Old Feelings
7 Capítulo 6 - Sonhadores, imprudentes, apaixonados....
Notas iniciais
Fui atrás de Syver no instante em que ele começou a subir as escadas para o seu quarto. Eu não sabia se ele queria minha companhia, mas sabia que ele precisava.
– Syver? Você quer conversar? Abre a porta – pedi.
Bati na porta do quarto e esperei alguns segundos. Não obtive resposta.
– Quem cala consente – murmurei.
Assim entrei no quarto de Syver, a primeira coisa que vi foi um monte de cacos espalhados perto da parede. Ele provavelmente jogara longe a primeira coisa que vira, no caso, um horrível vaso que era presente de noivado da família de Abigail. Olhei ao redor; o quarto de Syver era impecavelmente organizado, disfarçando a grande quantidade de objetos que ele guardava ali, desde relógios, objetos decorativos e quadros – dentre os quais havia um de Arendelle e outro das Ilhas do Sul – a globos terrestres, mapas e livros. Entretanto, nem sinal de Syver. Virei-me para a janela. Aberta.
Syver estava debruçado na sacada, olhando fixamente o horizonte.
– Fugindo de mim? – perguntei, me aproximando dele. – Vamos, Syver, eu sei que você quer que eu lhe faça companhia. Fala comigo – insisti.
Ele soltou um longo suspiro e então começou a falar:
– Toda a minha vida eu fiz o que achei que era melhor pra mim. Fiz o que meus pais queriam que eu fizesse. Fui a pessoa que eles queriam que eu fosse. – Ele balançou a cabeça. – Mas não quem eu sou de verdade. Você me entende, Louise?
– Acho que entendo, sim... – respondi.
– Estou cansado disso. Cansado de fingir ser alguém que não sou nem nunca serei. Cansado de ser o Príncipe Syver de Arendelle. Quero ser apenas eu, Syver Bjorgman, uma pessoa como outra qualquer.
– Você ainda está com aquela ideia de virar camponês...?
– Você sabe que por mim a esta hora eu estaria no reino vendendo gelo – disse Syver, gesticulando em direção à Arendelle e se afastando da sacada. – Mas não é simples assim. Além do mais, abandonar a vida de príncipe significaria também abandonar minha família, meus deveres e o povo. E eu nunca abandonaria vocês.
– Syver, você sabe que é meu melhor amigo no mundo e eu te amo, mas às vezes é tão difícil entender você... – Eu disse, um pouco melancólica.
Ele pegou minha mão direita entre as suas e disse, como se implorasse:
– Não precisa me entender. Apenas diga que não questiona minhas decisões.
– Nunca – sorri, colocando a mão esquerda sobre as suas.
– Eu te amo, Lou – disse, me puxando para um abraço apertado. – Muito. Eu enfrentaria mil invernos eternos por você.
– Eu também te amo, seu bobo – ri. – Se sente melhor agora?
– S-sim – respondeu, secando com as costas da mão as lágrimas que enfim deixara cair. – Agora, preciso ficar sozinho, por favor.
– Tudo bem...
Deixei Syver sozinho e andei a esmo pelo castelo, até ouvir uma voz muito familiar reclamar:
– Será que o senhor poderia devolver o meu braço agora, por favor?
– Fantástico, simplesmente fantástico – disse Richard, admirando o braço de madeira de Olaf.
– Eu sei, eu sei... Agora devolve o meu braço! – esbravejou o boneco de neve.
– Está aqui, calma.
Não contive uma risadinha, que acabou denunciando minha presença ali.
– Louise, quer dizer, Alteza – disse Richard, se levantado rapidamente e ajeitando as vestes. – Eu estava... Quer dizer, não era... Bem, eu...
– Tudo bem, não precisa se explicar. – Eu disse, levantando as mãos. – Está bem claro que vocês estavam apenas brincando.
– Brincando nada! Ele roubou meu braço!
– Mas devolvi, não devolvi?
– Chega! – gritei. – Richard, por que você não me acompanha?
– Claro, Alteza...
Ele se arrumou mais um pouco e caminhou na minha direção. Olaf seguiu por outro lado e sumiu.
– Fiz algo de errado? – perguntou Richard.
– Não, é claro que não – suspirei. – Você viu a discussão agora há pouco?
– Vi, sim. Quer dizer, não foi minha intenção bisbilhotar – explicou. – Mas ela estava, bem, um pouco alta demais.
– É...
Começamos a caminhar em direção às escadas.
– É isso que está lhe preocupando?
– Hum?
– O príncipe Syver, ele está lhe preocupando? Deu para perceber que ele significa muito para você. Tem medo que ele faça alguma... besteira?
– Você é um bom observador... Sim, estou preocupada, mas não acho que ele vá fazer algo de errado. Tenho medo de nunca mais vê-lo... E tudo por causa desse maldito casamento arranjado! – disse eu, um pouco alto demais.
– Eu entendo... É muito duro ficar longe de quem ama.
– Você já passou por isso? – indaguei.
– Eu... Bem... Passei alguns anos longe de casa, estudando.
– Ah... E como foi?
– Foi... Horrível. Eu sentia como se faltasse uma parte de mim. E quando eu voltei... Descobri que minha mãe tinha falecido enquanto eu estava fora.
– Que triste! – exclamei.
– É, foi bem ruim... – ponderou ele.
– Você tem irmãos?
– Não, não...
– Quais são os nomes dos seus pais?
– Frederik e Magda.
– Magda? Acho que eu tenho uma tia com esse nome...
– É, é um nome bem comum... – disse Richard, distraído.
Quando chegamos à porta de entrada do castelo, me dei conta de que nosso pequeno passeio havia terminado, mas eu não queria que Richard se afastasse. Ele deve ter pensado o mesmo, porque sorriu e perguntou, gentilmente:
– Gostaria de caminhar um pouco? Talvez pudéssemos ir até o reino...
– A pé? Agora? Não sei se é uma boa ideia... – respondi, pensativa.
– Vamos, não tem problema. Enquanto eu estiver ao seu lado, princesa, eu juro que nada de mal vai lhe acontecer.
Pensei mais um pouco e respondi, sorridente:
– Certo, então! Vamos até o reino.
Richard abriu a porta para mim e me acompanhou lado a lado, como dissera. Depois de alguns minutos caminhando, ele se aproximou lentamente e pegou minha mão com carinho. Corei levemente, mas não tirei a mão. Passamos em frente a uma floricultura, e o dono, atencioso, disse:
– Vossa Alteza, que honra tê-la aqui! Como posso lhe ser útil?
Eu estava prestes a agradecer e dizer que estávamos apenas olhando quando Richard pediu uma rosa amarela.
– Para você, princesa, porque Vossa Alteza irradia alegria – disse, fazendo uma reverência e me entregando a rosa.
– É a minha favorita – confessei. – Como você soube?
– Não sabia. Apenas segui a minha... Intuição. Ela combina muito com o seu vestido, sabia?
– Obrigada – agradeci, olhando meu vestido rosa claro.
Richard pagou o homem e me ofereceu o braço. Segurei-o e continuei andando, dessa vez em direção ao negócio de gelo do meu tio Kristoff.
– Ali é a loja de gelo do meu tio. Bem, agora ele só administra. Não tem mais tempo para o gelo desde que começou a ajudar minha mãe, meu pai e minha tia com os assuntos do reino – expliquei.
Richard observou a loja com interesse por algum tempo, e então perguntou:
– Como sua tia foi casar com um camponês? Sem ofensas, ele parece tão nobre quanto qualquer outro príncipe, mas ainda assim é intrigante.
– Ah, bem... – hesitei. Contar a Richard como meus tios tinham se apaixonado implicava contar a ele sobre meus pais, e eu ainda não confiava o suficiente nele para isso. – Eu não sei ao certo. Syver deve saber, ele é mais velho que eu.
– Entendo.
Algo no seu “entendo” me deixou pensando que ele talvez tivesse percebido que eu não queria contar e estivesse ofendido.
– Então... Você se interessa em quê, Richard? – desconversei.
– Tudo. Livros, música, pintura, teatro... História, geografia, matemática, química, física, biologia... Tudo mesmo.
– Nossa, e você é bom em tudo isso?
Ele riu.
– Eu gosto, mas não sou bom em tudo, não. Sou tão bom quanto uma pedra como ator. E também não levo jeito pra pintura.
Eu ri também.
– Bem, não se pode ser bom em tudo. Você toca?
– Apenas cítara.
– Sério? Eu sempre quis aprender! Syver toca harpa maravilhosamente.
– Você não?
– Só piano e violão.
– Muito bom – disse Richard, admirado. – Você poderia tocar para eu ouvir qualquer dia?
– Só se você tocar sua cítara – sorri.
– Combinado. – Ele sorriu de volta.
Quando o sol começou a cair, Richard me levou de volta para o castelo, me deixando na porta do quarto.
– Boa noite, princesa.
– Richard, já está mais do que na hora de você começar a me chamar de Louise, não acha?
Ele sorriu e acariciou meu rosto com a mão.
– Não percebeu? Não é uma forma de tratamento. É um apelido. Você merece seu título. É encantadora.
Ele se aproximou um pouco mais, ao passo que eu andei para trás e dei com a parede.
– Tão adorável, divertida, alegre... E linda.
No meu cérebro, uma luz vermelha piscava em sinal de alerta. Perto demais, perto demais, pensei. Richard enfim acabou com o espaço que nos separava e beijou meus lábios. Lenta e ternamente. Meu coração batia com tanta força que provavelmente até Richard estava ouvindo. Tentei manter a calma, e então percebi que estava apenas parada enquanto ele tentava me beijar. Não deve ser muito difícil, pensei. Primeiro, fechei os olhos e coloquei minhas mãos no pescoço de Richard. A partir daí, deixei que ele tomasse o controle da situação e me guiasse, já que ele parecia bem mais experiente que eu. Qualquer um é mais experiente que você, Louise, pensei. É, provavelmente até Daven, tímido e reservado, beijaria melhor.
Richard se afastou devagar, um pouco sem ar. Sorriu alegremente como se tivesse acabado de ganhar um presente incrível e sussurrou:
– Até mais, princesa.
Assim que ele desapareceu na esquina do corredor, corri para dentro do meu quarto e fechei a porta. Fiquei petrificada por alguns segundos, pensando.
– Ah, meu Deus – murmurei.
Olhei para o nada. Isso tinha mesmo acontecido?
– Ah, meu Deus! – falei mais alto.
Tudo indicava que sim. Não, não tinha durado muito, nem tinha sido incrível ou super-romântico, como eu ouvia dizer que eram os beijos apaixonados, mas fora inesquecível. Comecei a pensar em tudo o que tinha acontecido e como tinha acontecido. Teria que contar para Lynae. Mas primeiro, contaria a Syver.
Saí correndo do meu quarto e bati na porta do de Syver. Sem resposta novamente.
– Syver, você está aí? – perguntei, adentrando o quarto.
Nem rastro. Bem, ele não pode ter virado fumaça, pensei. Olhei ao redor e vi algo em cima da escrivaninha de Syver. Aproximei-me e peguei. Era uma carta de Syver, endereçada a mim. Rasguei o envelope e li rapidamente.
Cara Louise,
Espero que me perdoe pelo que estou fazendo. Sei que você precisa de mim, e não gostaria nada dessa ideia se eu tivesse lhe contado. Justamente por isso que não lhe contei. Por favor, não me odeie.
Estou indo embora, Louise. Vou viver minha vida longe daqui. Lamento muito, mas não havia outra opção, eu não me casaria com a Abigail. Chame como quiser: fuga, escapada, subterfúgio... Eu chamo de caminho para a liberdade. Por isso, peço que não me procurem. Sei que você vai mostrar esta carta para os meus pais, mas ela é para você. Guarde-a consigo, leia-a quando estiver com saudades, e lembre-se: Eu te amo. Amo todos vocês. Mas não podia mais viver no castelo, não quando querem me obrigar a casar com uma mulher que detesto.
Talvez um dia eu volte. Já sinto saudades.
Para sempre seu melhor amigo,
Syver
Quando terminei de ler a carta, não podia acreditar nos meus olhos. Senti as lágrimas escorrerem pelas minhas bochechas e caírem no papel. Desatei a chorar e soluçar, me debrucei sobre a escrivaninha e escondi a cabeça entre os braços. Eu não podia acreditar que ele havia partido. Nada nem ninguém nunca preencheriam o vazio que eu estava sentindo agora que Syver se fora.
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