrion.
Fazia certo tempo que não via Tyrion. Seu irmão estava se mantendo afastado, por algum motivo, dos eventos da família . No início Jaime achou que fosse por causa do constante desprezo por parte de Cersei e do pai, mas depois começou a pensar que fosse algo a mais, pois seu irmão depois de tantos anos de desprezo havia criado uma armadura contra a irmã e o pai. Por causa disso ele passou a achar que seu irmão estava envolvido com coisas que eles não sabiam. Essa suspeita se confirmou quando Jaime perguntou sobre a pasta com papéis que Tyrion segurava.
–Esses papéis são algumas das provas que porão um fim a guerra entre a nossa família e os Stark. — disse Tyrion e depois com um sorriso completou- Podemos falar sobre isso aqui fora, mas eu ficaria mais confortável dentro de seu apartamento.
Jaime estava tão perdido em seus pensamentos que somente quando Tyrion disse isso reparou que não havia o convidado a entrar. Ele logo fez isso.
Uma vez dentro Tyrion começou a falar sobre tudo que havia descoberto e sobre como a tensão que existia entre as famílias chagaria ao fim logo. Assim como a prisão injusta de Jon Arryn.
Ele continuou falando que o responsável pela prisão armada de Jon Arryn não foram os Lannisters e nem os Starks, o verdadeiro responsável foi um funcionário de alta confiança. Um tesoureiro chamado Petyr, apelidado de Mindinho. Que fez tudo que fez para que pudesse usar o caos da tensão entre as famílias como escada para subir. Mas a investigação de Tyrion jogou os planos dele por terra.
– Como você sabe de tudo isso?- disse Jaime surpreso após ouvir tudo
–Bem, eu investiguei. Enquanto você estava ocupado plantando um pequeno leão na sua loba e nossa querida Cersei estava sendo a Cersei, eu estava tentando por um fim nessa guerra fria antes que fosse tarde para todos.- disse Tyrion e depois completou com o sorriso irônico que sempre tinha ao falar de Cersei- Pode ser que talvez ainda tenha uma pequena tensão por causa das desconfianças em cima de nossa querida irmã. As desconfianças de que ela teve algo a ver com a queda do menino…Mas tenho certeza que o tempo vai colocar tudo em seu devido lugar.
*
Seu irmão Tyrion tinha razão, com o tempo tudo voltou ao seu devido lugar. Jon Arryn foi solto e Mindinho foi para a prisão por tudo que fez. A tensão entre os Lannisters e os Starks foi atenuada e eles trabalhavam em relativa paz na empresa. Mas Jaime sabia que ainda existia uma pequena tensão. A dúvida sobre Cersei ter tido algo a ver com a queda de Bran ainda pairava pelo ar e nos pensamentos dos Stark. Jaime achava que essa questão ficaria para sempre no ar. Mesmo que não tivessem provas.
Seu relacionamento com Lyanna estava relativamente bem. Apesar dos olhares de desprezo de Cersei para Lyanna e dos olhares de igual desprezo dos irmãos de Lyanna para Jaime. Mas esses olhares sempre existiriam assim como a dúvida sobre o que realmente havia por trás da queda de Bran. Ele e Lyanna não se importavam com isso.
Depois que Benny fez dois meses eles passaram a morar juntos. Como uma família. O filho de Lyanna, Jon, também morava com eles.
Jaime ainda não sabia quem era o pai do garoto. Foram tantas mudanças em pouco tempo que ele não havia tocado na questão novamente com Lyanna. Nem precisou perguntar, pois a resposta veio em um dia normal. Um fim de semana em que estavam em casa somente ele, Lyanna e o pequeno bebê. Jon estava na casa da namorada. Uma menina chamada Ygritte.
Lyanna estava deitada de barriga para cima no sofá. Com uma roupa leve por causa do calor e com Benny deitado em sua barriga. Jaime ficou alguns minutos admirando a bela mulher até que se aproximou se sentou no chão, perto deles.
–Quero lhe contar uma coisa… — disse Lyanna se sentando e carregando Benny no colo — E sobre o pai do Jon…
Ele não disse nada e esperou que ela continuasse.
–O pai dele é o cantor Rhaegar Targaryen.
Jaime não soube esconder a surpresa. Ele nunca imaginou que Jon fosse filho de Rhaegar, principalmente por ele não ter nenhum traço do homem. Não tinha os sobrenaturais olhos violetas ou os cabelos loiros prateados. O garoto era a cara de Lyanna.
Lyanna continuou falando e contou toda a história por trás do nascimento de Jon. Falou de como tudo ocorreu quando ela tinha apenas dezenove anos e era uma grande fã de Rhaegar.
–Naquela época eu era apaixonada tanto pela voz como pela aparência dele. Eu amava ver ele tocar e sempre ia no show dele. Foi em um desses shows que tudo ocorreu. Lembro de tudo e ainda me machuca as lembranças… Apesar de tudo machuca.
Quando Lyanna continuou falando ele logo soube porque as lembranças a machucavam. Ela havia se apaixonado verdadeiramente pelo Targaryen, mas ele não a amou de verdade. Os dois passaram algumas noites juntos. O que para Rhaegar foi uma grande aventura, para Lyanna era visto como amor. No fim Rhaegar voltou para a sua mulher Elia e nunca mais teve contato com Lyanna. Ele até tentou, porém Lyanna não respondia. Ela ficou profundamente machucada por ter reparado que sempre seria a outra na vida do Targaryen e seu orgulho não permitia que ela ficasse nessa posição.
Nem mesmo quando Jon nasceu ela voltou a se falar com Rhaegar.
–O Jon já sabe?
–Não sabe. No momento certo vou contar. Da mesma forma que contei para você.
Ficou um silêncio entre os dois. Jaime aproveitou o silêncio e deu um leve beijo nos lábios de Lyanna. A loba logo retribuiu o beijo. No momento daquele beijo Jaime se lembrou do que seu irmão Tyrion havia dito. Sobre o tempo colocar tudo no lugar certo. Era realmente verdade. Com o tempo todas as coisas se encaixam.
Bran
Bran ainda sofria por não poder andar novamente, mas tinha a esperança que um dia voltaria a andar. A medicina estava avançando a cada dia mais e a fisioterapia estava o ajudando muito. Ele estava começando a sentir um leve formigamento nas pernas.
Com o apoio da família ele conseguiu voltar para a escola e concluir o ano letivo normalmente. A sua festa de fim de ano se aproximava e ele estava feliz porque Shireen viria lhe ver nesse dia tão especial.
Ele sempre seria grato pelas palavras da menina naquele dia no hospital. Foi por causa daquelas palavras que ele seguiu em frente.
Os dois conversaram muito pelas redes sociais durante o tempo distantes. Falaram sobre as mudanças na vida de ambos e as dificuldades que enfrentavam. A menina o entendia melhor que ninguém.
No dia em que se viram novamente Bran ficou admirado. Podia ser os seus olhos, mas Shireen estava mais bonita do que ele lembrava. A cicatriz em seu rosto parecia até menor. Ela estava linda em um vestido azul como a cor de seus belos olhos. Seu sorriso parecia mais bonito também. No momento em que a viu Bran se lembrou do dia em que a viu pela primeira vez e agradeceu por seus caminhos terem se cruzado.
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