Olhar Preto e Branco
7 Fingimentos
Notas iniciais

Olhar ao redor e ver tudo em preto em branco não era muito agradável, mas indicava que estava exatamente onde queria. Portanto, seguiria com seu plano e se faria de desentendido.
Começando a andar, Gray viu os moradores da cidade. Crianças correndo, pessoas fazendo compras ou conversando e animais brincando com bolinhas. Uma visão muito bonita e acolhedora.
— Bem-vindo, meu jovem — o prefeito aproximou-se animado.
— Ah! Olá. O senhor é... ?
— Meu nome é Lérico, sou o Rei da cidade. E você, como se chama?
— Eu me chamo Gray, prazer — sorriu amarelo, disfarçando sua surpresa ao ouvir que de prefeito, Lérico passou para Rei.
— Gray, hum? Tenho a impressão de que já nos conhecemos...
— Sendo sincero, não me lembro do senhor. Aliás, o senhor disse Luzmia? Pensei que estivesse em Magnólia...
— Oh! Você já esteve aqui, tentou ajudar a cidade com o problema das cores. Tudo está em preto e branco — insistiu no assunto.
— Preto e branco? Eu vejo tudo colorido. Tem algumas casas amarelas com telhados vermelhos, flores de várias cores. O máximo de preto e branco que vejo são minhas roupas — continuou mentindo.
— Realmente, agora que você falou... Isso é um ótimo sinal! Pessoas que entram na cidade e veem tudo em preto e branco, foram picadas pelo Besouro Colorido.
— Besouro Colorido? — fingiu interesse.
— Sim. Esse besouro é muito comum pelos arredores de Luzmia, mas só ataca estrangeiros. Seu veneno é letal e faz a pessoa deixar de enxergar cores, muitos dizem verem essas cores flutuando e grudando nas paredes e chão de nossa caverna.
— Por que só estrangeiros?
— Simplesmente por serem vistos como uma ameaça por esses besouros. São como um sistema de segurança natural.
— A pessoa verá preto e branco para sempre?
— Só nossa cidade. Quanto mais tempo ela ver preto e branco, menos tempo de vida terá. Por isso quem entra aqui, normalmente não sai. Fico feliz que você tenha voltado e esteja bem.
— Eu nunca vim aqui, senhor.
— Tem certeza?
— Absoluta. Nunca ouvi falar de Luzmia, eu apenas estava correndo pela cidade e apareci aqui. Nem sei como cheguei — fez-se de perdido.
— Por que estava correndo?
— Exercícios. Gosto de correr pela cidade.
— Com essa roupa?
— Sim. Gosto dela e é confortável.
— Os jovens de hoje em dia estão cada vez mais estranhos...
— Então... Por que estou aqui?
— Ah! Quase me esqueço desse detalhe — riu. — Todos que vem até Luzmia, estão destinados a nos ajudar com algo, só depois podem voltar para suas respectivas casas.
— E eu tenho que ajudar com o quê?
— Bom, eu farei um baile para comemorar meu noivado, porém um dos garçons ficou doente e não poderá trabalhar... Eu e minha noiva convidamos muitos amigos, um garçom a menos é fatal para nossa organização.
— Entendi. Eu serei o novo garçom — disse, determinado.
— Você tem experiência como garçom?
— Já trabalhei como um e algumas missões.
— ÓTIMO! Está vendo aquela casa azul no final da rua? — apontou com o dedo. — Aquela é a casa onde os visitantes ficam, aqui está a chave — tirou uma pequena chave branca, na visão de Gray, e entregou nas mãos do moreno.
— Certo, obrigado.
— Dezessete horas, esse é o horário em que você deve estar no castelo. Basta seguir o final da rua e virar à direita, você verá uma pizzaria em uma esquina, vire na rua dela e lá estará o castelo. Agora preciso ir, antes que minha noiva estranhe meu atraso. Até a festa — despediu-se.
— Até — Gray sorriu, esperando Lérico sumir de vista. — Eu não entendo mais nada. Agora... Qual casa é a azul?
Gray sentia-se mais perdido do que na primeira vez em que esteve em Luzmia. Não pensava que fosse possível voltar para a cidade tão facilmente, ainda mais enxergando tudo em preto e branco. Makarov e Polyusica com certeza sabiam do besouro, por isso estavam tentando impedi-lo de sair de Magnólia, mas agora já não tinha mais o que fazer. Descobriria de uma vez por todas o significado de tudo aquilo.
Caminhando lentamente, o moreno observou cada casa. Não via as cores, portanto sequer sabia em qual casa deveria entrar. Sua sorte foi ter chutado as cores certas quando falou com Lérico, esperava tê-lo enganado com suas mentiras. Porém o que ele disse o preocupou.
Enxergar em preto e branco diminuía seu tempo de vida, a não ser que isso também fosse mentira... Com certeza deveria ter alguma cura para o veneno do besouro, ele só não sabia onde e como procurar tal informação.
Prestando bem atenção ao redor, para sua sorte, apenas uma das casas estava com a luz apagada. Provavelmente, a mesma onde ele deveria entrar, mas ele não via azul e sim preto. Parando na porta da mesma cor, para seus olhos, ele colocou a chave na fechadura e a girou, abrindo a porta.
A casa não tinha nada que chamava sua atenção de primeira. Logo na entrada ele conseguiu ver duas portas no lado esquerde de um pequeno corredor, uma escada na parede esquerda junto da entrada para a sala e, mais para o fundo, ele conseguiu ver uma geladeira, indicando que ali ficava a cozinha.
A sala era pequena, mas aconchegante. No centro ficava um carpete felpudo, um sofá em formato de “L” e uma mesinha de centro. Na frente estava uma lareira e duas janelas.
Ainda na sala, ficava uma porta que dava para a sala de jantar. Nela, apenas uma mesa com seis cadeiras ocupavam o espaço.
Saindo das duas salas, Gray passou pela escada e seguiu reto, até a cozinha. Mal conseguia movimentar-se no pequeno espaço. A cozinha tinha o mínimo de espaço possível além de ter apenas o essencial, um fogão, uma geladeira e uma bancada. Com toda certeza, duas pessoas ficariam presas se tentassem cozinhar juntas ali.
Saindo da pequena cozinha, o moreno abriu a primeira porta do corredor, revelando o pequeno banheiro, apenas com o básico: a privada no lado esquerdo, a pia na sua frente com um espalho na parede e a ducha ao fundo.
Na porta ao lado ficava o quarto, também simples. A cama encostada na parede, na sua frente uma janela e, na parede oposta à porta, um guarda-roupa de duas portas e sem gavetas. Gray ficou surpreso quando entrou no quarto, pois imaginava que ele estaria no andar de cima, já que a casa tinha uma escada logo na entrada.
A curiosidade em saber o que tinha no andar de cima, fez o moreno subir a escada. Um corredor com duas portas, uma de cada lado, foi o que encontrou.
A porta da esquerda dava para um quarto vazio, com apenas uma janela. A porta da direita revelava um lugar parecido com um sótão velho e empoeirado, não tinha janela, a única luz do local entrava por frestas entre algumas telhas afastadas. No centro do local estava um círculo preto, com algumas palavras escritas em uma língua que Gray não identificou.
— Estranho... — murmurou baixinho, fechando a porta e seguindo para o quarto.
Dentro do guarda-roupa, encontrou roupas parecidas com a que usava, além do uniforme de garçom e toalhas limpas. Tudo estranhamente preparado, como se sua chegada já fosse esperada.
Olhando o relógio, viu que tinha tempo de sobra até a tal festa. Por isso, foi até a cozinha, fez um sanduíche com o que achou nos armários e geladeira e comeu, depois voltou para o quarto e jogou-se na cama, onde dormiu minutos depois.
—— // ——
A dor de cabeça era forte, mas Gray esforçou-se para abrir os olhos e se levantar. A vista ao redor assemelhava-se a um borrão preto, portanto ele deduziu que estava sonhando.
A única coisa que conseguiu ver, foi uma parede de pedras cinza com um portão de ferro no centro. Por mais que fosse um sonho, ele sabia bem que não podia confiar em nada, afinal sua primeira visita à Luzmia também foi através de um.
Aproximando-se da parede, o moreno atravessou o portão como um fantasma. Dentro, o escuro predominava quase que parcialmente, apenas algumas tochas iluminavam o suficiente para andar sem bater nas paredes.
O local dividia-se em dois corredores, um para cada lado. O lado direito foi o escolhido para ser explorado.
Gray andou lentamente, tudo estava silencioso. O corredor seguia reto e sem nenhuma passagem, a única porta presente ficava no final do mesmo e também era de ferro. Atravessando-a, ele deu de cara com mais um corredor, que também virava à direita.
— Acho que estou em um labirinto — continuou andando, tentando imaginar onde estava.
O corredor seguia reto e virava à esquerda onde, por fim, ficava uma escada para descer. Sem muitas alternativas, o moreno desceu vendo uma nova porta, a qual ele atravessou sem problemas, revelando finalmente onde ele estava.
Assim que colocou os pés na nova sala, Gray percebeu que estava em uma prisão. O lugar era enorme, dividido em cinco corredores verticais paralelos, unidos por mais corredores horizontais que ele não conseguiu contar, por conta da distância.
O corredor que ele estava ficava exatamente no centro.
— Hum! Vou começar pelo primeiro, assim não me perco — decidiu por onde começar, já seguindo para o primeiro corredor.
Andando por entre as diversas celas, em ambos os lados, Gray viu vários presos. As pessoas não o viam, então ele caminhou despreocupadamente pelos corredores. Não sabia em qual prisão estava, muito menos o porquê de sonhar com ela, mas algo o dizia para continuar, pois logo ele teria alguma resposta.
Olhou cada corredor com cuidado, o preto e branco já não incomodava mais, tanto que até se acostumou a não ver as cores. Nada acontecia de diferente, os presos pareciam hipnotizados, pois sequer se mexiam. Apenas ficavam sentados e olhando para baixo.
Chegando no terceiro corredor, o central onde ficava a porta por onde ele chegou, o mago percebeu algo diferente. No chão, perto da última cela, a única vazia, estava um alçapão quase da mesma cor do chão, sendo facilmente ignorado.
Ao abrir, o barulho foi imenso por causa do silêncio e, como o esperado, ninguém ligou para isso. O moreno desceu a escadinha de madeira, o espaço era mínimo, tanto que conseguia tocar o teto sem esticar muito o braço. A mini sala tinha apenas uma cela sem iluminação.
Com certa dificuldade, Gray olhou no interior da cela, tentando enxergar o que tinha dentro. A cela era bem menor que as anteriores, tendo o tamanho apenas para uma cama e nada mais. Foi exatamente nessa cama que ele olhou.
Com um lençol por cima, a pessoa deitada não se movia, porém estava viva. Isso o moreno constatou ao ver o leve movimento de respiração.
— Oh! Não acredito que deixei o alçapão aberto — Lérico desceu a escada e passou direto por Gray, não o vendo ali.
Lérico abriu a cela e tirou o lençol delicadamente de cima da pessoa, fazendo Gray arregalar os olhos com o que viu.
— Minha querida, acorde. Já está na hora de nos aprontarmos — Lérico retirou as algemas da pessoa, as quais só foram expostas por conta da falta do lençol. — Vamos, acorde, Lucy. Vamos nos atrasar.
A loira abriu os olhos e, como se estivesse em transe, levantou-se da cama lentamente.
— Estarei esperando lá em cima, não se atrase.
Lucy nem sequer se mexeu, apenas olhou para no fundo dos olhos de Gray, apesar de ele duvidar se ela conseguia o ver.
— Lucy... — sussurrou.
— Cuidado — sussurrou a loira, antes de passar ao lado do moreno e deixá-lo sozinho, fechando o alçapão.
—— // ——
O mago acordou assustado. O coração batendo forte, o corpo suado e a visão embaçada. O sonho pareceu tão real que ele quase não acreditou que estava acordado.
Piscando algumas vezes, Gray olhou para o relógio e constatou que, caso não se apressasse, chegaria atrasado no castelo. Ele não queria saber o que Lérico seria capaz de fazer caso ele não chegasse a tempo, o melhor a se fazer era levantar e se arrumar. E foi o que fez.
Pegou a roupa e a toalha, correu para o banheiro, tomou um banho rápido e se vestiu. Faltavam dez minutos para o horário marcado, quando saiu de casa ainda colocando a gravata borboleta no pescoço.
Correu pelas ruas, desviando das pessoas. O caminho até o castelo foi bem fácil de seguir, apenas seguiu as instruções que Lérico lhe deu anteriormente. Assim que virou a rua da pizzaria, pôde ver o castelo no final da rua.
O castelo era imenso, cheio de torres com paredes de tijolos. O portão estava fechado, mas Lérico estava na frente, justamente esperando por ele.
— Pontual, gostei. Vem, vou levá-lo até a cozinha, mas antes, quero que conheça minha ruiva — Lérico sorriu animado.
— Ok!
— Querida, venha até aqui, por favor — pediu carinhoso.
— Oh! Olá, prazer em conhecê-lo — a moça sorriu, fazendo o moreno estancar no lugar.
A mulher que estava bem na sua frente vestia um simples vestido azul. Os cabelos loiros presos em uma trança lateral eram inconfundíveis. Quem estava bem diante de seus olhos não era ninguém menos do que ela, sua amada: Lucy Heartfilia.
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