Notas iniciais
Boa leitura!

Assustado, foi assim que o mago levantou-se. Abriu os olhos e piscou diversas vezes, acostumando-se com a claridade que entrava pela janela. O lugar onde estava tinha as paredes brancas. Estava deitada em uma maca e um cobertor cobria seu corpo.

A porta foi aberta sem cerimônias e por ela passou Lucy de cabeça baixa.

— Lucy?

— Gray! Graças a Deus, você acordou. Como se sente?

— Hã? Bem! Por que estou aqui?

— Você não apareceu na guilda, sendo que vem todo dia. Então invadimos sua casa e te encontramos dormindo, mas você não acordou...

— Eu? Dormindo? — perguntou surpreso. — Foi tudo um sonho?

— Sonho?

— Sim, eu tive um sonho estranho, mas nada para se preocupar.

— Entendi...

O silêncio reinou no quarto. Lucy sentou em uma cadeira que tinha ao lado da cama e ficou olhando para o nada, pensativa. Gray a olhou e reparou em sua expressão.

A testa franzida, o olhar perdido, as bochechas cheias de ar e um bico em sua boca. Com certeza ela estava tentando imaginar o tipo de sonho que ele tinha tido e o que isso tinha a ver com o fato dele dormir dois dias sem acordar.

Lucy era inteligente, ele sabia que dizer para ela não se preocupar, causava o efeito contrário.

Os dois ficaram alguns minutos, ela olha do para o nada e ele a observando. Gray quase pulou da mesa e comemorou quando se deu conta de que ninguém apareceu e o pegou o flagra dessa vez.

Às vezes sentia-se um stalker, mas ele apenas ficava atento as suas expressões e ações, nunca teria coragem de a seguir para os cantos e nunca fez isso. O ato de observar era automático, quando percebia já estava com toda sua atenção voltada para a loira.

Lucy sentiu-se observada e virou o rosto, encontrando os olhos negros vidrados nela, mas não disse nada. Apenas o observou de volta, algo a incomodava sobre Gray e ela estava disposta a descobrir o que era.

Quando o encontraram, ele estava dormindo como normalmente faz, porém o fato dele não acordar a assustou. Não era muito comum alguém dormir e não acordar mais, Polyusica disse que podia ser ou cansaço, ou alguma magia, como ele não fez nenhuma missão nos últimos dias, só podia ser magia.

Olhando mais atentamente, Lucy procurou algo que pudesse confirmar essa teoria e, por incrível que pareça, encontrou.

— Gray...

— O que foi? — perguntou, saindo de seu transe.

— Fica parado — pediu, levantando da cadeira e se aproximando.

— Oe, Lucy — corou com a aproximação.

Lucy não deu atenção, apenas inclinou o suficiente e segurou o rosto do moreno, que estava em choque. A loira puxou delicadamente o rosto dele em sua direção e olhou para o cabelo do moreno.

Preso no meio dos fios pretos, um besouro, já sem vida, refletia a luz que estrava pela janela. A maga tomou coragem e puxou o pequeno inseto com cuidado, tirando ele do cabelo e colocando em cima de uma folha de papel.

— Eu nunca vi um besouro prata — disse admirada.

— Isso estava na minha cabeça?

— Sim, olha — aproximou o papel do rosto do moreno.

— Eu nunca vi um inseto assim...

— Eu também não...

— Esse é um Besouro Colorido, são encontrados na cidade de Luzmia — Polyusica entrou na sala e observou o pequeno inseto, pegou o papel das mãos da loira e balançou a cabeça. — Com certeza é um Besouro Colorido.

— Luz... mia? — Gray arregalou os olhos.

— Você conhece essa cidade, Gray? — Lucy o olhou desconfiada.

— Eu já ouvi falar, mas nunca fui lá — deu de ombros, fingindo que não era importante, mas sua cabeça já bolava um jeito de ir para lá sem ninguém o seguir.

— Hum? Como se sente? — perguntou a rosada.

— Bem.

— Bem? Odeio humanos e suas mentiras. Uma pessoa que fica dois dias desacordada não pode estar bem.

— Mas...

— Mas nada, você vai ficar de repouso querendo ou não — disse séria. — E você — apontou para a loira que ficou estática na mesma hora.

— Sim, senhora...

— Fique de olho nesse rapaz, se ele for igual aquele Dragon Slayer, vai tentar fugir. Espero encontrar os dois aqui quando voltar, ou vocês não vão gostar do que vai acontecer — ameaçou.

— Pode deixar — Lucy fez continência, vendo a rosada saindo do quarto. — Ela parece mais assustadora que o normal.

— Concordo...

—— // ——

— Makarov — Polyusica entrou na sala do Mestre sem sequer bater. — Olha isso — colocou o papel com o besouro em cima da mesa.

— Hum? Esse não é um... ?

— Sim.

— Onde você achou ele?

— Gray acordou, Lucy achou na cabeça dele.

— O quê? — o velhinho arregalou os olhos. — Não é possível, Gray não saiu da cidade nesses últimos dias. Impossível ele ter ido para Luzmia.

— Bem, ele ficou bem surpreso quando eu disse o nome da cidade.

— Você acha que ele está escondendo algo?

— Provavelmente sim. E ele vai querer ir para lá, tenho certeza!

— ... É impossível mantê-lo preso, mas não posso deixar que ele vá para lá.

— Vou investigar esse besouro para ver se encontro algo, apenas espero que ele não tenha injetado seu veneno, caso contrário aquele garoto estará com problemas...

—— // ——

Gray ficou mais uma semana na enfermaria, por livre e espontânea pressão.

Tentou escapar assim que a loira saiu do quarto para buscar algo para ele comer, mas era óbvio que ela não o deixaria sozinho. Bastou sair pela porta que deu de cara com Erza. Não precisou nem que ela falasse, ele apenas voltou para o quarto e fingiu que nada aconteceu.

O moreno queria investigar sobre Luzmia, aquele besouro não podia ser apenas uma simples coincidência. O sonho tinha sido muito real para ele não acreditar. Sairia daquela enfermaria na primeira oportunidade e iria para Luzmia sem pensar duas vezes.

Sozinho no quarto, ele tentou pensar em uma rota de fuga. A porta era vigiada pela ruiva, a janela era uma boa opção, mas constantemente ele via Happy sobrevoando e olhando para dentro. Com certeza mandaram o exceed ficar de olho para que ele não pulasse.

Porque estavam o impedindo de sair? Tinha algo a ver com o besouro ou ele estava com alguma doença, mas não queriam que ele soubesse?

Batidas na porta quebraram sua linha de raciocínio, pouco depois Polyusica e Makarov entraram.

— Muito bem! Pirralho. Seus exames não acusaram nada então você está liberado para ir para casa — disse Polyusica analisando alguns papéis.

— Por coincidência, estou precisando da sua ajuda — Makarov sorriu animado. — Estou pensando em fazer uma competição de patinação no gelo aqui na guilda, para descontrair um pouco.

— E o senhor quer que eu ajude?

— Claro, você é um mago do gelo. Vou precisar que seja meu braço direito nessa competição.

— Quando que vai ser.

— Essa e a próxima semana. Por acaso você tem algo de importante para fazer?

— Não, não tenho nadinha para fazer — desconversou. — Quando começo?

— Amanhã, por enquanto pode voltar para casa, aqui está a chave da nova porta — entregou uma simples chave prata para o moreno. — Agora eu vou começar a montar as duplas, estou tão animado — o Mestre saiu da sala tagarelando.

O plano do Mestre consistia em entreter o moreno pelo máximo de tempo possível, assim poderia conseguir mais algumas informações e ao mesmo tempo impedi-lo de se afastar.

A análise de Polyusica no besouro não deu em nada, o veneno ainda estava nele, o que significava que ele não injetou nada no moreno, mas isso não era uma garantia. Besouros Coloridos viviam em pequenos grupos, se um fez contato com o mago, outros também fizeram.

Detectar o veneno só era possível quando ele fazia efeito na pessoa, por isso precisavam manter o moreno por perto para observá-lo de perto.

Gray não percebeu as reais intenções, realmente acreditou que tudo não passava de mais um dos famosos e malucos eventos da guilda, porém isso não o impediu de ficar desanimado. Queria ir para Luzmia o mais rápido possível, assim tiraria todas suas dúvidas de uma vez por todas.

Levantando-se da cama, o moreno apenas saiu do quarto. Desceu as escadas e viu a algazarra. Mesas voando, pessoas gritando. Ninguém viu quando passou.

O caminho para casa foi estranho. As pessoas os olhavam com os olhos arregalados, alguns gritavam, outros se escondiam. Essa reação o incomodou, então olhou para baixo e percebeu o óbvio: esqueceu a calça e a camisa na enfermaria da guilda.

O moreno arregalou os olhos, só que não tinha mais o que fazer. Estava a poucos metros de casa, então voltar para buscar suas roupas não era uma opção.

Chegando em casa, entrou rapidamente e foi para o quarto buscar algo para vestir. Assim que abriu o guarda-roupa, encontrou os envelopes, pelo menos eles eram reais. Olhou um a um e ficou surpreso ao perceber que algo no seu sonho estava certo, os envelopes estavam completos e diziam “Preto e Branco”.

— Alguém está querendo me dar um aviso, foi isso o que aquela mulher disfarçada de Lucy disse... Se bem que ela não parecia muito confiável... — olhou para cima, tentando entender o que acontecia. — Que droga, por que nada faz sentido? — reclamou, terminando de se vestir.

— Juvia acha que você está ficando louco por falar sozinho — Juvia apareceu na porta do quarto.

— Credo, Juvia. A quanto tempo está aí?

— Juvia e Lucy-san ficaram encarregadas de deixar a sua casa em ordem, enquanto estivesse na enfermaria — deu de ombros. — Juvia ouviu alguém falando, então veio investigar...

— Ah! Obrigado por isso — sorriu amigável.

— De nada. Agora Juvia vai embora, Lucy-san não sabe da sua saída da enfermaria, então provavelmente vai vir aqui mais tarde. Aproveita e se declara — sorriu maldosa, saindo do quarto.

— JUVIA!

— JUVIA NÃO DISSE NADA — gritou já na porta da frente.

— Mais direta, impossível...

— Todos seus amigos são estranhos — disse uma voz vinda de dentro de seu quarto.

Gray virou e olhou para dentro, vasculhou o lugar, mas não encontrou ninguém.

— Estou do outro lado.

— Quem? — perguntou arregalando os olhos. — Você...

— Surpreso em me ver? Achei que já esperasse me encontrar novamente, afinal eu sei de seus planos — a mulher sorriu.

— Você é a mulher do meu sonho.

— Mulher do seu sonho? Não tinha nome melhorzinho não? — perguntou indignada.

— Não sei seu nome, como prefere ser chamada?

— Meu nome é Samantha, não que isso importe. Enfim, vim aqui apenas para dizer que desista, você não vai chegar nem perto de Luzmia.

— E quem vai me impedir, você?

— Óbvio. Eu já te manipulei antes, uma vez mais não será difícil.

— Contando seu plano para o inimigo? Não parece uma escolha muito inteligente.

— Seres humanos caem em armadilhas mais rápido que um carro de corrida, criança — deu de ombros.

— ...

— Fracamente! Estou falando sério, Luzmia não é lugar para você e nenhum outro humano na face da Terra. Os efeitos da magia contida lá, podem ser irreversíveis.

— Magia? Aquela do...

— Não acredite em boatos, criança. A magia de lá é muito complexa, ela causa uma reação diferente em cada pessoa, você passou pouco tempo lá, então...

— Eu estive realmente lá, não foi um sonho!

— Claro que foi um sonho. Quem disse que não foi?

— Você acabou de falar que eu estive lá!

— Eu disse? Droga, eu e minha boca — sussurrou com raiva de si mesma.

— O que disse?

— Nada! Espera um pouquinho, sim? — pediu, vasculhando os bolsos atrás de algo. Assim que encontrou um pequeno livro, começou a ler e ignorou a existência do moreno.

— Ei, eu ainda estou aqui.

— Eu sei, essa é sua casa — disse sem tirar os olhos do livro.

— E então?

— Então o quê?

— E eu vou saber. Você aparece do nada tentando me convencer de não ir para Luzmia, mas apenas me deixou mais curioso do que antes.

— Pode ficar curioso, você não vai chegar nem perto daquela cidade novamente e ponto final.

— Aliás, foi ou não um sonho?

— Foi um sonho, porém até mesmo em sonhos as pessoas pode ser afetadas pela magia que tem lá. Satisfeito? Agora trate de nem sequer sonhar com Luzmia.

— Pronto, agora tenho que ficar acordado para não sonhar — reclamou revoltado.

— Se for preciso, sim.

— E quem você acha que é para eu te obedecer?

— Ninguém, mas você não vai querer saber as consequências.

— Consequências?

— Sim.

— Quais?

— Está querendo saber demais, não acha?

— Só desembucha.

— Mal-educado — tirou a atenção do livro e encarou o moreno com raiva. — As consequências eu não posso prever, afinal elas dependem das suas escolhas, mas como você é bonzinho, ficará em casa. Nada vai acontecer.

— Não ficarei aqui.

— Ok, então — respirou fundo. — Prisão dos trinta cadeados — murmurou, apontando para Gray. Os olhos da mulher ficaram vermelhos, sua roupa começou a mover mesmo sem vento e ela o encarou determinada.

Gray não teve tempo e nem como reagir, uma forte luz vermelho envolveu seu corpo, formando uma corrente com trinta cadeados.

— O que significa isso?

— Essa magia o impedirá de sair de Magnólia pelos próximos trinta dias, a cada dia um cadeado se quebrará. Isso é tempo suficiente para que eu fazer o que preciso, antes de você dar uma de enxerido — sorriu carinhosa.

— Ora, sua...

— Boa sorte e cuidado, suas escolhas não afetam apenas você — disse enigmática. — Espero que entenda o recado, ou farei você arrepender-se de suas decisões — ameaçou, antes de sumir, deixando apenas um Gray assustado e uma fumaça vermelha para trás.

Notas finais
Até o próximo :3