Okay? Okay.
22 Minha irmãzinha querida.
Notas iniciais
Pov. Isabel
Sentada na minha cama, os braços abraçando os joelhos, a única coisa que vinha á minha mente era meu objetivo: Conseguir tudo que nunca tive. E é claro, meu passado. Sempre meu passado. Chegava a ser cansativo.
Minha vida nunca tinha sido fácil, e qualquer um que tivesse parado um minuto sequer para escutar teria concordado. Nasci de uma traição, e tive sorte do meu pai não ter me jogado em um beco qualquer para morrer ou minha mãe ter me abortado. Mas nasci para servir de empregada, como uma espécie de piada cósmica relacionada a contos de fadas infantis.
Minha infância durou até meus 8 anos, e metade dela se baseou em aprender a cuidar de uma casa. A esposa do meu pai, Mariane, conseguia ser a pessoa que melhor me tratava dentro daquele lugar, e minha única amiga. Me acolheu como um filho, porque ela mesma não podia tê-lo.
Ela deixava tudo melhor, e uma vez me deu um livro que contava a história de Polyanna, uma menina que mesmo nos momentos mais miseráveis, via lados bons. Procurei fazer o mesmo. A vida, mesmo comigo começando aos poucos a limpar a casa enorme sozinha, foi melhorando, porque eu me esforçava em vê-la de um jeito melhor.
Afinal, eu me lembrava toda noite e toda manhã, eu estudo, tenho saúde, uma cama para dormir, estou quase sempre perfeitamente limpa e tenho sempre um prato de comida três vezes ao dia. Estou feita. E claro, havia Mariane do meu lado.
Mas como se Deus tivesse cuspido em mim, ela morreu pouco tempo depois que completei 10 anos. Meu pai me transferiu de uma escola particular para uma pública de péssima qualidade, me fazia trabalhar tanto que minha saúde se esvaía, raramente eu estava perfeitamente limpa e minhas refeições se reduziram a uma, e um lanche antes de dormir.
Minha vida era desprezível. E piorou quando começou o bulling. Riam de mim por chegar fedendo a água sanitária, das minhas roupas velhas e de como eu me esforçava para tirar notas boas.
Naquela época, lembro de tentar me suicidar duas vezes.
Quando fiz quatorze anos, meu pai chamou uma empregada, e eu descansava um pouco, embora ainda ajudasse na casa. Voltei á minha vida na época em que Mariane estava viva, mas isso só tornou a perda dela maior. Pensando nisso agora, me pergunto de onde veio tanta vontade de me ajudar, tanta bondade. E mesmo assim, de onde eu tirei tanta tristeza, se as coisas melhoravam. Colocava toda a frustração nos estudos e consegui uma bolsa em uma escola particular.
Apenas uma coisa me mantinha longe da depressão da morte de Mariane: O livro que ela me deu. Ele me lembrava de pensar positivo, e foi o que eu fiz. Perdi a conta de quantas vezes o li. E nunca enjoei.
Então quando meu pai estava no auge da bondade e eu consegui amá-lo, ele morre.
Como se, pela segunda vez na minha vida, decidissem que minha vida só prestava se fosse dura e solitária.
Eu pensei em tia Jessica, mas a verdade é que ela nunca gostou de mim, e também estava falando a verdade sobre não caber mais ninguém na casa dela. Pensei nos meus avós, mas esses me tratavam pior que minha tia.
Então uma vozinha na minha cabeça lembrou do que meu pai disse, desde dos meus 14 anos:
"Um dia você ou vai fugir ou vai decidir que me detesta. E quando isso acontecer, sugiro que procure sua mãe. O nome dela é Emily Grace. Acredite, ela é influente. Vai achá-la."
E depois o que ele falou, na beira da morte:
"Sua mãe. Emily. Lembre dela. Diga a ela que nunca a esqueci. Diga a ela. E Isabel, me desculpe por tudo. E se lembre que eu te amo. Apesar de tudo que fiz."
E então se foi.
Tinha sido a única vez que me disse que me amava. E eu o perdoei. Tanto, que sua morte ainda me doía, e fazia eu me lembrar de Emily, que me fazia sofrer mais.
–Está chorando? -Disse uma voz feminina.
Abri os olhos, que eu sequer tinha notado que eu tinha fechado. Também não tinha notado que uma lágrima silenciosa estava já na metade do meu rosto.
Olhei para a menina. Cabelos loiros nos ombros, levemente ondulados. Olhos azuis. Decididamente bonita. Ela olhava para mim, meio envergonhada, meio confusa. Acho que o nome dela é Hazel.
Limpei a lágrima o mais rápido que pude. Nunca gostei que ninguém me visse chorando, embora isso tivesse acontecido nos enterros de meu pai e de Mariane. E agora, mas eu não tinha ouvido ela entrar.
–Não, eu só... caiu um cisco no meu olho, só isso. -Enrolei.
A menina arqueou a sobrancelha, mas não disse nada mais relacionado a isso. Só o que fez foi, cuidadosamente, sentar na beira da cama, o mais afastada possível de mim. De repente a expressão dela se resumia a vergonha.
–Então... certo. Eu acho que não nos apresentamos antes. Meu nome é Hazel. Hazel Grace Lancaster. Vou fazer 17 mês que vem. Minha mãe é a mesma que a sua. E tenho que falar com você.
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